Alguns processos se tornaram emblemáticos do longo e irracional processo de censura. Em visita ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, analisou-se o processo referente à peça
Roda viva, de Chico Buarque de Hollanda apresentado ao Servico de Censura de
Doversões Públicas (SCDP) do Rio de Janeiro em janeiro de 1968; além de outro referente à peça Calabar, do mesmo autor, apresentada em novembro de 1973. São processos com mais de cem páginas de documentos que mostram a inconsistência e as contradições próprias da prática da censura nessa época. (COSTA, 2006, p.223)
A estréia da peça seria realizada em 8 de novembro de 1973 no teatro João
Caetano no Rio de Janeiro. Com uma produção avaliada em 30 mil dólares, para os padrões
da época a montagem da peça se constituia numa superprodução que envolvia mais de 80 funcionários. Tendo seu texto liberado pela censura foram realizados os ensaios e planejada sua divulgação com a criação de cartazes e a compra de espaços publicitários nos jornais.
Como uma prática obrigatória na época, o processo de aprovação de uma peça teatral envolvia, além da liberação do texto, uma nova avaliação dos censores que seria realizada na fase final dos ensaios, o ensaio geral, através de uma audiência especialmente realizada para esse fim. Somente após essa análise final, a Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal expedia um documento em que autorizava a exibição pública de uma montagem, determinando ainda nesse documento a faixa etária para o qual o espetáculo estaria liberado.
Após a realização de todo o trâmite legal, a aprovação final não foi expedida, pois seu texto teria sido avocado nas instâncias superiores da censura para seu reexame, resultando num episódio que se tornaria emblemático como exemplo dos abusos da censura do regime militar. Sobre esse momento, Chico Buarque, declarou:
[...] existia uma censura, mandamos a peça pra censura e a peça foi aprovada, então vamos montar o espetáculo. Ai, aquela história, montamos o espetáculo e a censura que teria que aprovar a montagem não foi aprovar e levou os produtores a falência, né. Nós produtores falimos porque eles não podiam nem alegar que tinham proibido o espetáculo porque nós tínhamos os papéis liberando a peça. Aquilo ficou muito esquisito porque ai os jornais eram proibidos de noticiar a proibição e as pessoas chegavam na bilheteria e não entendiam porque o espetáculo já estava anunciado e não estreava nunca e a bilheteria estava fechada. Perguntavam e ninguém sabia informar coisa nenhuma. E o disco, ai já tinham os cartazes preparados: leia o livro, assista a peça e compre o disco Calabar. O livro foi liberado porque pra literatura não havia essa censura toda. Então saiu o livro chamado Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, pela Civilização Brasileira, o espetáculo simplesmente deixou de existir. (BUARQUE, 2005. Informação verbal)
Como o texto já havia sido liberado a atitude da censura de apenas às vésperas da data de estréia – 8 dias antes, notificar a suspensão do texto alegando que o mesmo seria reexaminado era um fato incomum que não tinha nenhuma justificativa aceitável. Durante os meses subsequentes os produtores procuraram negociar o desentrave legal até que em 15 de janeiro de 1974 saiu a decisão da censura em que o General Antônio Bandeira proibia a montagem da peça e proibia ainda o uso do nome Calabar. E de forma ainda mais arbitrária proibia que o ato da proibição fosse divulgado pela imprensa. Tratava-se, sem dúvida, de uma perseguição ideológica só possível numa sociedade em que imperava o abuso das autoridades.
Calabar, o elogio da traição foi descrita pela Divisão de Censura de Diversões
Públicas como uma propaganda subversiva desenvolvida de forma subliminar nos diálogos, canções e conteúdos abordados conforme nos esclarece a pesquisadora Mônica de Souza Alves da Cruz (2002). A pesquisa nos documentos do processo de censura da peça ainda aponta trechos dos ofícios dos censores que citam em síntese que o texto tinha a intenção de transfigurar um traidor em heroi por esse afrontar o poder constituído.
Alertavam também os ofícios que a peça buscava subliminarmente uma libertação total com vistas à implantação de uma nova sociedade. Para os produtores do espetáculo a perda financeira, obviamente, foi completa causando a falência dos envolvidos. Nas palavras
de Yan Michalski (1979, p. 51) esse prejuízo foi "o maior causado pela censura a uma produção isolada".
A primeira montagem idealizada para o espetáculo e nunca levada a cena tinha a seguinte ficha técnica:
Produção: Fernando Torres Diversões Direção: Fernando Peixoto
Diretores assistentes: Mário Masetti e Zdenek Hampi Direção de produção: Cacá Teixeira
Assistente de produção: Renato Laforet e Leda Borges Direção musical: Dori Caymmi
Orquestração: Edu Lobo Coreografia: Zdenek Hampl Cenários: Hélio Eichbauer
Figurinos: Rosa Magalhães e Hélio Eichbauer Iluminação: Antônio Pedro
Sonoplastia: M. S. 2001 Divulgação: Leda Borges
Elenco principal: Tete Medina, Betty Faria, Hélio Ari, Antônio Ganzaroili, Lutero Luís, Flávio São-Tiago, Perfeito Fortuna, Dioceses Gouvêa e Odilon Wagner
Elenco de apoio: Ana Mana Vianna, Angelo de Marcus, Antônio Pompeu, Anselmo di Vasconcelos, Belara Guidi, Carlos Alberto Santana, Dirce Morais, Dulcilene Morais, Imara dos Réis Ferreira, Ivens Godinho, José Roberto Mendes, Katia D‘Angelo, Liucoin dos Santos, Márcio Augusto, Maria Alves, Maria do Carmo, Nilton Brandão, Nina de Pádua, Octávio César, Paschoal Viliaboim, Paulo Afonso Gregório, Paulo de Tarso, Paulo Teira, Suzanne Motta Jacob, Taíse Costa, Thelmo Marques, Viliam e Wladiniir Gonçalves.
Músicos: Danilo Caymmi, Dori Caymmi, João Palma, Maurício Mendonça e Tenório Jr. (BUARQUE; GUERRA. 1973, p.5)