Ao longo do trabalho, foram analisados, inicialmente, aspectos da biografia de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, com a preocupação de abordar o contexto social em que ele se encontrava inserido. Procuramos descrever o Brasil de sua época, primeiro como colônia de um Estado imerso em profunda crise econômica, e posteriormente como sede da Monarquia portuguesa, em virtude da vinda da Família Real. Suas relações com uma Europa que se encontrava às voltas com as guerras promovidas por Napoleão.
A pergunta que motivou toda a caminhada pode ser assim expressa: foram, o pensamento e o trabalho de José da Silva Lisboa, importantes para o desenvolvimento da ciência no Brasil? Nossa busca levou sempre em consideração o pensamento científico brasileiro. Para respondê-la, como historiador procurei a via da investigação com o objetivo de tentar ver mais longe, através da janela do tempo, e aumentar o saber acerca do tema.
Fica claro que os cargos ocupados por José da Silva Lisboa, ao longo de sua vida profissional, foram de extrema relevância dentro do segundo escalão da administração portuguesa no Brasil colonial. Personagem de livre trânsito junto ao primeiro escalão, ele foi o representante do governo em assuntos chave e que deveriam ser tratados com extremo tato político, como questões de política econômica e educacional.
Na busca da fonte que inspirou em Cairu o caráter cientificista presente em suas ações, chega-se ao relacionamento mantido entre ele e Vandelli, que surgiu quando Cairu foi estudar em Coimbra e encontrou em Vandelli um grande Mestre e incentivador, inclusive o tendo apresentado aos principais expoentes da Corte lusitana, fato que acabou criando condições para que Cairu pudesse participar das relevantes decisões adotadas pelo Príncipe Regente quando da vinda da Família Real para o Brasil. O convívio foi extremamente fecundo, tendo gerado debates e ações de relevância científica. A preocupação econômica teve, muitas vezes, o objetivo de gerar técnicas mais eficientes para a agricultura, nossa frente econômica de maior importância. Apesar de algumas divergências econômicas, pois Vandelli era um amante das produções oferecidas pela natureza ao passo que Cairu considerava o comércio como o motor que movia o mundo, notam-se inúmeros pontos de convergência nas ações dos dois, como
nos processos de abertura dos portos ou da criação de um primeiro Banco Nacional. Cairu seguiu fielmente as lições econômicas de seu Mestre.
O trabalho mostra a participação de Cairu no processo de criação do primeiro Banco do Brasil, instrumento vital para uma Nação que acabara de nascer, com toda a sorte de problemas e necessidades, tendo que arcar com as despesas de toda a Corte vinda de Portugal, tendo que gerar crédito para alavancar nossa agricultura. Além disso, aborda a participação de Cairu no processo de Abertura dos Portos, como o elemento inspirador da redação de um texto que causou profunda insatisfação aos interesses ingleses e que foi revogado apenas dois anos depois.
Cairu nos deixou uma vasta e importante produção literária. Textos que versavam sobre o Direito de Marinha, o Direito Econômico, a formação moral e religiosa, a Economia Política, a ineficiência e a injustiça presentes na escravidão. Aspectos políticos e sociais, como a política educacional do Brasil colonial ou a discussão a respeito da liberdade de expressão, foram alguns de seus principais objetos de estudo.
A análise da Economia Política se fez presente em suas obras. Nestas, encontramos riqueza de detalhes e preocupação com o registro de fatos históricos, o que as tornam, ainda, referências historiográficas a respeito da ciência que ele tanto admirava. Nomeado para exercer o cargo de Professor de Economia Política na nova Corte instalada no Rio de Janeiro, ele nunca chegou a lecionar seu assunto favorito. Argumentava, com toda a razão, que o grande público ainda não estava preparado para tal tipo de aula e que não entenderia os seus conteúdos. Assim, dedicou seus esforços à escrita de importantes obras sobre o referido tema, que tanto o apaixonava. Tal fato acabou sendo extremamente benéfico, ao deixar para a posteridade o registro de seu pensamento e, ao mesmo tempo, fornecer importante material de estudo para a juventude de sua época.
Em seus trabalhos, José da Silva Lisboa desenvolveu, de forma original, um conceito que havia sido apresentado por Adam Smith: o valor da inteligência no processo produtivo, de modo que os homens possam ter a maior riqueza possível, com o menor trabalho possível. Assim, ele mostrou que não foi um mero propagador das ideias de Smith, seguindo novos passos no caminho que lhe havia sido mostrado pelo escocês.
Cairu tratou da quantidade da inteligência como uma grandeza mensurável, lançando, assim, as bases de seu pensamento. Pregou o predomínio do valor da inteligência sobre o valor do trabalho, opondo-se, deste modo, a uma linha de raciocínio
que mais tarde seria adotada por Karl Marx. Assim, para Cairu, não devia ser a sociedade carregada de trabalhos mecânicos, braçais e penosos. Deveria, cada indivíduo, cooperar com seu talento especial e exercício de suas faculdades intelectuais.
Em todos os graus de civilização, a inteligência faz com que se desenvolvam as forças do engenho humano, com a finalidade de diminuir o trabalho braçal, repetitivo e penoso, substituindo-o com novas tecnologias dotadas de instrumentos e máquinas, que abreviam e aperfeiçoam a obra, liberando o homem para atividades mais intelectualizadas e mais nobres, onde poderão ter um aproveitamento melhor. Eis a síntese do pensamento de Cairu, uma das máximas da economia liberal do final do século XX.
