expressadas nao s6 em relayao as obras do autor supracitado, mesmo em relayiio a todos aqueles com os quais divergia, eram feitas de forma elegante e sempre no plano das ideias.
[ .. .] Ela representa um distanciamento do m~todo adotado naquela ("A Evolu9ao Politico do Brasil"). Verifica-se, nesta, a ap/ica9ao de crilerios ecleticos>
algumas vezes acertados, perdendo o conjunto aquila que o trabalho ganha nos tletalhes e na amplitude. Apesnr disso, eo melhor lrobalho hist6rico ja escrito sabre a fase colonial do Brasil (1960, 206,207).
Nas ediv5es seguintes Sodre nao mais alteraria seu julgamento sobre as obras de Caio Prado anterionnente citadas, as (micas que se tornaram objetos de uma apreciaviio critica de Sodre e as mais freqilentemente citadas por ele. Em outras obras Sodre citaria o Esbor;o dos Fundamentos da Teoria Economica (1960) e Historia Economica do Brasil ( 1945) e tambem alguns artigos, principal mente Contribuir;iio para a Amilise da Quesliio Agraria no Brasil ( 1960), todos de autoria do mesmo Historiador.
Nos principais livros escritos por Sodre, Caio Prado foi largamente citado.
Consulte-se a Formal(iio Hislorica do Brasil, Historia da Burguesia Brasileira, Historia da Li1eral11ra Brasileira, entre outros. Mesmo quando Sodre apontou as discordancias, Caio Prado sempre foi tratado com respeito e elegancia.
Por outro !ado, Caio Prado niio citava as obras de Nelson Wemeck Sodre, seja para critica-las, seja para dispensar elogios 'as mesmas. A relavao entre ambos ainda revel a urn aspecto importante: Caio Prado foi editor de Sodre, publicou o livro que nosso autor considerava sua mais importante obra: Formar;iio Historica do Brasil (1960). Alem disso, ele foi tambem leitor critico de pelo menos uma obra de Sodre, A Formar;iio da Sociedade Brasileira.
No campo historiografico, pelo menos ate a primeira metade da decada de 1960, as divergencias entre ambos relacionava-se
a
caracteriza9ao do modo de produrrao que vigorou no periodo colonial.No prefacio ao livro Forma<;iio Hist6rica do Brasil ( 1976 )31 , Sodre escreveu
Este livro
e
o resultado direto de um curso, o de FormQ(;ao Hislorica do Brasil. por mim proforido no lnstituto Superior de Estudos Brasileiros. desde /956:represent a o trabalho de pesquisa, de analise e de revisl1o realizado em cinco rows. e algumas vezes interrompido, para reformulafiiO de conceilos e estudo de fimdamentos leoricos referentes a fascs controversas. Deve muilo, em consequencia, a uma crilica rigorosa. sincera, multi/a/ern/ que /he exigiu nlterariJe.v, uma de/as pelo menos no essencial, quando submetido a discussl1o com alguns companheiros de estudos do realidade brasileira [ ... } Tal revisdo que
e
menos ligada a acontecimentos e n fig urns do que ao proccsso.A allera~ao a que o historiador fez men~ao relaciona-se
a
definicao do modo deproducao que vigorou no Brasil no periodo colonial. Nas obras relacionadas
a
primeira fase do autor (ate 1957), concordando com Caio Prado Jt'mior, ele oonsiderava que, no periodo colonial o modo de producao era capitalista. Sodre nao deixaria, no entanto, de, em respeitoa
figura ea
obra de Caio, cita-lo no corpo do texto e nas notas de Formar;ao Hist6rica do Brasil, expondo a posicao divergente do mesmo em relayaoa
suas teses, embora, rcpctimos, nao cncontrarmos nas obras do Ilistoriador paulista uma referencia sequeras
obras dele.Sodre tambem observava criticamente a ausencia (como ja vimos anteriormente) do conceito marxista de modo de producao, principalmente em rela~ao
a
obra FomiGfGO doBrasil Comemponineo; contudo isso nao tirava OS grandes meritos da obra caiopradiana, amplamente reconhecidos por ele. Aqui devemos citar urn trecho em que o nosso historiador defendeu a obra de Caio acima citada, especialmente a passagem polemica do livro em que ele se referiu a rar;as inferiores - negros e indios - e que muitas vezes foi
3 I Publicado origiamlmen1e em 1962.
recordada para desqualificar a contribuiyao do mesrno. Sodre, dirigindo-se por carta a urn estudante de Hist6ria, procurou esclarecer aquela passagern
Ni1o inlerprete mal afrase em C.32 refore-se a "rar;as inferiores". Procure o contexto e entenda a referencia, lnserindo-se naquele conlexto. C. espera que o leitor subentencla que tals rar;as sao consideradas inferiores pela classe dominante colonial. E niJo por ele, C. Ni1o tenho procurar;i1o dele para a defesa. Far;o-a aqui, por questiio de honestidade intelectual. Divirjo de C. em muitos e muitos pontos- flO
teoria e no pratica- e nao tenho lrazido isso a publico por serem questiJes menores.
face as divergencias com a cultura reacioruiria.
