2 MELANCOLIA CULTURA E MODERNIDADE
2.1 CAMPO E CIDADE
Durante o Século de Ouro, a melancolia permeou tanto a cultura como a política na Espanha. Como já mencionamos, se especulou que a obra El melancólico (1627), de Tirso de Molina, tomou o rei Felipe I como modelo. Bartra (2001) explica que essa obra transmite a ideia que a vida na corte era uma fonte de melancolia e de tristeza: Esta preocupação reflete com frequência um forte ressentimento contra a corte por parte de diferentes grupos marginalizados frente ao crescente poder da monarquia absoluta. O livro Menosprecio de
corte y alabanza de aldea, de Fray Antonio de Guevara(1539)traduz o imenso mal-estar dos
fidalgos provincianos e dos habitantes das aldeias frente às novas tendências que osexcluíam do poder. Nesse livro, Guevara, no capítulo XVIII, intitulado Del auctor con delicadas palabras y razones muy lastimosas llora los muchos años que en la corte perdió, lamenta os anos perdidos na corte:
Yo mismo a mí mismo quiero pedir cuenta de mi vida a mi propia vida, para que, cotejados los años con los trabajos y los trabajos con los años, vean y conoscan ha que dexé de vivir y me empecé a morir. Mi vida no ha sido vida sino una muerte prolija; mi bivir no ha sido bivir sino largo morir; mis días no han sido días sino unos sueños enojosos; mis plazeres no fueron plazeres sino unos alegrones que me amargaron y no me tocaron; mi juventud no fue juventud sino un sueño que soñé y un no sé qué me vi; finalmente, digo que mi prosperidad no fue prosperidad, sino un señuelo de pluma y un tesoro de alquimia (GUEVARA, 1539, p. 73).
Sobre a crítica de Guevara à corte, Bartra (2001) lembra em meados do século XVI esta se encontrava saturada pela grande afluência de fidalgos e agricultores de baixa renda que buscavam na cidade sua ascensão econômica. Esta migração da aldeia à corte fortalecia as atividades mercantis, mas a nobreza tradicional tentava convencer os fidalgos a permanecerem em suas terras (regiões rurais e despovoadas, cuja população havia sido
dizimada pelas epidemias). A corte, dessa forma, passou a tratar esses fidalgos como figuras marginalizadas. Essa crítica de Guevara à corte denuncia situações injustas e desigualdades de forma a mostrar o sofrimento dessa classe.
Raymond Williams salienta em El campo y la ciudad (2001) que o contraste entre campo e cidade, como dois estilos fundamentalmente diferentes de vida, remonta à época clássica. Se por um lado o campo atraía a ideia de um estilo de vida natural – de paz, inocência e virtude –, a cidade era concebida como um centro de progresso, de erudição e de comunicação. Associações hostis também foram feitas tanto em relação ao campo, como em relação à cidade: enquanto o campo foi associado à ideia de atraso, de ignorância e de limitação, a cidade foi associada a lugar de ruído, de vida mundana e de ambição.
Apresentamos essa imagem do filme Elisa, vida mía (1977), como forma de identificar a opção de Saura em mostrar o campo nessa obra, que a seguir analisaremos para discutir mais profundamente a relação campo-cidade-melancolia:
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Fig.33. (Cena 10)
Em Elisa, vida mía, filme (1977) e romance (2004), Saura apresenta um personagem melancólico que tem aversão à cidade. Luis, pai de Elisa, é um personagem que se comporta de forma anarquista, que não aceita e questiona os acontecimentos do mundo contemporâneo, revelando uma visão anti-urbana. Além de Saura, citamos aqui também o anti-urbanismo em Martínez Ruiz, que mostra nas suas obras uma irritada repulsão pela vida urbana. Para Martínez Ruiz, o êxodo rural para as grandes cidades destrói o equilíbrio urbano-rural existente em épocas pré-industriais. Ele atribui a decadência da Espanha do séc. XVIII à formação de grandes urbes que, desde essa época, atraíam a população rural, a qual deixava os campos sem cultivar. Na obra La Voluntad (1902), por meio do personagem Yuste, Ruiz mostra sua preocupação com o futuro do campo e da agricultura espanhola, que foi a base econômica do país durante vinte anos de cristianismo. A emigração rural e as cidades aumentam e estes novos centros atraem os elementos mais saudáveis do campo, pois, de acordo com as ideias do personagem Azorín, são os mais fortes e os mais inteligentes que saem do campo e vão para as cidades.
