2.2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
2.2.3 O modelo metodológico de Lambert e van Gorp
José Lambert e Hendrik van Gorp (1985) elaboraram um modelo metodológico prático e sintético para o estudo descritivo das traduções literárias com base em um esquema (Lambert e Lefevere, 1978) que contém parâmetros básicos dos fenômenos da tradução apresentado por Even- Zohar (1978) e Toury (1980). Este modelo tem como princip al objetivo mostrar as normas que atuam durante o processo tradutório no polissistema de determinada cultura. Como esse artigo tornou-se uma referência freqüente nos estudos descritivos e a proposta desta dissertação é fazer uma análise de traduções literárias com base nestes estudos, este modelo será adotado como referencial metodológico. O esquema mostra as relações que podem ajudar na produção e modelagem da tradução atual e que são observáveis na descrição das traduções. A base para o modelo é
uma visão ampla dos polissistemas do texto de partida e do texto de chegada. O principal objetivo do modelo é revelar as diversas normas envolvidas no processo tradutório, desde a escolha de determinada tradução até os aspectos estilísticos utilizados por determinado tradutor.
O modelo envolve o contexto histórico, o processo tradutório, a recepção da tradução, e, até mesmo, aspectos sociológicos como distribuição e crítica de tradução. Ele ajuda a evitar inúmeras crenças concernentes à “fidelidade ao original” e à “qualidade” da tradução, questões meramente normativas. Lambert e van Gorp se propõem a guiar o pesquisador para que este não se baseie apenas em sua intuição e evite, a princípio, julgamentos e convicções e sejam capazes de situar aspectos e relações a serem observadas dentro de um esquema geral de equivalência. Eles deixam claro que cada esquema tem prioridades específicas e cabe ao pesquisador determiná- las antes de iniciar a análise.
Concebendo a tradução como resultado de uma seleção de estratégias dentro de um sistema de comunicação, deverão ser estudadas as prioridades, sejam elas normas ou modelos dominantes, que determinam as estratégias tradutórias. Os quatro níveis do esquema proposto pelos autores para o estudo descritivo das traduções literárias, são:
b. dados preliminares: título, para-textos (diagramação da capa, orelhas, nome do autor, nome do tradutor etc), meta-textos (prefácios, ensaios, críticas etc) e estrutura geral da tradução;
c. nível macro-estrutural: divisões do texto (capítulos, atos, cenas), títulos de capítulos e seções, estrutura narrativa, estratégia global de tradução;
d. nível micro-estrutural: seleção vocabular, estruturas gramaticais, formais e estilísticas, narrativa, modalização, linguagem etc.
e. contexto sistêmico: oposição entre as relações macro e micro-estrutural do texto, relações intertextuais, relações intersistêmicas.
Com base nas informações coletadas e nas relações observadas entre os textos, o pesquisador deve transitar entre os níveis macro-estrutural – apresentação e normas gerais que regem a tradução - e micro-estrutural – estratégias de tradução, escolhas estilísticas, lingüísticas. A partir das observações e hipóteses levantadas no nível macro, o pesquisador deve verificá- las através da análise micro a qual também levará à formulação de hipóteses que serão confirmadas no nível macro.
2.2.4 A metodologia
A realização desta pesquisa se deu através da análise descritivo-comparativa de duas traduções do romance La Peste de Albert Camus. As traduções para o português do Brasil foram feitas por Valérie Rumjanek (1980; 1988) e por Graciliano Ramos (1950; 1973). Este, escritor de prestígio na Literatura Brasileira na época em que fez a tradução, e aquela, uma tradutora que, além desta, traduziu outras obras de Camus.
Foram estudadas as estratégias de escolha feitas pelos dois tradutores no processo tradutório e, como a atividade tradutória ainda é discriminada por alguns autores, defende-se a hipótese de que, por ser Graciliano Ramos um autor já consagrado na língua portuguesa, sua tradução é tida como de melhor qualidade e suas estratégias de escolhas podem não ser tão “fiéis” ao “original”.
Inicialmente, a partir da leitura das traduções envolvidas, foram discutidas algumas questões referentes ao cânone literário, ao papel do tradutor e às relações entre autor e tradutor, destacando que um dos tradutores envolvidos – Graciliano Ramos - é também um autor. Por se tratar de um estudo descritivo, foram observados, nesta pesquisa, o contexto em que foram feitas as traduções e a aceitação ou crítica que obtiveram na época em que foram traduzidas. A seguir, realizou-se uma análise sintático-semântica das traduções, pontuando as diferentes estratégias de escolha feitas pelos tradutores, que caracterizam o estilo de cada um, estabelecendo um paralelo com o texto de partida.
Devido, primeiramente, à falta de tempo para analisar o romance por inteiro e à constatação de que os respectivos tradutores mantêm o mesmo estilo durante todo o processo tradutório, optou-se por delimitar o corpus. O romance está dividido em cinco capítulos e, a princípio, optou-se por analisar três capítulos: o primeiro, no qual o autor anuncia as causas da epidemia, os primeiros mortos aparecem, os ratos invadem a cidade e a população é colocada em quarentena; o terceiro, em que o número de mortos aumenta e os habitantes parecem perder as lembranças e a esperança, não têm mais ilusões e se contentam em esperar; e, o quinto, que marca o fim da peste, a abertura das portas da cidade e a comemoração dos habitantes. Porém, verificou-se que o corpus ainda era muito amplo e que, para a análise proposta, não causaria prejuízos reduzi- lo.
Decidiu-se, então, analisar partes dos três capítulos citados anteriormente. Escolhendo-se estes trechos, pode-se perceber todo o processo tradutório do início ao fim
do romance, se as escolhas e o estilo permaneceram os mesmos. No primeiro capítulo, foram analisadas as 27 primeiras páginas12
; por se tratar de uma narrativa e de um capítulo curto optou-se pela análise de todo o terceiro capítulo (14 páginas); por fim, as últimas páginas do livro (7 páginas), por ser o desfecho do romance.