inflexões irlandesas, seus próprios projetos e sua própria voz, conquistou uma audiência internacional,
2.1.3. As Influências: o contexto social no romance Drácula de Bram Stoker
2.1.3.3. O comportamento da nova mulher e a sexualidade reprimida
Historicamente, as mulheres são vítimas de toda sorte de violência nas narrativas fantásticas de horror. À primeira vista, é fácil assumir ser essa uma característica tomada pelo cinema que, a partir dos anos 1950, submeteu o desenrolar das narrativas do gênero a alegorias que representavam as insatisfações relativas aos códigos morais e sociais, principalmente do povo americano (DERRY, 1989. p. 161).
Mas, ao contrário do que salta aos olhos, uma visão mais recuada no tempo remete a uma literatura que acomete as personagens femininas, subjugando-as a toda sorte de violência física e moral. O romance Drácula não foge a essa regra.
Em um primeiro momento, o Romantismo concebeu o papel da mulher de uma outra forma, idealizando vampiras que, além de poderosas e espertas, eram livres sexualmente, inclusive, mantendo relações homossexuais com suas vítimas. Apesar desse começo vanguardista, o passar do tempo revelou a face
masculina da literatura vampiresca e, quanto mais o Gótico caminhava para o
approach sensual do vampiro byroniano, mais a mulher retornava a sua condição
de vítima literária.
Está claro na obra de Bram Stoker que as duas mulheres da história, Lucy e Mina, não por acaso as principais vítimas de Drácula, são uma espécie de apontamento evolutivo do comportamento feminino, iniciado no século XVIII e que culminou em certa turbulência social no final do século XIX. Mina e Lucy estão, cada uma, em extremidades opostas dessa corrente evolutiva ou, pelo menos, representam a projeção do que se considerava o tipo de mulher ideal.
Desde a Era Vitoriana, os ingleses vinham testemunhando o surgimento de uma nova mulher que, principalmente nos anos que sucederam a virada do século XVIII para o XIX, emergiu dos rígidos padrões morais, da intensa repressão sexual e das restritas possibilidades reservadas a um ser do sexo feminino, basicamente, o de progenitora, boa esposa e zelosa do lar.
A capacidade feminina era tão subestimada que as mulheres eram consideradas quase como bonecas que, ao serem observadas com belas roupas e semblante delicado, retratavam a saúde financeira do marido e a boa estrutura familiar. Quanto mais delicada e inútil era uma mulher, melhor posição social aparentava ter a família.
O ideal vitoriano valorizava atributos considerados tipicamente femininos como a fragilidade, a delicadeza e a docilidade infantilóide. Fisicamente essas qualidades eram personificadas na fraqueza, na magreza, na palidez. Força e vigor eram atributos exigidos apenas das mulheres operárias ou da classe média que deveriam ajudar nos negócios. A suposta debilidade das damas era ainda mais realçada por seus trajes, e muitas vezes tornavam-na mais extenuada.(SCHMITT, 2010. p. 97)
Não há dúvidas de que Lucy e Mina foram desenhadas aos moldes da cisão social que imperava na Inglaterra do século XIX e que persistia na existência de uma mulher bela e pouco produtiva, que transpirava o sucesso financeiro e familiar, em oposição à mulher mediana, que lutava para conseguir um local menos abjeto na sociedade industrial-capitalista, através da educação e do trabalho, principalmente, como professora.
Tanto Lucy quanto Mina trazem à baila as nuances da crise vivida pela mulher da época: a primeira buscando um casamento, mesmo tendo uma forte
vocação à libertação sexual (naquela época, uma tendência pouco provável para uma mulher da alta classe) e a segunda transitando entre suas habilidades intelectuais e a incontestável submissão que uma esposa respeitável devia a seu marido.
Mina é uma noiva devotada, mas não vive exclusivamente para acompanhar seu noivo. Apesar de admirá-lo e de estar ciente de seu papel como mulher, Mina tem seus próprios anseios e não hesita em fazer planos, além de buscar novos conhecimentos, mesmo que, a priori, seja para obter a admiração de seu futuro marido.
