UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP) ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
CAMPUS DE GUARULHOS
FELIPE BRUNER MODA
TRABALHO POR APLICATIVO: As práticas gerenciais e as condições de trabalho dos motoristas da Uber
Guarulhos - São Paulo 2020
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP) ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
CAMPUS DE GUARULHOS
FELIPE BRUNER MODA
TRABALHO POR APLICATIVO: As práticas gerenciais e as condições de trabalho dos motoristas da Uber
Dissertação de mestrado apresentada à Universidade Federal de São Paulo, como parte das exigências dо Programa dе Pós-Graduação em Ciência Sociais, para obtenção do título de Mestre
Orientador: Prof. Dr. Henrique José Domiciano Amorim
Guarulhos - São Paulo 2020
Moda, Felipe Bruner.
Trabalho por Aplicativo: As práticas gerenciais e as condições de trabalho dos motoristas da Uber / Felipe Moda – Guarulhos, 2020
149 p.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia e Ciências Humanas, 2020.
Orientador: Henrique José Domiciano Amorim
Work by App: Management practices and working conditions of Uber drivers
1. Trabalho Por Aplicativo; 2. Gerenciamento do Trabalho; 3. Sociologia do Trabalho;
I. Amorim, Henrique; II. Trabalho por aplicativo: As práticas gerenciais e as condições de trabalho dos motoristas da Uber
FELIPE BRUNER MODA
TRABALHO POR APLICATIVO: As práticas gerenciais e as condições de trabalho dos motoristas da Uber
Texto de dissertação apresentado ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre
Orientador: Prof. Dr. Henrique José Domiciano Amorim
Data de aprovação: 13/08/2020
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Prof. Dr. Henrique José Domiciano Amorim Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
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Profa. Dra. Ludmila Costhek Abílio Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
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Prof. Dr. Rafael do Nascimento Grohmann Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
AGRADECIMENTOS
Acredito que a única maneira de iniciar estes agradecimentos é me referindo às pessoas que foram essenciais para a realização desta pesquisa. A primeira não é apenas uma pessoa, mas um conjunto delas, isto é, os e as motoristas que disponibilizaram seu tempo para me contar sobre o seu trabalho. Em vidas marcadas pela falta de tempo, esta disponibilidade foi um grande esforço realizado por todos e todas ao qual serei eternamente grato, pois sem ele esta pesquisa nunca existiria. A segunda, que apesar de ser citado depois contribuiu igualmente neste projeto, é o meu orientador, Henrique Amorim, o qual deve ser considerado um co-autor desta dissertação. As inúmeras conversas que tivemos, bem como suas revisões e apontamentos, foram fundamentais para desenvolver uma pesquisa com o rigor científico necessário e, ao mesmo tempo, aberta para novas ideias. Desta maneira, tudo o que está escrito nas próximas páginas teve, diretamente, a sua participação.
Gostaria de agradecer também aos meus pais, Marcos e Cássia, e ao meu irmão, Rodrigo, que mesmo à distância estiveram sempre ao meu lado me apoiando em todos os meus planos, incluindo o de realizar um mestrado. Ainda que ser um pesquisador seja uma realidade pouco compreendida por eles, os apoios, das mais diversas maneiras, dados nestes mais de 30 anos de vida permitiram que este meu sonho fosse concretizado. Além deles, preciso destacar minha companheira Marianna, que nos últimos anos passou a fazer parte da minha família. Seu companheirismo, suas inúmeras revisões e sua paciência em me aguentar nos momentos de maior mal-humor e falta de tempo, o que não poderia deixar de ser citado, foi fundamental para que este período fizesse sentido, em especial nas horas mais difíceis.
As professoras Ludmila Abílio e Paula Marcelino, membras da minha banca de qualificação, e ao professor Rafael Grohmann, que compôs, juntamente com a professora Ludmila Abílio, a minha banca de defesa. As pesquisas por vocês realizadas e os comentários feitos diretamente em meu texto contribuíram para esta pesquisa ter este resultado final e espero que no futuro possamos continuar com estas trocas. Agradecer também ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unifesp por dar todas as condições necessárias para a realização desta pesquisa, em especial ao Rafael Ferreira, sempre atencioso e disposto a resolver todos os problemas burocráticos que surgiram nesta caminhada.
Fazer pesquisa é um ato coletivo, pois é impossível saber onde começam as minhas ideias e acabam as das pessoas que estão em minha volta. Assim, acredito que inúmeras
pessoas que passaram por minha vida na última década, em especial as que estão ao meu lado até hoje, contribuíram para este trabalho acontecer. Com medo de cometer injustiças, deixo este parágrafo em um tom mais genérico, mas agradeço a todos e todas que caminharam e caminham ao meu lado na luta por uma nova sociedade, pessoas fundamentais para que o meu pensamento crítico sobre a realidade fosse desenvolvido. Acredito que a ausência de nomes não seja um problema, pois todos e todas sabem muito bem quem são. Espero que este caminhada siga longa.
Não poderia deixar de agradecer também aos membros do Grupo de Pesquisa Classes e Trabalho (GPCT), em especial ao Guilherme Guilherme que seguiu lado a lado comigo nesta empreitada. Nossas discussões mensais, e as revisões feitas por alguns de vocês nas mais diversas fases deste projeto, contribuíram substancialmente para a realização desta pesquisa e para as próximas que virão.
Por fim, gostaria de agradecer a CAPES pela bolsa concedida, permitindo financeiramente a realização deste mestrado. Enquanto bolsista, sei o quão importante é para um pesquisador poder dedicar longas horas diárias a sua pesquisa, o que só é possível pelo apoio das entidades de fomento. Neste sentido, este agradecimento também é uma forma de defesa ao maior financiamento da educação em nosso país, o qual sofre nos últimos anos duros ataques por parte do governo federal, pois, infelizmente, muitos dos meus colegas de profissão não estão tendo as mesmas possibilidades que tive.
