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Os (en) cantos da catingueira

3 A CONSTRUÇÃO DA FICÇÃO EM SERTANÍLIAS

3.6 DA CATINGUEIRA: SUA ORIGEM, SUA LABUTA, SEU PIDIDO

3.6.2 Os (en) cantos da catingueira

No Canto I, é informado ao público o cenário em que ocorreu o nascimento de

Dassanta:

Ela nasceu na Laje do Gavião

numa quadra iscura de Janêro

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numa noite de chuva e de truvao

e no meio do mais grade /aguacêro.

(MELLO, 1983, p. 09).

Como vimos nos relatos sobre o nascimento da criança, os elementos lexicais

dispostos no texto apontam para a introdução do espaço insólito: céu escuro, lua

minguante, relâmpago, trovão, lua cheia, noite chuvosa. No momento de receber o

sacramento do batismo repetiu-se a noite escura e chuvosa do seu nascimento.

Para não morrer pagã, os pais da menina recém-nascida resolveram enfrentar a

noite sem luar, encarar os perigos que uma ocasião análoga a esta proporciona.

Apesar dos contratempos, iam cheios de regozijos, pois sabiam que a pequena

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tornar-se-ia uma cristã. Assim, o cantador descreve a noite da longa e perigosa

jornada até chegar à igreja na Vila de Poção

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:

numa noite de relâmpo e truvão

resolvêro fazer o sacrament‘

seu pai quéla e cum facho na mão

sua mãe muntada num jiment‘

sairo no meio da iscuridão

sofreno mais cum muit‘ contentamento.

(MELLO, 1983, p. 09).

A caminho da igreja, o pai de Dassanta carrega-a segura apenas em um dos

braços, enquanto que com a outra mão segura o tição para iluminar o caminho

escuro, a mãe vai montada no jumentinho. No sertão da Bahia, a cerimônia do

batismo, para a comunidade católica, é imprescindível para a vida espiritual de uma

pessoa. Já segundo a crença popular, enquanto não receber este sacramento, a

criança ficará vulnerável a toda sorte de males físicos e espirituais, pois é pagã,

desprovida da proteção divina.

Chegando à Vila do Poção a criança finalmente recebeu o sacramento do

batismo. Por outro lado, sendo os pais da menina muito pobres, não tiveram

condições de fazer o assentamento do seu nascimento, pois o dinheiro que

possuíam fora pago ao sacerdote para que este realizasse a celebração do batismo.

Assim, Dassanta foi batizada, mas não teve a sua existência oficializada entre os

homens, tendo em vista que seu registro de nascimento custaria aos pais ―cinco mili

reis‖, quantia não disponível por um humilde vaqueiro que vivia do trabalho em

pastos alheios.

Dessa forma, sem ter sua ―era‖ assentada na Vila do Poção, a sertaneja

cresceu como uma pessoa sem existência oficial na história. O que aconteceu com a

moça, assemelha-se ao que sucedeu com Cilistrino, um dos companheiros de

Sertano. Ele também não teve suas ―era assentada‖, pois quando era criança vivia

em extrema pobreza, fugindo da seca com os pais. Situação de miséria parecida

também com a do retirante em Fantasia Leiga para um Rio Seco, com a da família

de Fabiano em Vidas Secas e com da família de Chico Bento em O Quinze. Todos

eles são miseráveis, varridos sertão afora, pobres analfabetos, despatriados dentro

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Vila de Poção, é uma referencia a cidade de Poções, localizada no Sudoeste da Bahia a 444 km da capital Salvador. Fundada em 26 de Junho de 1880. Segundo os dados do IBGE no ano de 2013, a cidade é composta por uma população de 48.576 habitantes. Está localizada numa depressão em forma de bacia, daí seu nome ―Vila Poção‖ atualmente é o município de―Poções‖.

da própria pátria.

Voltando à falta de assentamento do nascimento de Dassanta, e, por

conseguinte, à imprecisão de sua idade, o texto deixa um tempo histórico bastante

amplo para delimitar a data em que se deu a história de Dassanta. Desse modo, a

moça viveu, lá pelas paragens do sertão baiano, em qualquer período em que a

moeda corrente brasileira era ―Réis‖, plural de Real, moeda corrente em ouro, prata

e bronze usada em todo o período colonial no Brasil até 1833.

No canto II, intitulado ―Dos labutos‖, o narrador apresenta Dassanta já

crescida, a moça tornou-se uma pastora de cabras. Além de auxiliar nos trabalhos

da família, em tempo de seca, quando não há o que se plantar, e muito menos o que

se colher, a fascinante sertaneja parte para terras mais distantes, a fim de trabalhar

em propriedade alheia pastoreando cabras.

Dassanta burrega marrã

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Passa vigiando o rebain

de seu siô todas manhã

etomém as tarde intera.

(MELLO,1983, p. 15).

Este canto demonstra a dura realidade dos sertanejos que em tempos

extremos de estiagem precisam trancar suas próprias criações nos chiqueiros,

fecharem as suas casas e saírem à procura de trabalho em terras de pessoas mais

afortunadas. Mais uma vez, vemos a repetição do problema da peregrinação do

sertanejo, como um ―judeu errante‖, aproveitando outra vez a expressão de

Graciliano Ramos quando fala de Fabiano e sua família sendo tangido pela seca.

