III. Elementos de interesse do processo comunicacional
III.2. Canal
O canal, também chamado de contato, veículo, meio ou suporte físico, é elemento indispensável à transmissão da mensagem, sendo, v.g., o ar para a comunicação verbal, mas da comunicação verbal. Para darmos dois exemplos: Aristóteles declarou que ‘os sons falados são símbolos das afeições existentes na alma’, que são elas próprias ‘semelhança das coisas reais’ (Aristóteles, De Interpretatione: 43). Segundo a nossa própria interpretação, o que ele declarou foi que as elocuções codificam as suposições. Arnauld e Lancetot, na sua famosa Grammaire de Port-Royal, descrevem a linguagem como sendo [....]”. SPERBER, Dan; WILSON, Deirdre. Relevância: comunicação e cognição. Trad. Helen Santos Alves; rev. Manuel Gomes da Torre. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p. 32.
189 BERLO, David Kenneth. O Processo da Comunicação: introdução à teoria e à prática, cit., p. 151. 190 Ibid., p. 151.
podendo ter muitas outras formas como as faixas de frequência de rádio, luzes, sistemas mecânicos ou eletrônicos, entre outros191.
DAVID K.BERLO192 faz a seguinte advertência: “Talvez se possa afirmar que nenhuma palavra, na teoria da comunicação, tem sido tão usada e abusada como a palavra ‘canal’”. Ocorre que o termo “canal” experimenta variação semântica, fazendo com que seja utilizado em diferentes sentidos. O Autor, no entanto, diz que pelo menos três devem ser examinados: codificadores/decodificadores; veículos, e, transportadores/suportes dos veículos.
Para explicá-los ele faz uso de uma analogia. Pede-nos para supor que ele esteja na margem de um grande lago e você na oposta, tendo ele, uma encomenda que quer lhe enviar. Ele pergunta: “De que vou precisar para que o pacote chegue a suas mãos?”.
Informa que primeiro, precisará de um barco para transportá-lo. Segundo, de um meio de colocá-lo no barco, meio esse que ele denomina cais e que fará a ligação entre ele e o barco. No outro lado, você precisará também de um cais. Finalmente diz sobre a necessidade da água, e que tudo, em condições apropriadas, fará o pacote sair do emissor e chegar até o receptor. Cais, barco e água são as três coisas necessárias para que ocorra o contato entre ele e você, mas que sempre são designadas unicamente como canais.
Mas, caso se queira conversar, diz ele que: “[...] precisamos dispor ambos de aparelhos codificador e decodificador que nos permitam traduzir impulsos elétricos (nervosos) internos em alguma mensagem física externa. Meu mecanismo de falar e o seu mecanismo de ouvir são análogos aos nossos cais”193.
Continua com sua analogia:
A mensagem oral que produzo tem que chegar até você por alguma espécie de veículo de mensagem. Os veículos que levam as mensagens orais são as ondas sonoras. As ondas sonoras são análogas aos nossos barcos. Finalmente, as próprias ondas sonoras precisam de algo que as sustente, de um transportador de ondas. Precisamos de um transportador do veículo.
191 Para LÚCIA SANTAELLA: “Todas as mensagens, […] para serem transportadas, transmitidas, para que o processo de comunicação se efetive, as mensagens necessitam de um canal. Este pode receber outros tipos de denominação, tais como suporte, veículo, meio etc., mas a função é sempre a mesma: a de que as mensagens, nas quais os processo sígnicos (ou processos de linguagem) se configuram, sejam transmitidas de uma fonte a um destino. Portanto, quando se trata de analisar o fenômeno da comunicação, esse componente do processo – o canal – desempenha o papel mais substancial”. SANTAELLA, Lúcia. Cultura das Mídias, cit., p. 185.
192 BERLO, David Kenneth. O Processo da Comunicação: introdução à teoria e à prática, cit., p. 65. 193 Ibidem, p. 65.
Geralmente, pelo menos na comunicação humana, as ondas sonoras são sustentadas pelo ar. O ar é análogo à nossa água194.
Por fim, conclui: “São estes, pois, os três principais sentidos da palavra “canal” na comunicação: maneiras de codificar e decodificar mensagens (cais), veículos da mensagem (barco) e transportadores do veículo (água)”.
Trazendo essas ideias para este estudo, vemos como emissores (ou fontes) e receptores os homens, que também são codificadores/decodificadores. Isso se dá no momento em que o ser humano, querendo realizar um ato de fala, opta, dentre os diversos signos aos quais têm acesso, por um deles, ou seja, ou por gestos, ou palavras, etc.. Isso pode causar certa perplexidade, pois foi falado que a codificação faz parte do canal. DAVID K. BERLO, a esse respeito, explica:
A esta altura, o leitor talvez esteja compreensivelmente confuso a respeito de um ponto. Antes, definimos decodificador como os mecanismos sensórios do receptor. Definimo-lo, na comunicação de pessoa para pessoa, como os sentidos da audição, da visão, do tato, etc. Já agora apresentamos como definição de “canal” os sentidos do decodificador – de novo a audição, visão, tato, etc. Em outras palavras, falamos sobre os mecanismos sensórios do indivíduo tanto na condição de canais como na de decodificadores. Voltemos à nossa analogia e vejamos o termo “cais”. Suponhamos que o leitor fosse solicitado a dizer se o cais é parte da terra ou da água. Tanto dizemos que o cais é principalmente parte da terra como principalmente parte da água. Conforme seja nosso objetivo, podemos dizer agora uma coisa e logo depois outra195.
