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CAPÍTULO 5 —

No documento QUANDO QUANDO CHOROU NIETZSCHE (páginas 68-108)

URANTE NOVENTA MINUTOS, os dois homens conversaram. Breuer, sentado em sua cadeira de couro de espaldar alto, tomava rápidas notas.

Nietzsche, que ocasionalmente parava a fim de permitir que a pena de Breuer o acompanhasse, estava sentado em uma cadeira revestida do mesmo couro, igualmente confortável mas menor do que a de Breuer. Como a maioria dos médicos daquela época, Breuer preferia que seus pacientes o olhassem de baixo para cima.

A avaliação clínica de Breuer era completa e metódica. Após primeiro escutar com cuidado o paciente descrever livremente a doença, investigava sistematicamente cada sintoma: sua primeira aparição, sua transformação com o tempo, sua resposta aos esforços terapêuticos. Seu terceiro passo era verificar cada sistema orgânico do corpo. Começando no alto da cabeça, Breuer ia descendo até os pés.

Primeiro o sistema cerebral e nervoso. Começava inquirindo sobre o funcionamento de cada um dos doze nervos craniais: o sentido do olfato, da visão, os movimentos do olho, a audição, o movimento e a sensação facial e da língua, a deglutição, o equilíbrio, a fala.

Descendo pelo corpo, Breuer examinava, um a um, todos os outros sistemas funcionais: respiratório, cardiovascular, gastrintestinal e gênito-urinário. Esse exame meticuloso dos órgãos mexia com a memória do paciente e garantia que nada passava despercebido. Breuer jamais omitia qualquer etapa, mesmo sabendo de antemão o diagnóstico.

Em seguida, uma cuidadosa anamnese: a saúde do paciente na infância, a saúde dos pais e irmãos e uma investigação de todos os outros aspectos de sua vida:

opção profissional, vida social, serviço militar, mudanças geográficas, preferências alimentares e recreativas. O passo final de Breuer era dar rédea solta à sua intuição e formular todas as outras perguntas que os dados coletados sugeriam.

Destarte, dias antes, em um caso curioso de dificuldade respiratória, diagnosticara corretamente triquinose do diafragma perguntando em que grau seu paciente cozinhava o porco defumado e salgado.

D

Durante todo o procedimento, Nietzsche se manteve totalmente atento: de fato, anuía reconhecidamente a cada pergunta de Breuer. Nenhuma surpresa, é claro, para Breuer. Jamais encontrara um paciente que não gostasse secretamente de um exame microscópico de sua vida. Quanto maior o poder de ampliação, mais o paciente gostava. A alegria de ser observado era tão arraigada que, na crença de Breuer, a verdadeira dor da velhice, do luto, de sobreviver aos amigos estava na ausência de escrutínio: o horror de viver uma vida inobservada.

Breuer ficou surpreso - isso sim - com a complexidade das doenças de Nietzsche e com a minúcia das próprias observações do paciente. As anotações de Breuer preencheram uma página após outra. Sua mão começou a se cansar enquanto Nietzsche descrevia um terrível conjunto de sintomas: dores de cabeça monstruosas, alucinantes; marcação em plena terra firme: vertigem, desequilíbrio, náusea, vómitos, anorexia, aversão a comida; febres e intensos suores noturnos que exigiam duas ou três mudanças do pijama e da roupa de cama; acessos violentos de fadiga que, às vezes, se aproximavam da paralisia muscular generalizada; dores gástricas; vomito de sangue; cólicas intestinais; grave constipação; hemorróidas; e problemas visuais incapacitantes: fadiga ocular, perda inexorável da visão, freqüente lacrimação e dor nos olhos, confusão visual e grande sensibilidade à luz, especialmente de manhã.

As perguntas de Breuer acrescentaram alguns outros sintomas que Nietzsche negligenciara ou relutara em mencionar: cintilações e escotomas visuais, que costumavam preceder uma cefaléia; insônia incurável; graves cólicas musculares noturnas; tensão generalizada; e mudanças de humor rápidas e inexplicáveis.

Mudanças de humor! As palavras pelas quais Breuer esperara. Conforme descrevera a Freud, sempre sondava um ponto de entrada propício para a condição psicológica do paciente. Essas "mudanças de humor" talvez fossem exatamente a chave ao desespero e às intenções suicidas de Nietzsche!

Breuer prosseguiu cautelosamente, solicitando-lhe que aprofundasse as mudanças de humor.

- Notou alterações em seus sentimentos que parecem relacionadas com sua doença?

