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SEGUNDA EMBAIXADA: (ENTRE) TONS DO PASSADO E PRESENTE

2.1 OS LUGARES DE MEMÓRIA DA VILA DE PONTA NEGRA

2.1.4 O Campo do Botafogo

Segundo Carlos (1996), os espaços públicos são lugares que o homem habita dentro da cidade que dizem respeito a seu cotidiano e a seu modo de vida [...], pelas formas através das quais o homem se apropria e que vão ganhando o significado dado pelo uso.

Como elemento urbano, o campo de futebol é compreendido como um agente de transformação social, espaço agregador de inclusões, um local que atrai e proporciona uma conexão entre os sujeitos que dele se utilizam e o valorizam como local “destinado a atender a atividades funcionais, sociais e/ou de lazer” (LYNCH, 1997, p. 51-87). Assim, observamos nesses espaços uma relação de indissociabilidade tecida entre os espaços destinados ao lazer e dos usuários da comunidade. Ainda, verificamos que esse ele é dotado de um sentimento de pertença que viabiliza a permanência dos sujeitos nesses nesse lugar.

Hall (2005) nos diz que é nos espaços de uso coletivo que se forma o cenário para a realização de diversas atividades como circulação, passeio, recreação, contato com a natureza, socialização ou, simplesmente, observação da vida que neles acontece, onde se dá a formação de novos grupos e diferentes

relações sociais. A apropriação dos espaços públicos tem de ser percebida nas tensões que a trabalha e que a constitui entre sua distância e proximidade.

O campo do Botafogo Futebol Clube está localizado próximo ao Morro do Careca (com uma faixa de terra de 6.962,09m²), e é a única área de lazer pública da comunidade, que vem sendo utilizada pelos moradores desde a década de 1951.

Figura 21 – localização do Campo do Botafogo

Fonte: Google Maps. Adaptado por Daniel Maya, 2017.

O espaço foi criado com a finalidade de desenvolver e fortalecer a prática desportiva para incentivar a cidadania dos indivíduos participantes no contexto sociocultural local. Pelas suas atribuições junto à comunidade, desde a sua fundação, o clube foi reconhecido como de utilidade pública pela Lei Municipal nº 2.398, de 9 de dezembro de 1976 (BOTAFOGO, 2004).

A paisagem do entorno do Campo do Botafogo, (Figura 22 e 23) é uma das mais singulares da Vila de Ponta Negra, onde encontramos debruçadas as dunas do Morro do Careca, compondo um cenário que nos convida a apreciar o frescor que refloresce a alma que quase voa de céu a fora.

Figura 22 e 23 – Paisagem do entorno do Campo do Botafogo

Fonte: Acervo da Pesquisadora, 2017. Fonte: Richelly Sousa, 2016.

Por estar localizado em uma área de valor dentro da comunidade, observamos que o espaço desperta o interesse de grandes investidores, que tencionam transformar o local em fonte de renda, gerando assim, constantemente conflitos entre os moradores, que lutam para garantir que esse espaço, que guarda memórias e resistência, permaneça dentro da comunidade.

Como lugar de memória, seu Pedro Correia, atual Mestre dos Congos de Calçola, nos relata que esse campo foi idealizado por seu irmão o Mestre Zé Correia, que juntamente com outros brincantes, fizeram um mutirão de limpeza, para a retirada da vegetação, passando a abrigar um Campo de futebol, onde a comunidade pudesse utilizar como área de lazer nos finais de semana. Ainda segundo relato de Mestre Pedro, não tardou a aparecer um suposto dono do terreno, reivindicando o local pertencente aos moradores. Dessa forma,

[...] a área foi aumentada aos poucos e hoje é 6.745 metros quadrados. O mato era arrancado à força, no braço, pelos pescadores que moravam na praia [...] aqui era ainda vila de casas e o acesso era feito por estrada de terra [...] criaram o Clube chamado Pau Ferro, com o tempo o nome foi mudado pra Botafogo [...] (O POTI, 28/07/2002).

Segundo seu Pedro Correia, logo os conflitos pela posse do campo do Botafogo começaram com o aparecimento de um homem chamado Romário, que

chegou no local fazendo medições em um terreno próximo ao Morro do Careca. Achando a cena estranha, os moradores se aproximaram e indagaram o que estava acontecendo. Sem fornecer detalhes, ele deixou o número e pediu que o Presidente do Clube entrasse em contato (O POTI, 28/07/2002). De acordo com o jornal O Poti

[...] o presidente telefonou para o corretor e ouviu dele que o terreno era uma propriedade privada e que ali seria construído um condomínio de apartamento [...] ele havia dito ter comprado o Campo do Botafogo por 400 mil reais há dois anos, numa transação com Marcos Santos [...]. (O POTI, 28/07/2002).

Temendo perderem seu espaço de lazer e encontro, a comunidade se mobilizou para defender o que era seu por direito, divulgando nas mídias a situação pelo qual os moradores vinham sofrendo a muito tempo, com ameaças do poder público e privado para a construção de investimento de alto padrão na área.

Em 2003, esse espaço voltou a ser alvo de grandes investidores do setor imobiliário, que certamente, trariam resultados negativos para a comunidade, como o aumento da exclusão social e o aumento da violência. Novamente, a população se mobilizou para mais essa luta, denunciando nos vários canais de comunicação o fato, na tentativa de tornar público e buscar parceiros sociais de forma a resguardar o campo do Botafogo em poder da comunidade.

Além de servir como local para prática de atividades esportivas diárias dos moradores da comunidade, o lugar abriga também várias ações educativas, onde são ministradas oficinas, voltadas para o artesanato, confecção de brinquedos antigos, bem como, diálogos sobre questões sanitárias e ambientas para crianças, adolescentes e adultos.

Preocupado com a situação das crianças que se amontoavam nas ruas e calçadas da Vila, no contra turno escolar, seu Canindé, morador da Vila, decidiu cuidar do espaço e coordenar a escolinha do Botafogo. Projeto voltado para crianças da comunidade, que visa retirá-las das ruas, ocupando o seu tempo livre com o futebol. Para participar, as crianças devem tirar boas notas e manterem a frequência em sala de aula. Nesse sentido, o senhor Canindé relata: “Não é só a gente olhar pra eles, eles tem que olhar pra gente também e saber que a gente está no meio deles. Tudo que a gente quer é união e o respeito deles. A gente ensina que tem que ser bom em casa, na rua, pra tudo e pra todos”.

Percebemos que, para os brincantes dos Congos de Calçola, o Campo de Botafogo representa um lugar que guarda memórias, que a partir dos valores comunitários vivenciados e construídos em coletividade, serviu como instrumento para a libertação e resistência da população, (re)criando formas de interações e de locais dedicados ao lazer da comunidade, como também o fz politicamente o Conselho Comunitário.