Jack ao sair da delegacia teve uma grata surpresa, Beto o esperava sozinho, de muletas, estava com raiva pensando que o amigo tivesse lhe traído, mas como não era uma pessoa de guardar rancores deu a oportunidade para Beto se explicar. O amigo se explicou, Jack sentiu sinceridade em suas palavras, tudo tinha sido uma armação da polícia junto com a enfermeira Cintia, ele não sabia de nada. Jack disse para ele deixar quieto toda aquela confusão, deu um abraço no amigo e foi com ele até o hotel onde Anne e Felipe estavam.
A última vez que Beto tinha visto Anne, ambos eram praticamente projetos de adolescentes, fora quando ele ainda morava no Brasil e os três estudavam juntos na mesma escola. O reencontro foi uma grata surpresa para todos, Anne não se conteve de tanta felicidade em rever Jack depois de três dias de incertezas e medo, sem poder sequer sair do hotel. Beto estava outra pessoa, tinha crescido, encorpado, sua voz era diferente, parecia outra pessoa para ela. Mas Beto teve uma impressão ainda maior no que tange às mudanças físicas. Anne estava linda, nem parecia aquela menina chata de aparelho nos dentes que insistia em andar junto com ele e Jack para onde quer que fossem. Beto sempre tivera certo ciúmes de Jack com aquela garotinha chata, mas agora a que estava ali à sua frente, era diferente, tinha certo brilho nos olhos, uma aura de nobreza irradiante, sorriso lindo, uma pele pálida e suave, nem parecia que morava numa cidade praiana, e o mais surpreendente, era mãe, tinha um menino lindo, como aquilo saiu de dentro de Anne, aquela menininha tão... era algo fantástico a evolução do ser humano. — pensou Beto. Como já era de se esperar, Beto fizera amizade rapidamente com Felipe, pois ambos adoravam jogos eletrônicos. Enquanto Jack ficava paparicando sua amada, Beto e Felipe ficavam jogando vídeo-game praticamente o tempo todo, já que Beto estava impossibilitado de trabalhar ou procurar por suas namoradas portuenses. Jack relutou um pouco em sair do hotel e ir para o apartamento de Beto, mas o amigo lhe convenceu dizendo que ele tinha pagado o aluguel do mês então tinha mais que direito de ficar por lá. Como Aringarosa disse para Jack não sair da cidade enquanto não pusesse fim às investigações, caso contrário iria pedir novamente sua prisão, Jack achou melhor a princípio permanecer na cidade, pelo menos por alguns dias, e quando as coisas tranquilizassem iria até a Suíça por a mão em sua bolada de dinheiro. Numa coisa estava certo, não tinha como perder aquele dinheiro,
Jeferson lhe afirmara que uma vez o dinheiro transferido em sigilo para um banco suíço jamais poderia ser rastreado.
O fato do assassino ter sido morto, também tranquilizava mais Jack, assim não correriam risco ficando por ali. A única coisa que o preocupava era o tal do Joseph; não o conhecia, não queria conhecê-lo e tinha raiva de quem o conhecia. Mas pelo que soube ele estava impossibilitado de andar devido aos ferimentos que teve na luta contra o assassino de seu pai e de Sabrina. Ao lembrar de Sabrina sentiu um aperto no coração e uma angustia. Tudo podia ter sido diferente, mas como ele podia imaginar que ao emprestar aquele livro dela, ele iria estar sentenciando-a à morte? Se pudesse voltar atrás jurou que seria diferente, mas infelizmente não podia, o que tinha acontecido não poderia ser modificado.
— O que está pensando querido? — indagou Anne ao ver Jack devaneando sozinho na varanda.
— Não é nada... estou aqui olhando pro céu e imaginando tudo que fiz, tudo que aconteceu até chegarmos nesse momento.
— Entendo... — Anne o abraçou por trás. — Você acha que no fim tudo vai ficar bem pra todos nós?
— Acho sim... eu acredito! — respondeu Jack beijando sua amada.
— Desculpa interromper o casal em lua de mel... — pigarreou Beto aproximando-se...
— O que foi, Betão? — perguntou Jack.
— Sabe... eu e o Felipe... nós queríamos ir jogar vídeo-game no Shopping de Gaia, esse daqui já enjoamos, queremos novas aventuras... sabe... e também sair um pouco pra paquerar umas gatinhas... vou ensinar ele uns truques infalíveis...
— Você e seus truques infalíveis... só não faça do mesmo jeito que fez com a enfermeira, senão coitado do menino!
— Isso é um sim?
— Não sei... peça a mãe dele... — Podemos ir, Anne?
— Não sei... não é perigoso, Jack?
— Vai mãe, deixa, deixa... — disse Felipe aproximando-se e fazendo um olhar de piedade para sua mãe.
