sonalidade ao meu querido mendigo mundano”.
113
Esse é um termo recorrente também em A mulher obscura.
114
LIMA,Jorge de. “Proust”, in: Dois Ensaios. Maceió: Casa Ramalho, 1929, pp. 18, 23-24: “Proust guardou para toda a vida impressões sem tamanho nenhum. Ora, a grande recordação dos sinos de sua terra elle nunca esqueceu. Melhor; sem querer, os sinos vinham tocar matinas ou gemer as vesperas dentro das manhãs e das tardes de sua memoria [...] E ha como um laitemotivo da mais dôce recordação de infância, os sinos, os sinos de Marcel Proust. Nelle a reação produzida pela visão de um campanario, mesmo silencioso, era mais interior, mais religiosa do que o fôgo de artifício de muito sermão metaphorico. Porque sempre o sermão nos provoca a idéia de lição, de reprehensão, enquanto o sim- ples choque profundo dos nossos sentidos vale por uma impressão. Tão forte que em Proust [...] trás á tona a presença do homem extratemporal em tôrno de quem gyra toda a obra de Marcel”.
115
Ibidem, p. 14.
116
um homossexual não seria senão um produto defeituoso, precisamente porque desviado da compreensão das atuações masculinas corretas no momento do desmame. Desse modo, quando não houvesse homens suficientemente capacitados para governar as fantasias, as imaginações dos menininhos, eles permaneceriam, por um lado, prisioneiros das afe- tividades das mulheres e, por outro, em constante busca pela intervenção libertadora, por assim dizer117. Tais eram as máximas “yunguianas”. Conforme será possível perceber em seguida, nesse ponto específico, Carl Gustav Jung não se mostrava totalmente alheio às investigações que Sigmund Freud fizera em torno da homossexualidade, por exemplo, no ensaio sobre Leonardo da Vinci, publicado em 1910 – onde as artes se metamorfoseavam em ferramentas para uma espécie de sublimação da homossexualidade. Jorge de Lima também usava esse texto freudia- no.
Na ânsia por determinar causas e apontar efeitos inequívocos, nosso médico e escritor alagoano se questionava se, para Marcel Proust, as fabulações literárias não teriam servido como forma de libertação “da pratica do vicio pela confissão”118 – ou melhor, deslocando reativamente as metas sexuais passíveis de serem buscadas e encontradas sob os len- çóis para as páginas de papel. Dizia, então, Jorge de Lima: “na visão dos sinos havia sempre muito de conjunção. Ora se grupavam, ora se afas- tavam, ora se superpunham confundidos, como meras aproximações se- xuaes”119. Nesse trecho pelo menos, os sinos metaforizam genitais que realizam um coitus contra naturam que, por horror masculino, jamais poderia ocorrer, sustentando algo da moralidade corporal do autor... quase ilibada. Aliás, talvez não fosse necessário suar em demasia para dar-se conta do tanto de erotismo – ou mesmo de pornografia – que há na fantasia, na imaginação dos sinos quando se evocam os efeitos cor- porais propagados pelos badalos rijos vibrando. Aqui, no entanto, isso não emerge senão nos termos de evitação do ato “antinatural” em sua transposição enviesada:
A chave de P. está nesta quase sublimação sexual [...] constituindo-se a constante mais forte, provocando os seus momentos de alegria tão in- tensos que sacam do inconsciente o homem extratemporal, o ambiente
117
Cf. LIMA,Jorge de. “Proust”, in: Dois Ensaios. Maceió: Casa Ramalho, 1929, p. 33.
118
Ibidem, p. 41.
119
extratemporal, os paraisos perdidos na memoria e que elle os acha de novo120.
Note-se que, se em relação ao leitmotiv dos sinos, Jorge de Lima dava sentido aos textos proustianos qualificando as vivências “instinctivas” do autor por meio da analogia com aquele caso “yunguiano”, no que diz respeito ao modo de elaboração sublimatória, também seria esse mesmo chamamento de exterioridades modelares de significação que emergiria. Os objetivos disso não parecem ser outros que conferir uma consistência especial ao corpo do seu pessoalíssimo Marcel Proust – “Marcel Proust” limiano –, passando por aquela recordação de infância de Leonardo da Vinci121:
E foi reagindo “inlassablement”, confessando-se, dissecando o seu vicio, como Leonardo da Vinci dissecava os seus cadaveres, que Proust conse- guiu realizar sua obra [...] São tantas [as parecenças] que basta consultar o livro bem bom que Sigmundo [sic] Freud escreveu sobre o Leonardo examinando-o psychanaliticamente para a gente vêr logo que o pintor florentino foi um Proust homosexual platonico que viveu ha quatro secu- los122.
