3. OS DADOS PRELIMINARES E OS NÍVEIS MACRO E MICRO ESTRUTURAL
3.2 NÍVEIS MACRO E MICRO-ESTRUTURAL
3.2.2 Camus e o texto de partida
Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. Seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. (SARTRE, trecho da carta escrita um dia após a morte de Camus)23
Nesta carta, Sartre tenta descrever quem foi Albert Camus e a importância de suas obras para as letras francesas. Para se compreender o pensamento e a vida de Camus, faz-se necessário inseri- lo em seu contexto histórico, pois, sua filosofia foi fruto da realidade do me io em que viveu. Camus começou a escrever cedo e foi obrigado a se exilar em Paris por denunciar a miséria dos mulçumanos na Argélia. Tornou-se importante ensaísta, novelista, dramaturgo, filósofo e escritor, tendo dedicado sua vida, ao lado de outras ilustres personagens de sua época, a repensar os valores apresentados e impostos por uma sociedade que pouco se importava com a dignidade humana. Foi um dos mais jovens ganhadores do prêmio Nobel de Literatura, um comunista que lutava contra o stalinismo e um dos líderes de sua geração de escritores. Lutou também contra a intelectualidade francesa por causa de suas posições políticas e contra a tuberculose.
Nascido em 7 de novembro de 1913 em Mandovi, na Argélia, desde cedo se deparou com situações que lhe ofereceram consciência real do mundo em que vivia. Depois da II Grande Guerra, Camus adotou uma linha de pensamento ideológico mais contundente na defesa do socialismo e da liberdade do indivíduo. Acusado de individualista e retórico, rompeu com o líder marxista, Jean-Paul Sartre, e enfrentou um conflito entre suas idéias
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progressistas e a explosão da revolução na Argélia, colocando-se do lado da França. Na historiografia filosófica e nos dicionários, é classificado usualmente como um filósofo existencialista, embora tenha ele próprio negado esse título ao afirmar: "Não, não sou existencialista... e o único livro de idéias que eu publiquei Le Mythe de Sisiph, foi contra os filósofos chamados existencialistas"24.
O que primeiramente caracteriza Camus como um gr ande escritor é o estilo. Contudo, vale ressaltar que estilo não se refere apenas à forma de organizar as palavras em uma frase ou frases em uma página. Caracteriza-se também por atitude, técnica, vocação, novidade e preocupação com temas sociais. Barthes (2004, p. 10) afirma que o estilo está além da Literatura, envolve “imagens, um fluir, um léxico que nascem do corpo e do passado do escritor e se tornam, pouco a pouco, os automatismos mesmo de sua arte”. Em Camus a leveza de estilo surpreende com um novo modo de escrita. Ele proporcionou mudanças decisivas de mentalidade e consciência, além de ter inovado com a utilização de parágrafos mais curtos, utilização do passé composé e linguagem simples - não relacionada à coloquial, é considerada simples em relação aos outros textos da época. Ele busca um novo modo de contar “porque a crise exige renovação” (HOLANDA 1992 p. 24). E, segundo Barthes, Camus é o criador de uma escrita branca, “libertada de toda servidão a uma ordem marcada da linguagem, caracterizada pela existência de um estilo feito quase da ausência de estilo” (BARTHES, 2004, p. 65).
Traços marcantes de suas obras são a atemporalidade e a abordagem filosófica em torno de questões relativas à natureza humana, presentes em qualquer época. Os personagens de Camus podem ser confundidos com o próprio autor. Cada um deles parece ter alguma característica sua. O que escreve nada mais é do que ele mesmo, suas ideologias e posicionamentos perante questões filosóficas e humanistas que caracterizam sua escrita. As estruturas gramaticais são inovadas, sua linguagem apesar de simples, comparada ao que se escrevia na época, era muito bem construída, as palavras são carregadas de posições ideológicas e referências, seja a outros autores, seja a acontecimentos.
Em A Peste, Camus apresenta uma cidade em meio a uma epidemia mortal. São abordados temas como o comportamento humano, a separação, a liberdade (ou a perda dela) a morte e a felicidade. Em Oran, num dia de abril, o doutor Rieux descobre o cadáver de um rato. No primeiro capítulo, o autor anuncia as causas da epidemia. Alguns dias mais tarde, um jornal anuncia que mais de seis mil ratos foram apanhados em um só dia. A angústia
aumenta. Repentinamente, o número de cadáveres diminui e todos acreditam estar salvos. Em seguida, o zelador do imóvel sucumbe a um mal violento e misterioso. Os mortos se multiplicam. Os ratos invadem a cidade e a peste aparece. Algumas medidas de segurança são tomadas, entre elas, colocar a população em quarentena.
No segundo capítulo, há o isolamento da cidade. O medo e a “prisão” modificam os comportamentos coletivos e individuais. Os habitantes têm dificuldades em se comunicar com os parentes e amigos que estão fora da cidade e tentam compensar as dificuldades se entregando aos prazeres materiais.
No terceiro e quarto capítulos, a tensão aumenta e a epidemia se alastra. O número de mortos é tão grande que foi preciso jogá- los numa fossa, como animais. Os habitantes parecem perder as lembranças e a esperança. Eles não têm mais ilusões e se contentam em esperar. Rambert, Rieux e Tarrou decidem lutar contra a epidemia. O padre Paneloux morre e ratos reaparecem, vivos.
No quinto e último capítulo, a peste desaparece. Dentre suas últimas vítimas estão a esposa de Rieux e Tarrou, estrangeiro que escrevia sua própria crônica da epidemia enquanto ajudava o Dr. Rieux na organização do serviço sanitário. Finalmente, numa manhã de fevereiro, as portas da cidade se abrem e os habitantes comemoram a liberdade. Um monumento é erguido em homenagem às vítimas.