CADASTRO E CORRELATOS Arcabouço conceitual internacional
3.3 TIPOS / MODELOS
3.3.1 Cadastros Tradicionais, Convencionais ou Ortodoxos
Estes são os modelos iniciais do Cadastro e têm propósitos econômicos, legais e de reconhecimento físico do território que em muitos países ou jurisdições ainda se mantêm até os dias de hoje.
3.3.1.1 Cadastro Econômico ou Fiscal
O Cadastro Econômico, também chamado de Cadastro Fiscal, é um instrumento para administrar a política tributária da terra, originalmente estruturado e gerido pela autoridade fiscal de diferentes níveis de governo, ou seja, para produzir receitas fiscais para o Estado, como esclarece Nichols (1993).
Embora seja principalmente um suporte para a avaliação da terra e cálculo de impostos sobre a propriedade, os seus dados podem ser usados na determinação de outras formas de impostos, a exemplo daqueles sobre bens pessoais ou sobre os rendimentos derivados de imóveis (UNECE, 1996).
O Cadastro Napoleônico foi responsável, segundo Kain e Baigent (1992), por popularizar e padronizar este modelo cadastral que previa uma tributação mais equitativa da terra. De acordo com Williamson et al. (2007), entre os países que o adotam estão França, Espanha, Grécia, Portugal e aqueles de língua espanhola ou portuguesa das Américas Latina e do Sul.
O uso dos termos “Econômico” e “Fiscal” para denominar o mesmo modelo de Cadastro é feito erroneamente, segundo Águila e Erba (2007), pois entendem que o Cadastro Fiscal surgiu com o propósito de dar suporte ao Estado para fiscalização da função social da propriedade e o cumprimento das normas urbanísticas e ambientais fixadas para determinada jurisdição.
Este problema conceitual talvez decorra do significado do termo “fiscal” nos documentos e trabalhos apresentados na língua inglesa, onde se encontra muitas referências
bibliográficas sobre o Cadastro. O termo33 em inglês é um adjetivo relacionado às finanças do governo, especialmente às receitas fiscais ou que envolvem questões financeiras. Tem sua etimologia ligada ao século XVI, do latim fiscālis, relativa ao tesouro do Estado, do dinheiro público, do fisco.
Na língua espanhola34, o termo “fiscal” pode estar relacionado ao fisco, ao ofício do fiscal ou à pessoa que averigua ou revela "operaciones ajenas”, entre outros significados. Logo, tanto está relacionado à questão econômica quanto à de fiscalização.
A base cadastral pode ser obtida por inúmeros métodos, de acordo com Erba (2005), mas deve conter obrigatoriamente a localização, forma e dimensão para que se possa registrar o valor atualizado da parcela, sobre o qual é calculado o valor do imposto territorial.
Para Larsson (1991) apud Bennett (2007), UNECE (1996) e Steudler (2004), um Cadastro Econômico eficaz e eficiente deve ser composto de duas partes principais: um mapa cadastral atualizado, em escala grande, mostrando a localização e os limites de cada unidade de terra e uma descrição desta unidade, que deve ter um número de identificação único, a ser utilizado como elo entre elas.
Conforme a UNECE (1996), este mapa cadastral deve conter todas as propriedades e pode ser derivado de dados contidos nos Registros de Terras, assegurando que todas as parcelas sejam identificadas e não sejam tributadas mais de uma vez. Ele é necessário para:
Identificação e mapeamento de todas as propriedades que devem ser tributadas;
Classificação de cada propriedade em conformidade com um conjunto de
características acordadas, relativas ao uso, tamanho, tipo de construção e benfeitorias;
Coleta e análise de dados relevantes sobre o mercado, incluindo dados sobre os
preços de venda, aluguel ou custos de manutenção e edifícios, juntamente com as datas;
Determinação do valor de cada parcela, em conformidade com procedimentos
divulgados / publicados;
Identificação da pessoa ou grupos que serão responsáveis pelo pagamento do
imposto;
33
Dicionário on-line Wordreference.com. Disponível em:
<http://www.wordreference.com/definition/fiscal%20cadastre.> Acesso em: 15 mar. 2015. 34
Real Academia Española. Dicionario de la lengua española. Disponível em: <http://dle.rae.es/?id=HzHItzp>. Acesso em: 30 jun. 2016.
Preparação da lista de valores;
Notificação do contribuinte individual sobre o que tem de ser pago;
Coleta dos impostos devidos;
Procedimentos para os recursos dos contribuintes que contestam sua avaliação.
O Cadastro Econômico ainda está presente ou é perseguido pela maioria dos países do
mundo.No entanto, como mencionado pela FAO (1995), em muitos países já não há qualquer
taxação de terras e, na prática, este instrumento serve a dois outros fins igualmente importantes: o de disponibilizar a descrição precisa e a identificação de determinados pedaços de terra, atuando como um registro contínuo dos direitos sobre a terra.
