go lingüístico e dos demais que perfazem a vida adulta, a vida dos homens fei- tos não basta para suplantar de todo aquilo que, por exemplo, se expunha nos dois versos iniciais da primeira estrofe do décimo quarto poema do Canto II da Invenção: “Os silêncios gritantes e os sóis mudos / povoam o subsolo dessas ilhas” [14, II, pp. 691; 119].
da historicidade traçada por Michel Foucault nos estudos apresentados durante o curso sobre Os anormais –, nomeia especialmente o que, vez e outra, foge ao ordinário de modo inesperado. Trata-se daquilo que causa repugnância por violar uma ordem esperada ou naturalizada das coi- sas266. [São postos nessa categoria os leprosos, os pestíferos e, às vezes, também as mulheres, os loucos, as crianças, os indígenas – ou melhor, os desejantes, os gozantes quaisquer. “Mas quanto à Invenção de Orfeu – por que não?” É possível que alguns de seus leitores perguntassem. No transcurso da história, sabe-se que, diante desses “monstros”, a res- posta se impõe com a construção da caserna, com a multiplicação da ar-
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Cf. BENVENISTE, Émile. Il vocabolario delle istituzioni indoeuropee. Vol. II. Turim: Einaudi, 2001, p. 478. Aliás, um aspecto de destaque veiculado pelos monstros não está senão no contraste, conforme sustentaria Georges Can- guilhem [La connaissance de la vie. 2 ed. Paris: J. Vrin, 2006, p. 173]. Cf. SEVILLA, Isidoro de. Etimologías [XI, 3, 1-3]. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004, pp. 878-879: “Portenta esse Varro ait quae contra naturam nata videntur: sed non sunt contra naturam, quia divina voluntate fiunt, cum voluntas Creatoris cuiusque conditae rei natura sit. Vnde et ipsi gentiles Deum modo Naturam, modo Deum appellant. Portentum ergo fit non contra naturam, sed contra quam est nota natura. Portenta autem et ostenta, monstra atque prodigia ideo nuncupantur, quod portendere atque ostendere, monstrare ac praedicare aliqua futura videntur. Nam portenta dicta perhibent a portendendo, id est praeostendendo. Ostenta autem, quod ostendere quidquam futurum videantus. Prodigia, quod porro dicant, id est futura praedicant. Monstra vero a monitu dicta, quod aliquid significando demonstrent, sive quod statim monstrent quid appareat; et hoc proprietatis est, abusione tamen scriptorum plerumque corrumpitur”. Conforme uma tradução mais ou menos livre: “Varrão diz que os portentos são coisas que parecem nascer contrariamente às leis da natureza. Na realidade, não acontecem contra essa natureza, posto que surgem da vontade divina e a vontade do Criador é a natureza de tudo que é criado. Daí que os gentios, às vezes, chamem Deus de Natureza, outras, simplesmente de Deus. Conseqüentemente, portentos não se expõem contra essa natureza, senão contra uma natureza conhecida. Fazem-se conhecer com os nomes de portentos, ostentos, monstros e prodígios, pois anunciam [portendere], manifestam [os- tendere], mostram [monstrare] e predizem [praedicare] algo futuro. De fato, explicam que ‘portento’ deriva de portendere, ou seja, anunciar de antemão. Os ‘ostentos’, porque manifestam algo que vai acontecer. Os ‘prodígios’, porque ‘dizem previamente’ [porro dicere], ou seja, predizem aquilo que vai ocorrer. Por sua vez, monstra deriva de monitus, porque se ‘mostram’ para indicar algo ou porque ‘mostram’ qual significado há de ter alguma coisa. Esse são seus significados mais próprios, os quais se viram, porém, corrompidos pelos abusos perpetrados por alguns escritores”.
tilharia que abrange tanto as armas quanto os engenhos discursivos – notadamente os estabelecidos pela medicina, pelo direito; embora fosse menos restritivo fazer alusão àquelas instâncias que carregam consigo uma noção de “normalidade”, promovendo-a, dependendo visceralmente dela... algo que, por fim, levaria os críticos267 a não desconsiderar certos aspectos da definição dos gêneros poéticos. De acordo com Michel Fou- cault, na praxe jurídica dos romanos, já se percebia certa configuração dessa pletora significante na distinção entre portentum – ou ostentum – e monstrum268. Se os primeiros indicam defeitos, deformações, enfermida- des; o último trata de tudo o que não tem forma humana, a todo ser que seja um misto de duas espécies ou formas – a título de exemplo: uma mulher com cabeça de gorila269. “Mas inclusive o texto épico-lírico?”.
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“Crítica” deriva do verbo grego κρίνειν (krínein), “separar”, “decidir”, “julgar”. Cf. DERRIDA, Jacques. “Mallarmé”, in: AURY, Dominique (org.). Tableau de la littérature française. Vol. III. Paris: Gallimard, 1974, pp. 368- 379.
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Cf. FOUCAULT, Michel. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pp. 79; 95: “Só há monstruosidade onde a desordem da lei natural vem tocar, aba- lar, inquietar o direito, seja o direito civil, o direito canônico ou o direito religio- so”. Tal aspecto se baseia nos Digesta Iustiniani Augusti (I, 5, 14): “Non sunt liberi qui contra formam humani generis converso more procreantur: veluti si mulier monstrosum aliquid aut prodigiosum enixa sit. Partus autem, qui mem- brorum humanorum officia ampliavit, aliquatenus videtur effectus et ideo inter liberos connumerabitur”. Conforme a tradução de Leonardo D’Ávila de Olivei- ra, a quem agradeço: “Não são filhos os que, contrariamente à forma do gênero humano, nascem divergindo do costumeiro: tal como se uma mulher dá à luz a um monstro ou a um prodígio. Mas o rebento que exceder a regularidade dos membros humanos, é considerado praticamente acabado e, assim, deve contar entre os filhos”.
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Essa imagem aparece entre aquelas que Jorge de Lima enviou a Mário de Andrade em fins da década de 30 (fig. 11). Diga-se de passagem, por um lado, essa fotomontagem materializa uma consideração apresentada por Georges Canguilhem segundo a qual o monstro frustra a confiança do homem no poder que a vida eventual-mente teria para demonstrar uma ordem e, além disso, tam- bém frustra a esperança de ver o mesmo engendrar o mesmo. Cf. CANGUILHEM, Georges. La connaissance de la vie. 2 ed. Paris: J. Vrin, 2006, p. 171. Por outro, ela também recorda – no limite do paroxismo – uma antiga tentativa de apreender um grau de invariabilidade do humano mesmo quando ele permanece na esteira da irregularidade inquietante. Exemplos disso podem ser encontrados desde muito prematuramente. Aliás, tal qual se observou páginas atrás, o mons- tro já participava do horizonte de preocupações e possíveis exclusões dos juris- tas de Roma. Posteriormente, no século XVII, ele seria objeto de um apro-
Contudo, salta aos olhos uma problemática que cerca o reconhecimento do outro – um indivíduo, um sujeito – a partir do “eu”, do “nós”, oscilando, então, entre a boa e a má sorte dos equívocos, uma vez que nem “eu”, nem “nós” surgem na condição de manifestações imediatas de si para si. Um e otro, para que se afigurem – esboçados, pelo menos – , precisam da mediação linguageira, cuja operatividade não se inscreve exatamente na comunicação, mas nas remissões e encadeamentos virtual e potencialmente infindáveis de significante a significante270. Assim,