2 MARCO TEÓRICO METODOLÓGICO
2.6 CADEIA OPERATÓRIA E CADEIA COMPORTAMENTAL
A cadeia operatória é uma ferramenta de estudo da arqueologia proposta por André Leroi-Gourhan no sentido de evidenciar a lógica interna de uma atividade como sendo a “sequência encadeada de operações, gestos e instrumentos que constituem um processo técnico com etapas mais ou menos previsíveis” (LEROI – GOURHAN, 1971, p. 116, trad. nossa).
Balfet (1991, p.12, trad. nossa) complementa o conceito, em termos práticos a cadeia operatória: “…é o conjunto de operações que um grupo humano organiza e
desempenha, segundo os meios de que dispõe e o “savoir faire” que domina em busca de um resultado: A satisfação de uma necessidade socialmente reconhecida”. A organização e sistematização destas sequências auxilia a encontrar o sentido de um determinado artefato ao levantar e sistematizar um histórico de relações em que este tomou parte dentro de uma determinada sociedade.
Leroi-Gourhan considera que a técnica está contida tanto no gesto como no utensílio, organizados em cadeias por uma sintaxe que dá às séries operatórias sua rigidez e sua flexibilidade. “Esta sintaxe operatória é proposta pela memória e nasce entre o cérebro e o meio material”. (LEROI-GOURHAN, 1971, p. 116, trad. nossa). Faz um paralelo da técnica com a linguagem em termos de evolução.
A complexidade de uma cadeia operatória é resultado de uma construção cultu- ral coletiva evoluindo da mais simples, com menos séries, aumentando em comple- xidade com aumento do número de séries e em número de produtos relacionados. “A formação de cadeias operatórias coloca em diferentes etapas, a questão das rela- ções entre indivíduo e a sociedade” (LEROI-GOURHAN, 1971, p. 226, trad. nossa). A transmissão e manutenção das cadeias operatórias assegura a perpetuação de uma determinada cultura constituindo-se em uma tradição técnica.
As cadeias operatórias funcionariam simultaneamente em três planos, dos comportamentos automáticos ou instintivos, dos comportamentos mecânicos ou aprendidos e dos comportamentos conscientes, onde se daria a inovação nas cadei- as operatórias e onde intervém a linguagem. A constituição das cadeias operatórias depende da combinação entre a experiência, que dá origem no indivíduo de um con - dicionamento mediante tentativa e erro idêntico ao animal e a educação, na qual a linguagem tem um papel variável, porém determinante:
São as práticas elementares cujas cadeias vão se constituindo desde o nas- cimento, as que marcam mais fortemente o indivíduo em sua pegada étnica. Os gestos, as atitudes, a maneira de se comportar no trivial e no cotidiano, constituem-se em um meio de união ao grupo social de cuja origem o indiví- duo jamais se libera totalmente (LEROI-GOURHAN, 1971, p. 226, trad. nos- sa).
A noção do utensílio não se restringe a objetos fabricados. No animal o utensí- lio e o gesto se confundem com o programa operatório organicamente, como a pinça do caranguejo e suas peças mandibulares se confundem com o programa operatório
de aquisição de alimento. O corpo, o gesto e a ferramenta são considerados como uma unidade que faz a ação possível.
O utensílio existe somente no ciclo operatório; é um bom testemunho, pois possui, em geral, pegadas, marcas significativas. O utensílio existe realmen- te graças ao gesto que o faz tecnicamente eficaz (LEROI – GOURHAN, 1971, p. 233, trad. nossa.).
O gesto, como unidade mínima da ação, em sinergia operatória com o utensílio supõe a existência de uma memória na qual se inscreve o programa do comporta- mento. Assim, a memória humana está exteriorizada no utensílio e contida na sua coletividade étnica. A evolução tira proveito das etapas anteriores dominando-as através de inovações das quais se constitui em suporte. Cultura, memória, lingua- gem e cadeia operatória são inseparáveis para o ser humano e são materializados externamente no utensílio. O estudo da tecnologia equivaleria ao estudo do esquele- to de um ser vivo, sobre o qual é possível inferir sobre sua forma quando vivo e ain- da sobre alguns acontecimentos traumáticos ou esforços repetitivos pelos quais passou. As inferências podem chegar ao estilo de vida do indivíduo e, logo é possí- vel saber algo sobre as sociedades que formavam (LEROI – GOURHAN, 1971). Esta não necessariamente se inicia em uma matéria-prima bruta ou termina em um produto acabado. “Somente a definição teórica das fases (com base na prática) per- mite compreender sua ordem de aparição para estabelecer uma cadeia operatória coerente” (BALFET, 1991, p.12, trad. nossa).
