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CAP. 3: UM TRABALHO TIPICAMENTE CAPITALISTA

No documento TRABALHO POR APLICATIVO: (páginas 92-126)

Após apresentarmos algumas das raízes constitutivas do trabalho por aplicativo e analisarmos criticamente o processo de trabalho dos motoristas que utilizam o aplicativo da empresa Uber, neste terceiro capítulo voltaremos ao debate, apresentado no capítulo anterior, sobre a existência de uma forma de assalariamento disfarçada, baseada no salário por peça/tarefa, no trabalho estudado, com o intuito de apresentarmos como nesta relação se realiza o processo de extração de mais-valia. Assim, buscaremos avançar na compreensão de como se configura o processo de produção a qual este trabalho está inserido.

Realizaremos tal retorno para questionarmos se o trabalho por aplicativo é uma atualização ou negação da produção tipicamente capitalista, tentando com isso observar quais seriam os elementos que são conservados, rompidos ou atualizados com esta forma de trabalho quando o comparamos com a maneira típica de se produzir dentro do capitalismo, tal como apresentado por Marx (s/d; 2012). Para tanto, analisaremos como quatro elementos presentes nas relações de trabalho assalariada do modo de produção capitalista, a saber, os meios de produção, a indústria, a produtividade do trabalho e o trabalhador coletivo, se apresentam no trabalho de motorista por aplicativo.

O pano de fundo teórico deste capítulo é realizarmos um diálogo com os autores que classificam a teoria marxiana como estritamente ligada à produção fabril, enquanto a sociedade pós-década de 1970 seria marcada pelo pós-industrialismo, tendo como característica a dominância do conhecimento, da informação, dos serviços ou do trabalho intelectual dentro e fora dos processos de trabalho e produção (Bell, 1977; Gorz, 2005; Habermas, 1983; Hardt; Negri, 2001; Lazzarato, 199655). Segundo estes autores, a maior automação dos processos produtivos reduziria o papel do trabalho enquanto gerador de valor, rompendo assim com características centrais descritas por Marx ao analisar a sociedade capitalista, como a sua teoria do valor-trabalho. Por esta perspectiva, o desenvolvimento das forças produtivas levaria a passagem do modo de produção capitalista para novas formas

55 As teorias desenvolvidas por estes autores guardam diferenças entre si. Entretanto, as semelhanças existentes

entre elas, como a negação da centralidade do trabalho manual e/ou fabril na sociedade contemporânea e, decorrendo deste aspecto, a emergência de novos atores sociais nos conflitos políticos, torna comum entre esses autores a projeção de novas formas de organizações da sociedade. Por esta característica é que estamos considerando a todos como membros de uma mesma vertente teórica.

93 produtivas e de organização social, retirando a centralidade da luta de classes nos processos de transformação social.

Para que possamos realizar o diálogo com estes autores, faz-se necessário retomarmos a noção de subsunção formal e real do trabalho ao capital, pois, para Marx, é com esta segunda forma de subsunção que o modo de produção tipicamente capitalista se constitui com todas as suas características, transformando de maneira completa os processos produtivos tais como eram realizados anteriormente ao advento do capitalismo (Marx, s/d, p. 92).

A subsunção formal é a forma geral de qualquer processo produtivo capitalista (Marx, s/d, 87), ocorrendo sempre que o processo de trabalho se torna um meio, um instrumento, do processo de valorização do capital. Assim, o capitalista passa a atuar nele como um dirigente, com a finalidade de obter mais dinheiro em relação à quantia por ele investida inicialmente na aquisição de capital constante e variável. Esta valorização é realizada com “o trabalhador assalariado trabalhando mais do que o tempo necessário para produzir o seu sustento; para

viver [o trabalhador], precisa entregar uma parte de seu tempo de vida ao capital

(Rosdolsky, 2001, p. 191).

Neste momento histórico, o processo de trabalho segue executado com características semelhantes as quais era realizado anteriormente à relação capitalista, isto é, sem a utilização de novas ferramentas que possibilitem o aumento do ritmo da produção e com os trabalhadores possuindo um grande controle sobre como as suas atividades devem ser desempenhadas. Entretanto, as relações de produção capitalista já passam a ser estabelecidas, com o capital reunindo e comandando uma coletividade de trabalhadores e, deste modo, a subsunção formal do trabalho ao capital é o ponto de partida do modo de produção capitalista. Porém, como o aumento da produtividade do trabalho ainda é muito limitado, decorrendo somente pela cooperação dos diferentes trabalhadores no mesmo processo de trabalho, a mais-valia é extraída principalmente em sua forma absoluta, ou seja, pelo prolongamento da jornada de trabalho.