— Bom, o shopping é perto daqui, não vejo perigo, Anne, é só um shopping!
— É que o Mauro punha tanto medo na gente, pra não sairmos de casa... — Anne, esquece esse cara que só te fez sofrer! — resmungou Jack baixinho em seu ouvido para Felipe não escutar.
— Tudo bem, podem ir então... mas com uma condição... — Qual? — perguntou Beto.
— Qual? — perguntou Felipe.
— Não comam nenhuma porcaria por lá e não se atrasem para o jantar... hoje eu e o Jack vamos preparar um jantar especial para comemorar nosso reencontro, ok?
— Ok! — disse Beto e Felipe ao mesmo tempo.
Assim que Beto e Felipe saíram de casa, Anne e Jack começaram a se beijar de verdade, com prazer, com paixão, sem nada os impedindo de serem felizes, de serem um do outro. Se fosse a Anne do passado logo pediria para ele parar de passar a mão em seu corpo, mas aquela Anne, aquela sentia desejo, sentia tesão, e sentia um amor e uma paixão descontrolável por seu príncipe encantado, o homem de sua vida, o homem que a libertara de seu cárcere, de seu dragão opressor. Jack levou-a até seu quarto, e lá continuaram a se beijar e fazer amor como nunca em suas vidas; seus pelos, suas salivas, seus gostos, seus cheiros, cada milímetro de seus corpos se tocavam numa perfeita harmonia que ambos pensavam jamais existir. Naquele momento Jack teve certeza que valeu a pena esperar, era o homem mais feliz do mundo. Permaneceram deitados em silêncio, silêncio esse que valia mais que todas palavras do mundo juntas, o olhar um pro outro era o suficiente... Mas tinham de levantar para fazerem o jantar, daqui a pouco Beto e Felipe voltariam do shopping.
— Eu te amo, Anne. — Eu te amo, Jack.
Outro beijo aconteceu, e outro, mais outro, até que sentiram a necessidade de se amarem novamente para saciarem todos os anos perdidos, mas foram interrompidos pelo chato barulho da campainha.
Os dois se vestiram rápido, pensaram que poderia ser Beto e Felipe voltando do shopping. Jack foi até a sala e abriu a porta, tomou um susto. Parado à sua frente com uma arma apontada para sua cabeça estava uma pessoa usando sobretudo preto e uma máscara de pierrot, exatamente do mesmo jeito que Beto havia descrito seu agressor.
sua voz rouca e grossa.
Jack tentou fechar a porta instintivamente, mas o pierrot foi mais ágil, travou a porta e apertou o gatilho da arma acertando um disparo bem no peito de Jack, que congelou instantaneamente todo seu sistema nervoso o fazendo cair paralisado. Tinha sido alvejado por uma arma elétrica. O pierrot, por mais que quisesse, sabia que não podia matar Jackson, pois ele representava a última muralha, muralha que o separava dos milhões de euros. O pierrot entrou e trancou a porta, abaixou-se para observar Jack tentando inutilmente mexer seu corpo.
— Senhor Jack, fique tranquilo que só te dei um pequeno choque para podermos conversar melhor.
Jack ouviu aquela voz estranha, estava pasmo com o que estava acontecendo. Quem era aquele sujeito? — indagou a si mesmo olhando profundamente para sua triste máscara.
— Amor, está tudo bem aí? Quem chegou? — gritou Anne do quarto. Não houve respostas, ela se levantou, checou seu rosto no espelho do guarda-roupas e foi até a sala, quando lá chegou se deparou com tal cena que a fez gritar desesperadamente, indo em direção ao jovem caído no chão.
— Não Anne, não faça isso... — resmungou ele tentando tirar forças de seus músculos atrofiados pelo efeito do choque.
Contudo, era tarde demais, o pierrot disparara novamente, dessa vez contra Anne que caiu no chão batendo a cabeça no sofá.
Jack se via de mãos atadas olhando inconsolável para Anne estendida no chão. O pierrot tirou do bolso de seu sobretudo um rolo de fita adesiva e amarrou os braços e pernas de ambos enquanto ainda estavam paralisados pela ação do choque. O aperto de fita fora tão forte que as mãos de Anne começaram a formigar quando ela recuperou os movimentos de seus músculos.
Os dois estavam deitados no chão sob uma arma apontada para suas cabeças, e dessa vez parecia ser uma arma de verdade, não de choque. Jack tentou resmungar algo, mas o pedaço de fita passado em sua boca não lhe permitia soltar nada além de alguns grunhidos inaudíveis.
— Calma senhor Jackson, não adianta me olhar com esse ódio terrível... se o senhor colaborar tudo irá terminar bem.
Anne que também estava presa e amordaçada pensou que fosse um assalto, devido ao fato de Jack ser milionário agora. Ficou desesperada, queria
se livrar daquelas fitas para ajudar seu amado, mas não conseguia.
