Fiel à concepção de Maturana e Varela, que entendem que para explicar o fenômeno do conhecer é preciso antes explicar aquele que conhece, nesse caso, o ser humano, definimos como ponto de partida seus estudos sobre o modo como os sistemas vivos se auto-organizam, a partir de suas relações constitutivas e interativas entre si e com o meio. Para Capra (1996) essa visão sistêmica concebe o sistema vivo como sendo dinâmico e pautado por probabilidade de interconexões entre as partes, com as propriedades resultantes dessas interconexões só adquirindo significado dentro do contexto do todo mais amplo. Com a incorporação da concepção do modelo de rede da ecologia uma nova concepção de sistema surgiu
A concepção de sistemas vivos como redes fornece uma nova perspectiva sobre as chamadas hierarquias da natureza. Desde que os sistemas vivos, em todos os níveis, são redes, devemos visualizar a teia da vida como sistemas vivos (redes) interagindo à maneira de rede com outros sistemas (redes). (idem, p.35)
Mais do que ressaltar o interacionismo ou o conexionismo, essa proposição traz como novo enfoque científico o pressuposto de que o mundo só se constitui para o ser vivo a partir dessa regulação circular na qual o organismo age sobre o meio e o meio age sobre o organismo, sendo ambos modificados continuamente, o que confere a esta circularidade um aspecto criativo. Com este enfoque estes pesquisadores não só deslocam a concepção representacionista de mundo para a fenomenológica na qual este se constrói a partir do experienciar desses entrelaçamentos corporificados e sócio historicamente contextualizado como deslocam, segundo Kastrup (2009), a primazia da dualidade cartesiana para o que ela designou como o “primado do meio”. Para esta autora este é o lugar da ação, do trabalho de conhecer que traz como efeito não só a constituição do sujeito e objeto/mundo como também a “criação concreta das extremidades”; é um lugar perspectivado pela invenção.
Mas para que esta circularidade criadora possa se efetivar e junto com ela a invenção possa se corporificar, é preciso que este acoplamento estrutural entre organismo-meio ocorra a
partir de duas condições essenciais: que as interações sejam recorrentes e que desencadeiem “mudanças estruturais mútuas” (Maturana; Varela; 1995, p.113). Assim temos como acoplamento estrutural o processo de interações recursivas entre os seres vivos e o meio ambiente nos quais ambos são afetados mutuamente de modo que suas estruturas se modificam continuamente, o que lhe confere um caráter evolutivo, autopoiético. Isto significa que são esses processos de interações, de acoplamentos estruturais ontogênicos, que configuram organismo e meio, conforme assinala Kastrup (2009)
Organismo e meio são resultados, efeitos de uma rede processual, constituindo-se reciprocamente e apresentando-se como fontes mútuas de perturbação. O meio não preexiste como um espaço ou continente onde o organismo vai ter sua existência, mas é constituído pelo organismo como um ambiente de vida. Por outro lado, a estrutura do organismo resulta da história de seus acoplamentos estruturais com meios específicos. (p.14).
Para Varela, esse processo de autoprodução que caracteriza a autopoiese e é constitutivo de todo organismo vivo, transcende o biológico na medida em que nos constituímos enquanto sujeito que produz nas dobras dessas recorrentes interações conhecimentos sobre si e o mundo. Tendo em mente que estas interações ocorrem pelo viés recursivo da circularidade criativa (que diz respeito às ações do organismo sobre o meio e deste sobre o organismo) e que somos ao mesmo tempo produtor e produto, autônomo e dependente, tem-se que o conhecimento produzido pelo sujeito é fruto dessa correlação interna, desse complexo paradoxo. Isto significa que conhecemos não só com toda a nossa estrutura biológica, mas, também, com as interpretações e atribuições de sentido acionadas pelo nosso experienciar, pelo nosso estar-no-mundo. Vindo essa concepção da cognição enquanto um processo ativo também a ser partilhada e ampliada por Kastrup.
Para esta autora ao ter a cognição enquanto uma ação que não põe em relação um sujeito e um objeto como duas realidades pré-existentes, mas os configura numa dialética que tem a ação e o conhecimento como as duas faces do mesmo processo que responde pela contínua invenção de si e do mundo, a mesma dota o processo cognitivo com uma economia. Para entendermos essa concepção econômica é preciso – como ela - recorrer à concepção deleuziana sobre os mecanismos da ação sígnica e o da circularidade criadora.
Segundo a mesma, Deleuze concebe o signo como sendo “aquilo que exerce sobre a subjetividade uma ação direta, sem a mediação da representação [...] [e com a] força de uma interrogação que força a pensar, de um problema que exige solução” (Kastrup, 2000, p.6). Ou seja, como um objeto estranho que vem de fora e irrompe com violência no psiquismo
coagindo-o para um trabalho cognitivo que o corporifique em pensamentos, o signo enquanto um tipo de qualidade, de essência que existe no seio de qualquer matéria, demanda por um sentido, por um trabalho de decifração, de interpretação que força o movimento da subjetividade a percorrer semióticas novas num percurso pautado pelos estranhamentos que nos afetam.
Ao ter como vivência de estranhamento a ação divergente das faculdades de sensibilidade, memória e imaginação, Kastrup dota o ambiente e as experiências comuns da vida cotidiana como situações capazes de provocarem essas vivências, de provocarem uma ruptura no fluxo cognitivo com uma tensão entre o saber anterior e a experiência presente, e o alargamento da sensibilidade. Ou seja, a importância da vivência de estranhamento no processo cognitivo reside na instabilidade que propicia ao suposto saber do sujeito tirando-o da ‘acomodação’ e impelindo-o a criar – municiado com o alargamento de sua sensibilidade - novas formas de co-engendramento de si e do mundo, isto é, novas leituras, novos saberes sobre essa construção que se faz numa espiral crescente denominada por Deleuze como circularidade criadora.