Perdoe-me a longa demora em lhe escrever, mas tenho tido trabalho demais a fazer. A vida de uma professora assistente é às vezes extenuante. Não vejo a hora de estar com você, e perto do mar, onde poderemos conversar livremente e construir nossos castelos no ar. Tenho trabalhado muito ultimamente, porque não quero ficar atrás dos estudos de Jonathan e tenho praticado a taquigrafia como assiduidade. Quando eu e Jonathan nos casarmos, poderei ser-lhe útil; se conseguir taquigrafar suficientemente bem, serei capaz de registrar o que ele quiser dizer e depois datilografar tudo – também tenho treinado a datilografia. – Mina Murray em carta para sua amiga Lucy Westenra.(STOKER, 2009. p. 284)
A maneira como o nome da personagem é trabalhado na narrativa é prova importante da personalidade de Mina, uma mulher que buscou o casamento por amor e que, acima de tudo, existe para além da existência do marido. Dessa forma, no início da trama, ela atua com o nome de solteira, Mina Murray, e, depois do casamento, passa a sustentar o sobrenome do marido, sendo tratada por Mina Harker. Em um primeiro momento, essa mudança pode parecer pouco significativa, afinal não há nada de estranho em uma mulher que substitui o nome de batismo pelo nome de casada, mas, em Mina, a referência aos seus dois nomes completos, o de solteira e o de casada, simboliza a trajetória de uma mulher que possui um passado expressivamente frutífero, corroborando com sua personalidade forte e independente.
Mina é uma mulher muito determinada e extremamente preparada, de fato, ela é a grande responsável pela descoberta que fará com que os homens vençam Drácula. O papel de Mina na empreitada é tão intenso que ela pode ser considerada a verdadeira força opositora de Drácula, conforme será demonstrado mais adiante, no estudo das personagens do romance.
Apesar de Stoker vislumbrar a atuação de uma mulher de forma tão decisiva e relevante para a comunidade, é de se imaginar o quanto isso soava estranho à época do romance e, mesmo com as claras demonstrações de competência dadas por Mina, os homens insistiam em limitar sua participação, até o momento em que fatos terríveis decorrem dessa estúpida atitude. Mina transpassa a narrativa lutando diretamente contra Drácula, contra a próprio morte e, de certa forma, contra o preconceito masculino.
Ah, aquela maravilhosa madame Mina! Tem o cérebro de um homem, na verdade o cérebro de um homem particularmente dotado e o coração de uma mulher. O bom Deus criou-a com algum propósito, acredite em mim, ao fazer uma combinação tão excelente. Amigo John, até agora a sorte fez com que essa mulher nos ajudasse. Após essa noite, é preciso que ela se afaste dessa nossa terrível empresa. Não é bom fazê-la correr um risco tão grande. Nós, homens, estamos determinados a destruir esse monstro; na verdade temos o compromisso de fazê-lo. Mas, isso não é tarefa para uma mulher. Mesmo que ela saia ilesa, seu coração pode não suportar tantos e tão intensos horrores, e mais tarde é possível que ela venha a sofrer, tanto acordada, com os nervos; quanto ao dormir por causa dos sonhos. – Dr. Van Helsing se referindo a Mina Harker para o Dr. Seward. (STOKER, 2009. p. 474)
Na contramão de Mina, está sua melhor amiga, Lucy Westenra, uma legítima representante da alta sociedade inglesa. Muito bela e mimada, Lucy foi criada para casar, e essa empreitada lhe toma tempo integral.
Às voltas com seus três pretendentes (Arthur Holmwood, Dr. John Seward e Quincey P. Morris), Lucy representa outro tipo de emancipação feminina: a emancipação sexual, que tendia a ocorrer sob as rédeas da ferrenha moralidade vitoriana.
Além disso, Lucy retrata a ociosidade das mulheres inglesas, estando sempre às voltas com conversas frugais com Mina, além de passeios e visitas com sua mãe pela cidade de Whitby. Lucy remonta à mulher frágil e seus problemas de saúde, ocasionados pela atuação de Drácula, tendem a ser confundidos com os súbitos males que acometiam as mulheres da época.
Escrevi-lhe duas vezes desde a última vez que nos vimos, e sua última carta foi só a segunda. Além disso, não tenho novidades para lhe contar. Realmente não há nada que possa interessá-la. A cidade está muito agradável no momento; fazemos muitas visitas a galerias de arte e caminhamos e cavalgamos no parque. Sobre o homem alto de cabelos encaracolados, creio que era meu acompanhante no último concerto. Alguém certamente andou inventando histórias. Trata-se de Mr.
