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SUMÁRIO

1 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO DA PESQUISA

1.2 PERCURSO METODOLÓGICO

1.2.1 Campo da pesquisa

As representações sociais, como destacado anteriormente, são construídas na esfera social a partir da interação entre o sujeito e o contexto no qual ele está inserido. Sendo assim, a compreensão da representação e do processo que a constitui necessita de um entendimento do cenário no qual o sujeito está imerso. Tendo isso como premissa, opto por analisar o contexto de produção das representações sociais dos trabalhadores canavieiros sobre a modernização do setor considerando três níveis: nacional/regional, estadual e local.

O primeiro nível a ser escolhido foi o contexto produtivo nacional.9 O Brasil que tem o desenvolvimento da cultura canavieira ligado a sua própria história apresenta-se como um dos principais produtores mundiais na atualidade. Em períodos recentes, tem passado por transformações tecnológicas na área agrícola, principalmente ligadas à mecanização da colheita. Porém, dentro do cenário nacional, existem diferenças entre as regiões produtoras. Aqui, escolho segregar a produção nacional em duas regiões: Centro- Sul e Norte-Nordeste. A região Centro-Sul, que compreende os estados produtores localizados na região Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país, é a mais produtiva e

9 O apêndice A apresenta uma análise sobre a produção nacional de cana-de-açúcar e seus derivados para o período de 2008 a 2018

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considerada moderna. Já a região Norte-Nordeste compreende os estados produtores localizados na região Norte e Nordeste.

Figura 3 Delimitação do campo da pesquisa

Fonte: elaborado pelo autor

Alagoas, principal produtor da região Norte-Nordeste10, é o segundo nível escolhido para possibilitar uma melhor compreensão do processo de subjetivação dos trabalhadores. O estado tem sua formação histórica ligada ao setor canavieiro: inicialmente, com os engenhos de açúcar e, posteriormente, no século XX, com as usinas. A lavoura canavieira apresenta-se como dominante dentre as culturas desenvolvidas no estado. Dados da IBGE (2019b) apontam que a cana-de-açúcar representou 63,54% da área destinada à produção agrícola do estado no ano de 2018. A segunda maior lavoura do estado foi a mandioca com apenas 7,74%.

A centralidade da cultura canavieira não se restringe apenas aos aspectos econômicos, mas passa pela própria formação histórica do estado, como destaca Carvalho (2015, p. 48): “(...) o complexo canavieiro é um dos pilares da história alagoana por sua participação na formação do território, desde o período colonial, e por sua contínua influência nos destinos da sociedade e do Estado”.

10 Ver no apêndice B os dados detalhados sobre a produção do setor sucroalcooleiro em Alagoas para o período 2008 a 2018.

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A produção de cana-de-açúcar estende-se, em Alagoas, ao longo de uma faixa territorial que vai da Zona da Mata até o Litoral, abrangendo 54 cidades. Há uma maior concentração da produção canavieira na região Sul do estado, compreendendo as cidades de Coruripe, São Miguel dos Campos e Campo Alegre. A região Norte do estado também apresenta alguns polos de produção, como as cidades de São Luiz do Quitunde e São José da Laje.

Dentro do panorama produtivo alagoano, foi selecionada uma região para a realização da pesquisa empírica: a microrregião de São Miguel dos Campos, situada mais ao Sul litorâneo do estado. A microrregião de São Miguel dos Campos situa-se ao sul da faixa produtiva estadual e engloba os municípios de São Miguel dos Campos, Boca da Mata, Roteiro, Jequiá da Praia, Coruripe, Teotônio Vilela, Junqueiro, Campo Alegre e Anadia. Nessa região, que produz cerca de 40% da cana-de-açúcar do estado, situam-se as melhores condições de solo para plantio e mecanização. As condições favoráveis da região tornam-na conhecida como o “filé mignon” da área passível de ser convertida em plantação canavieira no estado de Alagoas.

Devido às condições do terreno, a microrregião de São Miguel dos Campos mostra-se mais propícia ao processo de mecanização, uma das dimensões da modernização agrícola. Antes da entrada definitiva no campo empírico da pesquisa, levantei a hipótese de que essa seria a região mais mecanizada do estado. Tal fato ocorria a partir da constatação da presença de um elevado número de máquinas, principalmente colheitadeiras, nos canaviais da região. A hipótese concretizou-se ao fazer contato com alguns especialistas do setor estadual, que apontaram a microrregião como a mais mecanizada do estado. Além desse indicador qualitativo, oriundo das entrevistas, os números apresentados pelo Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS), para algumas ocupações selecionadas, corroboraram tal evidência.

No período de 2008 a 2017, a ocupação “operador de colheitadeira” cresceu 279%, saindo de 168 para 470 operadores. Cabe destacar que esses 470 operadores que atuam na microrregião de São Miguel dos Campos representavam 95% dos operadores de colheitadeira do estado no ano de 2017. Além disso, outras ocupações ligadas ao processo de mecanização, como “operadores de máquinas de beneficiamento de produtos agrícolas” e “tratorista agrícola” possuíam representatividade estadual em 2017, de 58% e 33%, respectivamente. Diante desses dados, ficou evidente que a microrregião de São Miguel dos Campos oferecia as condições necessárias para que as provocações lançadas

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pela pesquisa pudessem ser investigadas. Isso porque há, ali, um universo de trabalhadores que está vivenciando a realidade da “modernização” agrícola nos canaviais alagoanos.

Dentro dessa microrregião, escolhi uma unidade produtiva para desenvolver um estudo de caso, assim chego ao terceiro e último nível que possibilite uma melhor compreensão do contexto no qual os sujeitos desenvolvem suas representações sociais. A USINA11 escolhida possui seu parque industrial em uma das cidades da microrregião e suas plantações espalham-se por outras cidades, dentro e fora dos limites da microrregião de São Miguel dos Campos. A não identificação da cidade dá-se em razão da opção de não revelar a unidade produtiva escolhida para o estudo de caso e visa, ainda, à preservação da identidade dos sujeitos que participaram da pesquisa.

A USINA escolhida é apontada pelos especialistas entrevistados como a mais mecanizada do estado. Corrobora a afirmação o fato de que tal unidade produtiva possui, aproximadamente, 1/3 das máquinas colheitadeiras existentes no estado de Alagoas e já chegou a ter aproximadamente 80% da colheita feita mecanicamente.