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Sabrina chega em casa, a portaria estava vazia, provavelmente o porteiro fora tomar café na copa. Ao entrar em seu apartamento começa tirar toda roupa, não vê a hora de ir para o banho. O trabalho de ética que passou a tarde toda na biblioteca da universidade fazendo a deixara exausta. Deixa a bolsa no sofá, liga a TV e vai direto para o quarto pegar uma peça de roupa limpa e uma toalha. Vai em direção ao quarto de banho, sente um leve friozinho seguido de uma sensação ruim de que está sendo observada.

A jovem deixa as coisas no quarto de banho e volta até a sala para verificar se trancou a porta; estava trancada, assim como as janelas. Volta para o quarto de banho, tira o que restou de sua roupa, fica nua. Fica se olhando no espelho, verificando como está seu corpo, se tudo ainda está em seu devido lugar. Pega sua escova vermelha e coloca um pouco de creme dental, abre o box do banheiro e entra para tomar seu delicioso banho. Liga o chuveiro e nota que a água está bem gelada.

— Droga! — diz a si própria. — Justo hoje essa bosta queimou!

Ela tenta mexer na chave de temperatura mas não resolve, continua a sair água gelada.

— Não vou tomar banho nessa água!

Saiu do box irada. Tinha três opções, ir até a casa de uma das meninas para tomar banho, comprar outro chuveiro e pedir para o porteiro instalar ou ficar sem tomar banho. A última descartou rápido, não era francesa, necessitava de tomar no mínimo dois banhos por dia, um quando acordava e outro quando chegava.

Contudo achou outra idéia ainda melhor, podia ligar para Jack e pedir a ele para vir e instalar o seu chuveiro, já até saberia como pagar pelo serviço. Enrolou a toalha no corpo e foi para a sala pegar o telefone. Discou o número dele, mas estava desligado. Realmente aquele dia não era seu dia de sorte, imaginou ela. Quando se virou para ir buscar sua roupa sentiu uma forte pancada em sua cabeça, sua visão escureceu e ela desmaiou.

Quando a jovem recuperou seus sentidos percebeu que estava deitada no chão gelado. A parte traseira de sua cabeça estava doendo, sua visão estava um tanto turva, mas permitiu ver uma pessoa parada, em pé, próximo a ela. Forçou a visão, em alguns segundos seus olhos se adaptaram novamente a claridade do ambiente, então ela pode enxergar. Viu que a pessoa usava uma

estranha máscara de pierrot.

— Quem é você? — indagou ela tomando forças para se levantar.

— A pergunta correta a fazer nesse momento é o que eu quero, e não quem eu sou. — afirmou o mascarado com sua voz grossa e rouca.

— O que você quer?... — começou a levantar-se do chão. — Por que me bateu?

— Se levante, sente-se no sofá e não grite, se fizer alguma coisa que não me agrade eu te mato. — o mascarado apontou a arma para Sabrina.

A jovem ficou perplexa, muito assustada. Pensou que fosse uma espécie de assalto, mas o que ele iria querer levar dali?

— Você pode levar tudo... quer dinheiro? Não tenho muito, mas pode levar também, tá no meu cofre, no quarto... na segunda gaveta do guarda-roupas.

— Sim, quero dinheiro sim, mas não creio que suas migalhas serão úteis. — Mas não tenho nada que te interesse... você pode...

— Cala a boca e me escute...

Sabrina assustou e se calou; a arma apontada para sua cabeça a deixava praticamente sem ação. Não podia gritar e nem pedir ajuda a ninguém, mesmo se gritasse provavelmente ninguém a ouviria com todas portas e janelas fechadas.

— Você tem algo que me pertence... vou pedir somente uma vez e não irei tolerar mentiras ou tentativas suas de me enganar...

Sabrina incrédula nem de longe imaginava o que ela poderia ter que fosse de tão interessante assim para aquele sujeito.

— Não tenho nada que te interesse! — resmungou ela começando a chorar de medo.

— Tem sim... você emprestou recentemente um livro na biblioteca, e eu tenho muito interesse em ler esse livro, portanto quero que você me diga por que emprestou ele?

— Como assim? Que livro?

— Assim mesmo. Quero o exemplar 05 de O Senhor dos Anéis... me diga logo!

— Emprestei para ler...

— E por que pegou justo o exemplar 05?

— Eu não sei... eu tinha pego um, aí a moça me disse que não podia pegar aquele, pois era restrito, então voltei e peguei o outro.

— Ok. E onde está o livro?

Sabrina não conseguia acreditar naquilo que estava ouvindo. Que loucura! — pensou ela. — Aquele louco fizera tudo aquilo só por causa de um livro?

— Eu não estou com ele... emprestei para um amigo!

— Pare de querer me enganar sua vadia mentirosa, me fale logo onde está meu livro ou te mato aqui mesmo!

— É sério! Emprestei ele, eu juro por Deus!

O ser mascarado chacoalhou a cabeça reprovando a atitude de Sabrina. Aproximou-se dele com a arma em punho.

— Por que as coisas tem que se tornarem tão difíceis... custa colaborar e dizer a verdade?... Depois as pessoas não sabem por que morrem... — É a ultima vez que pergunto... onde está o livro?