No livro Historia de las dos Españas (2006),Juliá faz um estudo que abarca a análise de escritores de várias gerações, entre eles, Martínez Ruiz, autor que pertenceu à Geração de 98. Martínez Ruiz via a cidade como ambiente de vida ingrata e o campo como a esperança de fugir do barulho urbano ensurdecedor; lembramos, porém, que os escritores que fugiram da capital encontraram o campo já abandonado:
„Me ahogo, me ahogo en este ambiente inhumano de civilización humanitaria‟, se quejaba Martínez Ruiz, lamentando el ruido de los „tranvías eléctricos, prematuros
tranvías que atropellan y ensordecen con sus campanillas y rugidos, hilos eléctricos que caen y súbitamente matan, coches que cruzan en todas las direcciones, zanjas y montones que turban el paso, olas de gente que van y vienen, encontronazos,
empellones, gritos, silbidos‟, la ingrata vida de la ciudad, en fin, que lo ponía fuera de sí: „Estoy fuera de mí, no soy yo. Mi voluntad se evapora. No siento las cosas, las presiento; trago sin paladear, las sensaciones‟, para terminar con una sublime y esforzada decisión: „Me marcho a Toledo‟. Y así los literatos, huyendo
metafóricamente de la gran capital, sucia, empantanada, donde la masa había dado ya muestras de su presencia horrible, salieron al campo, y no encontraron allí más
que „pueblos opacos y sórdidos‟ y una raza doblada por la resignación, el dolor, la
sumisión, la inercia ante los hechos, la idea abrumadora de la muerte (JULIÁ, 2006, p. 78).
Vale ressaltar, aqui, a relação que Bartra (2001) faz entre cultura, cidade, campo e melancolia. O autor esclarece que muitos setores da sociedade espanhola do fim do Império viam a corte como uma fonte de calamidades e de doenças. O campo, ao contrário, era a imagem utópica do bem-estar e o espaço natural de liberdade, o lugar onde as futilidades e as banalidades mundanas se perdiam e a vida rural passou a ser vista como o caminho da felicidade e salvação. A vida no campo, de certa forma, era um antídoto para a melancolia que emanava da corte e do poder central. Apesar da distância entre as épocas tratadas – o fim do Império e a contemporaneidade – talvez a análise formulada por Bartra (2001) possa responder a nossa pergunta: Por que Luis abandonara a cidade, onde vivia confortavelmente com a família para viver numa antiga ruína no campo?
A volta ao campo é uma constante nas obras de Saura. Tentaremos, por meio de alguns trechos de Elisa, vida mía (filme e romance), analisar os valores e símbolos do espaço rural e estabelecer uma relação entre estes e a melancolia expressa pelos protagonistas. O pai de Elisa sempre havia sido solitário e com o passar dos anos a inclinação para o isolamento e a solidão haviam se acentuado. Tinha medo das aglomerações, dos estádios e praias repletos
de gente: “[...] A estas alturas de su vida solo esperaba que le dejaran vivir en paz con sus
achaques y su soledad, una soledad deseada, que no impuesta, una compañera de viaje a la que había dedicado los últimos años de su vida.[…]” (SAURA, 2004, p. 131).
Luis havia se mudado para Segóvia, que ainda conservava um ar de provinciano, mas que o agradava muito:
Se enamoró de la ciudad no sólo por sus edificios, iglesias y conventos, sino por su situación: casi como una isla que se erguía sobre el río Eresma; y por el aire que ahí se respiraba, un aire que alimentaba los pulmones, aire de la Sierra de Guadarrama y de las estepas castellanas. De la ciudad moderna era mejor olvidarse.[…] (SAURA, 2004, p.101).