O essencial da subsunção formal, o que a distingue dos modos de produção anteriores, é o método pelo qual a coerção sobre o trabalho se efetua (Marx, s/d, 94). A relação entre o capitalista e o trabalhador que lhe vende a sua força de trabalho passa a ser puramente econômica, sendo assim uma relação formalmente voluntária e que rompe com as relações patriarcais, políticas e/ou religiosas existentes no período anterior. Temos, portanto, uma

94 relação estritamente de compra e venda, pois o capitalista passa a ser possuidor das condições objetivas e subjetivas para a realização do trabalho e compra, assalariadamente, a capacidade de trabalho por um determinado período dos trabalhadores.

Apesar das características da subsunção formal serem mantidas durante todo o modo de produção capitalista, é somente com a subsunção real do trabalho ao capital que emerge a relação tipicamente capitalista, pois “o modo de produção capitalista caracteriza-se pela

tendência, que lhe é específica, de criar mais-valia relativa” (Rosdolsky, 2001, p. 197),

sendo necessário revolucionar todo o processo produtivo para que isso ocorra. Neste sentido,

com a subordinação real do trabalho no capital efetua-se uma revolução total (que

prossegue e se repete continuamente) no próprio modo de produção, na produtividade do

trabalho e na relação entre capitalista e operário” (Marx, s/d, p. 104-105). Essa completa

transformação é decorrente da necessidade de tornar a produção cada vez mais socializada através da generalização da produção industrial, caracterizada nesse momento pela ampliação da maquinaria nos processos de trabalho, acarretando um aumento da capacidade produtiva. Com isso, temos a coincidência entre as relações de produção capitalistas, já estabelecidas na subsunção formal, com as forças produtivas capitalista, sendo por essa característica que Marx conceitua a subsunção real como o modo de produção tipicamente capitalista.

Historicamente, a subsunção real inicia-se com a introdução das máquinas-ferramenta nos processos de trabalho, as quais passam a controlar o ritmo da produção, permitindo a intensificação da sua velocidade e, consequentemente, aumentando a capacidade de extração da mais-valia relativa. Nestes termos, “o processo de produção deixa de ser processo de

trabalho, no sentido de ser controlado pelo trabalho como unidade dominante” (Rosdolsky,

2001, p. 205), fazendo-o assumir uma dimensão social, pois a máquina-ferramenta permite que o trabalho não esteja mais subordinado a habilidade manual dos trabalhadores individuais, subjugando de maneira coletiva as atividades que eram realizadas pelos indivíduos dispersos56.

56 Como observado por Napoleoni (1981, p. 67), os conceitos de subsunção formal e real do trabalho ao capital

somente foram utilizados por Marx no “Capítulo VI (inédito) de O Capital” (s/d), sendo excluídos da redação final de “O Capital”. Entretanto, a partir das caracterizações feitas por Marx sobre cada uma dessas formas de subsunção, inclusive as distinções entre elas, temos correspondência ao que é intitulado, respectivamente, como “produção de mais-valia absoluta” e “produção de mais-valia relativa” na versão final do livro, sendo as considerações feitas pelo autor sobre cada uma destas formas de extração de mais-valia válidas para compreendermos as características das duas formas de subsunção.

95 Como o modo de produção tipicamente capitalista é caracterizado pela busca constante em aumentar a produtividade do trabalho, em produzir o maior número de mercadorias na menor quantidade de tempo, o que é garantido pelas transformações constantes nos meios de produção, temos que, tendencialmente, a parte da jornada de trabalho compreendida pelo tempo de trabalho necessário é diminuída. Por esta tendência, alguns autores, tal como Fausto (1989) e Prado (2006), a partir de trechos escritos por Marx nos

Grundrisse (Marx, 2011), defendem que dentro da teoria marxiana estariam as bases para o

surgimento de uma terceira forma de subsunção, pois o desenvolvimento histórico da Grande Indústria levaria ao aumento do tempo disponível.