RESUMO
Esta pesquisa tem como objetivo analisar as práticas gerenciais desempenhadas pela Uber para organizar o trabalho dos motoristas que utilizam o aplicativo da empresa, bem como a compreensão das consequências deste gerenciamento sob as condições pelas quais este trabalho é realizado, tendo assim por objeto de estudo as formas de gerenciamento, organização e controle da força de trabalho presentes no trabalho por aplicativo. O trabalho de motorista por aplicativo tem como uma de suas características a ausência de jornada e de local de trabalho pré-determinadas pela empresa, permitindo a argumentação a qual defende a inexistência de uma relação de subordinação dos trabalhadores. Entretanto, buscamos demonstrar com esta pesquisa como esta aparente autonomia dos motoristas para organizarem suas rotinas é acompanhada por diversos mecanismos de controle, os quais garantem que o serviço ocorra de acordo com os interesses da corporação, configurando um trabalho realizado com eficiência, eficácia produtiva e com garantias de lucro. Defendemos que no trabalho por aplicativo ocorre uma atualização da gerência taylorista, com o aplicativo prescrevendo de maneira exata e em tempo real como cada atividade deve ser realizada, bem como acompanhando imediatamente a execução, servindo assim como um controlador de tempos e movimentos. Como consequência, temos no trabalho por aplicativo uma radicalização da subsunção real do trabalho ao capital, pois o trabalhador coletivo subordinado à empresa tem o seu trabalho coordenado e controlado de maneira mais minuciosa. Para este estudo, realizamos, entre os anos de 2018 e 2020, 22 entrevistas semi- estruturadas com motoristas e ex-motoristas por aplicativo, com a conformação da amostra sendo realizada de maneira não probabilística e com os entrevistados sendo acessados a partir da técnica de pesquisa bola de neve.
Palavras-chave: Trabalho por aplicativo. Uberização. Uber. Gerenciamento algorítmico.
Motoristas.
ABSTRACT
This research aims to analyze the management practices performed by Uber to organize the work of drivers who use the company's app, as well as the understanding of the consequences of this management under the conditions by which this work is carried out, thus having as object of study the forms of management, organization and control of the workforce present in the work by app. The work of drivers by app has as one of its characteristics the absence of working hours and workplace pre-determined by the company, allowing the argument which defends the inexistence of a relationship of subordination of the workers. However, we seek to demonstrate with this research how this apparent autonomy of drivers to organize their routines is accompanied by several control mechanisms, which ensure that the service occurs in accordance with the interests of the corporation, configuring a work carried out with efficiency and productive effectiveness and with guarantees of profit. We defend that in the work by app an update of the taylorist management happens, with the app prescribing in an exact way and in real time how each activity should be carried out, as well as following immediately the execution, thus serving as a controller of times and movements. As a consequence, we have in work by app a radicalization of the real subsumption of work to capital, because the collective worker subordinated to the company has his work coordinated and controlled in a more detailed manner. For this study, we conducted 22 interviews, with semi-structured script, with drivers and ex-drivers by app between the years 2018 and 2020, with the sample being conformed in a non-probabilistic way and with the interviewees being accessed from the snowball research technique.
Keywords: Work by app. Uberization. Uber. Algorithmic management. Drivers.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO 12
O mercado de trabalho brasileiro: um terreno fértil para proliferação do trabalho por
aplicativo 18
Metodologia de pesquisa e estrutura da dissertação 24
CAP. 1: AS RAÍZES DO TRABALHO POR APLICATIVO 28
O desenvolvimento histórico das formas de controle sobre o trabalho 28 O empresário-de-si e o gerenciamento algorítmico: facetas da subordinação 36 Plataformização do trabalho: compartilhamento ou exploração? 45
O trabalho por aplicativo e o resgate de Braverman 53
CAP. 2: UMA DESCRIÇÃO CRÍTICA DO TRABALHO DOS MOTORISTAS DA
UBER 58
O modelo de remuneração adotado e a intensificação do trabalho 59 O trabalho informal e o impacto do discurso empreendedor na compreensão dos
motoristas sobre a sua condição de trabalho 66
Gerenciamento algorítmico e a liberdade aparente 71
O sistema de controle de qualidade, a segurança e o trabalho dos consumidores 77 As reivindicações, as resistências e as ações coletivas desenvolvidas pelos trabalhadores
83
CAP. 3: UM TRABALHO TIPICAMENTE CAPITALISTA 92
A propriedade privada dos meios de produção e o controle sobre o trabalho 97
A indústria e a fábrica no trabalho por aplicativo 103
Assalariamento disfarçado e produtividade do trabalho dos motoristas por aplicativo 107
A organização do trabalhador coletivo 116
CONSIDERAÇÕES FINAIS 126
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 133
ANEXOS 147
Anexo 1 - Roteiro de entrevistas 147
Anexo 2 - Roteiro de entrevista utilizado na manifestação global de motoristas de
aplicativos 149
12 INTRODUÇÃO
Em uma sociedade dividida em classes sociais, “os meios de produção apresentam- se não só como meios para a realização do trabalho, mas também, exatamente no mesmo plano, como meios para a exploração do trabalho alheio” (Marx, s/d, p. 87). A maneira como esta exploração será organizada e controlada se alterou e segue sendo modificada com o transcorrer da história, se tornando uma preocupação central para os proprietários dos meios de produção e para os trabalhadores, pois é a partir destas modificações que se pode aumentar ou diminuir a exploração do trabalho.
Visando a contribuir com a compreensão de como a exploração do trabalho é realizada na contemporaneidade, a temática geral na qual se insere esta dissertação é o estudo das formas de gerenciamento, organização e controle do trabalho, tendo por objeto particular as práticas gerenciais desenvolvidas pela empresa Uber sobre os que motoristas utilizam o seu aplicativo. Assim, o nosso objetivo principal é debater como a Uber controla de forma coordenada o trabalho dos motoristas, com o intuito de apreender os impactos destas práticas de controle sobre as condições de trabalho e analisarmos em que medida esta prática de organização do trabalho apresenta traços de continuidade e ruptura com as formas de organização antecessoras a ela. Deste modo, demonstraremos como esta forma de gestão é expressão de um novo padrão de gerência, o qual reproduz, de maneira atualizada, características existentes nos padrões anteriores, traçando os seus aspectos essenciais e suas consequências para o modo de vida da classe trabalhadora.
Nesta pesquisa o termo trabalho por aplicativo é utilizado para designar a forma central que expressa a produção de serviços da uberização. Como será argumentado com o desenvolver desta dissertação, o aplicativo tem função central neste trabalho, trazendo consequências diferentes na forma de trabalhar e de controlar o trabalho quando comparamos a atividade dos motoristas da Uber, por exemplo, com outras realizadas de maneira digital e/ou virtual. Por querermos enfatizar a importância da mediação do aplicativo para o gerenciamento, o controle e a organização do trabalho por nós analisado, estamos utilizando esta terminologia. Além disso, consideramos tal ênfase necessária por defendermos que a utilização de aplicativos nos processos de trabalho marca uma nova reestruturação produtiva no interior do capitalismo, uma ação da classe dominante na promoção de modernizações conservadoras para manter a sua dominação de classe.