— É verdade, eu emprestei ele! — disse a jovem agoniada.

O mascarado apontou a arma para sua perna e disparou. Sabrina ouviu o zunido do projétil silenciado pelo silenciador, sentiu uma fisgada no joelho seguida de uma sensação horrível de queimação. Tinha levado um tiro, bem no joelho direito. Instintivamente sentiu a necessidade de gritar e pedir socorro, mas quando se deu por conta tinha levado um soco no rosto e agora seu agressor estava tapando sua boca com um pedaço de pano.

Sabrina sentiu que estava realmente correndo um grande perigo, sentiu-se encurralada, não sabia o que fazer!

— Se gritar estouro sua cabeça! — disse a voz rouca apertando o pano contra sua boca. — Você vai gritar?

Sabrina chacoalhou a cabeça. O mascarado colocou a arma em sua cabeça e soltou o pano.

— Não queria que fosse assim, mas você não colabora... me diga logo onde está o livro que eu te deixo em paz.

— Não sei... por favor não me mate, não faz isso comigo... por favor... — Resposta errada! — disse o mascarado dando outro tiro em Sabrina, dessa vez em sua perna esquerda um pouco acima do joelho.

Novamente colocou o pano em sua boca, ela começou a se debater querendo de alguma forma se livrar daquele sádico. Quanto mais se batia mais seu sangue escorria de suas duas pernas nuas.

— Não adianta ficar se debatendo que você não vai escapar... fala logo de uma vez por todas onde está meu livro? — perguntou o pierrot tirando o

pano de sua boca e já mostrando certa irritação com a jovem. — Eu juro, eu juro... eu juro, emprestei o livro...

— Você emprestou para quem? Por quê? — indagou ele já percebendo que ela estava realmente falando a verdade.

— Emprestei para um cara que conheci na balada... ele dormiu aqui em casa, pegou o livro na estante...

— Você emprestou o livro que nem era seu pra um desconhecido?

— Eu gostei dele... emprestei o livro pra garantir que iríamos continuar conversando... entende?

— Ele pediu o livro emprestado?

— Não, eu vi ele mexendo e perguntei se ele gostava... daí emprestei para ele ler...

— Antes de emprestar você abriu o livro? Viu se dentro havia algo? — Não, nem cheguei a abrir, do jeito que peguei na biblioteca o coloquei em cima da estante... pode conferir... o outro livro que peguei ainda está lá...

— Esse seu namoradinho por acaso achou algum papel no meio do livro?

— Não sei, depois disso só nos falamos uma vez... tentei ligar várias vezes mas o telemóvel só dava fora de área... — respondeu Sabrina torcendo para que ele acreditasse. Só restava dizer toda a verdade, colaborar o máximo que pudesse para sair logo daquela terrível situação. — Espera... ele me mandou uma mensagem dizendo que tinha começado a ler o livro... depois me ligou falando de um tal bilhete premiado, mas eu não sabia do que ele estava falando.

— Maldição! — disse o pierrot não querendo crer naquilo. O bilhete já fora encontrado.

— Pegue meu celular, está na minha bolsa... lá está a mensagem que ele me mandou.

— Quem é ele? Onde ele mora?

— O nome dele é Jack, me disse que morava em Vila Nova de Gaia. — Tem o endereço dele? Foto? Alguma coisa?

— Não tenho... ele não me passou muitos detalhes da vida dele. — Jack de que? Qual sobrenome?

— Jackson, Jackson Zigmund eu acho! — Você está falando a verdade?

— Espere aqui! — disse o mascarado levantando e indo em direção a bolsa da jovem. Vasculhou o interior e pegou o telemóvel. Olhou nas mensagens e viu a que Jack tinha lhe mandado no domingo.

“oi Sabrina, estou começando a ler o livro, beijos”.

Olhou os históricos de chamadas, ligou para o número de Jack e deu como desligado. A que tudo indicava a jovem estava a falar a verdade.

— Vejo que você colaborou com minha investigação... Agora só preciso de mais um favor seu...

— O que quer mais? — perguntou Sabrina já sentindo certa tonteira, devido ao pânico e a perda de sangue.

— Eu preciso chegar até esse Jack... e eu sei que você tem o endereço dele... me fale logo, ou...

Novamente ele apontou a arma para a jovem que já não estava mais com tanto receio de levar outro tiro, pois seu corpo já estava anestesiado.

— Ele não... não me deu endereço... — Ele trabalha? Faz o que da vida?

— Bem, ele me disse que trabalhava num restaurante... — Qual restaurante?

— Acho que... se não me engano o Saint-Dennis no centro... — Tem certeza?

— Ele me disse na boate quando a gente se conheceu... — Qual boate vocês se conheceram?

— Na 2 Por Acaso, lá perto da... da... — Sei onde fica!

— Por favor, me deixa em paz agora... já te ajudei... liga para o hospital... estou sangrando, vou morrer! — implorou ela desesperada.

— Não se preocupe... não vou te deixar ficar aqui agonizando... seria muito injusto, afinal, você cooperou bastante comigo...

O pierrot aproximou-se dela, ajoelhou, mirou a arma na cabeça de Sabrina e atirou à queima-roupa. Ela sequer teve tempo de implorar por sua vida, já tombara morta com um tiro no meio da testa.