O pierrot pegou um canivete e o aproximou do rosto de Jack, que começou se contorcer de angústia olhando aquela lamina se aproximando de si. De repente fechou os olhos e quando abriu-os já estava sem a mordaça feita com fita adesiva.
— O que você quer? Deixe-a em paz! — gritou Jack desesperado.
— Se você continuar gritando terei que cortar sua língua... — respondeu a rouca e sinistra voz do pierrot.
— Por favor, não machuque-nos... diga o que quer... é dinheiro? Eu te dou o que quiser... — disse Jack abaixando o tom de sua voz.
— Você é mais inteligente do que eu imaginava... como adivinhou que eu quero dinheiro?
— Fala... quanto quer pra nos deixar em paz?
— Quero tudo... tudo que você conseguiu com aquele bilhete que não era seu...
Jack ficou pasmo, aquela pessoa era a mesma que quase matara seu amigo Beto, a mesma que estava atrás do dinheiro o tempo todo. Mas a polícia afirmara que ele havia morrido, como podia estar ali?
— Quero exatamente meus 145 milhões de euros... — continuou afirmando o assassino.
— Mas como... isso não é possível... — resmungou Jack.
— De fato não é mesmo... supondo que você já me enviou 10 milhões em sua moeda, o que deu em torno de 4 milhões e pouquinho de euros... arredondando esse valor... você ainda me deve 140 milhões...
— Então foi você... você matou Sabrina e o bibliotecário... quase matou meu amigo... a polícia disse que você estava morto!
— Bem, digamos que tenho meus truques... — respondeu o pierrot aproximando sua triste máscara de Jack. — vamos logo ao que interessa...
— Você está louco... não vai conseguir escapar da polícia...
— Aí que você se engana... se já estou morto para eles, como irão me prender?
Jack sentia um tom de sarcasmo naquela terrível voz robótica, quando o assassino se aproximou, Jack percebeu que usava uma espécie de aparelho para modificar a voz, isso explicava aquele som robótico que ele emitia.
— Jackson... vou falar somente uma vez e espero que grave bem... vou levar sua namoradinha comigo, se você quiser vê-la novamente terá que me
trazer 30 milhões de euros em notas de quinhentos, isso facilitará bastante para você... não precisará carregar tanto peso...
Jack ouvia atentamente as instruções daquele maluco.
— Claro, você já deve saber que as notas não devem estar marcadas, você deve saber que a polícia deverá ficar fora disso... e que no dia e local de entrega você deverá comparecer sozinho... as demais instruções te passo por telefone. — o pierrot disse isso e colocou um telemóvel em sua mão. — ligarei nesse número assim que eu quiser...
— Não dá... como vou sacar e transferir todo esse dinheiro sem levantar suspeitas?
— Isso não é problema meu... você só tem que fazer o que mandei, caso contrário sua namoradinha não irá durar muito tempo... e juro que depois de me livrar dela virei atrás de você... atrás de sua família no Brasil, vou matar todos, um a um!
Anne e Jack ficaram pasmos e incrédulos, aquele louco só podia ser sádico, maníaco e lunático. Mas como já tinha feito tantos estragos não duvidavam que ele pudesse realmente feri-los, ou até pior, matá-los.
— Tudo bem... tudo bem... te darei todo dinheiro que você quiser... só me diga o dia e local... — disse Jack querendo acabar com aquela situação logo. — só que você terá que me levar no lugar dela...
— Jackson, Jackson... você não está em situação de impor regras meu caro... mas fique tranquilo, eu entrarei em contato quando você menos esperar...
O pierrot tirou de seu bolso uma seringa, a mesma que utilizara horas antes em Clarisse, sem deixar Jack ter tempo de assimilar nada, lhe injetou todo líquido em sua perna.
— Isso é apenas um relaxante, pra você se desestressar um pouco... irá dormir em breve e quando acordar será uma pessoa renovada... cheia de força... cheia de vigor... prontinho pra colaborar com nosso acordo...
O assassino levantou-se e foi em direção de Anne que se contorcia desesperadamente para se livrar daquelas malditas fitas que lhe prendiam, mas era em vão.
— Você... trate de colaborar se não quiser levar um tiro no meio da cara... O pierrot pegou seu telemóvel, discou um número, abriu a porta e dois homens mascarados entraram no apartamento.
Os dois homens a pegaram e a tiraram do apartamento rapidamente. Jack queria gritar, correr atrás dos dois, impedir que levassem sua Anne, mas não conseguia, o forte tranquilizante animal injetado em sua perna já estava fazendo efeito. Jack ouviu mais alguma coisa do assassino, mas não conseguiu compreender, seus sentidos já estavam falhando, ele caiu no sono!