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Calma As letras não foram remasterizadas.

A propaganda não deixa dúvidas sobre a importância das letras para os legionários, e inclusive enfatizava a palavra letra, colocando-a no interior de um retângulo de linhas finas, mas perceptíveis. Um fã entrevistado endossou essa interpretação ao narrar, de modo um pouco diferente, o texto do anúncio. Disse ele: “No lançamento dos [discos] remasterizados tinha uma propaganda que dizia assim: ‘as músicas estão mais limpas, mas não se preocupe, as letras continuam as mesmas’”. Em seguida, acrescentou outro fato: “e você pode notar que coletânea de banda normalmente não tem letra no encarte, mas as da Legião têm. Mais do Mesmo tem” (A., 30 anos, sexo masculino).

Em outros relatos retirados dos dois conjuntos de dados provenientes da pesquisa realizada para este trabalho71, nota-se claramente que, para os legionários, o ato de

compreender a letra é o ponto de partida para a constituição da identificação com a banda: Como eu disse, pra mim no início era tudo barulheira. O que valia era quanto eu conseguia sacudir o pescoço mais do que meu irmão (risos). Mas, assim, quando eu comecei a distinguir as letras da Legião que eu percebi que era isso que interessa. Eu acho que isso pouco se discute até entre os fãs (MC. 26 anos, sexo feminino).

Eu sempre ouvi, mas eu nunca tinha parado pra ver a letra. Aí de repente, um dia, sei lá, eu estava ouvindo e nossa essa letra é legal, nossa essa também. Ah, é da mesma banda. Aí juntava uma música e outra assim, né? Nossa, todas estas músicas são da Legião, ah que legal! Pronto, virei fã (risos) (AM.

25 anos, sexo feminino).

Já havia escutado algumas músicas antes, mas com ‘consciência’ de que a música era da Legião eu devia ter meus 14 anos. Adorava o clipe ‘Hoje a

noite não tem luar’ que passava na MTV [...]. Meu irmão comprou o [disco]

acústico e me mostrava as músicas tentando me fazer gostar. No início tive um pouco de rejeição, não ‘pensava’ muito no que ele dizia, não me fazia tanto sentido... Mas isso foi por pouco tempo (20 anos, sexo feminino). No princípio eu só me interessava pela melodia, eu ainda era pré-adolescente... depois eu comecei a entender as mensagens, as críticas, a irreverência, a inteligência do Renato, a fragilidade humana...quando fui ao primeiro show (1990 - Ginásio Paulo Sarasate, Fortaleza) eu só tinha 16 e já tinha aprendido um bocado... fiquei apaixonado cada vez mais a cada dia pela Legião... aprendi a ver a vida de outra maneira (26 anos, sexo masculino).

As letras, além de atribuírem um sentido reflexivo à “barulheira” mencionada em uma das narrativas, atestam também a proeminência do vocalista sobre os demais integrantes da banda, principalmente no caso da Legião Urbana, em que Renato Russo é o autor de todas elas. Essa representação está expressa na denominação de “poeta do rock brasileiro”, atribuída a ele pelos meios de comunicação e logo adotada pelos fãs para se referir a seu ídolo. Um dos legionários entrevistados comparou a obra da Legião Urbana a de um escritor, acentuando as diferenças entre a literatura e a música.

71 As narrativas provenientes dos questionários respondidos por e-mail serão identificadas apenas pelo sexo e idade do indi- víduo. Por outro lado, as narrativas provenientes das entrevistas são identificadas com uma letra escolhida aleatoriamente, seguida do sexo e idade do entrevistado.

Você gostar da Legião é como você gostar do trabalho de um autor, assim, um bom autor. Sabe, você gosta daquele autor e você acompanha o trabalho do autor. É a mesma coisa. Mas é óbvio que a música é muito mais dinâmica. Um livro, você não para pra ler. A maioria não consegue parar pra ler. Já a música não, tá ali tocando e você tá ali. A dona de casa tá fazendo o trabalho dela e tá ali, ouvindo. Então, é uma coisa muito mais intensa, muito mais dinâmica. Mas você pode gostar como se fosse um autor (A., 30 anos, sexo masculino).

Renato Russo, embora se considerasse um letrista e não um poeta, nunca negou seu gosto pela escrita. Prezava por uma linguagem simples, mas não simplória na construção de suas letras, como afirmou em uma entrevista, recitando os versos da canção Há tempos.

