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O crack, assim como outras drogas, implica em alguns conceitos intimamente ligados ao consumo de substâncias, entre eles o de uso, abuso e dependência, segundo parâmetros utilizados pelos serviços e profissionais da saúde. Para Silva e Laranjeira (2004) a definição desses conceitos não está clara, porque não há uma fronteira que os separam, na medida em que se considera a ideia de continuidade entre os diferentes níveis de consumo. Desta forma, os autores explicam que, inicialmente os indivíduos passariam pela fase do uso experimental ou social, onde se concentra um maior número de pessoas, implicando um consumo de substâncias de forma esporádica, em situações sociais, culturais, familiares.

Alguns de seus consumidores sociais evoluem para o padrão de abuso – quando a frequência e a quantidade de doses aumentam e o uso da substância já está associado com algum tipo de prejuízo biológico, psicológico ou social. Esse padrão varia de acordo com cada tipo de droga e seus efeitos, mas atinge um número bem menor de pessoas.

Por fim, uma quantidade menor destes abusadores evoluem para um padrão dependente – consumidores sem controle, cuja vida passa a girar em torno do consumo da substância e da recuperação de seus efeitos e prejuízos (Silva & Laranjeira, 2004). Um número bem menor de usuários chega a esse padrão, sendo, na população brasileira, em torno de 12% dos usuários de álcool e de 1% para os consumidores de outras drogas (Carlini et al. 2006).

A definição desses conceitos está presente em dois dos manuais mais utilizados na classificação de transtornos mentais: o CID-10 – Classificação Internacional de Doenças – elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e o adotado no Brasil pelo Sistema Único de Saúde, o SUS; e o DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – elaborado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA). Em geral, os manuais apresentam-se de forma semelhante quanto à definição dos conceitos relacionados ao uso indevido de drogas, diferindo, no entanto, na terminologia.

Um conceito usado de forma semelhante, porém com termos diferentes é o de uso nocivo e abuso. O uso nocivo (ou prejudicial) é utilizado pelo CID-10 para identificar um padrão de uso que causa prejuízo físico ou mental à saúde, e é análogo ao que o DSM-IV refere como abuso: um padrão mal-adaptativo de uso de substâncias, incluindo as consequências prejudiciais do uso repetido.

O termo dependência foi introduzido pela OMS, no ano de 1964, referindo-se a todas as substâncias psicoativas, quando estas são usadas de forma compulsiva na busca de bem-estar ou para evitar sensações desagradáveis. A dependência pode ser física ou psíquica, de acordo com seus efeitos. A dependência psíquica ocorre quando há a perda de controle sobre o consumo da substância e a dependência física está associada à tolerância e aos sintomas de abstinência (OMS, 1994).

Para entender a dependência, Silva e Laranjeira (2004) destacam a necessidade de se compreender os mecanismos pelos quais as drogas agem no sistema nervoso central, pois a dependência tem caráter essencialmente cerebral. Segundo esses autores, sintomas decorrentes do uso agudo e crônico de drogas, como, por exemplo, a alteração do comportamento, da motivação e da capacidade de julgamento, são originados diretamente por esta ação.

O CID-10 define a dependência como uma síndrome composta pelo conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, incluindo a prioridade dada ao uso de uma substância ou de uma classe de substâncias na vida de um indivíduo em detrimento aos outros comportamentos que tinham valor anteriormente. Caracteriza-se pelo forte desejo ou compulsão de consumir drogas psicoativas e na persistência do uso, apesar das evidências de que ocorrem consequências prejudiciais à saúde. Inclui o estado de abstinência fisiológico e tolerância (OMS, 1993). O DSM-IV define a dependência como um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos que resulta em tolerância, síndrome de abstinência e comportamento compulsivo de consumo da droga (APA, 2002).

A síndrome de abstinência ocorre quando o uso da substância cessa ou é reduzida no uso de um indivíduo que manteve um padrão pesado e prolongado. Há a necessidade de se consumir novamente a substância para aliviar ou evitar os sintomas da abstinência, os quais podem ser físicos e psicológicos. No caso da abstinência de cocaína, o humor torna-se disfórico e ocorrem alterações fisiológicas como a fadiga, sonhos vívidos e desagradáveis, insônia ou hipersonia, aumento do apetite e retardo ou agitação psicomotora (APA, 2002). Estas alterações causam sofrimento e prejuízos no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes. O início e tempo de duração do estado de abstinência é limitado e relaciona-se com o tipo de substância e a dose que vinha sendo administrada (APA, 2002; OMS, 1993).

A tolerância é identificada quando o indivíduo consome doses da substância progressivamente maiores para obter os efeitos que eram, 35

inicialmente, produzidos por doses mais baixas (APA, 2002; OMS, 1993). O efeito sofre acentuada redução ao longo do uso continuado da mesma quantidade de substância. O indivíduo que consome a substância em maiores quantidades ou por um período mais longo do que se pretendia no início, apresenta um padrão compulsivo de uso. Apesar do conhecimento das dificuldades que o uso da droga lhe causa, o indivíduo apresenta repetidos fracassos em manter-se abstinente (APA, 2002).

Em relação ao uso da cocaína/crack, como ela age no Sistema Nervoso Central, bloqueando a recaptação da dopamina e

consequentemente estimulando os receptores neuronais, são

proporcionados efeitos positivos que instigam indivíduo a buscá-los compulsivamente. Algumas sensações ocorrem com o aumento das habilidades físicas e mentais, como: euforia, bem-estar, agilidade, redução do apetite, desinibição, que irão encorajar o uso contínuo da substância (Bordin et al. 2004). Com o tempo de uso o indivíduo pode considerar cada vez mais difícil resistir à cocaína quando ela estiver disponível e necessitar de doses frequentes para a manutenção dos efeitos sinalizando características iniciais da dependência.

Outro termo frequentemente relacionado ao uso de drogas é fissura ou craving. Esse termo é comumente referido ao desejo urgente de utilizar uma substância específica, o que provoca alterações de humor, sensações físicas e modificações de comportamento. Pode ocorrer tanto na fase de consumo como de abstinência. Os estudos demonstram a relação entre a fissura e a recaída, no sentido que a primeira induz a segunda e também consideram estes fenômenos independentes, não havendo uma teoria que forneça uma explicação completa sobre craving (Drummond, 2001; Formigoni, Kessler & Pechansky, 2008; Zeni & Araújo, 2011; Araújo, Oliveira, Pedroso, Miguel & Castro, 2008).

A fissura, em usuários de crack, é relacionada com uma sensação negativa despertada pela vontade de usar a substância. Foram identificadas, no estudo desenvolvido por Chaves, Sanchez, Ribeiro e Nappo, (2011), três situações que podem despertá-la: ao evocar lembranças e sentimentos do uso do crack, desencadeados por estímulos externos e internos; ao buscar a sensação de prazer ou evitação do desconforto quando cessam os efeitos do uso; e no desenvolvimento do padrão binge de uso, ou seja, intenso, contínuo e repetitivo (Chaves et al. 2011).

3.3 Crack e sua História