uma obra terminada, pretender traçar a geografia de suas unidades, será levado a colocar fronteiras tão
2.3.1. Os Polos da Narrativa: o significado da nomenclatura recorrente do tema vampiresco
2.3.1.1. Campo Contextual – Polo das Forças do Mal
A ideia de que a nomenclatura recorrente do tema traça uma linha pela qual perpassa o conteúdo da trama revela que Drácula, de Bram Stoker, é uma história que aborda em seu eixo central a questão da morte e, consequentemente, da vida, dentre outros conceitos que permeiam o assunto, tais como o tempo e o espírito.
Não é difícil encontrar narrativas fantásticas que envolvam o tema da morte e seus correlatos, mas, em Drácula, as forças determinantes para o desenrolar da trama estão amarradas a conceitos realistas, ou seja, muito mais de domínio humano e terreno do que propriamente sobrenatural.
Drácula é um morto-vivo, com mais de quatrocentos anos. Portanto, é um ser que conseguiu burlar a morte e obteve de sua longa experiência como ser vivente, um vasto conhecimento sobre a sociedade humana, seus hábitos e costumes.
Apesar de seus poderes sobrenaturais e de sua força inimaginável, Drácula é um ser que, além de ter a forma humana, pensa e age sob os mesmos critérios que seus inimigos, apresentando-se, quase sempre, como um paradigma da conduta do homem. Importante notar que o que mais lhe interessa em sua empreitada secular é, justamente, a essência alquímica da vida humana: o SANGUE QUE SUSTENTA O CORPO VAZIO. De fato, Drácula é um ex-humano. Um Conde, um antigo guerreiro, que, apesar dos pesares, consegue manter seu porte aristocrata e a elegância típica das sociedades oitocentistas.
Uma busca rápida sobre a história de Drácula pode facilmente resultar em informações sobre a origem do Conde, afinal, sua terra natal (certamente, aquela na qual o homem, um dia, veio à vida, assim como todos os outros humanos) é a Transilvânia. Uma terra distante e desconhecida, mas que consta do mapa da considerada “estranha” Europa oriental. É lá, nessa terra longínqua, que o Conde se autodenomina um burgo, um senhor para a gente nativa da região, aos moldes da tradicional sociedade europeia.
Não obstante sua origem distante, porém conhecida, Drácula mantém alguns traços de humanidade ao morar em um castelo que, apesar de mal conservado pelo tempo, possui a estrutura de um verdadeiro lar, com aquecimento por lareiras, iluminação a velas, aposentos para descanso e sala para refeições. Mesmo que o excêntrico Conde mantenha hábitos não convencionais ou, até mesmo, asquerosos, todos eles são uma espécie de antítese dos hábitos humanos como, por exemplo, não jantar, não beber vinho, não dormir, não amar, entre outros.
Drácula aproveitou seu tempo infinito para buscar o conhecimento sobre a civilização ocidental, mais especificamente, a Inglaterra, e, para isso, utilizou os
livros e os mapas. Em uma cultura racionalista, é curioso que até mesmo uma criatura sobrenatural utilize os métodos cartesianos de busca por informação. O CONHECIMENTO É O ALICERCE PARA TODAS AS DECISÕES TOMADAS POR DRÁCULA ao longo da narrativa, principalmente, a de se dirigir para a Inglaterra, a terra que, o lado da França e da Alemanha, representava o centro de produção de conhecimento na Europa dos séculos XVIII e XIX.
Tendo resgatados os aspectos mais relevantes sobre a personagem Drácula, é necessária uma atenção mais cuidadosa sobre a questão da morte.
Por ser um morto-vivo, Drácula não é capaz de morrer definitivamente. Exatamente por isso, ELE É O LEGÍTIMO REPRESENTANTE DA MORTE no contexto narrativo. Para deixar de existir, ele deve ser atacado por um alguém de forma bem específica. No instinto de conservar sua existência, assim como todo e qualquer vampiro, DRÁCULA PRECISA BEBER SANGUE, tanto melhor que seja humano. É possível pensar, então, que, afora o fato desagradável de beber sangue, nada melhor do que permanecer vivo, afinal esse é, aparentemente, um legítimo anseio da espécie humana.
Se a morte é uma incômoda presença burlada por Drácula, por que, então, ele é considerado um condenado? Por que suas vítimas não ficam felizes com sua nova realidade de ser vivente ad Eternum? Por que o tempo infinito ao qual Drácula aliou-se para obter conhecimento não é considerado uma dádiva? Por que ele é uma força que deve ser combatida?
Porque não há, em Drácula, a percepção de que o indivíduo deve sucumbir em favor da espécie, isto é, em favor de uma forma coletiva derivada da natureza e que depende da morte individual para a manutenção da sintonia entre homem e natureza. Também não há, na consciência desse vampiro, que o tempo finito e sua passagem agonizante são o esteio para a própria manutenção da vida humana, e nele há a ideia egoísta de que sua existência é mais importante que a de todos os outros.