A arqueologia comportamental vê o conceito original da cadeia operatória vol- tando-se para as ações, em um encadeamento de comportamentos humanos liga- dos ao artefato. A cadeia comportamental de Schiffer representa a “sequência de atividades nas quais um elemento participou de um dado sistema cultural” (SCHIF- FER, 1995. p.48, trad. nossa). O conceito de história de vida dos artefatos considera todo o percurso da existência do objeto individualmente e as atividades humanas li- gadas a este, dado o caráter material do registro arqueológico e a natureza preditiva das cadeias comportamentais, ênfase na história de vida dos elementos permite ul- trapassar as limitações aparentes do registro arqueológico. Para Schiffer a análise da cadeia comportamental é parte da hipótese e se estende aos elementos individu- ais de cada atividade humana na qual o objeto tome parte.
Cabe ao pesquisador, em seu campo de estudo, definir o que será uma unidade de observação significativa, escolher coerentemente uma determinada sequência de ações que será considerada sua cadeia operatória, esta enquanto ferramenta analíti- ca é forçosamente arbitrária por privilegiar um tema de estudo.
Uma cadeia comportamental adequada para a cerâmica encontrada neste sítio inclui os seguintes passos genéricos porém não necessariamente somente estes (adaptado de RYE, 1988. p.16; SCHIFFER, 1995. p.23):
1 – Decisão ou necessidade de fazer; 2 – Escolha da matéria prima;
3 – Coleta da Matéria prima
4 – Transporte preparação da massa; 5 – Modelagem; 6 – Acabamento; 7 – Secagem; 8 – Queima; 9 – Distribuição; 10 – Uso; 11 – Manutenção; 12 – Reuso; 13 – Reciclagem; 14 – Descarte.
Na descrição das atividades inseridas em cada passo podemos ver as peculia- ridades de cada tradição refletindo aspectos diversos daquela determinada cultura.
Uma fase de armazenamento poderia ser inserida entre cada uma das fases acima e as fases apresentadas poderiam ser subdivididas por motivos relacionados ao recorte do estudo que a propõe, porém, observe-se que cada cadeia operatória é culturalmente orientada e logo tem uma lógica e características próprias individuais que revelam características próprias de uma determinada cultura justificando sua construção teórica e seu estudo.
dentes e o conjunto destas cadeias forma um sistema tecnológico . O sistema tecno- lógico característico de uma sociedade inclui a escolha de quais tecnologias, ou ca- deias operatórias desenvolver e de quais passos tomar na cadeia operatória dentro das opções técnicas possíveis desta tecnologia, essas escolhas são influenciadas por diversos fatores culturais e ambientais: técnicos, filosóficos, religiosos, econômi- cos etc. A superação das restrições impostas por estes fatores faz parte da inovação tecnológica, sendo as próprias restrições fatores culturais.
A observação de variantes técnicas representadas por descontinuidades na cultura material cujo estudo forma a maior parte da arqueologia mas tam- bém como veremos na antropologia das técnicas, frequentemente designam realidades sociais diferentes. Considerando ambientes materiais equivalen- tes, a tentativa de explicar estes fenômenos é explorar seu contexto sócio cultural o que geralmente leva à revelação de elos pertinentes entre fenô- menos técnicos e fatores de ordem social. (LEMONNIER, 1986. p.155, trad. nossa).
É importante considerar que as tradições tecnológicas não devem ser entendidas como sinônimos de tradições tipológicas. Como Rye (1981. p. 05, trad. nossa) resu- me : “a mesma forma de um vaso ou de uma decoração pode ser produzida median- te sequências de processos diferentes e, a mesma sequência de passos pode produzir distintas formas de vasos”:
É concebível que ceramistas trabalhando juntos no mesmo lugar e tempo possam produzir vasilhames que o arqueólogo designe como pertencentes as tradições tecnológicas separadas. Por exemplo, uma massa sem tempe- ro pode ser utilizada para grandes potes d’água e massa temperada com conchas para as panelas. A relação entre duas “tradições” poderiam ser es- tabelecidas por outros critérios, como a co-distribuição dos vasilhames por muitas localidades (RYE, 1981. p. 05, trad. nossa).
Ele nos lembra ainda que as tradições tecnológicas implicam na transmissão de ideias mas, que técnicas similares podem se desenvolver independentemente. O estudo dos padrões tecnológicos esclarecem a evolução da tecnologia da cerâmica pois revela a específica combinação de materiais e métodos que melhor preenchem os requisitos para uma determinada função de certos produtos.