A conduta de Nietzsche não se alterou. Parecia despreocupado de que essa pergunta pudesse conduzir a uma área mais íntima.

- Houve vezes em que, no dia anterior a um ataque, tenho me sentido particularmente bem; chego a pensar que me sinto perigosamente bem.

- E após o ataque?

- Meu ataque típico dura de doze horas a dois dias. Após um desses ataques, sinto-me geralmente fatigado e pesado como chumbo. Mesmo meus pensamentos ficam lerdos por um ou dois dias. Mas, às vezes, mormente após um longo ataque de vários dias, é diferente. Sinto-me renovado, purificado. Estouro de energia.

Adoro essas ocasiões: minha mente enxameia com as mais raras idéias.

Breuer persistiu. Uma vez encontrada a trilha, não desistia facilmente da caçada.

- Sua fadiga e a sensação de peso quanto tempo duram?

- Não muito. Depois que o ataque diminui e o corpo volta a pertencer a si, assumo o controle. Então, faço um esforço de vontade para superar a sensação de peso.

Talvez - refletiu Breuer - isso seria mais difícil do que pensara de início. Ele teria que ser mais direto. Nietzsche, estava claro, não forneceria voluntariamente quaisquer informações sobre o desespero.

- E a melancolia? Até que ponto acompanha ou sucede os ataques?

- Tenho períodos negros. Quem não tem? Mas eles não me possuem. Eles não são da minha doença, mas de meu ser. Poder-se-ia dizer que tenho a coragem de tê-los.

Breuer notou o ligeiro sorriso de Nietzsche e seu tom ousado. Agora, pela primeira vez, Breuer reconheceu a voz do homem que escrevera aqueles dois audaciosos e enigmáticos livros escondidos na gaveta da escrivaninha. Pensou, mas apenas por um momento, em desafiar frontalmente a distinção ex cathedra de Nietzsche entre os domínios da doença e do ser. Quanto à declaração de que tinha coragem de ter os períodos negros, o que queria dizer com isso? Mas, paciência! Melhor manter o controle da consulta. Outras aberturas haveria. Cuidadosamente, continuou.

- Alguma vez escreveu um diário detalhado de seus ataques: sua freqüência, intensidade, duração?

- Não neste ano. Tenho estado preocupado demais com eventos e mudanças vultosos em minha vida. Mas, no ano passado, tive 117 dias de absoluta incapacidade e quase duzentos dias de incapacidade parcial, com dores de cabeça mais leves, dor nos olhos, dor no estômago ou náusea.

Estava diante de duas aberturas promissoras, mas qual delas seguir? Deveria indagar sobre a natureza daqueles "eventos e mudanças vultosos" - decerto Nietzsche se referia a Lou Salomé - ou fortalecer a relação médico-paciente mostrando-se empático? Sabendo que toda relação seria pouca, Breuer optou pelo segundo caminho.

- Vejamos, com isso restam apenas 48 dias sem doença. É muito pouco tempo com saúde, professor Nietzsche.

- Retrocedendo alguns anos, vejo que raramente tive períodos de bem-estar que persistissem por mais de duas semanas. Acho que consigo lembrar cada um deles.

Detectando um tom melancólico, desesperançado na voz de Nietzsche, Breuer resolveu apostar. Eis uma abertura que poderia levar diretamente ao desespero do paciente.

Largou a pena e, em sua voz mais séria e profissionalmente preocupada, observou:

- Tal situação, a maioria dos dias um tormento, parcos dias de saúde por ano, a vida consumida pela dor, parece uma geradora natural do desespero, do pessimismo sobre a razão de viver.

Nietzsche parou. Ao menos uma vez, não tinha uma resposta pronta. Sua cabeça oscilou de um lado para o outro, como se estivesse refletindo se se permitiria ser consolado. Mas suas palavras nada mais revelaram.

- Sem dúvida, isso é verdade, doutor Breuer, para algumas pessoas, talvez para a maioria - aqui tenho que respeitar sua experiência -, mas não é verdade para mim.

Desespero? Não, talvez outrora verdadeiro, mas não agora. Minha doença pertence ao domínio de meu corpo, mas ela não é eu. Eu sou minha doença e meu corpo, mas eles não são eu. Ambos precisam ser superados, se não física ao menos metafisicamente. Quanto ao seu outro comentário, minha "razão de viver"

é algo inteiramente divorciado deste - aqui ele golpeou o abdômen - triste protoplasma. Eu tenho um porquê de viver e posso enfrentar qualquer como.