3.3.1.2 Cadastro Físico, Geométrico ou Espacial
O surgimento de novos métodos de avaliação baseados em detalhes construtivos e de localização, forma e dimensão das terras exigiram que as bases de dados cadastrais fossem ampliadas para conter estes aspectos em registros cartográficos e alfanuméricos, conformando assim o Cadastro Geométrico que retrata também a ocupação efetiva do território, explica Erba (2005).
Neste tipo de Cadastro ficou evidenciada a rápida popularização do uso de equipamentos de levantamento digital, como GPS e Estação Total, transformando as atividades dos profissionais habilitados que passam a medir tempos, em vez de ângulos e distâncias, obtendo coordenadas que podem ser transformadas para qualquer sistema de referência e/ou projeção cartográfica, simplificando enormemente a representação dos
imóveis. Afotogrametria digital, topografia com scanner a laser aerotransportado e o uso de
imagens de satélite de alta resolução contribuem também com a atualização cadastral (ERBA, 2016).
Segundo Williamson et al. (2007), um mapa cadastral espacial atualizado, elaborado a partir de levantamento de precisão dos limites do domínio, traz um benefício adicional para o Sistema de Registro de Terras, sendo também é de grande importância para as equipes de planejamento.
Erba (2016a) explica que é necessário observar a existência dos limites de fato (uso e ocupação) e de direito (legal) e que ambos devem ser definidos, sendo esta uma condição
essencial para a capacidade de integrá-los no quebra-cabeça do território representado na cartografia cadastral.
Os termos Cadastro Físico ou Cadastro Espacial também são utilizados para designar o Cadastro Geométrico. Contudo, Grant, Crook e Donnelly (2014) diferenciam estes termos entendendo que o Cadastro Físico descreve a manifestação física dos limites da terra no mundo real enquanto o Cadastro Espacial é usado para descrever os registros digitais ou de papel que traçam a forma e a localização desses limites em Sistemas de Registros Cadastrais.
3.3.1.3 Cadastro Jurídico ou Legal
O Cadastro Jurídico ou Legal surgiu na Europa e nos países e colônias influenciados pela “Common Law” inglesa, para apoiar a transferência / transmissão da propriedade na medida em que estas se tornaram cada vez mais disponíveis e questões como segurança e confiabilidade dos registros cadastrais ganharam mais importância, afirmam Nichols (1993) e Ting (2002).
Este modelo cadastral foi concebido, segundo Dale e McLaughlin (1989), como um sistema para registro de informações sobre os interesses de domínio da terra acrescidas sobre a base do Cadastro Geométrico, podendo servir de complemento ao Registro de Terras.
Este entendimento contribui para uma confusão conceitual entre Cadastro e Registro de Terras. A UNECE (2004) ressalta que são distintos, pois o primeiro deve conter o levantamento de parcelas de toda a jurisdição enquanto o segundo se atém apenas àquelas que foram objeto de alguma transação. Águila e Erba (2007) orientam que o primeiro trabalha com o objeto do Direito e não sobre o sujeito do Direito (função do segundo) ou sobre o Direito em si.
O Cadastros Jurídicos dos países desenvolvidos oferecem um mapa cadastral completo, amarrado à um mapa gráfico indexador, incluindo todas as parcelas de terra com algum nível de precisão. A digitalização e georreferenciamento destes mapas cadastrais permitem a sobreposição de informações referentes a todos os demais Direitos, Restrições e Responsabilidades em um único mapa digital conformando assim uma ferramenta poderosa de apoio ao gerenciamento territorial, afirma Bennett (2007).
3.3.1.4 Cadastro Territorial ou Básico
O Cadastro Territorial é utilizado por Águila e Erba (2007) para se referir àquele estruturado sob o sistema ortodoxo Econômico-Geométrico-Jurídico, que caracteriza grande parte dos cadastros latino-americanos. As informações geradas por este modelo cadastral propiciam o desenvolvimento de projetos orientados às preocupações sociais, como a regulação do uso do solo, a identificação de terrenos desocupados e o monitoramento e a recuperação de investimentos.
É recomendado por Loch e Erba (2007) que as jurisdições devam inicialmente concentrar esforços para a consolidação deste modelo, mesmo que isto seja insuficiente para um manejo integrado do território, ressaltando a importância dada à questão da propriedade na estrutura cadastral.
Para Erba (2008) o Cadastro Territorial deve estar a serviço do planejamento e mais especificamente pode ser utilizado para dar suporte às discussões acadêmicas e de formuladores de políticas urbanas sobre a enigmática relação entre o controle da expansão territorial e o apoio ao adensamento urbano na América Latina.
O objetivo deste modelo é estruturar dados jurídicos, físicos e econômicos das imóveis, a partir dos quais se desenvolvam políticas públicas para o ordenamento do território.