13 Apesar do trabalho por aplicativo representar a forma central da produção de serviços uberizados, é importante ressaltarmos que nem todo o processo de uberização se configura como um trabalho por aplicativo. O Dicionário Cambridge define o verbete “uberizar” como
“mudar a forma de oferecer um serviço a partir da introdução de uma diferente forma de compra ou uso dele, especialmente utilizando a tecnologia móvel” (Uberize, 2019). A partir desta definição podemos, por exemplo, classificar a plataforma Airbnb como uma uberização do serviço de hospedagem e hotelaria. Entretanto, acreditamos não ser precisa a classificação daqueles que disponibilizam seus imóveis em plataformas de sublocação como trabalhadores submetidos a alguma relação de assalariamento1, isto é, não existe um processo de compra e venda da força de trabalho nesta relação, e, por este motivo, não enquadramos tal atividade como uma forma de trabalho por aplicativo.
Por sua vez, Abílio (2020a, p. 14) define a uberização como uma nova forma de organização, gerenciamento e organização da força de trabalho, sendo uma prática gerencial a qual extrapola o trabalho mediado por plataformas digitais e que é fundamentada por décadas de eliminação de direitos, pela dispersão global e, ao mesmo tempo, centralização de cadeias produtivas e pelo desenvolvimento tecnológico. Para a autora, a adoção de plataformas digitais nos processos de trabalho promovem diferenças no gerenciamento desempenhado sobre a força de trabalho, entretanto é possível ocorrer relações de trabalho com aspectos uberizantes mesmo na ausência da utilização de plataformas digitais nos processos de trabalho. De nossa parte, compreendemos como distintos os conceitos de uberização e o de trabalho por aplicativo, guardando o termo trabalho por aplicativo apenas para nos referirmos aos serviços uberizados que envolvam a execução de algum tipo de trabalho, no qual deve ocorrer uma relação de assalariamento, mesmo que disfarçada, por esta atividade e que utilize aplicativos digitais para gerenciar e controlar os processos de trabalho2.
1 Nesta dissertação utilizamos o conceito de “relação de assalariamento” tal como formulado por Marx (2012), ou seja, a existência de uma relação de compra, por meio de salário, da força de trabalho, sem nos referimos ao conceito de “relação salarial” de Castel (1998), o qual descreve como historicamente se constituiu a sociedade salarial, marcada pela garantia e a proteção dos direitos sociais e trabalhistas.
2 No primeiro capítulo desta dissertação será definido com maior precisão o conceito de trabalho por aplicativo, traçando as características essenciais que lhe distinguem das demais formas de trabalhos digitais e trabalhos plataformizados, conceitos que servem para abarcar uma variedade maior de formas de trabalho do que o de trabalho por aplicativo.
14 Uma segunda distinção importante de ser pontuada para embasar as análises que realizaremos é a existente entre a prestação e a produção de serviços, com as consequências desta distinção melhores analisadas no terceiro capítulo desta dissertação. Como afirma Marx, “um trabalho de idêntico conteúdo pode ser produtivo ou improdutivo” (Marx, s/d, p.
115), ou seja, equivaler a fórmula D - M - D’ ou M - D - M, sendo esta a diferença entre produção e prestação de serviço. Na prestação de serviço, o trabalho é consumido enquanto valor-de-uso, não existindo uma relação de assalariamento, mas de rendimento, isto é, quem contrata um trabalhador para prestar um serviço utiliza o dinheiro como meio de circulação e não como mercadoria-dinheiro, não sendo possível a extração da mais-valia. Já na produção de serviços, o capitalista contrata a força de trabalho pela sua capacidade de gerar valor, inserindo assim este trabalho no processo capitalista de produção, o qual tem como característica a extração da mais-valia (Marx, s/d, p. 111). Como buscaremos demonstrar com esta pesquisa, a Uber é, para nós, uma empresa produtora de serviços, a qual subordina o trabalho dos motoristas com o intuito de valorizar o seu capital, diferentemente do que ocorre quando uma pessoa remunera um trabalhador para transportá-lo sem a intermediação de uma empresa, o que seria uma prestação de serviço, sendo esta característica um importante componente para compreendermos a relação de trabalho existente entre os motoristas e a empresa.
Segundo o seu site oficial3, a Uber foi criada em 2009 na cidade de São Francisco (EUA), por Garret Camp e Travis Kalanick, e em cerca de dez anos de existência já atua em mais de 10 mil cidades e em todos os continentes, com mais de 3 milhões de motoristas cadastrados em seu aplicativo (Uber, 2020), conformando-se como uma das empresas que mais se expandiu no período recente. O propósito da empresa é administrar uma plataforma4 digital que busca conectar motoristas e passageiros, sendo uma de suas características, em todos os países instaurados, adotar políticas de flexibilidade com seus motoristas, denominada por ela de “parceiros”. Toda a relação entre a empresa e seus “parceiros” se dá
3 Site oficial da empresa: <www.uber.com>. Acesso realizado em 16 de Jan. 2019.
4 As plataformas são infraestruturas de softwares e hardwares, de propriedade privada ou pública, alimentadas por dados, automatizadas e organizadas por meio de algoritmos digitais (Casilli; Posada, 2019), possibilitando a interação entre duas ou mais pessoas ou grupos (Srnicek, 2016, p. 43).
15 mediada por uma plataforma digital e com os profissionais sendo enquadrados como prestadores de serviços autônomos, independente da legislação trabalhista existente no país5.
Em seus primeiros anos de vida, a empresa funcionou apenas na modalidade Uber Black, que permite motoristas profissionais, donos de carros modelos sedans da cor preta, prestarem seus serviços, tendo como foco principal a locomoção para atividades formais.
Porém, foi em 2012 que a empresa começou a se popularizar mundialmente com o surgimento da modalidade UberX6, um serviço de baixo custo feito por motoristas não profissionais, em carros de passeio e tendo como foco o deslocamento de passageiros em seu cotidiano.
No Brasil, a empresa começou a funcionar em maio de 2014, no Rio de Janeiro, sendo que em 2020 já atuava em mais de 500 cidades. Na cidade de São Paulo, local do nosso estudo, a Uber iniciou seus trabalhos em junho de 2014 e em 2018 tínhamos cerca de 150 mil motoristas cadastrados na empresa ou em aplicativos que oferecem serviços similares, número superior ao de taxistas, que são cerca de 50 mil, sendo esta a cidade do mundo que mais realiza corridas utilizando o aplicativo (Lewer, 2018). A “Pesquisa Origem e Destino 2017” apontou que a cada quatro corridas de táxi realizadas em São Paulo, três são feitas por aplicativos e uma pela forma convencional (Lopes; Paulo, 2019).