Em um dos diálogos de Elisa com o pai, em que ele afirmava viver em uma casa que fora uma ruína e que vivia de um pequeno salário, sem seguro de vida, sem ações, ela se dirige ao pai dizendo que ele não havia nascido para viver no século 21:
– Sigues haciendo traducciones? – Si, claro, eso no puedo dejarlo. […] […] – Pero haces otras cosas…[…]
[…] – Como hacer, pues no sé…. Pienso, paseo, respiro, vivo, que no es poco. Pero
no tengo seguridad social, ni seguro de vida, ni seguro de incendios, ni acciones… Ni siquiera esta casa es mía, - al ver la cara de sorpresa de su hija, y mientras aliñaba la ensalada, añadió-: Es alquilada, por un módico precio, claro. Era una ruína, y lo poco que queda en pie es obra mía. La he pintado yo y he puesto los cristales de las ventanas con mis manos.
– Tú no has nacido para este siglo, papá.
–Puede ser, puede ser. Lo mismo decía tu madre (SAURA, 2004, p. 106).
Luis questiona o progresso. Este questionamento seria uma expressão da melancolia que caracteriza a época moderna: “[…] ¿Es posible que, a pesar de inventos y progresos, a pesar de cultura, religión y sabiduría mundana, se haya permanecido en la superficie de la
vida?”(SAURA, 2004, p. 87). Também mostra a angústia do personagem com a cidade
grande: “[...] Segovia era una ciudad que siempre le había gustado, y más de una vez había
pensado seriamente trasladarse allí y abandonar un Madrid que cada día le agobiaba más”
(SAURA, 2004, p. 98). É fato que as grandes mudanças urbanas do fim do século passado e deste século impactaram sensivelmente seus habitantes. Segundo Carl E. Schorske (2000)24 a
cidade passa a ser caracterizada pela ruptura dos laços comunitários, pela pressa, pelo tempo abstrato, pela incomunicabilidade – a dificuldade de encontros face a face se exacerba devido à dissolução das referências históricas e socioculturais que orientavam a vivência das pessoas. Nesta ruína de sociabilidade, o espaço se fragmenta e, com ele, o próprio indivíduo25, destruindo a ilusão de totalidade.
24 Historiador que mostra em Pensando com a história: indagações na passagem para o modernismo (2000) a evolução da idéia de cidade no pensamento europeu, do iluminismo ao nazismo.
25 Bartra (2004) adverte para o mal-estar próprio do homem moderno causado pelo enfrentamento com a desordem da sociedade e da natureza.
A personagem Elisa, filha de Luis, vive em uma cidade grande e vai passar uma temporada com o pai em uma casa, antiga ruína, localizada no campo, afastada da cidade. As impressões de Elisa sobre viver no campo se alternam. Em princípio, Elisa se pergunta como o pai pode viver em um lugar sem conforto e levar uma vida sem luxo, e isolado de todos – muito diferente da vida que ele levava em Madri:
Elisa contempló con curiosidad el lugar donde su padre vivía: la rusticidad de la casa, un edificio que en otros tiempos debió servir de casa de labor o de vivienda a gentes que cuidaban ganado; la cerca de piedra que rodeaba la finca como defendiéndola de algún peligro inminente... (SAURA, 2004, p. 18).
Por outro lado, o campo também significava paz de espírito para ela, que estava vivendo uma crise conjugal:
[…] El viento fresco y agradable le acariciaba la piel y le cruzaba el pelo sobre la
cara. Una paz interior se apoderó de ella, una sensación que sólo en contadas ocasiones había sentido, y un escalofrío como un suave látigo la conmovió. Entonces pensó que ella sí podría vivir en aquél lugar, quizá unos días, tal vez semanas, alejada de la vorágine de la gran ciudad y de Antonio, y que un tiempo allí le serviría de bálsamo para calmar sus inquietudes y poner un poco de orden en su vida y en sus pensamientos (SAURA, 2004, p. 18).
O campo dava uma sensação de liberdade para Elisa e fazia que constantemente ela se recordasse do passado e de sua infância:
El aire rozaba la cara y le levantaba el pelo, un aire limpio y fresco que alimentaba. Aceleró el pedaleo, y pronto la velocidad de la bicicleta le proporcionó la felicidad que andaba buscando. Se sintió otra. Se concentró en el camino y fue sorteando con habilidad los baches. De niña había sido una consumada ciclista, y siempre que podía había tratado de recordar sus habilidades […] (SAURA, 2004, p. 105).