Aproveitando o exemplo de DAVID K. BERLO dir-se-á que o “cais” é principalmente parte da “água”, ou seja, os esforços voltam-se para o estudo da codificação e decodificação enquanto componentes do canal, pois, do processo de comunicação, um dos elementos que pode ser tributado no tocante aos serviços prestados é o canal, desde que seja objeto de contrato oneroso.
Isso é assim porque em telecomunicações o que prepondera é a inovação tecnológica, relacionada diretamente aos canais – tomados em abrangente – revelando, cada vez mais, novas oportunidades de negócios. O surgimento e a evolução das telecomunicações que serão expostas no Capítulo I confirmam a importância desses elementos.
194 Ibidem, p. 65-66.
Além disso, “as características dos serviços de telecomunicações decorrem diretamente das redes estruturadas para disponibilizá-la aos usuários”196, portanto, é necessário observar de que forma, tecnicamente, um sistema de comunicação se apresenta:
Figura 2: Sistema de Comunicação Fonte: elaborada pelo autor
Esse modelo é oferecido por OVÍDIO BARRADAS, em seu livro Você e as Telecomunicações197 que explica:
Observe que a comunicação é unilateral, isto é, só tem um sentido: da fonte para o destinatário. Isto acontece na radiodifusão, na televisão, na difusão automática de mensagens. Este esquema não dá direito de resposta ao destinatário.
O Autor corrobora as explicações sobre o fenômeno considerado unidirecionalmente e, quando fala de um sistema completo de comunicação exige a bilateralidade:
196 FARACO, Alexandre Ditzel. Regulação e direito concorrencial: (as telecomunicações). São Paulo: Livraria Paulista, 2003, p. 22.
197 BARRADAS, Ovídio. Você e as Telecomunicações. Rio de Janeiro: Interciência, 1995, p. 17.
Ruído
F COD MOD Tx M
CANAL DE TRANSMISSÃO
Figura 3: Sistema Completo de Comunicação Fonte: elaborada pelo autor
Onde, cada símbolo significa: F – Fonte; COD – Codificador; MOD – modulador; Tx – Transmissor; M – Meio; Rx – Receptor; DEM – Demodulador; DEC – Decodificador e D – Destinatário.
Usar um canal para transportar a informação exige, inicialmente, uma fonte de energia. O Tx e o Rx são, respectivamente, o gerador e o captador de energia. Além disso, deve haver algum dispositivo que se ocupe em variar essa energia, em conformidade com os símbolos emitidos pela fonte. Este é papel do modulador e do demodulador.
De nada adiantaria a fonte (F) codificar (COD) se o Modem (MOD) não fizesse a variação da portadora (ou geradora de energia). Os modems são os responsáveis “por fazer variar uma característica da portadora, de acordo com os símbolos da fonte ou recuperar estes símbolos, da portadora modulada recebida”198. Os transmissores, por sua vez, servem apenas para “empurrar a energia para o meio de transmissão”199.
Observando os gráficos das figuras acima, vemos que os codificadores e os decodificadores não compõem o canal de transmissão, mas os moduladores sim, e, guardadas as devidas especificidades técnicas, podem ser a eles equiparados, tendo em vista que sem eles os códigos não transitam pelo meio. Num sistema de comunicação, o “cais” a que se referiu DAVID K. BERLO é composto também pelos moduladores, só que na parte “principalmente água”. E os codificadores são o cais “principalmente da terra”.
198 BARRADAS, Ovídio. Você e as Telecomunicações, cit., p. 61. 199 Ibidem, p. 61.
D DEC DEM Rx M Tx MOD COD F
F COD MOD Tx M
CANAL DE TRANSMISSÃO
Em decorrência dos sistemas apresentados, podem-se dividir as redes de telecomunicações – que são construídas a partir de sistemas de comunicação – em duas categorias básicas: redes de mediação e redes de difusão200. As redes de mediação permitem a ligação entre pontos determinados com possibilidade de troca de informações entre esses pontos, ou seja, a informação é bidirecional (telefonia fixa e móvel, telegrafia e telex). Quanto às redes de difusão, são preparadas para enviar a informação unidirecional, ou seja, parte apenas de um ponto da rede em direção aos seus receptores, sem condições de intercâmbio com o emissor (radiodifusão e televisão por assinatura).