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Camadas Sociais, Incerteza e Redes sociais

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CAPÍTULO III – CAMADAS SOCIAIS E NOVAS TERRITORIALIDADES

III.4 Camadas Sociais, Incerteza e Redes sociais

No primeiro capítulo, fizemos referência ao fato de que o acirramento da concorrência capitalista tem como efeito intensificar o grau de incerteza com relação à reprodução dos grupos sociais de uma maneira geral. Esse tipo de incerteza, juntamente com a incerteza proveniente da debilitação dos quadros institucionais, de acordo com nosso argumento, contribuiu para que as preocupações relacionadas com o desenvolvimento se direcionassem para o local, porque, quando a incerteza com relação ao futuro cresce, existe uma tendência para se prestar mais atenção ao que se encontra perto: o local, em contraposição ao regional, ao nacional e ao global. No entanto, com a apresentação das três camadas sociais de Braudel, a primeira pergunta que ocorre é como essa incerteza se manifesta junto aos habitantes das três camadas sociais aqui consideradas? Decorre dessa pergunta uma outra: como ocorre a reprodução social no interior dessas camadas e as inter- relações que entre elas se estabelecem?

No que concerne à camada da vida material, um primeiro ponto a ser aventado é o que diz respeito ao fato de que a sua reprodução material está ligada ao acesso aos recursos naturais e à produção para o autoconsumo. Pode-se dizer que essa produção está

35 Przeworsky (1991:242) põe em evidência essa questão:“(...) a teoria econômica marxista jamais possuiu

importância para a esquerda. A teoria de Marx proporcionou uma análise muito útil, constituída de três aspectos: primeiro, o capitalismo baseia-se na exploração (a fonte do lucro é a mais-valia); a propriedade privada dos meios de produção é a fonte, simultaneamente, da injustiça e da irracionalidade do capitalismo: terceiro, a taxa de lucro declinante á a fonte das crises. Essa teoria possui utilidade política apenas como justificativa para objetivos revolucionários, especificamente, para o programa de nacionalização dos meios de produção. A economia de Marx, mesmo em suas versões mais sofisticadas, não se constitui em uma ferramenta útil para abordar as reivindicações redistributivas dos trabalhadores no capitalismo, sendo inútil para administrar as economias capitalistas. É fácil dizer: ‘e daí?’, mas o fato é que todos os movimentos de massa da esquerda tiveram de defrontar-se precisamente com essas tarefas.”

condicionada a fatores como a qualidade da água, à alimentação animal e à higiene pessoal e dos grupos familiares, bem como a mudanças na relação quantidade de pessoas versus terra disponível, e à capacidade das famílias de organizarem seu próprio trabalho, no sentido de obterem dos recursos naturais disponíveis aquilo de que necessitam. E esse condicionamento envolve incertezas como a quantidade de chuvas e a ocorrência de doenças que, como a malária, diminuem a capacidade produtiva desses grupos familiares.

Além disto, devemos considerar que a sobrevivência dos habitantes da camada da vida material não se encontra relacionada apenas com a manutenção e reprodução de indivíduos isolados, embora organizados em grupos familiares. Isto é, a disponibilidade de bens e recursos aqui expressa um modo de ser que ultrapassa as unidades familiares e alcança algo próximo à idéia de comunidades, comunidades rurais, no caso. As formas de consumir e de produzir estão não só introjectadas nas famílias, mas em grupos de famílias que conformam redes sociais, onde estão definidas as maneiras de fazer e de não-fazer; o que é bom e o que é ruim, conformando um conjunto de relações sociais que, diante do que está dito acima acerca da incerteza, a relativiza, porquanto essas redes sociais são também redes de proteção social.36

Uma questão importante que deve ser pontuada é aquela referente ao fato de que as redes sociais não podem ser vistas apenas como tendo uma função, a função de proteger seus membros, no caso, da incerteza com relação à produção e ao consumo material; ou mesmo da expansão do capitalismo e as mazelas que deixa em seu rastro. Elas são próprias da natureza humana, como bem deixa claro o trabalho de Norbert Elias. Para esse autor, não há como pensar os indivíduos, ou grupos de indivíduos de forma isolada do contexto social no qual eles se encontram; e nem como indivíduos indiferenciados como que fazendo parte de uma estrutura qualquer, como uma família, ou uma classe social. Relações sociais são um dado, não uma opção; elas não são objeto de escolha para que se possa alcançar algum tipo de objetivo, embora elas se prestem a isto também, como a proteção social ou o desenvolvimento econômico.37 Voltaremos a esse ponto nos Capítulos V e VII.

