2.8 DESENVOLVIMENTO DE HIPÓTESES E MODELO DE PESQUISA
2.8.3 Compartilhamento do Conhecimento e Capacidade Absortiva
2.8.3.2 CC → CA: Artigos Quantitativos
Curado et al. (2017) consideram a capacidade absortiva como um mediador entre compartilhamento do conhecimento e inovação. O estudo é realizado em times de empresas portuguesas de alto conhecimento e considera CC como o grau em que os indivíduos compartilham seus conhecimentos adquiridos com outras pessoas e CA como uma capacidade dinâmica que é função do conhecimento anterior e utilizada para apresentar e aceitar novo conhecimento (SESHADRI; SHAPIRA, 2003). Ambos os conceitos são construtos únicos e a relação entre os mesmos foi justificada, pois CA é uma função do conhecimento anterior, que aumenta com a exposição ao novo conhecimento (CURADO; BONTIS, 2006). O compartilhamento do conhecimento expõe o time a conhecimento novo, de forma que a capacidade absortiva aumenta em função dessa exposição.
Supartha e Ratih (2017) fazem uma investigação acerca de pequenas indústrias craft de Bali, onde o compartilhamento do conhecimento é um mediador entre liderança criativa e capacidade absortiva. Compartilhamento do conhecimento é conceituado como os processos de doação e coleta e capacidade absortiva como aquisição, assimilação, transformação e exploração, ou seja, os dois conceitos são multi- construtos. Os autores se apoiam nos argumentos de Liao, Fei e chen (2007) e Tsai
(2012) que dizem que CC afeta CA e que unidades com alta CA tendem a utilizar melhor o conhecimento.
O trabalho de Peltokorpi (2017) traz o compartilhamento do conhecimento como um mediador na relação de recrutamento sensível a linguagem e treinamento de linguagem (duas práticas de gerenciamento de recursos humanos voltadas a subsidiárias estrangeiras) com a capacidade absortiva do departamento. Os autores utilizam o conceito de Cohen e Levinthal (1990) para capacidade absortiva e a consideram um construto único. Compartilhamento do conhecimento foi medido como um construto único que engloba o compartilhamento inter-unidade em subsidiárias estrangeiras, baseado no trabalho de Peltokorpi e Vaara (2014). Os autores justificam a relação entre compartilhamento do conhecimento e capacidade absortiva, pois gerentes são capazes de desenvolver suas capacidades absortivas através de provisão de informação (LENOX; KING, 2004), e o compartilhamento do conhecimento em uma organização aumenta seu estoque de conhecimento (LIAO; FEI; CHEN, 2007). Os autores citam também os trabalhos de Almeida e Phene (2004) e Song (2014), que tratam especificamente do compartilhamento do conhecimento inter-unidades e do aumento da capacidade absortiva da subsidiária.
Costa e Monteiro (2016) exploram a relação entre compartilhamento do conhecimento intra-firma e a capacidade absortiva, que no trabalho é um construto de segunda ordem composto por aquisição, assimilação, transformação e exploração. Essa relação é confirmada no trabalho e é justificada com base em trabalhos anteriores: Zahra and George (2002) afirmam que o conhecimento deve ser compartilhado como base para a exploração; Lane et al. (2006) e Minbaeva et al. (2003) dizem que a capacidade absortiva depende do compartilhamento e faz parte do processo de aprendizado; e Todorova and Durisin (2007), que afirmam que o compartilhamento do conhecimento aciona todas as diferentes fases da capacidade absortiva.
Nodari, Oliveira e Maçada (2016) consideram o compartilhamento do conhecimento como antecedente da capacidade absortiva em uma investigação no contexto de SMEs brasileiras. Os autores também utilizam a conceituação de Cohen e Levinthal (1990) para a capacidade absortiva. Porém, para compartilhamento do conhecimento, o conceito utilizado é o de Van den Hooff e Ridder (2004), de forma que são utilizados dois construtos: doação e coleta. Nesse estudo, a capacidade absortiva é um mediador entre o compartilhamento do conhecimento e a performance organizacional. O impacto do compartilhamento do conhecimento na capacidade
absortiva é justificado pelos autores, pois a capacidade dos membros de uma organização se comunicarem e aprenderem promove o acúmulo do conhecimento e fortalece a base de conhecimento organizacional, de forma que a capacidade absortiva da organização é desenvolvida (PARK, 2011). A relação foi confirmada nos dois mecanismos do compartilhamento do conhecimento.