Para tornar-se um “parceiro” da Uber, basta instalar o aplicativo da empresa em seu telefone, ter um carro de um dos modelos requeridos e enviar para a Uber fotos da sua carteira de motorista, do veículo e da certificação de antecedentes criminais, sem nenhum contato direto entre a empresa e o motorista. Após este processo, o usuário é cadastrado na empresa e, a todo o momento em que ligar o aplicativo, passará a receber oportunidades de viagens solicitadas por passageiros, sendo que ao final da corrida a Uber retém uma média de 25%7
5 A regulamentação do funcionamento do serviço, bem como da relação da Uber com os motoristas, é tema de debate em diversas cidades no mundo, promovendo algumas exceções neste enquadramento. Recentemente, por exemplo, o estado da Califórnia (EUA) aprovou uma lei que obriga a Uber contratar os motoristas como funcionários (Cury, 2019). Porém, nesta pesquisa nos guiaremos pelo enquadramento hegemônico existente nesta relação, por ser este o enquadramento realizado no Brasil, o qual considera os motoristas como autônomos em relação à empresa.
6 Para ilustrar o crescimento da Uber no período após a criação do UberX, em 2009 a empresa funcionava apenas em São Francisco, em 2012 ela havia se expandido para mais de 10 cidades, sendo que em 2014 ela passou a funcionar em cerca de 80 cidades e chegou a 500 cidades em 70 países diferentes em 2017. Segundo reportagem da revista Forbes, o valor da Uber, que se manteve próximo a 1 bilhão de dólares entre 2009 e 2012, alcançou 68 bilhões de dólares no final de 2015 (Chen, 2015). No dia de abertura das ações da empresa na bolsa de valores de Nova York, no mês de maio de 2019, ela foi avaliada em 82,4 bilhões de dólares (Pozzi, 2019).
7 Esta porcentagem varia a cada corrida, sendo uma decisão exclusiva da empresa o quanto será retido. Em nossas entrevistas, motoristas relataram que em algumas corridas esta taxa chega até a 50% do valor total.
16 do pagamento feito pelo serviço. Todas as corridas realizadas devem ser convocadas de maneira mediada pelo aplicativo, com o motorista não podendo ligar o aplicativo para oferecê-la a um passageiro determinado que manifeste interesse em realizar o serviço diretamente com ele.
Resumidamente, o serviço funciona da seguinte maneira: um consumidor cadastrado na plataforma da empresa solicita, via aplicativo, uma corrida, informando o local de origem e de destino, e o aplicativo passa a localizar motoristas que estão na região próxima ao embarque. O chamado para a corrida aparece no display do celular de um dos motoristas, informando apenas o local de embarque, o nome e a nota do passageiro, com o motorista tendo alguns segundos para aceitar ou recusar a chamada e, caso aceite, um mapa de GPS ajuda na sua condução até o usuário. Após a realização do encontro entre eles, o aplicativo indica a melhor rota entre o local de origem e de destino e ao final do translado o sistema calcula o valor da corrida. O pagamento pode ser realizado por cartão de crédito cadastrado no aplicativo ou por dinheiro pago diretamente aos motoristas. Encerrado o trajeto, motorista e passageiro avaliam um ao outro a partir um sistema de pontuação de estrelas, com as notas variando de uma a cinco estrelas.
Importante salientarmos que a empresa não realiza nenhum processo seletivo para cadastrar trabalhadores em sua plataforma e não existe um número fixo de “parceiros”
utilizando o aplicativo por cidade, tornando uma escolha pessoal destes profissionais se engajarem no trabalho. A facilidade em se tornar um motorista da Uber, devido à falta de pré-requisitos para exercer o trabalho, fez Abílio (2017) nomear estes profissionais como motoristas amadores, em contraposição aos taxistas, classificados como motoristas profissionais. É característica do trabalhador amador a perda do lastro social do trabalho, pois o modo pelo qual estes trabalhos se realizam faz com que o Estado não reconheça estes profissionais como trabalhadores e, muitas vezes, até mesmo quem realiza tais atividades não se reconhece como um profissional, como alguém que está realizando um trabalho. No trabalho amador, as atividades são realizadas sem hora e local pré-estabelecidos, tendo como motivação o lazer e/ou o complemento de renda8.
8 Aparentemente, se tornar motorista da Uber é mais uma expressão da “viração” (Telles, 2006; Abílio, 2014, p. 14), trabalhadores com um histórico profissional marcado por empregos precários, que oscilam entre ocupações legais, ilegais, temporárias e terceirizadas, ocasionando históricos de vida desprovidos de uma identidade profissional e que estão atualmente na profissão de motorista em busca de uma garantia financeira mínima para a sobrevivência. O que unifica as suas vidas é o histórico de contratações com vínculos frouxos e
17 Consideramos importante realizarmos uma leitura crítica do conceito proposto.
Concordamos com algumas das características do trabalho amador apresentadas pela autora, tais como a facilidade encontrada para se engajar nestes empregos, a intermitência em sua prestação e a busca, por parte das empresas e do Estado, pela quebra da identidade profissional destes trabalhadores. Porém, o termo amador remete a um hobby desempenhado por estes motoristas e, na nossa visão, é necessário enfatizar que estamos nos deparando com a consolidação de uma nova categoria profissional, ancorada em uma outra forma de exploração do trabalho, mas que ainda reproduz a subsunção do trabalhador ao capital.
A condição de autônomo no qual os motoristas são enquadrados é peça-chave para compreendermos a relação de trabalho estudada, pois é ela que dá condições para as políticas de flexibilidade existentes no serviço e exime a empresa de arcar com os custos de contratação, salários indiretos e direitos assegurados em nossa Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como o pagamento de salário-mínimo (Pochmann, 2017). Apesar de retirar as garantias mínimas de trabalho, o controle sobre o que é realizado e a relação de subordinação dos profissionais com a empresa segue existindo, como demonstraremos com esta dissertação.
A Uber não estipula jornada e local de trabalho aos motoristas, nem exige exclusividade na relação de trabalho, características que fazem a empresa argumentar pela inexistência de uma relação de subordinação com os profissionais. Os trabalhadores têm autonomia para decidirem quais dias trabalharão, quanto tempo permanecerão dirigindo e os locais nos quais ligarão o aplicativo para receberem pedidos de “carona”, sendo que ao final de cada corrida é gerado um valor baseado no tempo gasto, na distância percorrida e na relação entre oferta e demanda de motoristas na região9. Desta tarifa, uma média de 25% fica para a empresa e os outros 75% são do motorista, não sendo remunerado momentos em que o motorista está com o aplicativo ligado sem transportar passageiros. Não é realizada mais nenhuma forma de remuneração para esses profissionais, seja por meio de bonificações, seguros ou auxílio em caso de acidentes. Assim sendo, a remuneração mensal desses
uma sensação de inexistência de longo prazo (Sennet, 2009). Esta característica histórica do mercado de trabalho brasileiro recentemente passou a existir também nos países centrais do capitalismo, sendo o trabalho por aplicativo um exemplo. Para conceituar esta generalização, alguns autores, tais como Friedman (2014) e Gandini (2019), passaram a utilizar o termo gig economy. A pertinência da utilização deste conceito será debatida no decorrer desta dissertação.