Ora, Sigmund Freud estabelecia como base de sustentação de seu edifí- cio interpretativo uma lembrança infantil – uma confissão? – que o pin- tor havia anotado, já adulto, em um de seus cadernos123. Jorge de Lima,
120
LIMA,Jorge de. “Proust”, in: Dois Ensaios. Maceió: Casa Ramalho, 1929, p. 42.
121
FREUD, Sigmund. “Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci”, in: Obras completas. Vol. 9. [1909-1910]. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, pp. 113-219.
122
LIMA,Jorge de. “Proust”, in: Dois Ensaios. Maceió: Casa Ramalho, 1929, pp. 45-46.
123
Nessa passagem, Leonardo da Vinci asseverava que, na época em que ainda estava no berço, um abutre descera sobre ele para abrir-lhe a boca com a cauda e batê-la repetidas vezes contra os lábios. Tal recordação estava relacionada à assunção do estudo – e mais do estudo do vôo dos abutres – como um destino para Leonardo da Vinci. Cf. FREUD, Sigmund. “Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci”, in: Obras completas. Vol. 9. [1909-1910]. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 142. Valendo-se de algumas imagens e etimolo- gias tradicionais que Sigmund Freud supunha estarem à disposição do pintor, as maquinações interpretativas levavam essa recordação ao ponto de adquirir esta tradução: enquanto a cauda evocava tanto um falo quanto uma mãe, tal sen- sação de batida contra o lábio indicava excitação da zona erógena oral promovi-
por sua vez, seguia bem de perto algumas das conjecturas freudiana: assumia que um abutre da recordação leonardesca aludia fixação às figu- ras tão maternas quanto fálicas e repetia a compreensão de que as pes- quisas e os artefatos elaborados com tanta paixão pelo pintor italiano eram realizações sublimadas da libido que se furtava ao recalque124. Ou seja, o médico e escritor alagoano repetia esses aspectos para vertê-los, diluídos talvez, sobre os textos de Marcel Proust, estabelecendo analogia – se não irmandade fictícia:
A alliança estreita entre Marcel, a mãe e a avó tão demorada que se pro- longou pelo estado adulto, foi a de Leonardo, filho illegitimo afastado do pae até aos 5 annos, concentrando na mãe uma ternura peguenta; de- pois transplantado á casa da madrasta esteril e sequiosa de um filho que em Leonardo se realizou como um ideal de belleza e de correspondencia ao carinho della. A imagem obsedante de Proust foi a Igreja de Combray (que era conforme declaração de P. um templo composito em sua fan- tasia doente) symbolo materno (a santa madre igreja), a de Leonardo foi o abutre-symbolo materno egypcio, composito, ostentando um membro viril que na obsessão de Proust é substituido pelos sinos e pelas flechas. Estas figuras obsedantes eram tão tyranicas na imaginação de ambos que ficaram pintadas para sempre na obra delles [...] O homosexual platonico que o pintor encarnou, o homem castissimo que se tornou para toda a vida, (depois das suas primeiras experiências sexuaes), recalcado do ins- tincto [da masculinidade] na meninice, asexual para sempre, foi o “im- pacientissimo al penello” que estragou a grandeza pictorial da A Ceia, que nunca terminou a obra começada, na impossibilidade corresponden- te de nunca poder saciar. O que nos leva a crêr que o homosexual Proust, realizando a sua obra até onde quis chegar, completando-a como dese- jou, attingiu o seu ideal, satisfazendo-se, libertando-se delle como o christão se liberta do peccado, dissecando-se até nullificá-lo com a confissão, retemperando o consciente e reforçando a vontade125.
Nesse sentido, as leituras freudianas mais parecem se inscrever no texto de Jorge de Lima para possibilitar duas operações, i.e., por um lado, reforçar uma interpretação “yunguiana” da homossexualidade, e por outro, qualificar um deslocamento reativo ao vício. A última frase é bas- tante emblemática; destaco alguns sintagmas: “libertando-se [da prática