Tenho uma razão de viver de dez anos, uma missão. Estou grávido aqui - deu uma pancadinha na têmpora - de livros, livros quase plenamente formados, livros que somente eu posso escrever. As vezes, penso em minhas dores de cabeça como dores de parto cerebrais.

Aparentemente, Nietzsche não tinha nenhuma intenção de discutir ou mesmo de reconhecer o desespero. Seria inútil - percebeu Breuer - tentar enganá-lo.

Subitamente, recordou o sentimento de ser estrategicamente superado sempre que jogava xadrez com o pai, o melhor jogador da comunidade judaica de Viena.

Entretanto, talvez não houvesse o que reconhecer! Talvez Fräulein Salomé estivesse errada.

Nietzsche soava como se seu espírito tivesse superado sua monstruosa doença.

Quanto ao suicídio, Breuer tinha um teste absolutamente infalível do risco de suicídio: o paciente projeta a si próprio no futuro? Nietzsche passara no teste! Ele não era um suicida potencial: falava de uma missão de dez anos, de livros que ainda teria que extrair da mente.

No entanto, Breuer vira com seus próprios olhos as cartas suicidas de Nietzsche.

Estaria dissimulando? Ou deixara de sentir desespero porquanto já decidira se suicidar? Breuer já conhecera pacientes assim. Eles eram perigosos. Eles parecem melhorar-em certo sentido, melhoram; a melancolia se atenua; eles sorriem, comem, voltam a dormir. Mas a melhora deles significa que descobriram uma saída do desespero: a saída da morte. Seria esse o plano de Nietzsche?

Teria decidido se matar? Não, Breuer recordou o que contara a Freud: se Nietzsche pretendia se suicidar, por que estava ali? Por que o trabalho de visitar mais outro médico, de viajar de Rapallo à Basiléia e dali a Viena?

Apesar da frustração por não obter a informação almejada, Breuer não podia reclamar da cooperação do paciente. Nietzsche respondeu integralmente cada pergunta médica - aliás, integralmente demais. Muitas vítimas de dor de cabeça relatam sensibilidade à dieta e ao clima, de modo que Breuer não se surpreendeu ao saber que o mesmo se dava com Nietzsche.

Entretanto, ficou espantado pela riqueza de detalhes do relato de seu paciente.

Nietzsche falou por vinte minutos ininterruptos de sua resposta às condições atmosféricas. Seu corpo - ele disse - era como um barômetro aneróide reagindo violentamente a cada oscilação da pressão atmosférica, temperatura ou altitude.

Céus cinzentos o deprimiam, nuvens plúmbeas ou chuva o enervavam, a seca o revigorava, o inverno representava uma forma de "trismo" mental, com o Sol, restabelecia-se novamente. Durante anos, sua vida consistira em uma busca do clima perfeito. Os verões eram aturáveis. O planalto sem nuvens, sem ventos e ensolarado do vale de Engadine lhe convinha; assim, durante quatro meses no ano, residia em uma pequena hospedaria na aldeia suíça de Sils Marina. Mas os invernos eram uma maldição. Jamais encontrara um local amistoso no inverno;

assim, durante os meses frios, vivia no Sul da Itália, peregrinando de cidade em cidade à procura de um clima salubre. O vento e a escuridão úmida o envenenavam - dizia Nietzsche. Seu sistema nervoso clamava por sol e ar seco e parado.

Quando Breuer perguntou sobre a dieta, Nietzsche proferiu outro longo discurso sobre o relacionamento entre dieta, problemas gástricos e ataques de cefaléia.

Que precisão notável!

Nunca antes Breuer encontrara um paciente que respondesse cada pergunta de forma tão completa. O que isso significava?

Seria Nietzsche um hipocondríaco obsessivo? Breuer vira muitos hipocondríacos maçantes e com autopiedade que adoravam descrever suas entranhas. Mas esses pacientes tinham uma "estenose da Weltanschauung" um estreitamento da visão de mundo. Quão tedioso era estar em presença deles! Seus pensamentos se restringiam ao corpo; seus interesses ou valores, à saúde.

Não, Nietzsche não era um deles. Sua gama de interesses era extensa; sua pessoa, cativante. Certamente, Fräulein Salomé tivera essa impressão dele, ainda a tinha, conquanto achasse Paul Rée mais romanticamente compatível. Além do mais, Nietzsche não descrevera seus sintomas para despertar simpatia ou mesmo apoio - isso Breuer descobrira no início da entrevista. Assim, por que essa riqueza de detalhes sobre suas funções corporais? Talvez simplesmente Nietzsche tivesse

uma boa cabeça, com uma memória perfeita, e encarasse a avaliação médica de uma forma fundamentalmente racional, fornecendo dados completos para um clínico experiente. Ou ele era incomumente introspectivo.