9 A Uber criou o mecanismo batizado de “tarifa dinâmica” para calcular o valor de cada carona. O funcionamento deste mecanismo será aprofundado no segundo capítulo da dissertação.
18 trabalhadores é totalmente variável, sem nenhuma base fixa nestes salários, sendo de completa responsabilidade dos motoristas os custos com a manutenção do veículo.
Organizar o trabalho de milhões de motoristas ao redor do mundo sem fixar jornada e local para sua execução só foi possível com o desenvolvimento de mecanismos de controle realizados de maneira automatizada e sem contato direto entre a empresa e os trabalhadores.
Sendo que, tais mecanismos, como iremos demonstrar, são bastante eficientes para garantir a contínua produção do serviço. Por isso, consideramos ser relevante nos debruçarmos sobre as formas de gerenciamento, organização e controle do trabalho desenvolvido pela Uber, a fim de compreendermos como estas práticas ocorrem. Para tanto, realizaremos uma rápida introdução das principais formas de gerenciamento do trabalho realizadas historicamente no modo de produção capitalista, buscaremos as raízes e os fundamentos do gerenciamento realizado no trabalho por aplicativo, analisaremos o processo de trabalho dos motoristas e debateremos a subordinação deste processo de trabalho ao processo de valorização do capital.
O mercado de trabalho brasileiro: um terreno fértil para proliferação do trabalho por aplicativo
Estima-se que, em 2019, 4 milhões de brasileiros sejam “empregados”10 por aplicativos, tais como a Uber, a iFood, a 99 e a Rappi, sendo estas empresas as maiores
“empregadoras” do país (Putti, 2019). Ao analisarmos os dados de crescimento apenas da Uber, temos que estes números também são bastante expressivos. Em cerca de cinco anos de funcionamento no território nacional, a corporação já conta com mais de 600 mil motoristas
“parceiros” e com 22 milhões de usuários brasileiros cadastrados em sua plataforma, conformando 23% dos usuários totais da empresa, dados que colocam o Brasil como o segundo maior mercado da Uber no mundo (Uber, 2020).
Para compreendermos este grande crescimento do trabalho por aplicativo no Brasil, se faz necessário fazermos um breve resgate histórico tendo em vista a apontarmos algumas características estruturais do mercado de trabalho brasileiro, além de analisarmos algumas características conjunturais recentes do nosso país e que, em nossa opinião, afetam diretamente o crescimento da Uber. Consideramos importante realizarmos, ainda que
10 Usamos o termo entre aspas já que formalmente tais trabalhadores não são empregados pelas empresas.
19 brevemente, estas considerações sobre o desenvolvimento histórico do mercado de trabalho brasileiro por defendermos que apesar da Uber ser uma empresa global, com funcionamento similar nos diferentes países no qual atua, a forma pela qual ela impacta o mercado de trabalho tem diferenças em cada país, devido às especificidades existentes na estruturação das relações de trabalho e das leis trabalhistas vigentes. Assim, realizaremos este breve resgate histórico sobre as características do nosso mercado de trabalho visando a auxiliar na compreensão sobre os impactos do trabalho por aplicativo no Brasil.
O Brasil foi palco por quase quatro séculos de um processo de escravização da população negra. No pós-abolição foi dificultada a inserção dos negros nos trabalhos assalariados, já que imigrantes de diversos países europeus serviam como força de trabalho, com salários extremamente baixos, nas lavouras, em detrimento aos ex-escravos (Furtado, 2009; Prado Jr, 2012). O período de expansão da industrialização, que durou, sobretudo, de 1930 a 1980, aumentou o “exército industrial de reserva”11 existente, pois parte considerável dos trabalhadores advindos das lavouras não conseguiram se ocupar nos centros urbanos.
Este exército industrial de reserva, além de depender da informalidade para garantir a sua reprodução social, foi um fator determinante para instaurar um modelo de acumulação de capital baseado no baixo valor do salário mínimo visando a garantia de uma alta taxa de lucro (Oliveira, 2013). Assim, conformaram-se características estruturantes do mercado de trabalho brasileiro nas quais uma parte considerável da população, sobretudo negra, sobrevive de trabalhos não regulados pelo Estado e uma outra importante parcela se insere em ocupações com direitos trabalhistas garantidos, porém com baixa remuneração.
Apesar destas características estruturais do mercado de trabalho brasileiro, as últimas décadas marcam transformações importantes no modo de acumulação capitalista e na forma de gestão da força de trabalho em todo o mundo, afetando diretamente o nosso país. Desde a década de 1970 alguns países da América do Norte e do continente europeu entraram no período chamado de neoliberalismo, promovendo mudanças na sua forma de organização social tendo em vista à reversão da queda das taxas de lucro que ocorriam naquele período.
A partir da tese na qual o mercado tem maior capacidade de realizar tal recuperação em
11 Para Marx (2012), o exército industrial de reserva é composto pelos trabalhadores desempregados ou parcialmente empregados, sendo eles um importante fator de pressão sobre o valor dos salários. Como os trabalhadores por aplicativo podem ser enquadrados como “parcialmente empregados”, consideramos importante destacar como historicamente o exército industrial de reserva brasileiro foi constituído.
20 relação ao planejamento estatal (Harvey, 2008, p. 12), diversos governos adotaram medidas de privatização dos bens e serviços públicos e de desregulamentação dos direitos trabalhistas com o intuito de fortalecer a iniciativa privada e o livre-mercado.
No caso brasileiro, o neoliberalismo só passou a ser aplicado nos anos de 1990, durante os governos de Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e, em especial, de Fernando Henrique Cardoso (FHC). A “era FHC” foi marcada pela maior abertura ao comércio e as finanças internacionais, pela predominância do capital financeiro, pela privatização das empresas públicas, pela redução dos direitos sociais e pelo aumento da dívida pública (Baltar;
Krein, 2013; Braga, 2012; Boito Jr., 2003; Paulani, 2003). Tais ações impactaram diretamente o mercado de trabalho brasileiro, devido ao aumento das importações e desmanche de parte da estrutura produtiva nacional. Assim, como reflexo das políticas adotadas internamente, mas também como consequência de uma reorganização da divisão internacional do trabalho, a década de 1990 marca uma transformação na morfologia da classe trabalhadora brasileira, com o setor industrial, responsável pelo emprego da maior parte dos trabalhadores no final do século XX, sofrendo uma retração e com o crescimento do setor de serviços (Antunes, 2018, p. 117-123).
