Esta pesquisa se desenvolveu no ambiente imersivo do jogo massivo multiusuário online (MMO) denominado Minecraft. O MMOs Minecraft foi criado por Markus Alexej “Notch” Persson, fundador do Estúdio Mojanga AB, em 2009 e lançado oficialmente no mercado em 2011. Em apenas três anos no mercado já tinha batido o recorde de vendas de jogo para PC, mas seu sucesso não ficou restrito a este universo. Atualmente é encontrado também em jogos como o Xbox 360 (Xbox Live Arcade) e Xbox One, PlayStation3 (PlayStationStore), PlayStation4 e PlayStation Vita; nos smartphones com dispositivos Android, IOS e no Windows Phone 8.1; no AmazonFire TV e no RaspberryPi32. Além das versões Minecraft Edu (plataforma educacional) e o qCraft (modo quântico em desenvolvimento pelo Google). Minecraft faz parte de uma “categoria de games da contemporaneidade que se caracteriza pela jogabilidade não-linear e pela possibilidade de exploração do ambiente do jogo sem uma finalidade de narrativa traçada à priori” (DE
32Computador do tamanho de um cartão de crédito criado para propiciar a aprendizagem sobre o funcionamento
de um computador – incluindo a programação - e o mundo eletrônico. Disponível em
SOUZA, J. P., 2013, p.72), o que o leva a ser classificado como um ‘mundo aberto’. Apresenta-se ricamente diversificado em quatro dimensões, a saber: Mundo Principal ou Inicial (Over World), Submundo (Nether), O Fim (TheEnd) e o Vazio (Void).
O Mundo Principal é onde o jogador nasce, ele é constituído por 61 biomas distintos divididos em cinco categorias: neve, frio, médios/exuberantes, secos/quentes e neutros. Até a versão anterior a 1.8 o bioma é definido a partir da geração aleatória do mapa (terras), só a partir desta última atualização é que o jogador tem a possibilidade de customizar o seu próprio mundo, sendo que esta é a única dimensão em que se tem o ciclo dia/noite. Nesta dimensão o jogador pode vivenciar eventos da vida cotidiana como plantar, colher, criar casa e ferramentas necessárias à sua sobrevivência, inclusive para se defender dos Mobs (entidades vivas que se movem no jogo e são afetadas pelo ambiente tanto quanto os jogadores). Na dimensão paralela do Submundo só há o breu, seu bioma é constituído por picos, penhascos, cascalhos, lagos e oceanos de lava, para entrar o jogador precisa construir o Portal para o Nether. A passagem para essa dimensão se torna obrigatória para o jogador que deseja fazer encantamentos de itens necessários para sua sobrevivência e conquistas, como as poções, as estantes de poções e os olhos de Endermen (criaturas humanóides que se teletransportam e que são muito fortes). Outra particularidade desta dimensão é que ela tem os seus próprios Mobs como o Ghast (se parece com um fantasma), o ZombiePigman (porco zumbi), o Blaze(que pega fogo), o Esqueleto Wither e o Cubo de Magma. Na dimensão The End só há uma luz e algumas ilhas flutuantes, local de moradia dos Endermen e do Enderdragon (dragão gigante forte, poderoso, chefe dos Mobs e que se regenera). Para acessar essa dimensão, lutar com o dragão e capturar seu ovo é preciso achar uma fortaleza no subterrâneo do Mundo Principal e lá acionar o portal para o The End. Já a dimensão Vazio fica abaixo do mundo, nela só há escuridão nada mais. Embora neste espaço se possa voar - somente no modo criativo - o jogador que cai nesta dimensão não tem como sobreviver.
No Minecraft há um tutorial básico para os movimentos iniciais do jogador no mundo, mas a responsabilidade de criação de níveis (level design) fica a seu cargo, com isso o jogo é muito mais sobre a experiência que o jogador escolhe criar para si. Há três modos de se jogar, Creative, Survival e Hardcore, nos dois últimos pode-se jogar sozinho (modo single) ou em modo multiusuário (modo multiplayer). O modo Creative é centrado na construção e tem como recurso todo o tipo de blocos e objetos para o jogador criar o que quiser, nele não há limite de recursos, movimentação e nem ameaças dos Mobs. No modo Survival é o jogo em si com escolhas a serem feitas com tensão e liberdade criativa para explorar esse mundo e
coletar recursos para sobreviver da fome, das intempéries da natureza e dos ataques dos Mobs. O modo Hardcore é igual ao survival, só que quando o jogador morre seu mundo inteiro é eliminado e ele tem que recomeçar tudo de novo. O sucesso desse jogo se deve à criatividade que este requer do jogador. Com um design que mistura elementos como biomas, minerais, mapas e elementos químicos, bruxas, dragões, poções mágicas, monstros e submundos que representam a treva, a escuridão; com uma dinâmica de usabilidade pautada pela mecânica de mineração e coleta de recursos da natureza, o jogador se vê imerso em um universo mítico potencialmente capaz de acionar e vetorizar tanto suas míticas e primitivas fantasias (o seu fantasiar) quanto sua cognição inventiva.
Como primeiro passo para a vivência dessa experiência imersiva, é preciso escolher um campo tridimensional representado graficamente por diferentes biomas representativos de nossa natureza. Feita a escolha, o jogador precisa iniciar a coleta de materiais como, por exemplo, árvore, porco e ovelha, para que estes ao serem inseridos na caixa de inventário se transformem em recursos como madeira, alimento e lã. Municiado com esses recursos, o próximo passo é construir armas e ferramentas – com base nos recursos inventariados – para criar um mundo a ser habitado e se proteger das terríveis ameaças dos Mobs como os creeperse as aranhas que só saem à noite. Inserido nesse ambiente hostil e não habitado pelo homem, o jogador não tem ideia do que pode ou deva ser feito, de qual é o objetivo do jogo e de suas ameaças. Sem ter referenciais que indiquem um caminho para uma narrativa delineada, a priori, e imerso em uma paisagem hostil e desabitada por humanos, o jogador é lançado em uma vivência de estranhamento e ao desafio de dela emergir para criar um mundo a partir de sua exploração aleatória e ao toque de sua criatividade.