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Cairu e o Processo de Abertura dos Portos

No documento NOME DO AUTOR MARCELO CABRAL AGOSTINHO (páginas 173-177)

5 Histórico da Formação Econômica Brasileira

5.7 Cairu e o Processo de Abertura dos Portos

A Carta de Abertura dos Portos continha o espírito liberal de Cairu. Dizia a respeito dela, Dom Fernando José de Portugal, que ela trazia as mais modernas e enriquecedoras relações entre as Nações, a necessidade de se fazer comércio para gerar riquezas. Nas nossas alfândegas dos portos, todos os gêneros que qualquer das Nações aliadas quisessem trazer deveriam ter livre entrada.

A participação de Cairu no documento e no episódio da abertura dos portos é a presença do pensamento da elite colonial brasileira, ansiosa pela liberdade de comércio e pelo progresso que essa liberdade traria. É a voz que fazia ecoar as ideias novas, que buscavam uma nova situação econômica e social.

Para Cairu, a Carta Régia da Abertura dos Portos do Brasil, ao declarar a liberdade do comércio de todos os gêneros com as Nações que mantivessem o estado de paz e harmonia com a coroa portuguesa, poderia ser considerada como um manifesto a favor da diplomacia com todos os povos pacíficos para onde enviávamos nossos produtos, como objetos da troca comercial pelas manufaturas dos países que eram mais adiantados em população e indústria nas artes superiores.

Cairu também destacava o fato de que o extenso e pouco povoado território brasileiro servia muito bem para acolher imigrantes europeus, visto que havia países com excedente de população e em difícil situação econômica, com dificuldades até mesmo de produzir alimentos para todas as pessoas. A terra do Brasil era rica em nutrientes. Além disso, os industriosos poderiam adquirir propriedades e fazer fortuna. A vinda de pessoas mais experientes, detentoras de técnicas e culturas diferentes, na maioria das vezes mais adiantadas do que as técnicas utilizadas no território brasileiro, acabaria trazendo para o Brasil a possibilidade de criar nova cultura tecnológica, em especial na área da agricultura. E isto resultaria no progresso que merecíamos. Assim, caso Portugal mantivesse vetos ao livre comércio do Brasil com outras Nações, mais valeria para o Brasil tornar-se independente.

Cairu destacou o fato de a Carta Régia assinada pelo Príncipe Regente ser um ato que ocasionara a suspensão do estatuto colonial, encerrando, de uma vez por todas, mais de três séculos de um Brasil colônia. Desencadeou um processo que conduziu à emancipação política brasileira. Inseriu, de vez, o Brasil na economia mundial, da qual nos dias de hoje é um dos agentes principais.

Nas palavras do próprio Cairu: “depois da fatal desgraça da invasão do Reino, o assento da Corte no Brasil, era de evidente, absoluta, e inevitável necessidade política abrirem-se os portos destes domínios ultramarinos ao comércio estrangeiro”.117

Em relação à partida de Lisboa da Corte portuguesa em 1807, rumo ao Brasil, Cairu argumentou que esta havia se dado pela irresistível força das coisas, pelo iminente perigo da ruína de Portugal e, em consequência, do Brasil, pela surpresa que se apossou de toda a Família Real e que traria o fim da monarquia portuguesa. Bonaparte, pelo Decreto de Milão, declarara que a Casa de Bragança havia cessado de reinar.

Para Cairu, a força das Nações não residia apenas em sua população, mas, em grande parte, no caráter brioso e indomável de seu povo e também na distância, na extensão e circunstâncias de seu terreno e clima, que reunidos seriam capazes de oferecer obstáculos à invasão e à conquista do inimigo, ainda que este fosse mais populoso.

Citando pensamentos contidos no livro do Professor de Filosofia Moral da Universidade de Edimburgo “Leituras de Philosophia sobre o Espírito Humano” (Dugald, 1822), o qual ele considerava como ilustre e digno de ser estudado, em virtude da sublimidade e ortodoxia de suas doutrinas, Cairu destacava o dever pátrio:

o dever de defender a terra que amamos é virtualmente incluído no do amor da pátria. Não convém que pensemos do que temos pessoalmente a perder antes de considerar ao invasor do nosso país como nosso inimigo. Não é necessário que façamos o quadro da desolação, matança, rapina, que ele perpetrará, e nem ainda da maior calamidade da opressão que resultará da conquista: basta considerá-lo como o invasor da nossa terra; e, só por isso, já sentimos o dever da oposição... A não ser os nossos corações inteiramente corruptos, devemos fazer-lhes a mais denodada resistência, para convencê-los que, se presumirem avançar, ou hão de retirar-se, ou perecer.118 Baseando-se, também, no pensamento de Edmund Burke, Cairu afirmou que a revolução era sempre o último recurso dos homens pensadores e bons, mas que, entretanto, era um recurso.