Holmwood. – Lucy Westenra em carta à amiga Mina Murray.(STOKER, 2009. p. 285)
Lucy demonstra vaidade e, até mesmo, uma certa excitação ao comentar com a amiga o fato de ela ter três bons pretendentes ao casamento. Mesmo se dizendo apaixonada pelo escolhido, a moça faz a opção mais adequada às formalidades da época: um jovem rico e bonito, membro da aristocracia inglesa que, em breve, herdará o título de Lorde. Arthur Holmwood representa a perpetuação da alta sociedade londrina e, com ele, a manutenção das tradições e dos costumes que sustentam o orgulho social.
Minha querida Mina, porque os homens são tão nobres quando nós, mulheres, somos tão pouco dignas deles? Eis-me quase fazendo troça desse cavalheiro honesto e de bom coração. Irrompo em lágrimas – temo, minha cara, que você há de achar que estou me derramando nessa carta literal e figurativamente – e sinto-me de fato bastante mal. Por que não permitem que uma moça se case com três homens, ou com quantos quiser, e evite todo esse tumulto? – Lucy Westenra relatando os três pedidos de casamento em carta à amiga Mina Murray. (STOKER, 2009. p. 289)
Com poucas ideias para si mesma além daquelas que rodeiam sua vida após o casamento, Lucy demonstra ser uma mulher cuja personalidade gira em torno da figura masculina. Ao contrário da amiga Mina Murray, Lucy pouco tem a oferecer, além de sua beleza e de sua agradável companhia. Não por acaso, a moça é cotidianamente hipnotizada por Drácula, até o dia de sua morte e, enquanto está sob o comando do vampiro, perde completamente o autocontrole, tornando-se puramente instinto e prazer.
Lembro-me, embora suponha que estivesse dormindo, de ter caminhado pelas ruas e atravessado a ponte. Um peixe saltou enquanto eu passava, e inclinei-me para ver. Ouvi muitos cães uivando; era como se a cidade estivesse cheia de cães uivando ao mesmo tempo, enquanto eu subia os degraus. Recordei-me vagamente, então, de um vulto alto e escuro, com olhos vermelhos, igual ao que vimos no pôr-do-sol, e uma sensação ao mesmo tempo muito agradável e muito dolorosa me envolvendo. Em seguida, tive a impressão de mergulhar na água esverdeada e profunda, e uma melodia ecoava em meus ouvidos, como dizem acontecer com os homens que se afogam. Tudo parecia afastar-se de mim; minha alma parecia deixar meu corpo e flutuar pelo espaço. – Lucy Westenra em conversa com Mina Murray em um dia pela manhã.(STOKER, 2009. p. 302)
A lascividade contida em Lucy a faz ser a primeira e a mais castigada vítima de Drácula. Os ataques à moça são recorrentes e o sofrimento físico impingido a ela é o maior dentre todas as vítimas do vampiro. Há, na morte de Lucy, um prazer sádico sentido tanto por parte do vampiro, quanto por parte da vítima.
É também durante a fase aguda de sua decadência como ser humano que ela recebe o sangue de todos os homens que a rodeiam e nunca, jamais, sente- se saciada, recuperando apenas momentaneamente o vigor físico. Dessa maneira, Lucy torna-se uma vítima promíscua que se imiscui com seus pretendentes em metáforas sexuais, já que fluídos masculinos circulam em seu corpo durante o doloroso, mas, ao mesmo tempo, prazeroso, processo de morte.
Vale ressaltar que o sexo era um dos maiores tabus da sociedade inglesa dos séculos XVIII e XIX e o prazer sexual era uma transgressão reservada aos artistas, às prostitutas e aos contracultura. Aproximações corporais jamais eram praticadas em público e as mulheres, ditas de bem, eram incontestavelmente tementes a seus maridos, assim deviam demonstrar nada mais do que pequenos rubores envergonhados na face.
Drácula não só mantém contato físico com Lucy em via pública, como procede com suas dolorosas carícias no pescoço da mulher, atitude impensável para os pudicos herdeiros vitorianos.
Lucy foi castigada em todas as instâncias de seu programa narrativo, ao se deixar levar pelo contato promíscuo com uma criatura que, apesar de sobrenatural, ostenta aparência e atitude masculinas, representando as agruras reservadas às novas mulheres que intentavam algum tipo de liberação sexual na Inglaterra do final do século XIX.