Sempre sem perder a esperança, continuamente, acreditando que conseguirá fugir

da ―tirania‖ do sol.

botava água na cumbuca

e o balaizin‘ de custura ispidurava na cintura

e rumpia facêraboian‘ boian‘

chiquê chiquê minhas

cabrinha lambancera.

(MELLO, 1983, p.15).

Na época de extrema seca, Dassanta junta os poucos pertences que lhe resta

e segue a jornada para o ―Campo de sete Estrelo‖, região em que as condições de

vida são mais favoráveis. O conteúdo do Auto da Catingueira é rico em detalhes

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sobre o gênero desafio, típico de violeiros e cantadores. Como temos visto, e

veremos ainda, nos outros cantos do auto estes aspectos são fartamente

abordados, mas neste aqui, o autor faz um parêntese, a fim de destacar o problema

histórico da seca que proporciona inúmeras agruras aos nordestinos mais pobres.

Assim, ao falar dos trabalhos de Dassanta, Elomar evidencia a vida ―tirana‖ que a

maioria do sertanejo aprende a conviver, desde o nascimento até a morte.

No canto intitulado ―Das Visage e das Latumia‖ o auto se projeta como um

palco natural para as manifestações do fantástico. A caatinga, a vida, o festejo, o

trabalho, e a morte, tudo se integra com o referencial geográfico identificável, mas

gradativamente é sucumbido por outro espaço, bem mais imenso e intrigante que

rompe com a ordem natural das coisas, todavia permanece familiar. É a simbiose

entre o sertão geográfico e sertão mítico que, no auto, assim como em Sertanílias, é

aceito pelas personagens como uma ligação harmônica entre o real e o mítico.

Pastora piligrina

nas quebrada vô

guardano as cabra de meu pai e siô

[...] nas minha andança dent‘ do

serrado

já vi coisa do

malassombrado

Coisas de fazêarrepiá os cabêlo

[...] já vi coisa do invisivevisage e latumia

patumia e parição

de quem tá morto e quem vive

istripulia de Rumão.

(MELLO, 1983,p. 23).

Este canto deixa evidente a relação harmônica da personagem com os seres

insólitos que povoam o imaginário sertanejo. Dassanta convive com estes seres

maravilhosos como se eles fossem a extensão do seu cotidiano durante o labor no

campo. Nada a assusta. A moça não se surpreende em encontrar pelos caminhos

do sertão as ―visage‖ as ―latumia‖, as ―istruipilia‖ de Rumão. As coisas do

―malassombrado‖ não lhe perturbam, pois as ―patumia‖ e as ―parição‖ são livusias

com as quais convive em seu cotidiano campesino pastoreando suas cabras, desde

a mais tenra idade.

Ao citar ―Rumão‖, Elomar recupera uma entidade conhecida pelos sertanejos

por seu caráter maléfico, Romãozinho. Sua história circula nas terras do sertão

desde tempos muito antigos. Trata-se da triste história de um menino travesso que

foi assassinado pelo próprio pai. Como toda história oral, a do Romãozinho

apresenta várias versões, mas em todas, o malvado menino tem um final ignóbil.

Apresentaremos aqui a variante coletada por Unger (1978). Segundo os relatos

colhidos por ela nas comunidades ribeirinhas, Romaõzinho ou Rumão era um

menino ―maldoso e travesso‖. Todos os dias, quando sua mãe terminava de

preparar o almoço, conferia ao filho a tarefa de levar o ―farnel do marido lavrador‖.

No caminho, o travesso devorava toda a comida que havia sido reservado para o pai

―carne do tatu ou do preá‖. Cheio de perversidade, entregava para o pai apenas os

ossos, ao tempo que dizia: ―Que mãe mandou p‘ra vosmicê‖. Segundo o que

relataram a Edyla Mangabeira Unger, um dia, enraivecido com a situação, o pai

matou a mãe e em seguida, o levado menino. Desde então, ele vive a fazer

travessuras, nas noites mais escuras do sertão: ―invade as casas. E apaga lenha do

fogão, e joga as coisas arrumadas na prateleira da sala, e enxota os porcos, que se

enfiam grunhindo pelo mato.‖ (UNGER, 1978, p. 44). A respeito da história de

Romãozinho, a autora ressalta que todos que lhe relataram a história acreditam de

fato na existência desse ser travesso que vive nas noites escuras a fazer peraltices

com os moradores do sertão.

Algumas versões da lenda contam que, antes de morrer, a mãe do pernicioso

peralta amaldiçoou-o, e outras versões, segundo assinala Lins (1983), em O Médio

São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, o menino explodiu e,

depois disso espalhou-se pelo ar um cheiro muito forte de enxofre. Desde então, o

perverso virou bicho e vive pelas paragens rurais assustando pessoas e animais.

Fazendo toda sorte de ―istripulia‖ como diz Dassanta.