Esta terceira forma passou a ser intitulada de subsunção formal-intelectual, ou apenas subsunção intelectual, tendo como marco histórico do seu surgimento as transformações produtivas que ocorreram nas décadas de 1960 e 1970, iniciando assim o período da pós-Grande Indústria.

Um dos trechos dos Grundrisse que sustenta esta análise é:

À medida em que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza efetiva se torna menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho utilizado, do que da força dos agentes que são postos em movimento durante o tempo de trabalho, os quais, eles próprios, por sua vez, não tem mais nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa a sua produção, mas depende antes da situação geral da ciência, do progresso da tecnologia, ou da utilização da ciência na produção (MARX, 2011, p. 587-588).

Segundo Fausto, o desenvolvimento das forças produtivas criou um novo tipo de máquinas inteligentes, caracterizadas por não empregarem o trabalho manual imediato dos trabalhadores, já que “a máquina passa a ser um espécie de força de trabalho (intelectual)

no sentido de que ela não necessita mais (quase) nenhum trabalho para ser vivificada

(Fausto, 1989, p.58). Desta forma, os trabalhadores passam a mobilizar os seus conhecimentos adquiridos fora dos processos de trabalhos enquanto executam suas atividades. Para Prado (2006, p. 122-123), esta nova forma de subsunção segue reproduzindo o elemento essencial da subsunção formal, ou seja, a relação de compra e venda entre capitalistas e trabalhadores, porém o processo de trabalho volta a ter um forte componente subjetivo devido a mobilização do intelecto dos trabalhadores, acarretando uma mudança no caráter do trabalho quando comparado ao executado na Grande Indústria.

96 Passando a mobilizar os conhecimentos adquiridos pelos trabalhadores fora do tempo de trabalho, a pós-Grande Indústria tem como consequência “a negação do trabalho como

fundamento do valor e do tempo de trabalho como medida da grandeza de valor” (Fausto,

1989, p. 55). Ou seja, os valores das mercadorias não seriam mais determinados pelo tempo médio socialmente necessário para a sua produção, passando a ter relação com o tempo de não-trabalho, sendo assim estabelecidos pelo grau de desenvolvimento da ciência, das artes e da tecnologia. Deste modo, o trabalhador é colocado para fora do processo de trabalho, pois o valor das mercadorias não depende mais do seu trabalho imediato, e, ao ser liberado, o trabalhador volta a atuar neste processo de forma subjetiva, re-colocando-se como a parte ativa da produção a qual domina o processo de trabalho.

Uma crítica à noção de subsunção intelectual e de pós-Grande Indústria é encontrada em Amorim (2009; 2013). Para este autor, a formulação desenvolvida por Fausto tem um movimento lógico e não histórico. Ou seja, Marx realiza, nos Grundrisse, um exercício imaginativo ao descrever como o desenvolvimento das forças produtivas viria a implodir o modo de produção capitalista, substituindo a luta de classes pelo crescimento do automatismo produtivo como o elemento central para a superação da sociedade capitalista, o que seria contraditório com as demais formulações expressas pelo autor em outras obras (Amorim, 2009, p. 51). Desta maneira, o raciocínio lógico desenvolvido por Marx deve ser posto à prova a partir do desenvolvimento histórico. Para Amorim, a diminuição do tempo de trabalho necessário decorrente dos ganhos de produtividade é experimentado pela classe trabalhadora, dentro do modo de produção capitalista, como uma liberdade negativa, tendo como consequência o aumento do desemprego e do subemprego, por exemplo, e não como aumento do tempo livre (Amorim, 2009, p. 142).

Em posição semelhante a Amorim, Paulani (2001) argumenta que as gestões participativas existentes na gerência toyotista as quais, em tese, reconduzem o trabalho vivo como o sujeito do processo do trabalho não agem dessa maneira por descuido do capital, mas sim como determinação do capital aos trabalhadores (Paulani, 2001, p. 708). Deste modo, esta maior participação dos trabalhadores em decisões sobre o processo de trabalho não inauguram um período no qual o trabalho volta a ser parte ativa do processo produtivo, mas representam o capitalismo em sua forma mais bem-acabada, ampliando o domínio do capital sobre o trabalho. Com estas argumentações, ambos os autores defendem a persistência do

97 modo de produção tipicamente capitalista como organizador dos processos produtivos na contemporaneidade.

