4. Método
4.2 Campo de Pesquisa
A pesquisa foi realizada no CAPS I – Centro de Atenção Psicossocial I de um município de médio porte situado na região nordeste do Rio Grande do Sul.
Nos anos 1990, com as transformações produzidas pela Reforma Sanitária e pela consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), assim como pela implantação da Reforma Psiquiátrica, realizou- se um questionamento ao modelo de saúde centrado unicamente no hospital e na atenção terciária. A proposta defendida foi a da transformação para um modelo de atenção integral e de perfil comunitário. Assim, constituiu-se o SUS e, no campo da saúde mental, a rede substitutiva ao hospital psiquiátrico, com a criação de vários dispositivos novos, entre eles, os Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS). Definidos pela portaria GM 336/02, com a função de prestar atendimento em regime de atenção diária, promover a inserção social dos usuários, regular a porta de entrada da rede de saúde mental, os CAPS devem estar em rede e oferecer suporte para a atenção básica (MS, 2005). Já em 2004, o Ministério da Saúde lançou uma política específica para a atenção integral aos usuários de drogas, que preconiza a estruturação e fortalecimento de uma rede de serviços com ênfase na reabilitação e reinserção social desses usuários (MS, 2004a).
O tipo do CAPS varia de acordo com a população a quem ele é destinado. O tipo I funciona em horário diurno nos municípios que possuem uma população entre 20 a 70 mil habitantes. Assiste a todas as pessoas que apresentam intenso sofrimento psíquico, sejam elas, crianças, adultos ou idosos, incluindo quem apresenta problemas por uso de álcool e outras drogas (MS, 2004b).
O Programa de Atenção Integral à Saúde Mental vem sendo implantado no município em questão desde 2002. A assistência acontecia na forma ambulatorial com equipe multidisciplinar. No ano de 2010 houve o credenciamento do CAPS, levando à reorganização da rede de saúde mental com a efetivação de novos profissionais, sendo a equipe ampliada para um melhor atendimento à demanda. Ainda em relação à estrutura física também houve mudanças e ampliações para maior acomodação dos usuários e das atividades desenvolvidas, tendo- se condições, desta forma, de abranger um maior número de pessoas. Hoje o Serviço acompanha em média 45 usuários por dia, sendo destes aproximadamente 20 usuários de drogas lícitas e ilícitas.
A equipe é composta por (1) enfermeiro e coordenador do CAPS, (1) médico clínico geral, (2) psicólogas, (1) assistente social, (1) terapeuta ocupacional, (2) técnicos de enfermagem, (2) oficineiras, (1) assistente técnica e (1) higienizadora. Os profissionais que atendem exclusivamente no CAPS são o enfermeiro, técnicos de enfermagem, assistente social, assistente técnica e higienizadora, com carga horária de 40h. Os outros profissionais também realizam atendimento na rede de saúde, destinando 20h da carga horária para o CAPS. A exceção ocorre no caso do médico, que mesmo com vínculo de 20h comparece no CAPS somente para as consultas (são 06 agendamentos diários), não participando de outras atividades. O CAPS funciona de segundas a sextas-feiras, das 8h às 11h30min e das 13h30min às 18h. Apesar de a Lei prever o atendimento integral e o fornecimento de 03 refeições diárias, tal ação não foi verificada, embora esteja nos planos da coordenação reestruturar o horário de funcionamento e incluir as refeições, conforme preconizado pela portaria.
O CAPS I é referência para a população de abrangência, em casos de álcool e drogas e também de transtornos mentais severos e persistentes, tanto para crianças, adolescentes como para adultos. O acesso a esse serviço dá-se de forma espontânea, nos casos de álcool e drogas e, em casos de transtornos mentais, o usuário deve ser encaminhado por sua unidade de saúde de referência, para posteriormente passar por uma triagem com os profissionais do CAPS. A triagem é de responsabilidade de um profissional de nível superior, chamado Técnico de Referência (TR), conforme plantão diário, momento em que é delineado o Plano Terapêutico Singular (PTS), em consonância com o usuário e de acordo com a modalidade de atendimento a ser seguida (intensivo, semi-intensivo, não intensivo), o qual é revisto, sob os cuidados do mesmo profissional, ao longo do tratamento. Caso haja disponibilidade de horário do plantonista, o auxiliar técnico já encaminha o usuário de drogas para a triagem no momento em que ele chega ao serviço, mas, em geral, é mais comum ele sair com um agendamento. A Lei versa sobre a realização de reuniões semanais da equipe para a discussão dos PTS. No entanto, através da observação participante, constatou-se que não estava ocorrendo essa reunião de discussão de casos, e, portanto o PTS não é evoluído em equipe. Observaram-se os profissionais fazendo reflexões entre dois ou três colegas, de maneira informal, não havendo um momento específico para isso.
São oferecidos atendimentos individuais com os profissionais de nível superior, psicoterapia individual, controle medicamentoso dos pacientes mais severos, e diferentes grupos: familiares de usuários de drogas, grupo de usuários de drogas e de prevenção à recaída, grupo de usuários de álcool e de prevenção à recaída, grupo de pacientes egressos de internação psiquiátrica com maior e menor comprometimento cognitivo, grupo de familiares de egressos, grupo de mulheres com depressão e grupo de expressão corporal. As oficinas terapêuticas que estavam sendo realizadas no momento da observação são de papietagem, reciclagem, jardinagem, relaxamento e oficina de música com instrumento. Estavam previstas outras: coral, cinema, atividade física e dança, mas no momento da observação estavam suspensas devido ao desligamento do profissional responsável.
No mês de outubro de 2011, o CAPS completou um ano de sua inauguração. Com base nos prontuários cadastrados no Serviço identificaram-se 379 usuários, sendo 208 usuários de drogas. Considerando os usuários exclusivos de crack e os que fazem uso de múltiplas drogas, incluindo o crack, há um total de 98, ou seja, 47,11% 57
dos usuários de drogas apresentam problemas em decorrência do uso dessa substância.