117 LISBOA, José da Silva. Observações sobre o comércio franco no Brasil, parte primeira, em Antonio Penalves Rocha, página 67. São Paulo. Editora 34. 2001.

118

LISBOA, José da Silva. Império do Equador na Terra da Santa Cruz. Voto Philanthropico de Roberto Southey, escritor da História do Brasil. Página 17. Rio de Janeiro. Imprensa Nacional. 1822.

Cairu salientou que nunca a monarquia portuguesa conseguira obter tanta evidência na cena política, do que quando o “Cabeça da Nação” pusera seus pés no Brasil. Ao aportar no Bahia, aboliu virtualmente o sistema colonial. Logo ao chegar ao Rio de Janeiro, declarou guerra a Napoleão. Adotou uma forma de comércio mais liberal, “abriu-se ao Mundo um indefinido horizonte de correspondência social, e progresso de civilização, e indústria”. Em poucos anos as rendas da colônia se elevaram, passando ao dobro das de Portugal. Estabeleceu-se um banco no Rio de Janeiro, com o sistema de crédito, algo que nunca havia existido no reino lusitano. Surgiram, em pouco tempo, muitas vilas e novas cidades no território brasileiro.

Um episódio muito interessante a respeito da Carta Régia do dia 28 de janeiro foi a rapidez com que foi editada por um Príncipe Regente tido como vacilante e indeciso. Como destacou o ex-ministro Rubens Ricupero, em seu artigo intitulado O Problema da Abertura dos Portos: “...a extraordinária celeridade com que se tomou e executou decisão que teria conseqüências tão profundas e duradouras”.119

O fato é que a Carta Régia foi editada apenas quatro dias depois do desembarque em Salvador. Por certo, o assunto deve ter sido discutido de forma intensa durante o longo tempo de viagem. Além disso, historiadores que escreveram ainda no século XIX a respeito da história do Brasil relataram que o Príncipe Regente, tão logo desembarcou na Bahia, realizou largos encontros para tratar do tema e em todos esses encontros José da Silva Lisboa esteve presente, ressaltando que a ocasião necessitava de medidas urgentes. Assim como Ricupero, o ilustre Afonso Arinos cita a tormenta que acabou separando as naus que compunham a frota que vinha de Portugal, fazendo com que estas se dirigissem a diferentes portos.

Assim, quis o destino que estivesse presente Dom Fernando José de Portugal na nau do príncipe regente. De acordo com as palavras de Bento da Silva Lisboa, filho de Cairu: Aportando aquele soberano à Bahia, Silva Lisboa aproveitou-se da amizade que tinha com dom Fernando José de Portugal, depois marquês de Aguiar, para lhe indicar a necessidade de abrir os portos a todas as Nações amigas da Coroa de Portugal; e apesar da forte oposição que então se fez, tal foi a força dos seus argumentos que aquele fidalgo cedeu às suas persuasões, e fez com que o príncipe regente publicasse a carta régia de 28 de janeiro de 1808, que liberalizou aquele máximo benefício à nação”.120

119 RICUPERO, Rubens e OLIVEIRA, Luís Valente de (Organizadores). A Abertura dos Portos. Editora Senac. São Paulo. 2007.

120

LISBOA, Bento da Silva. José da Silva Lisboa, visconde de Cayru. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, número 3, página 240. 1839.

Cairu foi, então, o homem certo no lugar certo. Seu posicionamento a favor do livre comércio está explícito na Carta Régia, num texto que os ingleses fizeram revogar apenas dois anos depois. É certo que as circunstâncias do momento exigiam uma ação rápida, mas o fato é que não se pode redigir um documento oficial sem se prescindir das palavras, que dão significado ao ato. E, as palavras, são instrumentos físicos, escritas e

proferidas por seres humanos. Como bem destaca Ricupero em seu artigo O Problema

da Abertura dos Portos, “a inevitabilidade não é uma espécie de Deus ex-machina, que prescinde de atores humanos para dar execução a seus desígnios”.

No documento NOME DO AUTOR MARCELO CABRAL AGOSTINHO (páginas 173-177)