Conjuntamente com esta retração do emprego industrial, na década de 1990 vivenciamos o que Baltar (1996, p. 106) nomeou como “crise do emprego urbano”, devido ao aumento do desemprego e do número de ocupações por conta-própria, a diminuição da proporção da População Economicamente Ativa (PEA) inseridas no mercado formal de trabalho e pelo fato de que as oportunidades ocupacionais existentes naquela década não ofereciam qualquer possibilidade de ascensão profissional e social. Para ilustrarmos a gravidade da questão, a taxa de desemprego em relação a PEA na década de 1990 ficou quase três vezes maior que nos anos 1980, saltando de 3,8% em 1990 para 9,6% em 1999 (Pochmann, 2008, p. 38).
No cenário desta reconfiguração global do mercado de trabalho, a década de 2000 é marcada pela chegada de Luís Inácio “Lula” da Silva à Presidência da República, que governou o país entre janeiro de 2003 e dezembro de 2010 e teve como uma de suas características adotar uma política de formalização do mercado de trabalho. O grau de rompimento de Lula com as políticas neoliberais do período anterior é bastante controverso entre analistas, com autores, tais como Anderson (2011) e Singer (2012), adotando uma visão
21 mais otimista sobre o governo e outros autores, como Paulani (2003) e Oliveira (2010), argumentando sobre a persistência da hegemonia neoliberal sob governo Lula.
De todo modo, o conjunto dos autores reconhecem a importância de alguns avanços realizados por Lula, principalmente no que diz respeito à política de valorização do salário mínimo e de formalização do mercado de trabalho. Em seu governo, cerca de 2,1 milhões de brasileiros tiveram a sua carteira de trabalho assinada, sendo que 59% destes novos postos de trabalho remuneravam com apenas 1,5 salário-mínimo seus ocupantes e em sua maioria essas ocupações eram ligadas ao setor de serviços (Pochmann, 2012, p. 18-20). A partir desta política, a taxa de formalização chegou a 68,1% em 2012 da PEA, um crescimento de mais de 10% em uma década (IBGE, 2012). Entretanto, vale destacarmos que a maior taxa de formalização da força de trabalho não teve como resultado necessário o aumento da proteção social e o acesso à direitos, já que a rotatividade no trabalho seguiu sendo uma constante para parte considerável da classe trabalhadora, crescendo inclusive 10% durante a década de 2000 (Pochmann, 2012, p. 93), e boa parte dos contratos formalizados estavam vinculados os processos de terceirizações, os quais tinham seus rendimentos 24,7% menor e seus ocupantes permaneciam em média 3 anos a menos no emprego em relação às vagas não terceirizadas (DIEESE, 2014, p. 14).
No ano de 2015, um ano após a chegada da Uber em nosso país, inicia-se uma forte recessão econômica que impacta diretamente o nosso o mercado de trabalho12. Pesquisadores apontam diferentes causas para esta recessão, tais como: termos vivenciado um ensaio desenvolvimentista, a partir do ativismo estatal, que foi interrompido pelo deslocamento da burguesia industrial para o rentismo (Singer, 2016); erros de escolha da então presidenta Dilma Rousseff dentro desta política desenvolvimentista, já que as medidas por ela priorizadas, como redução das taxas de juros, desonerações tributárias e desvalorização do Real, não resultariam em desenvolvimento e afetariam os cofres públicos (Carvalho, 2018) ou o fato da política de criação de empregos herdada do governo Lula, baseada em ocupações formalizadas, mas de baixos rendimentos, ter criado dificuldades em pacificar os conflitos
12 Esta crise econômica brasileira tem ligações com a crise econômica mundial de 2008, que levou a falência de importantes bancos, quedas nas taxas de lucro e a uma piora na qualidade de vida da população, aumentando significativamente o nível de desemprego e correndo o poder compra da classe trabalhadora (Chesnais, 2013, p. 22-25). As causas do gap de 7 anos entre estas duas crises não é um dos temas de análise desta dissertação, porém acreditamos ser importante apontarmos a existência desta crise econômica mundial de 2008 já que parte das soluções tomadas para a sua solução impactaram diretamente as formas de trabalho.
22 sociais (Braga, 2016). De todo modo, no ano de 2015 foi realizado o impeachment da então presidenta e tivemos uma forte retração econômica no país, com o Produto Interno Bruto (PIB), chegando a marcar -3,5% no último semestre deste ano (IBGE, 2017).
Esta conjuntura político-econômica afetou o mercado de trabalho brasileiro. Se em 2014 tínhamos 6,8% da População Economicamente Ativa (PEA) desempregada, este número salta para 12% em 2016 e manteve-se oscilando entre 12 e 13% até 2019 (IBGE, 2019). Além disto, em 2017, já sob o governo de Michel Temer, o número de pessoas trabalhando por conta própria ou em vagas sem carteira assinada voltou a superar o daqueles que teriam um emprego formal (Cury et al., 2018).
Assim, torna-se uma necessidade para parte considerável dos trabalhadores buscarem formas alternativas para garantir a sua reprodução social, reforçando a característica estruturalmente informal do nosso mercado de trabalho. Tal condição é reconhecida até mesmo pelo governo brasileiro, que em seu discurso para o convencimento da aprovação da Reforma Trabalhista (Brasil, lei 13.467/2017), aprovada em 2017 e que modificou as leis trabalhistas vigentes, vinculou tal medida com a promessa de expansão do emprego e da formalização dos postos de trabalho.
Dois anos após a aprovação da lei, as características estruturais do mercado de trabalho brasileiro não foram modificadas, já que o índice de desemprego total na população que era de 23,8% em 2017 chegou, em 2019, a 25% e o total de vagas com carteira assinada subiu apenas de 38 milhões em 2017 para 39 milhões em 2019, mesmo com a Reforma Trabalhista permitindo a formalização de uma maior gama de contratos de trabalho (Filgueiras, 2019, p. 34-44).
Uma das novas modalidades de formalização da força de trabalho possibilitadas pela Reforma Trabalhista foi o trabalho intermitente, sendo este o “contrato de trabalho no qual a prestação de serviços, com subordinação, não é contínua, ocorrendo com alternância de períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses”.
(Brasil, 2017, p. 09)13. A regulamentação desta relação contratual prevê que o empregador convocará o trabalhador com, pelo menos, três dias de antecedência, informando a jornada
13 O trabalho intermitente e a remuneração vinculada à produtividade não são restritos apenas ao nosso país.
Esta modalidade de contrato é bastante semelhante ao contract zero hours existente no Reino Unido, onde os trabalhadores também recebem apenas pelas horas em que exercerem as funções a eles destinadas, sem terem uma jornada de trabalho pré-estabelecida, e ficam à disposição do empregador, que poderá convocá-los a qualquer momento para o serviço. Sobre o tema dos contratos zero-horas, ver: Maeda, 2016.
