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CAPÍTULO IV PELAS SENDAS DA EPISTEMOLOGIA DA

4.2 CAMINHOS PERCORRIDOS NO PROCESSO

A opção pelo tipo de pesquisa qualitativa deu-se em função da disponibilidade dos participantes pensarem livremente sobre o tema deste estudo. A pesquisa qualitativa faz emergir aspectos subjetivos e atinge motivações não explícitas, ou mesmo conscientes, de maneira espontânea. (ROSA, 2006).

Na pesquisa qualitativa, o ponto de partida são questões, ou focos de interesses amplos, que vão se definindo na medida em que o estudo se desenvolve. (TURATO, 2005).

Como visamos os aspectos relacionados ao cuidado da pessoa, procuramos compreender qual o significado de pesquisa qualitativa em saúde. E constatamos, em Minayo (2000, p. 21-22), que a pesquisa qualitativa tenta dar conta de um universo de significados, motivações, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que significa um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

Verificando a aplicação da abordagem qualitativa nos últimos 30 anos, observamos que tem se mostrado uma possibilidade de investigação científica muito promissora. Apesar de ter surgido no seio das ciências humanas, tem hoje uma expressiva expansão para outras áreas do conhecimento, como as da saúde.

Averiguando as distintas interpretações da abordagem qualitativa, compreendemos que ela se constitui de um conjunto de diferentes

técnicas interpretativas que visam descrever e decodificar um sistema complexo de significados e tem por objetivo traduzir e expressar o sentido dos fenômenos do mundo social. (NEVES, 1996).

Compreendendo a diversidade de desenhos teóricos metodológicos que podemos utilizar em uma pesquisa com uma abordagem qualitativa, optamos por utilizar a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) ou “Grounded Theory”.

A TFD é uma metodologia que foi idealizada por Barney Glaser e Anselm Strauss, sociólogos norte-americanos, sendo expressa originalmente na obra “The Discovery of Grounded Theory: strategies

for qualitive research”. (STRAUSS; GLASER, 1967).

Santos e Nóbrega (2002) apontam que se trata de um método de investigação qualitativa que oferece explicações sobre como os eventos ocorrem e proporciona ao pesquisador a possibilidade de explorar a riqueza dos dados em contextos relativamente desconhecidos, para o entendimento interpretativo daquela realidade.

Para melhor fundamentar esta nossa expectativa, Glaser (1978) refere que os elementos da Teoria Fundamentada nos Dados, conhecida como abordagem ou como método, trata do modo de construir indutivamente uma teoria assentada nos dados, por intermédio da análise qualitativa destes e que pode agregar ou relacionar outras teorias, podendo acrescentar ou trazer novos conhecimentos ao fenômeno.

Strauss e Corbin (2002) explicam que uma teoria se constitui em um conjunto de categorias bem construídas, com temas e conceitos em sintonia, sistematizados por meio de orações inter-relacionadas que formem um marco teórico explicativo de algum fenômeno social. Portanto, os conceitos usados na construção de teorias são abstratos (conceitos que independem de tempo e espaço), sendo que a abrangência de uma teoria é determinada pela abstração de seus conceitos ou pela capacidade de o investigador abstrair relações. Ao descrever as relações entre os conceitos, o teórico/pesquisador estará estabelecendo os componentes dos conceitos ou as categorias.

Neste caso, para que seja realizado esse processo de construção, é necessário que o pesquisador seja sensível aos fatos ou fenômenos naquele contexto.

Vale ressaltar, conforme Glaser e Strauss (1967), que o objetivo desta abordagem é justamente gerar uma teoria que explica o fenômeno, ou seja, gerar uma teoria fundamentada nos dados, baseando-se na ideia de codificar, que é o processo de analisar os dados, neste referencial.

Nessa abordagem metodológica, o termo “teoria” é a percepção que o pesquisador desenvolve da realidade, na qual conceitos e

constructos são identificados e relações entre eles são estabelecidas. A teoria vem a ser o produto dos dados empíricos que nos permite compreender as experiências das pessoas. (STRAUSS; GLASER, 1967).

A codificação baseia-se em três etapas: aberta ou inicial – deve se fixar rigorosamente nos dados, ser feita utilizando palavras que deem ideia de ação. Isso nos possibilita evitar saltos conceituais antes do trabalho analítico necessário. Os códigos iniciais são provisórios, comparativos e fundamentados nos dados. Esta fase pode levar a perceber as falhas, as lacunas, a falta de dados indispensáveis ao trabalho, possibilitando o retorno às fontes e recuperação dos dados complementares. Existem vários modos de fazê-la, pode-se codificar palavra por palavra, linha por linha e ainda incidente por incidente;

axial – nesta etapa, o pesquisador relaciona as categorias às

subcategorias, especificam-se as propriedades e dimensões de uma categoria. A estratégia nesta fase é a de recompor os dados de forma coerente; e, por fim, a seletiva – é o processo de integrar e refinar a teoria, última etapa em que o pesquisador escolhe, a partir do processo de análise e movimento circular dos dados, uma categoria principal, que se constituirá no modelo teórico, demonstrando a relação com as demais categorias emergidas. (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Autores como Santos e Nóbrega (2002), Maia (2004), Mussi et

al. (2006) e Sousa (2008) apontam as contribuições da TFD para

enfermagem em uma perspectiva para aprofundar conhecimentos gerais da enfermagem e um meio de gerar teorias a partir de suas práticas.

Acreditamos na importância de se evidenciar algumas considerações que são essenciais no que se refere a algumas especificidades desta abordagem em relação às demais de cunho qualitativo. (DANTAS, 2008).

A revisão de literatura não é o passo inicial do processo de pesquisa, uma vez que emergirá da coleta e análise dos dados. Eles é que direcionarão o pesquisador a obter mais informações na literatura.

As hipóteses são criadas a partir do processo da coleta e análise dos dados e não antes de o pesquisador entrar em campo.

As teorias geradas podem ser formais ou substantivas, uma vez que são construídas em áreas de pesquisa empírica. Dessa forma, o conhecimento constrói-se a partir da interação social, de informações e compreensão da atividade e das ações humanas.

Os dados são coletados e analisados concomitantemente, descrevendo, portanto, as primeiras reflexões no início da fase de coleta. Este processo denomina-se análise constante.

O método é circular e por isso permite ao pesquisador mudar o foco de atenção e buscar outras direções, reveladas pelos dados que vão entrando em cena.

Trabalha-se com o conceito de amostragem teórica, que se refere à possibilidade de o pesquisador obter um entendimento mais profundo durante a análise dos dados acerca da realidade a ser estudada. O pesquisador decide quais informações são necessárias e onde encontrá- las, direcionando os questionamentos aos temas emergentes e importantes para o estudo. Assim, podem-se realizar pesquisas em mais de um campo de coleta de dados, ou ainda, reestruturação dos instrumentos, com mudança no foco das perguntas (no intuito de especificar e explorar a realidade investigada), ou na forma como é questionada, de modo a se aproximar do entendimento dos sujeitos e, assim, esgotar o máximo de informações.

A construção de memorandos consiste numa forma de registro referente à formulação da teoria e podem tomar conformação de notas teóricas, notas metodológicas, notas de observaçãoe subvariedade delas. Eles são construídos durante todo o processo de coleta e análise dos dados. (STRAUSS; CORBIN, 2008).