Antes de terminar a avaliação, Breuer obteve uma outra resposta: o contato de Nietzsche com outros seres humanos era tão escasso, que gastava um tempo extraordinário conversando com seu próprio sistema nervoso.

Completada a anamnese, Breuer passou para o exame físico. Acompanhou o paciente até a sala de exames, um pequeno aposento esterilizado contendo apenas um biombo para trocar roupa, uma cadeira, uma mesa de exame coberta com um lençol branco engomado, uma pia, uma balança e um armário de aço contendo os instrumentos de Breuer. Poucos minutos depois de deixar Nietzsche para que se despisse e trocasse, Breuer retornou para encontrá-lo, embora já trajando o peignoir aberto nas costas, ainda com suas compridas meias pretas e ligas e dobrando cuidadosamente suas roupas. Nietzsche se desculpou pela demora explicando:

- Minha vida nômade faz com que eu só possa ter um terno. Assim, certifico-me de que esteja arrumado sempre que o tiro.

O exame físico de Breuer era tão metódico como sua anamnese. Começando na cabeça, descia lentamente pelo corpo, auscultando, dando pancadinhas, tocando, cheirando, apalpando, olhando. A despeito da abundância de sintomas do paciente, Breuer não encontrou anormalidades físicas além de uma grande cicatriz acima do esterno, resultante de um acidente a cavalo no serviço militar; uma minúscula cicatriz oblíqua de duelo no osso do nariz; e alguns sinais de anemia:

lábios pálidos, conjuntiva e rugas da palma.

A causa da anemia? Provavelmente nutricional. Nietzsche contara que muitas vezes evitava carne por semanas a fio. Mas depois Breuer se lembrou de que Nietzsche revelara que, ocasionalmente, vomitava sangue, de modo que poderia estar perdendo sangue de uma hemorragia gástrica.

Extraiu algum sangue para uma contagem de glóbulos vermelhos e, após um exame do reto, coletou uma amostra de fezes para examinar se continha sangue oculto.

E quanto aos problemas visuais de Nietzsche? Primeiro, Breuer notou uma conjuntivite unilateral facilmente tratável com uma pomada ocular. Apesar de considerável esforço, Breuer não logrou focalizar oftalmoscópio na retina de Nietzsche: algo obstruía-lhe a visão. Provavelmente uma opacidade da córnea, talvez um edema da córnea. Breuer se concentrou sobretudo no sistema nervoso do paciente, não apenas devido à natureza das dores de cabeça, mas também porque, quando Nietzsche tinha quatro anos, o pai morrera de "amolecimento do cérebro" - um termo genérico que poderia se referir a qualquer uma de uma série de anomalias, inclusive derrame, tumor ou alguma forma de degeneração cerebral herdada. Porém, após testar cada aspecto da função cerebral e nervosa - equilíbrio, coordenação, sensação, força, propriocepçao, audição, olfato, deglutição - , Breuer não encontrou nenhum indício de doença estrutural do sistema nervoso.

Enquanto Nietzsche se vestia, Breuer retornou ao consultório para fazer um quadro dos resultados do exame. Quando, alguns minutos depois, Frau Becker trouxe Nietzsche de volta ao consultório, Breuer percebeu que, embora o tempo deles estivesse se esgotando, falhara totalmente em obter qualquer menção à melancolia ou ao suicídio. Tentou outra abordagem, uma técnica de entrevista que raramente deixava de apresentar resultados.

- Professor Nietzsche, gostaria que descrevesse em detalhe um dia típico de sua vida.

- Agora o senhor me pegou, doutor Breuer! E a pergunta mais difícil que me formulou. Me desloco tanto, meus ambientes são tão inconstantes. Meus ataques condicionam minha vida...

- Escolha um dia normal qualquer, um dia entre os ataques numa das últimas semanas.

- Bem, acordo cedo... se é que tenha realmente dormido. Breuer se sentiu encorajado. Já estava diante de uma abertura.

- Permita que o interrompa, professor Nietzsche. O senhor diz se é que tenha dormido?

- Meu sono é terrível. Às vezes tenho eólicas musculares, às vezes dor de estômago, às vezes uma tensão que me invade cada parte do corpo, às vezes pensamentos noturnos malignos. As vezes, fico acordado a noite toda, outras vezes remédios me concedem duas ou três horas de sono.