O trabalho de Iyengar, Sweeney e Montealegre (2015) explora a efetividade do compartilhamento do conhecimento e sua influência na capacidade absortiva. O estudo é realizado em empresas de franchising que utilizam tecnologia da informação nos Estados Unidos. Como o artigo trabalha com a efetividade do compartilhamento do conhecimento, é utilizada a definição de Alavi e Leidner (2001), que considera que o construto é a interação entre a entidade que transfere e a entidade que recebe o conhecimento. A capacidade absortiva é considerada uma capacidade dinâmica e é conceituada segundo Cohen e Levinthal (1990). Os mesmos autores utilizados para justificar a relação entre CC e AC: o compartilhamento de conhecimento entre unidades é importante para guiar a capacidade absortiva, um argumento ecoado por diversos estudos (PAWLOWSKI; ROBEY 2004; ROBERTS et al. 2012; TEIGLAND; WASKO 2003; VAN DEN BOSCH et al. 1999). Além disso, estudos anteriores sugeriram que ideias são aprendidas por associação e, por isso, a efetividade do compartilhamento é necessária para que as associações sejam geradas e a capacidade absortiva seja melhorada (REAGANS; MCEVILY, 2003; VAN DEN BOSCH et al., 2003).
Oliveira et al. (2015) também trazem a capacidade absortiva como um mediador entre o compartilhamento do conhecimento e a inovação. A investigação trata de compartilhamento do conhecimento intra-organizacional em empresas de tecnologia brasileiras. A capacidade absortiva é conceituada segundo Cohen e Levinthal (1990), e os autores justificam que o compartilhamento do conhecimento expõe os indivíduos a novo conhecimento, o que é necessário para o desenvolvimento da capacidade absortiva (LANE et al., 2006) e para as subsequentes novas associações e relacionamentos entre conhecimentos (YOO et al., 2011).
Lee, Lee and Park (2014) trazem o compartilhamento do conhecimento como antecedente da capacidade absortiva em um trabalho que trata do compartilhamento em times de tecnologia da informação. O compartilhamento do conhecimento é considerado pelos autores como um único construto. Para a capacidade absortiva, Lee, Lee and Park (2014) utilizam o conceito de Minbaeva et al. (2003), que a considera
como habilidade (conhecimento prévio dos membros do time) e motivação (intensidade do esforço dos membros). Para justificar a relação entre compartilhamento do conhecimento e capacidade absortiva, os autores usam o argumento de Liao et al. (2007), que diz que quando membros de um time compartilham conhecimento, é mais provável que suas habilidades e motivação aumentem. Isso é particularmente interessante em membros de times de TI, pois os profissionais precisam compartilhar o conhecimento técnico e de experiências prévias com outros sistemas da organização a fim de desenvolver um sistema adequado (LEE; LEE; PARK, 2014; WANG et al., 2007; SRIVARDHANA; PAWLOWSKI, 2007), de forma que o compartilhamento influencia a capacidade absortiva dos times (LEE; LEE; PARK, 2014).
Por fim, o trabalho de Wuryaningrat (2013) aborda o compartilhamento do conhecimento como doação e coleta (VAN DEN HOOF; RIDDER, 2004) em uma investigação sobre SMEs da Indonésia. A capacidade absortiva é conceituada segundo Zahra e George (2002) e tratada como construto único. As relações são confirmadas, tanto para a influência da doação, como na influência da coleta na capacidade absortiva. O autor justifica que o compartilhamento do conhecimento é um processo de aprendizado e entendimento mútuo, que resulta em novo conhecimento, por isso é esperado que os resultados desse aprendizado propiciado pelo compartilhamento melhorem gradativamente a capacidade de absorver conhecimento (WURYANINGRAT, 2013).
Quadro 15 - Detalhes dos artigos quantitativos CC → AC
Artigo Contexto Nivel País Método Argumento
Curado et al. (2017)
Empresas de alto
conhecimento
Time Portugal Survey CC expõe o time a
conhecimento novo e CA aumenta em função dessa exposição Peltokorpi (2017) Empresas grandes Departamento Japão, Alemanha, França
Survey Gerentes são capazes de desenvolver CA através de provisão de informação e CC aumenta o estoque de conhecimento Supartha and Ratih (2017) Small crafts industry
Empresa Bali Survey CC afeta CA e
unidades com alta CA tendem a utilizar melhor o conhecimento Costa and Monteiro (2016) Industrial organizations
Firm Portugal Survey CC aciona AC, que faz
parte do processo de aprendizado Nodari et al.
(2016)
SMEs Firm Brasil Survey capacidade de
comunicação e aprendizado promove o acúmulo do conhecimento, assim CA é desenvolvida Iyengar et al. (2015) Uso de TI em franchising Firma (franchise)
USA Survey, dados
de banco e censo
a efetividade do CC é necessária para que associações de ideias sejam geradas e CA seja melhorada Oliveira et al.
(2015)
Empresas de TI Indivíduo Brasil Survey CC expõe os indivíduos a novo conhecimento, o que é necessário para o desenvolvimento de AC Lee et al. (2014) electronic parts manufacturing firm
Time Korea Survey quando membros de
um time compartilham conhecimento, é provável que suas habilidades e
motivação (proxy AC) aumentem
Wuryaningrat (2013)
SMEs empresa Indonesia Survey CC é um processo de
aprendizado e entendimento mútuo, por isso é esperado que CA melhore
Fonte: A Autora (2019)