O que importa reter no momento é que a idéia de sobrevivência e reprodução social inerente aos habitantes da camada da vida material não envolve apenas relações materiais com o meio no qual seus habitantes se encontram inseridos, mas é um conjunto de relações sociais que permeiam tanto a ação dos atores, quanto seus modos de vida. Essa observação deve ser estendida para a nossa compreensão das demais camadas sociais.

Dessa forma, devemos pôr em evidência duas questões. Primeiro, que as idéias de sobrevivência e reprodução social estão relacionadas, além da disponibilidade de bens e serviços necessários à reprodução material das pessoas, famílias, grupos, comunidades, etc., aos gostos, estilos e imperativos inerentes a cada uma daquelas camadas que, além de possibilitar sua diferenciação social, condiciona sua existência. Segundo, redes sociais, como as familiares, indiferentemente da camada social, baseadas em laços de amizade, de crenças religiosas, de interesses comuns, organizadas em torno de outros padrões institucionais e formas de regulação social, que não aquelas dadas pelas relações mercantis, cortam transversalmente as relações mercantis, de modo que essas relações nunca podem ser vistas separadamente das demais.38

36 Ver, nesse sentido, Castel (2001), além dos trabalhos de Polanyi e Santos, discutidos no Capítulo anterior e o

interessante estudo realizado por Barone (1996).

37 Como afirmou Polanyi: as sociedades desenvolvem formas de se proteger do avanço da economia de mercado;

ou como afirmaram Putnam & Goss (2003:13), no que respeita ao desenvolvimento econômico: “las redes sociales importan”.

Posto isto, os habitantes da camada do mercado têm como imperativo o fato de que suas respectivas sobrevivências encontram-se ligadas ao sucesso - ou não - de sua participação em redes de trocas mercantis, onde reside também a incerteza que lhes acomete. Essa incerteza encontra-se relacionada ao fato de encontrarem - ou não - mercado para as mercadorias que vendem: trabalho, por exemplo; ou trabalho, associado à oferta de bens e serviços; ou tão somente bens e serviços, como uma loja no centro da cidade. As pessoas e grupos aqui se diferenciam através da capacidade que possuem de se relacionar com a economia de mercado, em função da quantidade de renda que conseguem acessar, renda essa cujo destino está relativamente mais voltado para o consumo do que para a poupança ou para o investimento.

Esse, por fim, é um dos elementos que distinguem os habitantes dessa última camada com aqueles que habitam o "antimercado" ou o "contramercado". Isto é, de acordo com Braudel, uma das principais características desse grupo é o fato de serem flexíveis com relação à sua capacidade de realizarem gastos de investimento. Adaptam-se facilmente às oportunidades de lucro, sendo ecléticos, isto é, não especializados como os da camada do mercado, com relação ao setor onde será realizado o investimento: Basta-[lhes] mudar o fuzil

de ombro, disse Braudel. Outra distinção é o fato de sempre terem assento nas decisões

governamentais, fazendo com que essas sempre tendam a favorecer seus interesses. Sua característica principal, no entanto, é de estarem envoltos na disputa pelo capital circulante no sentido de ampliarem seus estoques de riqueza.

Um último ponto deve ser aventado. Isto é, temos que considerar uma grande massa de pessoas que nem estão inseridas nas redes de troca mercantis, nem se encontram diretamente ligadas à disponibilidade de recursos naturais. O surgimento dessa grande massa de pessoas, aos nossos olhos, é decorrente da intensificação da urbanização nos países e regiões subdesenvolvidas e dos processos migratórios em direção aos países chamados de desenvolvidos, que se verifica sobretudo nos últimos 30 anos. O que as distingue é o elevado grau de pobreza que lhes é inerente. Nossa inclinação é incluí-los na camada da vida material. São numerosos grupos sociais que fazem desenvolver e se valem de outras formas de reprodução social, como a ampliação da dádiva e do desenvolvimento de formas de solidariedade, que lhes possibilita a reprodução material e social, mas em condições não raro subumanas.

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