- Que remédios? Em que dosagem? - perguntou Breuer rapidamente. Embora fosse imperativo saber sobre a automedicação de Nietzsche, percebeu imediatamente que não escolhera a melhor opção. Teria sido muito melhor perguntar sobre aqueles pensamentos noturnos sombrios.

- Hidrato de cloral quase todas as noites, ao menos um grama. As vezes, se meu corpo estiver desesperado por dormir, adiciono morfina ou Veronal, mas isso me deixa entorpecido no dia seguinte. Ocasionalmente, haxixe, mas também embota meu pensamento no dia seguinte. Prefiro cloral. Devo continuar com esse dia, que já começou mal?

- Por favor.

- Tomo o desjejum em meu quarto... o senhor quer todos esses detalhes?

- Sim, exatamente. Conte-me tudo.

- Bem, o desjejum é uma questão simples. O dono da hospedaria me traz um pouco de água quente. É tudo. Por vezes, caso me sinta particularmente bem, peço chá fraco e torradas. Depois, tomo um banho frio, necessário se devo trabalhar com algum vigor, e passo o resto do dia trabalhando: escrevendo, pensando e, ocasionalmente, se meus olhos permitirem, lendo um pouco. Caso me sinta bem, caminharei às vezes por horas. Rabisco enquanto caminho e, muitas vezes, realizo meus melhores trabalhos, tenho meus pensamentos mais refinados, enquanto caminho...

- Eu também - acrescentou Breuer rapidamente. - Após seis ou sete quilômetros, descubro que clarifiquei os mais intrigantes problemas.

Nietzsche fez uma pausa, aparentemente conturbado pelo comentário pessoal de Breuer.

Começou a ratificá-lo, gaguejou e, no final, ignorou-o e continuou seu relato.

- Almoço sempre na mesma mesa em meu hotel. Já lhe descrevi minha dieta:

sempre alimentos não condimentados, preferivelmente cozidos, nada de álcool

nem de café. Muitas vezes, durante semanas, tolero apenas legumes cozidos e sem sal. Nada de tabaco, tampouco. Digo umas poucas palavras para outros hóspedes em minha mesa, mas raramente me envolvo em conversas prolongadas. Quando a sorte me sorri, encontro um hóspede atencioso que se oferece para ler para mim ou escrever meus ditados. Meus fundos são modestos, de modo que não posso pagar por tais serviços. A tarde é idêntica à manhã:

caminhar, pensar, escrever. De noite, janto em meu quarto - novamente, água quente ou chá fraco com biscoitos - e depois trabalho até o cloral dizer: "Chega, você pode descansar." Essa é minha vida corpórea.

- O senhor só fala de hotéis. E sua casa?

- Minha casa é minha mala-armário. Sou uma tartaruga e carrego minha casa nas costas. Coloco-a no canto de meu quarto de hotel e, quando o clima se torna opressivo, iço-a e me mudo para céus mais altos e secos.

Breuer havia planejado retornar aos "pensamentos noturnos malignos" de Nietzsche, mas agora vislumbrou uma linha de pesquisa ainda mais promissora:

uma que não poderia deixar de levar diretamente a Fräulein Salomé.

- Professor Nietzsche, percebo que a descrição de seu dia típico contém poucas menções a outras pessoas! Perdoe minha inquirição: sei que essas não são perguntas tipicamente médicas, mas sou adepto da crença na totalidade do organismo. Acredito que o bem-estar físico não é separável do bem-estar social e psicológico.

Nietzsche corou. Apanhou um pequeno pente de casco de tartaruga de pentear bigodes e, por um breve tempo, manteve-se em silêncio com o corpo pendido, nervosamente arrumando seu ponderoso bigode. Então, tendo aparentemente chegado a uma decisão, aprumou-se, pigarreou para limpar a garganta e falou firmemente:

- O senhor não é o primeiro médico a fazer essa observação. Suponho que esteja se referindo ao sexo. O doutor Lanzoni, um clínico italiano com quem me consultei muitos anos atrás, aventou que meu estado era agravado pelo isolamento e abstinência e recomendou que eu arranjasse um escoadouro sexual regular.

- O senhor não é o primeiro médico a fazer essa observação. Suponho que esteja se referindo ao sexo. O doutor Lanzoni, um clínico italiano com quem me consultei muitos anos atrás, aventou que meu estado era agravado pelo isolamento e abstinência e recomendou que eu arranjasse um escoadouro sexual regular.

No documento QUANDO QUANDO CHOROU NIETZSCHE (páginas 68-108)

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