Ora bolas, nós estamos num país que tem 60 por cento de analfabetos. Eu prefiro falar numa linguagem simples, mas dizendo coisas que me são caras, preciosas, tipo: ‘Disseste que se tua voz você fosse igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria a vizinhança inteira’. Isso poderia ter sido escrito há dois mil anos, como pode ter sido escrito agora (RUSSO, 2000, p. 1994).

Interpretação que se aproxima das realizadas pelos fãs, que enxergam na simplicidade das letras o “grande impacto” causado pela Legião Urbana no público jovem. O mesmo legionário que comparou a obra da Legião Urbana com a de um autor fez também a afirmação a seguir.

A letra da Legião é uma coisa assim [...], é tão interessante como as pessoas entendem a letra, né?, que a pessoa que tem um estudo básico, ela se identifica sabe? Ela consegue absorver aquela mensagem com muita facilidade. A letra da Legião, ela teve um grande impacto por isso. Você não precisa dissecar a letra para entender. A pessoa escuta e entende a letra da Legião com a alma. Você não precisa parar para analisar os versos, você não precisa parar pra analisar, você pega a mensagem e aquilo já te dá um insight sobre alguma coisa, entendeu? É fantástico! (A., 30 anos,

sexo masculino).

Além disso, outro aspecto significativo do processo de criação de Renato Russo era a preocupação em fugir das referências geográficas e contextuais ou quaisquer outras que poderiam fazer com que as letras sucumbissem no tempo. Sobre essa questão, em entrevista ao também músico e compositor Leoni, ele disse:

Gosto de deixar a música bem em aberto. Sabe, de você ter aquela situação de ouvir a música dez anos depois e, independente da instrumentação ter envelhecido, a letra está lá, escrita de uma maneira que, independente do tempo, você vai se identificar. Tem letras que eu sei que se tivesse feito referência sobre coisas daquela época, hoje em dia ia precisar de nota de rodapé (SIQUEIRA, 1995, p. 74).

Não por acaso, quase dez anos após sua morte, em 1996, a produção artística da Legião Urbana continua sendo objeto de identificação por parte de pessoas que só conheceram a banda após o seu término, ocorrido no mesmo ano em que Renato Russo faleceu. Além da preocupação em não se prender a referências geográficas e contextuais, existe ainda uma

característica significativa das letras escritas por Renato Russo que as fazem permanecer como um intenso mecanismo de identificação entre os fãs e o ídolo: o fato de que a grande maioria das letras está escrita na primeira pessoa. Ou seja, “quando a pessoa canta”, explica o cantor na mesma entrevista, “a música acaba sendo a história dela também”. Escrever na primeira pessoa tem ainda, na visão de Renato Russo, outro significado: “quase todas as letras da Legião martelam esse tema da individualidade, que você deve ser você mesmo” (SIQUEIRA, 1995, p. 74). Assim, escrever na primeira pessoa é o modo mais expressivo de fazer “martelar” a individualidade, a afirmação de si. De construir, como afirmou a fã citada anteriormente, as “ideias” da banda e consequentemente de seus admiradores.

Desse modo, é mais pela letra do que pela sonoridade que os fãs da Legião Urbana constroem a identificação com o ídolo e também entre si. A importância da letra para a constituição da identidade de legionário está expressa na grande quantidade de narrativas que atestam esse fato, fazendo dele, como afirmou uma entrevistada num dos relatos citados anteriormente, um dos aspectos “que pouco se discute entre os fãs”. Assim, independente das diferenças socioeconômicas e geracionais entre os legionários, as letras das canções são os veículos pelos quais se estabelece essa identidade.

Na verdade, pode-se dizer que, para os legionários, é na letra que reside o sentido da música. Levando isso em consideração, pode-se questionar a afirmação feita por Corrêa (1989, p. 95) em seu estudo sobre o rock, segundo a qual “o sentido da música reside menos na mensagem das letras do que naquilo que está implícito no respectivo estilo ou gênero musical”. Pelo menos no caso aqui estudado, ocorre justamente o contrário. O sentido da música reside muito mais na mensagem expressa pela letra do que nas características do gênero ou estilo musical. Não só os sentidos da música estão nas letras, como o próprio segredo para compreender essa identidade nela se concentra.