A partir destes comentários, retornaremos ao trabalho dos motoristas por aplicativo para compreendermos como a subsunção do trabalho se efetiva nesta relação, ou seja, se a formulação de Marx sobre a produção tipicamente capitalista segue atual para compreendermos este processo de trabalho ou se os elementos presentes nesta atividade colocam em superação os componentes centrais do modo de produzir no capitalismo. Tal análise, como já dito, será feita a partir dos elementos que julgamos centrais na constituição do processo de produção capitalista: os meios de produção, a noção de indústria, a produtividade do trabalho e o trabalhador coletivo.

A propriedade privada dos meios de produção e o controle sobre o trabalho

No primeiro capítulo desta dissertação elencamos como uma das especificidades do trabalho mediado por aplicativos ser a posse, por parte dos trabalhadores, de algumas das ferramentas utilizadas no trabalho, tais como o carro e o celular. A partir da descrição crítica que elaboramos nesta dissertação sobre o trabalho realizado pelos motoristas, é possível efetuarmos um aprofundamento sobre o significado desta posse. Tal leitura faz-se necessária por ser justamente a propriedade privada dos meios de produção pelos detentores do capital o que permite que os processos de trabalho sejam gerenciados.

Marx (s/d) demonstrou como a passagem de diferentes formas de organização do processo produtivo tiveram como consequência a maior subordinação dos trabalhadores por máquinas, com o capital constante incorporando o saber-fazer da força de trabalho e diminuindo a autonomia do trabalho vivo. Em “O Capital” (Marx, 2012), a passagem cooperação → manufatura → maquinaria/grande indústria é ilustrativa de como ocorre este processo de objetivação do processo produtivo, sendo possível compreendermos as reestruturações produtivas subsequentes, como o taylor-fordismo e o toyotismo, exemplos que aprofundaram esta tendência.

Ao mesmo tempo em que as transformações no processo produtivo visam a diminuir o poder do trabalho vivo, o processo de valorização do capital não pode prescindir por

98 completo dos trabalhadores, pois a força de trabalho é a única mercadoria com capacidade de criar mais-valia, desta forma:

A relação entre capital e trabalho apresenta-se, diversamente, como uma contradição em processo. Os capitalistas obstinam-se em reduzir ao máximo o trabalho necessário, fonte de criação de toda riqueza, mas não podem se desprender dele por completo. Ao mesmo tempo que os interesses capitalistas de obtenção de lucro têm na exploração do trabalho sua fonte de valor, anseiam, com o objetivo de baratear a força de trabalho, reduzir o tempo de trabalho a um mínimo. Se, por um lado, os interesses capitalistas tendem a reduzir a presença do trabalho para melhor controlá-lo e barateá-lo, por outro, a utilização do trabalho é indispensável para a produção de mais-valia. Além disso, essa redução não se dá de forma uniforme e homogênea nas sociedades capitalistas contemporâneas. O fluxo de capitais permite que em determinados países haja uma redução da participação do trabalho vivo dentro dos processos de produção de mercadorias, ao mesmo tempo em que em outros países a utilização da força de trabalho aumenta vertiginosamente, garantindo a manutenção de taxas de lucro elevadas (AMORIM, 2013, p. 504-505).

Ou seja, a tendência histórica do capitalismo é, por um lado, uma busca constante para prescindir do capital variável durante os processos de trabalho, o que é realizado a partir da incorporação dos conhecimentos dos trabalhadores às máquinas, permitindo a automatização dos processos produtivos e o gerenciamento sobre o trabalho, e, por outro, a dificuldade em não poder descartar plenamente dos trabalhadores durante a produção, pois a força de trabalho cumpre papel central na valorização do capital.