23 de trabalho ao empregado e que este terá até 24 horas para responder o chamado, além de vincular o valor da hora de trabalho ao valor horário do salário-mínimo, com o pagamento vinculado apenas às horas trabalhadas.
Nestes termos, o trabalho intermitente guarda diferenças em relação às condições de trabalho dos motoristas da Uber, porém ambos seguem a mesma lógica de remuneração, na qual apenas as horas efetivamente trabalhadas são remuneradas, merecendo assim a nossa atenção o quanto este modelo de contratação irá se difundir em nosso país. Apesar da expectativa, por parte do governo federal, de que tal modalidade seria uma das alavancas para a formalização do mercado de trabalho, apenas 0,55% de todos os admitidos entre 2017 e 2019 foram enquadrados nesta categoria (Krein; Oliveira, 2019, p. 89).
Outro dado que julgamos importante para compreendermos o crescimento do trabalho por aplicativo é o crescimento do número de trabalhadores “por conta-própria”, o qual bateu seu recorde histórico em 2019, com mais de 24 milhões de ocupados, sendo esta a alternativa buscada por muitos trabalhadores para garantir a sua reprodução social em um contexto de falta de vagas com carteira assinada (Krein; Oliveira, 2019, p. 115). Estes números demonstram como seguimos convivendo com uma grande quantidade de trabalhadores disponíveis para novos arranjos de trabalho e emprego, tais como os apresentados pelos trabalhos por aplicativos.
Assim, diferentemente dos países europeus que tiveram seu período de Welfare State, no Brasil a classe trabalhadora nasceu e cresceu sob o signo da precariedade. As recentes transformações que ocorrem Norte global na forma de contratação da força de trabalho e que deram origem ao que está sendo chamado por gig economy (Friedman, 2014; Gandini, 2018), é uma característica histórica no Sul global, já que a não garantia dos direitos trabalhista é uma norma nestes países (Abílio, 2020a), com as recentes inovações tecnológicas aprofundando este cenário. Como consequência, devido às características que apresentamos sobre a conformação do nosso mercado de trabalho, o Brasil se mostrou como um terreno fértil para que as plataformas digitais de troca ou intermediação de serviços prosperassem, sobretudo, na medida em que encontraram no país uma massa de trabalhadores buscando maneiras alternativas de geração de renda que possa garantir a sua subsistência e também um grande contingente populacional para consumir serviços de baixo custo.
Deste modo, devido a amplitude que o trabalho por aplicativo tem tomado no Brasil e também em diversas outras partes do mundo, acreditamos ser relevante sociologicamente
24 nos debruçarmos sobre as práticas gerenciais existentes e as condições nas quais o trabalho de motorista por aplicativo é realizado. Apreender os diferentes aspectos que compõem esta nova forma de gerenciamento da força de trabalho nos auxilia na compreensão de como a exploração do trabalho está sendo realizada na contemporaneidade, bem como as suas consequências para a forma a qual as relações sociais, dentro e fora do trabalho, estão sendo organizadas.
* * *
Metodologia de pesquisa e estrutura da dissertação
Como pontuado, a problemática geral desenvolvida por esta pesquisa parte da seguinte questão: quais são as práticas gerenciais utilizadas pela Uber para organizar o trabalho dos motoristas e quais são as consequências deste gerenciamento sob as condições de trabalho vivenciadas por estes trabalhadores? Assim, temos por objeto de estudo as formas de gerenciamento, organização e controle sobre o trabalho desempenhadas no trabalho por aplicativo, procurando, com isso, contribuir com a compreensão de como a exploração do trabalho está sendo realizada a partir da implementação de aplicativos para gerenciamento da força de trabalho. Para tanto, nos valemos, principalmente, das considerações feitas por Marx (2012; s/d) sobre as características dos processos de trabalho no modo de produção capitalista para analisarmos a relação de trabalho em questão, buscando compreender como as características descritas pelo autor se apresentam no trabalho de motorista por aplicativo.
A partir da abordagem inicial do nosso objeto de estudo que realizamos nesta Introdução, levantamos um conjunto de questões para guiar a nossa exposição, sendo elas:
Quais são os mecanismos gerenciais que a Uber utiliza para controlar a atividade realizada?
Sob quais condições este trabalho é desenvolvido e qual a opinião dos motoristas sobre elas?
Em que medida o aplicativo altera os processos de trabalho dos motoristas quando comparado aos dos taxistas? Existe relação de subordinação dos motoristas à Uber? Os elementos que configuram a forma típica de se produzir no capitalismo estão presentes no trabalho por aplicativo? Podemos enquadrar o trabalho por aplicativo como parte de uma nova reestruturação produtiva? Se sim, qual seriam suas bases teóricas e elementos constitutivos?
Perguntas que serão analisadas e respondidas no decorrer desta dissertação.
Em relação a metodologia utilizada nesta pesquisa, promovemos uma aproximação teórico-empírica do objeto. Para tanto, realizamos um levantamento bibliográfico sobre o
25 tema da gestão do trabalho na contemporaneidade, buscando averiguar nessa bibliografia o debate existente sobre o taylor-fordismo, o toyotismo, a uberização e o trabalho por aplicativo, a influência dos avanços tecnológicos no mundo do trabalho e da subsunção do trabalho ao capital, na tentativa de compreendermos as recentes transformações dos e nos processos de trabalho e as divergências teóricas existentes sobre esta temática, além de nos servir de base para traçarmos alguns comentários sobre os impactos desta nova forma de gestão da força de trabalho nos processos produtivos. De modo a complementar a revisão bibliográfica, efetuamos entrevistas com motoristas e ex-motoristas por aplicativo.
A conformação da amostra foi realizada de maneira não probabilística, com os entrevistados sendo acessados a partir da técnica de pesquisa bola de neve (Vinuto, 2014, p.
203-206), a qual utiliza cadeias de referência, ou seja, um indivíduo entrevistado indica outros possíveis sujeitos para a pesquisa. Dentre as indicações feitas, buscamos priorizar a abrangência de indivíduos de diferentes condições socioeconômicas, incluindo aspectos de diferenças de gênero, raça e renda. Realizamos para este estudo 22 entrevistas, sendo 10 delas aplicadas tendo por base um roteiro semi-estruturado de questões (ANEXO 1), fora do local de trabalho dos motoristas e com a duração média de 40 minutos.
