• Nenhum resultado encontrado

Millie

— O QUE VOCÊ QUER DIZER com isso? — perguntou Jackson, seu rosto expondo sua confusão.

Olhei sugestivamente dele para Kayla e sussurrei: — Agora não é o melhor momento…

Jackson olhou para a filha, que me observava com uma expressão chocada, então, voltou seu olhar para mim e disse: — Eu vou voltar.

Observei desanimada enquanto ele pegava Kayla e se afastava da minha porta pelo corredor. Percebi que Kayla ainda me observava quando fechei a porta silenciosamente, segui para meu sofá e voltei à posição na qual estivera.

Fetal.

Soluços irromperam novamente quando tristezas de décadas tomaram conta de mim, agravadas pela dor recente que eu sentia naquele momento.

Pareceu que apenas alguns minutos tinham se passado antes de uma batida veloz soar na porta, como tiros em meu coração.

Levantei, com um frio da barriga e o coração pesado ao pensar no que eu estava prestes a fazer.

O que eu precisava fazer…

Abri a porta sem olhar, sem querer reconhecer quem estava ali, e dei meia-volta para retornar ao sofá, meu porto seguro. Arrastei-me de volta ao aconchego, puxei uma almofada para cima do colo, abracei-a, junto com meus joelhos, apertados contra o peito, como uma espécie de armadura. Apenas então obriguei meus olhos a enxergarem Jackson, que agarrara a caixa de lencinhos da mesa e a oferecia a mim.

Sua bondade apenas me fez chorar mais.

— Jesus, Millie — disse ele, sua mão passando pelo cabelo tão pesadamente que, praticamente, os arrancava. — O que está acontecendo?

Dei o meu melhor para me recompor, percebendo que, quanto mais rápido eu acabasse com isso, mais rápido ele iria embora, e eu não mais precisaria enfrentar sua perfeição pessoalmente, ficaria apenas com as lembranças.

Assim que me senti capaz de emitir frases, usei um lenço para enxugar o rosto, e outro para assoar o nariz antes de respirar fundo e focar no horizonte enquanto falava.

— Kayla não está pronta para isso — comecei, minha voz rouca.

— Eu deveria ter percebido quando tudo começou. Acho que eu sabia. Pelo menos, tinha minhas reservas sobre você ainda ser casado… mas eu deveria saber que Kayla não estava pronta para você namorar seriamente outra pessoa.

Millie — disse Jackson, obviamente chateado e querendo contradizer o que eu falava, mas continuei.

— Por favor, deixe-me terminar.

Quando ele ficou em silêncio, eu disse: — Ela me odeia. Quero dizer, não eu, porque ela não me conhece, mas ela odeia a ideia de mim. Ou o que eu represento. Primeiro, a mãe dela vai embora, agora, acabou de ser confirmado que ela não tem nenhum plano de voltar, então, claro, Kayla vai se apegar ainda mais a você, e ver qualquer outra pessoa que compita com ela por sua atenção como uma ameaça. Ela precisa de tempo…

Pude notar que Jackson estava se segurando. Ele queria tanto falar que parecia se contorcer no assento ao meu lado, mas sendo o homem maravilhoso que era, respeitou minha vontade.

Merda.

Respirei fundo outra vez.

— Quando éramos pequenas, nosso pai traiu nossa mãe, e nos deixou pela outra mulher e nunca mais voltou. Ele não disse adeus nem nada a nenhuma de nós, e nunca mais tivemos notícias dele.

Tasha ficou nervosa, muito como Kayla agora, enquanto Dru fingia que nada tinha acontecido. Eu fiquei devastada. Eu era a garotinha do papai, com certeza. — Eu mal estava sussurrando agora, presa às minhas memórias. À dor. — Ele costumava me levar para todo canto com ele. Ao trabalho, à pescaria, à noite do pôquer, a todos os seus restaurantes preferidos. Foi ele quem me fez amar comida. estava tendo dificuldades para se manter longe.

Virei meu rosto para ele e, finalmente, olhei em seus olhos. Ele estava sentindo minha dor. Comigo.

— Então, culpei minha mãe. Fui horrível com ela, simplesmente terrível, e ela aceitou. Ela continuou presente para mim, abraçando-me quando eu gritava e chorava. Por fim, cicatrizei. Parei de esperar, de procurá-lo em toda parte, e disse a todos na escola que ele havia morrido. Acho que, de alguma maneira, para mim, ele morreu mesmo.

Depois de alguns momentos de silêncio, Jackson finalmente se manifestou: — Sinto muito, Millie. Quantos anos você tinha?

Encarei-o quando respondi: — Oito.

Jackson assentiu, compreendendo meu ponto.

— Sinto muito por você ter precisado passar por isso, e sei que você sentiu muita dor, mas isso atrapalhou seus sentimentos por sua mãe quando ela começou a namorar de novo? — perguntou ele.

Eu sorri tristemente e balancei a cabeça.

— Ela nunca fez isso. Minha mãe nunca teve um encontro, nunca trouxe um homem para nos conhecer. Droga, ela nunca nem beijou outra pessoa. Ele a quebrou por inteiro. Ela se deu noventa e nove

por centro para nós pelo resto de seus dias neste mundo, mas um por cento sempre foi dele.

— De novo, sinto muito, e entendo sua dor, suas reservas, mas não somos iguais — argumentou Jackson, aproximando-se mais um pouco.

— Sim, vocês estiveram separados por um ano, mas você manteve a aliança, sua casa continua exatamente igual ao dia em que sua esposa se foi. Aposto que todas as coisas dela ainda estão penduradas no guarda-roupa. — Fiz uma pausa, e quando ele não protestou, soube que estava certa. — O divórcio nem mesmo foi finalizado, e você e eu estamos mergulhando rápido demais num relacionamento sério. Você pode estar pronto para isso, mas Kayla não. Ela ainda espera que a mãe volte para casa, e precisa de mais tempo para compreender que Julie não vai fazer isso, antes de se abrir para uma nova mulher na vida de vocês.

— Millie, tudo que você disse tem fundamento — disse Jackson, levantando-se e começando a andar de um lado ao outro, seu tom desesperado. — Mas Kayla vai ficar bem. Vou conversar com ela, e podemos fazê-la compreender aos poucos…

— Não tem nada que você possa dizer agora que vai me fazer mudar de ideia — afirmei, triste, meus olhos se enchendo de água mais uma vez.

Jackson parou e se agachou à minha frente, suas mãos cobrindo as minhas com delicadeza.

— Nem mesmo que eu te amo? — perguntou ele, partindo meu coração.

Engoli o bolo na garganta e balancei a cabeça.

— Nem mesmo isso — consegui dizer, então, virei a cabeça e fechei os olhos, não os abrindo de novo até ouvir a porta se fechar com cuidado atrás dele.