Uma observação inicial sobre o trabalho dos motoristas da Uber poderia fazer-nos questionar a tendência histórica da concentração do capital constante entre os proprietários dos meios de produção, pois parte das ferramentas utilizadas, o veículo e o telefone celular, são de posse dos motoristas e não da empresa. Um exemplo do atual questionamento sobre a pertinência da teoria desenvolvida por Marx sobre a tendência de concentração do capital constante no modo de produção capitalista é encontrado em Han (2018), que ao analisar as relações de trabalho contemporâneas afirma que:

No regime neoliberal não existe um proletariado ou uma classe trabalhadora que seria explorada pelo proprietário dos meios de produção. Na produção imaterial, de um jeito ou de outro, cada um possui seu próprio meio de produção. O sistema neoliberal não é mais um sistema de classes em sentido estrito. Ele não se constitui por estratos antagônicos da sociedade. É aí que reside a estabilidade do sistema. A distinção entre proletariado e burguesia já não se sustenta (HAN, 2018, p. 15).

Em consonância com a formulação desenvolvida por Han, porém analisando mais precisamente as diferentes formas de trabalho por aplicativo, Standing (2015) afirma que os

99 motoristas da Uber “não são funcionários [da empresa], pois não são diretamente supervisionados, possuem os principais meios de produção e, em princípio, têm controle

sobre seu tempo de trabalho” (Standing, 2015). Devido a estas características, segundo o

autor, empresas que gerenciam sua força de trabalho de maneira mediada por aplicativos devem ser consideradas rentistas, ou corretoras de força de trabalho, que recebem um percentual das transações trabalhistas por elas possibilitadas, já que “ao contrário das grandes corporações do passado, elas não possuem os principais meios de produção, carros,

casas ou outros equipamentos” (Standing, 2015). De nossa parte, discordamos das

formulações expressas pelos autores por considerarmos que no trabalho por aplicativo existe uma supervisão direta dos trabalhadores pelas empresas, sendo esta supervisão realizada a partir da propriedade privada de um meio de produção, sendo ele o aplicativo. Desse modo, acreditamos ser pertinente realizarmos uma leitura de como a relação entre os meios de produção e o controle sobre o processo produtivo se materializada neste trabalho.

A concentração do capital constante tem como intuito garantir que o controle sobre o trabalho passe para a gerência, diminuindo de maneira rigorosa a autonomia do trabalhador para tomar decisões sobre a sua atividade (Braverman, 1981). Assim, temos que esta concentração não ocorre apenas pela vontade dos capitalistas em aumentar a magnitude da sua propriedade privada, mas também como medida necessária para o aumento do controle sobre o trabalho.

Segundo Marglin (2001, p. 56-77), até mesmo o desenvolvimento das grandes fábricas foi uma ação realizada com este intuito. A leitura do “Cap. XI Cooperação”, de “O Capital” (Marx, 2012), apresenta a interpretação na qual a construção de grandes edifícios teve como função diminuir os custos com o capital constante, pois a construção de um galpão que comporte 20 trabalhadores é mais barato que a construção de 10 galpões com 2 trabalhadores em cada (Marx, 2012, p. 377). Esta economia de capital constante leva, consequentemente, a uma diminuição dos valores das mercadorias, tornando de interesse dos capitalistas realizar tal procedimento. Complementando esta interpretação, Marglin defende a tese segundo a qual esta diminuição de custos também decorre do fato das fábricas permitirem maior vigilância e controle sobre os trabalhadores, diminuindo o número de desvios de matérias-primas, aumentando o controle sobre o ritmo produtivo e evitando fraudes cometidas contra novas patentes, sendo este controle um segundo motivo para a concentração dos trabalhadores em grandes construções.

100 Desta forma, quando analisamos o trabalho dos motoristas da Uber, é preciso nos atentarmos para quais são os meios de produção necessários para garantir o controle do capital sobre os trabalhadores. A hipótese por nós desenvolvida é que se a empresa abdica da posse dos veículos e dos celulares é pelo fato de não ser pela propriedade privada desses elementos que é garantido o controle sobre o serviço efetuado, tornando assim desnecessário o investimento, por parte da empresa, nestes meios de trabalho. Para nós, uma das características deste trabalho é o comando se dar através do aplicativo, sendo ele a ferramenta responsável pelo gerenciamento dos motoristas pelas empresas.

O funcionamento da Uber, por exemplo, torna o aplicativo o centro do controle. É através dele que o motorista encontra o passageiro a ser transportado, quais são as ruas da cidade com menor fluxo de veículos, o tempo que será consumido com a viagem, a confiabilidade da pessoa que entrará no veículo e o valor total da corrida57. É a partir da posse destas informações que a empresa tem capacidade de organizar e disciplinar o trabalho de

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