A visão de Elisa sobre viver no campo, e sobre o próprio campo, é um pouco diferente da visão do pai no começo do filme e do romance. Essa visão, porém, vai se modificando, e Elisa, depois da morte do pai, decide viver definitivamente na casa que tinha dele, assim como assume seu lugar na escola onde dava aula de literatura para crianças:
Desde la muerte de su padre, Elisa había decidido vivir en la misma casa en donde él vivió contar la historia de otra manera, a su manera. Le gustaba el lugar, aislado, en un espacio amplio y hermoso, lejos de cualquier otra vivienda y alejado también del pueblo. Le gustaba contemplar a través de las ventanas la hilera de chopos y
acacias que señalaban el camino hacia Melque. Le gustaba dar clases a las niñas en el colegio de monjas, y sobretodo disfrutaba de la vida de cada día (SAURA, 2004, 249).
Retomamos novamente a análise de Williams (2001) sobre o campo e a cidade. O exemplo de texto literário que utilizaremos aqui é da literatura inglesa, mas explica a visão a respeito do campo, mostrada acima, mantida pela personagem Elisa. Segundo Williams (2001), a vida campestre, tradicionalmente, é alternativa para a perturbação, para a ambição e para a guerra. No caso de Elisa, o campo parece ser o antídoto para sua perturbação emocional. Em seguida, mostramos o poema de Charles Cotton, intitulado The Retirement, citado por Williams, ao qual aproximamos à visão da personagem Elisa sobre o campo:
¡Buen Dios! ¡Cuán dulce es todo aquí! ¡Cuán bellos se ven los campos!
¡Cuán limpiamente nos alimentamos y descansamos! ¡Señor, qué buenos momentos nos reservamos! ¡Cuán tranquilamente dormimos!
¡Qué paz! ¡ Qué harmonía! (COTTON apud WILLIAMS, 2001, p. 51).
O campo, ao contrário da cidade, é sempre descrito no romance de forma positiva. Luis, que geralmente passava a noite escrevendo, parava de manhã para olhar o nascimento do dia pela janela do escritório:
[…] Ya las primeras luces del amanecer alumbraban el campo y los montes vecinos.
Las sombras de los chopos del riachuelo se adentraban en la finca, y lo surcos de los campos roturados iluminados por los rayos del sol marcaban con claridad las lindes con los otros campos decolorados y en barbecho […]
[…] Cuando dejó la pluma sobre el papel y miró a través de la ventana, vio que el
sol iluminaba ya el campo. Había visto crecer los chopos y las acacias; cómo la tierra cambiaba de color y el cielo se agrisaba; cómo el viento, las lluvias, las tormentas de verano con sus rayos y truenos, y la nieve que caía durante algunos días del invierno iban transformando y cambiando lentamente el paisaje […] (SAURA, 2004, p. 79).
Para finalizarmos a abordagem sobre a relação campo-cidade-melancolia, citamos o autor espanhol Cristóbal de Villalón, que em meados do séc. XVI se refugiou em uma aldeia para escrever El Crótalon, texto em que consta um canto em que ele descreve em uma figura
melancolía en forma de mujer, alegoría que hizo famoso Durero gracias a su grabado
Melancolía I[...]” (BARTRA, 2001, p. 48). Cristóbal de Villalón assim a descreve:
Vimos estar sentada em um rincón muy rota y desarrapada muger. Ésta era el lloro y tristeza miserable, estaba sentada en el suelo puesto el cobdo sobre sus rodillas, la mano debajo de la barba y mexilla. Vímosla muy pensativa y miserable por gran pieza sin se menear, y como al meno de nuestros pies miró, alcancé a la ver un rostro amarillo, flaco y desgraçiado: los ojos hundidos y mexillas que hazían más larga la naríz, y de rato en rato daba un sospiro de lo hondo del coraçón, con tanta fuerza y afliçión que parecía ser hecho artificial para sólo atormentar almas con las entristeçer. Es este gemido de tanta efficacia que traspasa y hiere el alma entrando allí, y con tanta fuerza que le trae cada momento a punto de desesperación; y ésta es la primera miseria que atormena y hiere las almas de los condenados y es tan gran mal que sin otro alguno bastaba vengar la justicia de Dios (VILLALÓN apud BARTRA, 2001, p. 48).