Em seu famoso Ensaio sobre a Experiência da Morte e outros ensaios, o filósofo Paul Ludwig Landsberg, inicia suas discussões com uma percepção relevante sobre a morte do homem e da espécie como forças vitais para a manutenção da vida:
[...] Mesmo que pudesse se transformar em um saber correspondente, ainda não seria um saber da necessidade da morte. O animal não saberia, por exemplo, que a morte do indivíduo pertence à essência da vida e da espécie. A compreensão do vínculo entre nascimento e morte, da necessidade biológica de o indivíduo desaparecer em favor da espécie e da espécie desaparecer em favor da realização da vida em formas sempre novas, essa compreensão, sem dúvida, está reservada apenas ao homem.(LANDSBERG, 2009. p.14)
Sabendo que Drácula é uma criatura morta-viva, que tem o tempo como aliado e o sangue como fonte de existência, e que, exceto pela sua origem e seu vasto conhecimento, seus preceitos são a antítese do homem moral e do homem social, é possível formular a questão sobre a maldição dessa criatura e seu relacionamento com as forças do mal.
Não há no romance de Bram Stoker a apresentação dos fatores que fizeram Drácula transformar-se em uma criatura do mal, que simplesmente não é capaz de deixar de existir. No entanto, pelos próprios traços comportamentais da personagem, é possível concluir que, em algum momento de sua história, ele rompeu com dogmas religiosos, pois os símbolos da fé cristã lhe causam repulsa, não sendo, simplesmente, ignorados por ele, o que seria mais plausível caso nunca tivesse tido relação com qualquer religião e seus símbolos.
Revogar a fé, odiar a religião, subjugar o poder da morte, modificar o conceito de vida, tal qual delineado por Deus; manipular as forças da natureza e engendrar-se por caminhos selvagens; tudo isso aproxima DRÁCULA DO MALÉFICO, DO NEFASTO, E DAS FORÇAS OCULTAS DO MAL, TRANSFORMANDO-O EM UM DEMÔNIO, OU SEJA, UM FERVOROSO SERVIÇAL DO DIABO AQUI NA TERRA.
Define-se, assim, a razão primordial da narrativa de Drácula e aquela que determina o principal argumento para o agrupamento em Campos Contextuais: a visão da incompatibilidade entre o bem e o mal. Carlos Alberto F. Nogueira(2002) discute a relevância dessa percepção maniqueísta para a construção do imaginário, bem como o papel fundamental da religião nesse contexto, no livro O
Diabo no Imaginário Cristão:
A cristianização da cultura europeia traz consigo uma viragem decisiva para a história do imaginário. Mesmo se tendo em conta a presença de certas continuidades importantes, a mudança nos sistemas de representações mentais é evidente seja na natureza do mundo
sobrenatural, seja nas relações do homem com seu corpo. Assistimos à construção de um sistema de conteúdos simbólicos onde se articulam de maneira eficaz a realidade e o imaginado, o mundo dos vivos e o além- tumba, intermediados por um universo invisível de seres sobrenaturais, que de uma maneira ferozmente maniqueísta, empenham-se num combate sem tréguas que só terminará com o Armaggedon: a luta datada da própria Criação, entre o Bem e o Mal. Combate que transborda da esfera do sagrado para pautar condutas e comportamentos cotidianos, servindo de explicação para a realidade e as desventuras vividas, para explicar os impulsos incontroláveis da carne, e para ensinar à boa coletividade, ao ‘rebanho dos fieis’ onde se encontram Satã e seus agentes.(NOGUEIRA, 2002. p. 11)
Por ter, então, burlado as leis divinas e não estar disposto a se sacrificar pela espécie, Drácula é uma criatura condenada às trevas, à escuridão e, por isso, O PERÍODO NATURAL DE DRÁCULA É A NOITE. Mesmo estando CONDENADO À ETERNIDADE, permanecendo em um hiato entre a verdadeira vida e a verdadeira morte, Drácula representa a condição do morto, exatamente por isso seu habitat é o CAIXÃO DE ONDE LEVANTA TODAS AS NOITES e para onde volta antes de cada novo amanhecer.
Tal qual representado no quadrado semiótico, DRÁCULA SENTE MEDO durante o dia, ou seja, ao longo do período que não lhe é natural. Apesar de ele conseguir movimentar-se durante o dia, nesse período, suas forças esvaem-se rapidamente. Drácula aproveita para agir furtivamente sob a luz do sol, utilizando os serviços das personagens viabilizadoras.
Por último, o PESCOÇO E O SONO SÃO A PORTA DE ENTRADA DO VAMPIRO PARA O CORPO HUMANO, é no intermeio da realidade e do sonho, que acontece durante o sono, que o vampiro hipnotiza suas vítimas até conseguir sugar o precioso e vital sangue, através da clássica mordida no pescoço.
Com a compreensão de alguns traços determinantes da personagem Drácula, fica mais clara a organização das palavras que compõem a nomenclatura recorrente do tema vampiresco nos distintos campos contextuais e como elas relacionam-se com a característica principal desse polo: a chamada
força do mal. São quatro os pontos que pautam essa divisão:
A. Os termos foram citados no livro mais vezes em relação à personagem Drácula;
B. Os termos aproximam-se melhor do significado de vampiro/Drácula na narrativa;
C. Os termos são paradoxais em relação aos termos do polo distinto;
A coletividade desses termos contribui para a compreensão do sentido da personagem na narrativa e de seu percurso narrativo.
TABELA 7 - CAMPO CONTEXTUAL - Polo das Forças do Mal
FORÇAS DO MAL VAMPIRO Drácula
MORTE
Eternidade Condenação Corpo Vazio Demônio Noite Caixão Sangue Pescoço Sono (Conhecimento) Medo2.3.1.2. Campo Contextual – Polo das Forças do Bem