E
preciso sempre considerar o essencial e as prioridades. Ademais.e
preclso lembrar quec.
foi IIIII p/oneiro dos estudos marxistas no Brasil, s11a obro /em um Iugar em nosso palrimdnio cultural, ele }a pagou alto prer;o por tudo isso. Inclusive com a prisiio. Precisamos. sempre esempre, velar pelo jllslo respeito ao trabalho inteleclual. (1987,1 15, I 16)
Outra divergencia irnportante entre ambos referia-se
a
interpretayao sobre aRevolu~ao de 193033, sobre a profundidade ou nao das transforrna96es resultantes daquele movimento. Enquanto que, para Sodre, tal Revoluryao deu inicio a urn processo de sentldo erninentemente burgues, aprofundando o desenvolvimento das relaryoes capitalistas e alterando decisivamente a estrutura de classes, do poder politico, da produvao cultural, para Caio a Revoluvao de 1930 nao apresentava as positividades encontradas por Sodre e, portanto, nao mereceu dele uma analise especifica; ao contritrio, Caio
so
reconhecia no rnovimento de 1930 e nos seus desdobramentos, fundamental mente, erros de toda a sorte.As duas grandes Guerras Mundiais, para ele, seriam os marcos para o entendimento das importantes mudancas na economia brasileira34. A nao discriminacao das djferentes
32 Ncsse texto Sodre fez varias refercncias a outro historiador apcnas pela pri.meiro tetra do nome.
33 Com ouua parte deste trnbalho desenvolveremos majs profundarnente a questao.
34 Caio viu no 2° governo de Vargas, no de Cafe FiU10 e no de Juscelino Kubistschek as ini.ciativas que mais propiciaram beneficios ao imperialismo.
orientacoes politicas e economicas dos govemos compreendidos entre 1930 e l 964 levou-o a urn abandono da tematizayao da politica, exatamente nos momentos de crise politica permanente; Gorender chegou a detectar a distancia de Caio Prado do movimento de massas que entao se desenvolvia atraves da luta pelas reformas de base e afirmou que a
posi~iio crilica da Brasi/iense (revista publicada entre outubro de 1955 e fevereiro de 1964, na qual Caio escreveu importantes artigos sobre a questao agnhia, principalmente35;
alem disso, foi urn dos fundadores e membro do Conselho Diretor da mesma) era, portallfo, unilateral e incapaz de apontar uma solu~ao posiliva para o movimento de massas e para a atua~ao politica concreta (1989,260).
A visao de Caio Prado sobre a politica brasileira, particularmente em relacao ao periodo iniciado em 1930, tem algumas conexoes com a «Teoria do Populismo", embora Caio Prado nao alimentasse nenhuma simpatia com aspectos da Republica Velha, urn dos muitos problemas da "teoria"(?) supracitada e que hoje esta praticamente desmoralizada como instrumento para compreender a hist6ria contempodinea do Brasil.
Uma analise rigorosa do livro A Revoht{:iio JJrasileira certamente nos revela que certas teses do autor estavam em consonancia com o que Sodre propunha
a
epoca. Caio procurou somente criticar o PCB, foi uma polemica politica, mal compreendida naquele momento. 0 historiador paulista, no lJvro em questao, nao chegou a propor qualquer tipo de estrategia revolucionaria nova, alternativa. Aos que cons1deravam a proposta caiopradiana socialista- nao cogitada por ele -, citamos o seguinte trecho do livroII eliminnfi'IO da inicinliva privada .mmenfe
e
possivel com aimp/antm;iio do SOciafiS/110, 0 que 11(1 si/Un9ii0 presente
e
desde fogo irrea/iztfve/no Brasil por faltarem. se oulros motivos ni'fo lwuvesse, condir;oes minimas de
JS Sobre a Revista Brasiliense, consullar Beiguelmau (1989) e Ferreira Lima (l98G).
consistencia e estrulurayilo economicn. social, polltica e mesmo simplesmente administmtivn, suficientes para fmnsformm;iio clnquele vulto e alcance(lbid, 165).