Como parlamentar com assento na Assembleia Constituinte, por ter sido eleito para representar a Bahia, em 1823, Cairu participou de todas as sessões, tendo, inclusive, participado ativamente dos debates que visavam a criação da primeira Universidade do Brasil. Defendeu a existência do curso de Belas Artes, a despeito de uma corrente política que pregava o utilitarismo na educação brasileira e sustentava que tal curso seria um luxo que não caberia ao nosso país. Além disso, ao longo de sua vida profissional, como Inspetor dos Estabelecimentos Literários e Diretor dos Estudos, sempre procurou defender a educação, como um valoroso e indispensável aliado ao desenvolvimento de uma Nação, com uma visão e um discurso que nos remontam à contemporaneidade.
Vimos como as ideias propagadas por Cairu em seus textos podem ter influenciado na elaboração de famosos discursos, como o que Rui Barbosa proferiu no início do século XX, em virtude da similaridade presente no sentido dos mesmos. A contemporaneidade é uma das marcas do que Cairu escreveu em pleno século XIX. Suas palavras expressavam pensamentos econômicos e sociais que estavam bem à frente de seu tempo e podem ser entendidas como fazendo parte de um texto atual.
Portanto, concluímos ser de suma importância para aqueles que desejam conhecer a história da ciência brasileira estudar a vida e a obra de José da Silva Lisboa, em especial sua produção literária. Em suas palavras, vemos plantadas, com cerca de dois séculos de antecedência, as bases filosóficas da revolução tecnológica vivenciada pelos bancos brasileiros no final do século XX, um acontecimento que marcou profundamente as relações de trabalho e de sociedade no Brasil e que trouxe consigo significativa mudança nas técnicas e na tecnologia aplicadas pelo sistema bancário.
Tudo o que relatamos durante o trabalho nos levou a responder de forma afirmativa a pergunta que serviu de motivação para a realização do mesmo. Concluímos que as produções intelectuais de José da Silva Lisboa, através de seus textos, livros e periódicos, serviram de fonte de inspiração para o desenvolvimento da nossa ciência, em especial da ciência econômica. Os caminhos trilhados foram ricos e complexos e ainda existem aspectos que merecem um olhar investigativo mais profundo. Quantos documentos podem estar perdidos em arquivos indiretos? A investigação revelou detalhes originais e que trouxeram novos elementos de análise.
A trajetória profissional de José da Silva Lisboa foi pautada pela busca da excelência, pela valorização da educação, da meritocracia e dos mecanismos de investigação científica, pelo cuidado com o registro de fatos históricos que pudessem servir de base aos estudiosos. Sua vida foi pautada por atitudes que mantiveram profunda coerência com seu modo de pensar.
Cairu encontrou na arte expressa pelas transações comerciais um meio de união entre as pessoas, que, através do comércio romperiam as barreiras geográficas e buscariam a construção de um mundo melhor, onde não haveria espaço para guerras ou para a escravidão que causava tanto sofrimento e opressão. No pensamento de Cairu caminhariam juntos educação e comércio, rumo à construção de uma vida mais digna. Cada Nação oferecendo os produtos em que se especializara.
Enfim, fomos levados a concluir que os trabalhos de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, foram extremamente relevantes em nosso processo de desenvolvimento científico.
Popularizar obras raras de Cairu significa permitir a um maior número de pessoas entender o processo histórico, científico e cultural da evolução do pensamento econômico brasileiro. Além disso, a contemporaneidade de seu discurso é uma marca que desafia o tempo. Suas expressões, suas preocupações, suas críticas ao pouco valor dado à nossa história e à educação nacional, a forma como reprovava a existência de favores ou monopólios, o modo como condenava a corrupção em órgãos públicos, o amor que dedicou a nossa pátria e que demonstrou ao longo de todas as suas atitudes, todo esse conjunto de fatos torna seu discurso absolutamente atual, fazendo parecer que suas palavras foram extraídas de algum jornal ou revista dos nossos dias.
Concluindo, faz-se mister estudar as contribuições dos trabalhos de Cairu para o desenvolvimento da ciência no Brasil.
BIBLIOGRAFIA
AGOSTINHO, Santo. O Livre Arbítrio. São Paulo: Ed. Paulus. 2010.
ALMEIDA, Eduardo de Castro. Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil
existentes no Archivo de Marinha e Ultramar de Lisboa. Volume II. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional. 1914.
ALMEIDA, Eduardo de Castro. Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil
existentes no Archivo de Marinha e Ultramar de Lisboa. Organizado para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Volumes IV, V, VI - Bahia 1801 – 1807. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional. 1918.
ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da Diplomacia Econômica no Brasil. As Relações Internacionais no Império. São Paulo: Editora SENAC. Fundação Alexandre de Gusmão. 2001.
AMZALAR, Moses Bensabat. O Banco de Lisboa. Lisboa: Instituto Superior de Comércio de Lisboa. 1919.
ARAUJO, João Baptista. Compêndio Histórico do Estado da Universidade de
Coimbra, no tempo da invasão dos denominados Jesuítas e dos estragos feitos nas Sciências e nos Professores e Directores que a regiam pelas maquinações e publicações dos novos Estatutos por eles fabricados. Lisboa: Régia Officina Typografica. 1771.
BELLO, Oliveira. Imprensa Nacional 1808 – 1908 Apontamentos Históricos. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional. 1908.
BERNSTEIN, Peter L. Desafio aos Deuses. A Fascinante História do Risco. Rio de Janeiro: Ed. Campus. 1997.