SEGUNDA EMBAIXADA: (ENTRE) TONS DO PASSADO E PRESENTE
2.1 OS LUGARES DE MEMÓRIA DA VILA DE PONTA NEGRA
2.1.5 O Conselho Comunitário
Os moradores da vila perceberam que precisavam se organizar politicamente e é desse pensamento que é fundado, em 1987, o Conselho Comunitário14, que está
localizado na área central da comunidade, na rua Manoel Coringa de Lemos, principal via de acesso à comunidade. Situado próximo a Igreja São João Batista e ao lado do salão paroquial, este é um dos prédios mais antigos da comunidade, como se vê na imagem abaixo, fotografado em 2015, dentro do projeto de extensão.
Figura 24: Conselho da Vila de Ponta Negra – Natal/RN
Fonte: Acervo do Projeto de Extensão Encantos da Vila de Ponta Negra, 2015.
14De acordo com a Proposta do Regimento do Conselho Comunitário, o Art. 1º diz que este é um órgão consultivo e propositivo, constituindo-se em espaço de interlocução com vários setores da sociedade.
O Mestre dos Congos, o Sr. Pedro Correia, nos relatou que antigamente o espaço hoje ocupado pelo Conselho Comunitário, foi cedido pela Arquidiocese de Natal, ao Bispo D. Eugênio, para a construção de um Centro Social, em 1955. O Centro Social da Vila de Ponta Negra foi implantado, a princípio, para as mães carentes da comunidade, onde recebiam doações de alimentos como feijão, fubá, farinha, além de roupas, vindas de navio dos Estados Unidos.
Posteriormente, o espaço passou a abrigar as manifestações dançantes como os Congos de Calçola e os demais folguedos para os ensaios. E, ao longo do tempo, esse espaço diverso foi sendo intensamente usufruído pela comunidade que via nele um local de acolhida, onde juntos se articulariam para a melhoria da qualidade de vida da comunidade.
A comunidade enxerga nesse espaço comum e lugar de memória, onde circulam uma mescla de raças, idades e crenças, um local reservado e propício ao encontro, a união, a trocas de saberes e experiências, fortalecendo assim, a identidade da população e o sentimento de pertença ao lugar de moradia.
Em 2004, esse espaço foi testemunho de Mestres, brincantes que devido a vulnerabilidade e a situação de abandono sentida pelos grupos de danças tradicionais da Vila, se reuniram no Conselho Comunitário para firmar uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em seu livro, Alves (2010), coordenadora do Projeto Encantos da Vila relata,
A partir de uma decisão coletiva retirada em reunião no Conselho Comunitário da Vila de Ponta Negra, em 2004, ficou decidido que em função da vida artístico-cultural pulsante naquele contexto e pelas fragilidades que os grupos protagonistas de uma arte tradicional daquela comunidade enfrentavam, sobretudo em relação à falta estrutura e de mobilização de cada um e de todos, precisaria ser criado um projeto que viesse a ser um possível fio condutor dessa mobilização e reestruturação. Extensivo a esse encaminhamento, houve então a tomada de decisão referente à criação do Projeto de extensão universitária Encantos da Vila. (Alves, p. 22, 2010).
Com a implantação do Projeto Encantos da Vila, a comunidade viu novamente esse espaço de lazer dar vez e voz a arte e cultura produzidas pela comunidade, promovendo e englobando nele, oficinas, seminários, cursos, ensaios, reuniões e festas que fazem parte do calendário do vilarejo.
Figura 25 e 26: A comunidade com os brincantes e Mestres no Conselho Comunitário
Fonte: Acervo do Projeto de Extensão Encantos da Vila, 2010.
Segundo o Mestre dos Congos de Calçola, Sr. Pedro Correia, o espaço do Conselho Comunitário foi um local de grande importância, não só para os integrantes do grupo, mas para toda a família dos brincantes, já que a maioria das mulheres – mães, irmãs e esposas dos componentes dos grupos circulavam por ele, participando de cursos de capacitação, como corte e costura, corte de cabelo e manicure e pedicura e artesanato.
Ainda de acordo com Sr. Pedro Correia, Mestre dos Congos de Calçola, foi no finalzinho da década de 1980 e começo da década de 1990, já como Conselho Comunitário, que os brincantes do grupo começaram a utilizar esse espaço para os ensaios.
A gente pegava a chave com o Presidente do Conselho Comunitário para ensaiar. Os rapazes que se interessavam ficavam lá dentro, mesmo assistindo ele aprendia com os outros. Quando ele ia para o Conselho, ele já sabia noventa por cento, porque ele via a gente brincando no meio da rua. Muita gente ia pra lá pra ver a gente dançar e ia aprendendo.
Por isso, o Conselho Comunitário da Vila de Ponta Negra é um lugar onde brota memórias e lembranças, experiências e vivencias entremeadas no estar junto entre sujeitos que se identificam, que se expressam corporalmente por meio da dança, do canto, dos gestos, do riso, sujeitos que se reconhecem como atores e protagonistas de sua própria história de vida. E é nesse espaço de memória que
também se reuniam os congos de calçola, em 2010, dentro do projeto Encantos da Vila, para seus ensaios, conforme figura 27 seguinte.
Figura 27 – Ensaio dos Congos de Calçola da Vila de Ponta Negra, no Conselho Comunitário.
Fonte: Acervo do Projeto de extensão Encantos da Vila, 2010.
Reforce-se, portanto, que o Conselho Comunitário é um espaço urbano de fato, que afeta e ao mesmo tempo é afetado pela manifestação brincante dos Congos de Calçola, cumprindo assim, seu papel social, como espaço que luta junto com os brincantes pela preservação, importância e reconhecimento das tradições locais. Assim, concluímos que esse espaço, tem um papel fundamental dentro da Vila, principalmente para os moradores mais antigos da comunidade, que o consideram como um dos lugares integradores de memória mais efervescente do vilarejo, guardando histórias de brincadeiras, aprendizados, tristezas e vitórias dos seus habitantes.