A vinculação que propomos em relação ao tema abordado por esse autor e a obra de Saura é que os protagonistas de Elisa, vida mía, filme (1977) e romance (2004), também se afastam de cidade e vão para o campo para escrever. Primeiro, o personagem Luis, que sai de Madri e vai morar em Melque, decide ocupar parte do tempo escrevendo. Luis confessa ter sentido a tentação de escrever sobre sua vida, mas também confessa que nunca havia sido um homem paciente, mas que havia decidido ter tempo para escrever. Sua vida em Madri era provavelmente tomada pelos compromissos de aulas na universidade, a família, enfim, uma vida corrida que tipifica os centros urbanos. No campo, com seu ritmo desacelerado,
finalmente Luis se decidiu a escrever: “[...] Decidió, ahora que tenía tiempo para ello, tratar
de ordenar, aunque fuera someramente, los sentimientos y las imágenes que le embargaban, trasunto de su propia vida, dando así rienda suelta a algunos secretos que guardaba (SAURA, 2004, p. 92).
Após a morte de Luis, Elisa, que também havia abandonado a grande cidade para viver no campo, continua escrevendo as memórias, agora sob seu ponto de vista. Há muitas cenas do filme e passagens do romance nas quais Luis aparece escrevendo. Transcreveremos aqui
uma das primeiras passagens do romance: “[...] Cargó la pluma estilográfica Montblanc en el
compañía durante años. Una vez lo intentó con un bolígrafo, y no pudo pasar de la primera
cuartilla […]”(SAURA, 2004, p. 11).
Outra passagem do romance é a em que Elisa entra no escritório de Luis e imagina que seu pai passava ali muitas horas escrevendo e escutando música, ou, talvez, simplesmente
vendo a vida passar: “[...] Sintió envidia y se imaginó que estaba sentada en el sillón,
contemplando al paisaje por la ventana, acariciando la pluma Montblanc entre sus dedos y escribiendo cualquier cosa” (SAURA, 2004, p. 32).
Na sequência, Elisa encontra algumas páginas escritas à mão pelo pai. A primeira
narrava o cansaço e tristeza de alguém que dizia não ter chegado a lugar algum: “[...] Mi
cansacio es el de alguien que no ha llegado a ninguna parte, pero ¿adónde quería llegar yo? ¿Cuál era la meta propuesta? ¿O acaso esa meta era sólo una ilusión? […]” (SAURA, 2004, p. 34).
Uma passagem que mostra que o personagem Luis passa a noite escrevendo é a em que ele termina de escrever, deixa a caneta sobre o papel, observa o sol que começa a iluminar o campo e tenta vislumbrarno céu o tempo do dia que está nascendo. Depois de apagar a luz, coloca a tampa na caneta, boceja, se espreguiça e guarda os papéis escritos em uma pasta:
“[...] Ordenó cuidadosamente las hojas que había escrito durante la noche y las guardó en la
carpeta (SAURA, 2004, p. 81). A cena 11, exposta a seguir, representa essa imagem que capturamos do filme Elisa, vida mía (1977) e refere-se a essa passagem do romance que comentamos acima:
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Fig. 34. (Cena 11).
No capítulo II do romance, Elisa pergunta ao pai o que ele escreve. Luis responde que não era nada importante, que acumulava material disperso e que escrevia um pouco todos os dias. E, de vez em quando, se dava conta de que tudo que havia escrito não tinha sentido e que outros já haviam escrito coisas melhores antes dele e queimava tudo. Aqui destacamos uma referência a Cervantes na fala do personagem Luis, que argumenta: “[...] Cervantes echó
al fuego un montón de libros de caballería que le parecían detestables [...]” (SAURA, 2004, p.
30). Diz também que o importante é a necessidade de falar coisas que passam pela cabeça e que às vezes sente essa urgência e começa a escrever. Lembramos que Luis é um personagem melancólico e que saiu da cidade grande, foi viver no campo e que leva parte do tempo