Estes contos folclóricos disseminados no sertão são imbuídos de valores

moralizantes. Geralmente, são historietas de costumes que advertem às pessoas do

perigo da usura, calúnia e até da falta de higiene com a casa. Em suma, as latumia e

as pantumia aparecem com o intuito de instigar o medo e inibir determinados

costumes que desviam os filhos de Deus dos ―caminhos do bem‖.

No canto IV, Do Pidido, Dassanta já aparece não mais como uma ―burrega

marrã‖, ou seja, uma cabrinha nova. Ela já se entregou a ―febre perdedêra‖, porque

se apaixonou por um tropeiro, que na ―bespa‖ de São João, chegou ao ―rancho do

Sete Estrelo‖, local em que a moça encontrava-se com a família em busca de

trabalho. Pela boca do cantador que narra a saga de Dassanta ao público, a

narrativa não deixa claro se ela se casou oficialmente. O relato do cantador deixa

apenas pistas de que a moça era a ―companheira‖ do tropeiro:

Uns conta quêles caso

Otrôs qui si junto

Otrôs qui si imbrechô

Já ôtro qui num caso não.

(MELLO, 1983, p. 17).

Provavelmente, é ao seu companheiro, ―seu amigo‖ que o pedido é dirigido.

Ela quer garantir seus aparatos de beleza. Certamente, eles lhe serão úteis nos dias

de folguedos no sertão.

já que tu vai la pra fêra

traga de lá para mim

água da fulô que chêra,um novelo e de carrin

trais um pacote de missi [...]

Passa naquela barraca

Daquela mulé reizêra

Onde almuçamo a paca

panela e frigidêra

[...] trais pra mim u‘asbrividade

Que eu quero matá sôdade

Faiz tempo qui fui na fera

Ai sôdade

(MELLO, 1983, p. 25).

Neste canto, os aparatos sensoriais são bem explorados pelo autor. No

fragmento acima, percebemos elementos como ―água de fulô que cheira‖ e ―paca,

panela e frigidêra‖. Tais recursos permitem-nos compreender a feira não apenas

como um lugar de comércio, mas também uma possibilidade de lazer, de apreciação

das iguarias locais e também de entretenimento do povo, uma vez que neste

espaço, ao tempo que experimenta as iguarias da região, pode também ouvir

desafios dos cantadores. Cascudo (2000, p. 161) assim define o ato da cantoria ―é o

conjunto de regras, de estilos e de tradições que regem a profissão de cantador‖.

Quanto ao cantador ele assinala: ―são profissionais vivem de feira em feira cantando

sozinhos os romances amorosos ou as aventuras de Antonio Silvino ou Virgolino

Lampião.‖ (CASCUDO, 2000, p. 161).

Na realidade do nordeste, os cantadores são homens simples, até pouco

tempo, havia entre eles muitos iletrados. Em sua grande maioria são trabalhadores

braçais que ganham a vida prestando serviços em terras alheias ou em suas

pequenas propriedades. Há também, entre eles, os portadores de deficiência física,

cegos, aleijados etc. Em alguns casos, pode-se encontrar até os andarilhos e

mendigos que em troca de comida fazem suas apresentações em feiras livres. No

Auto da Catingueira, o cego cantador de feira é uma figura importante, pois funciona

como um profeta que prediz a má fortuna das personagens.

Geralmente, os cantadores têm um público tradicional, a saber: lavradores,

vaqueiros, cortadores de cana, mascates, camelôs, barqueiros e mulheres simples,

desprovidas de instrução formal, geralmente donas de casa, lavadeiras e/ou

trabalhadoras rurais.

O prognóstico para Dassanta e para seu companheiro era a morte prematura.

Estes foram os prenúncios que os cegos cantadores das feiras livres sentenciaram

para ambos. Dassanta parece pressagiar um acontecimento trágico em relação a

sua sorte. Por isso, deseja que o seu ―amigo‖ encontre o cego cantador de feira que

no passado predisse sua morte ainda muito jovem:

Meu amigo ah se tu visse

Aquele cego cantado

Um dia ele me disse

Jogando mote de amo

Qui eu avera de vivê

Pur esse mundo

E morrê ainda em flô

(MELLO, 1983, p. 25).

A bela sertaneja já havia sido advertida sobre sua vida ―tirana‖: ser peregrina,

fugindo das agruras do sertão e morrer prematuramente. Quando deseja que o seu

companheiro encontre o cego, provavelmente a moça espera que o cantador da

feira desminta este destino ou então que saiba da falha do seu prognóstico nefasto,

uma vez que ela estava viva e ao lado de seu companheiro. O canto encerra-se com

as inserções de elementos fantásticos no cotidiano da personagem. Todos os

aparatos de beleza pedidos pela moça ao seu companheiro têm uma finalidade

específica: serão usados na próxima festa de que o casal irá participar na fase da

lua cheia:

Nóis vai brincá na quermesse

Lá no Riacho D‘Arêa

Na casa daquele home

Feiticêro e curado

Qui o dia intero é home

Filho de Nosso Sinhô

Mais dispois as mêa noite

É lubisome cumedô.

(MELLO, 1983, p.25).