As demais 12 entrevistas que complementam a nossa amostra foram decorrentes de um trabalho de campo realizado no primeiro protesto global de motoristas por aplicativo realizado no dia 8 de maio de 2019, dia marcado pela entrada da Uber na bolsa de valores estadunidense, no qual entrevistamos motoristas presentes na manifestação com um roteiro reduzido de questões (ANEXO 2). Em São Paulo, a manifestação ocorreu na região central da cidade e reuniu cerca de 200 pessoas, reivindicando principalmente contra as baixas tarifas impostas pelas empresas aos usuários, contra as altas taxas retidas pelas empresas por corrida realizada, acarretando uma baixa remuneração dos motoristas, e por mais segurança no trabalho.
Entrevistamos estudantes universitários em busca de inserção no mercado de trabalho; ex-micros empresários que tiveram seus negócios fechados com a crise econômica dos últimos anos; pessoas que optaram por trabalhar com a Uber e abandonaram seus empregos com carteira assinada, acreditando que a nova profissão aumentaria seus ganhos financeiros; trabalhadores que foram demitidos de seus empregos e que se mantém como motoristas de aplicativo enquanto buscam novas oportunidades no mercado formal de trabalho; pessoas que têm a Uber como fonte de renda principal e os que estão nesta atividade
26 em busca de uma complementação financeira; homens com dificuldade de se re-inserirem no mercado de trabalho por possuírem antecedentes criminais; mulheres que buscam uma jornada de trabalho flexível para conciliar a sua profissão com o trabalho doméstico; ex- taxista que trabalhava sem alvará e que viu na Uber uma oportunidade de seguir trabalhando no setor de transporte, mas agora sem pagar uma taxa mensal para o dono da frota e até mesmo motorista dono de mais de um veículo e que aluga seus automóveis para outros motoristas. Ou seja, trabalhadores de diferentes históricos de vida que encontraram na profissão de motorista por aplicativo uma forma de manutenção financeira.
Além desta introdução, na qual apresentamos como o trabalho de motoristas por aplicativo é realizado e aspectos estruturais e conjunturais do mercado de trabalho brasileiro que permitiram a rápida proliferação desta forma de trabalho em nosso país, a presente dissertação está dividida em três capítulos. O primeiro deles, intitulado “As raízes do trabalho por aplicativo”, tem como propósito realizar um resgate histórico das diferentes práticas de gerenciamento sobre o trabalho desempenhadas no século XX e XXI, sendo este o ponto de partida para compreendermos como a questão da gerência se materializa no trabalho por aplicativo, criando um arcabouço teórico que nos possibilite interpretar os dados empíricos coletados com as entrevistas. Assim, buscaremos demonstrar como o trabalho de motoristas da Uber se configura como um movimento de atualização conservadora, como uma síntese histórica que visa atualizar a forma como a exploração e a dominação de classe é socialmente produzida.
Para tanto, será feito um resgate das principais teses que deram origem à gerência desempenhada pela Uber e traçar um histórico sobre as formas hegemônicas de controle sobre o trabalho desenvolvidas no modo de produção capitalista, não os compreendendo apenas técnicas e procedimentos para organizar a produção, mas como formas de produzir modos de vida dentro e fora de trabalho, assim como foram analisados por Gramsci (2001) e Dias (1998). Neste sentido, a busca pelas bases teóricas do trabalho por aplicativo não tem como foco exclusivo as leituras sobre as diferentes maneiras de organização do trabalho no capitalismo, mas também adentra ao debate sobre qual visão de sociedade e relações de classes o trabalho analisado está se baseando e produzindo, sobre qual é o “novo tipo humano
27 adequado a este novo tipo de trabalho” (Gramsci, 2001, p. 248), e, para isso, trazemos leituras sobre a relação entre a sociedade neoliberal e o empreendedorismo14.
No segundo capítulo, “Uma descrição crítica do trabalho dos motoristas da Uber”, será realizada uma análise empírico-teórica do objeto de estudo, tendo como eixo as entrevistas realizadas, nos debruçando sobre as práticas de controle e as condições de trabalho desenvolvidas no trabalho de motorista por aplicativo. Esta análise será feita a partir de cinco focos de discussão: 1) o modelo de remuneração adotado e a intensificação do trabalho; 2) o trabalho informal e o impacto do discurso empreendedor na compreensão dos motoristas sobre a sua condição de trabalho; 3) o gerenciamento algorítmico e a aparente liberdade; 4) o sistema de controle de qualidade e o trabalho dos consumidores e 5) as reivindicações, as resistências e as ações coletivas desenvolvidas pelos trabalhadores. Desta forma, o objetivo deste capítulo é analisarmos criticamente o ideal de liberdade propagado pela Uber para os seus “parceiros” organizarem o trabalho, desmistificando como a empresa gerencia, por meio do aplicativo, as atividades realizadas pelos trabalhadores.
Já no terceiro e último capítulo, intitulado “Um trabalho tipicamente capitalista”
demonstraremos como esta relação de trabalho se subordina ao processo de valorização do capital. Nossa preocupação neste momento é apresentar como o trabalho por aplicativo se configura como uma atualização do modo de produção tipicamente capitalista, tal como apresentado por Marx (2012; s/d), sendo que, para tanto, resgatamos os conceitos de subsunção formal e real do trabalho ao capital.
Neste capítulo, apresentaremos como quatro elementos centrais do modo de produção tipicamente capitalista, a saber, a propriedade privada dos meios de produção, a organização industrial do trabalho, a produtividade do trabalho e a conformação do trabalhador coletivo estão presentes no trabalho dos motoristas por aplicativo, analisando quais destes elementos são conservados, rompidos ou atualizados. Assim, demonstraremos como o trabalho em questão se configura como uma produção de serviços, com a Uber sendo a proprietária de um capital industrial, o qual é investido na compra da força de trabalho dos motoristas, de forma disfarçada, com o intuito de ter este capital valorizado.
14 A figura do empreendedor tem sido constantemente utilizada para descrever os trabalhadores não submetidos a vínculos formais de emprego, buscando com tal conceito a valorização das atividades realizadas de maneira autônoma. Como os motoristas da Uber se enquadram nesta descrição, compreendemos ser importante analisarmos a relação do empreendedorismo com esta ocupação.
28 CAP. 1: AS RAÍZES DO TRABALHO POR APLICATIVO
Partindo da concepção segundo a qual toda a novidade traz em si elementos do passado, ou seja, de que em nossa sociedade nada que é novo é produzido ao acaso, mas sim por decorrência das relações sociais existentes anteriormente, neste capítulo buscaremos traçar alguns dos desenvolvimentos históricos que estão na origem do trabalho por aplicativo.
Para tanto, buscaremos mapear quais são as principais teses e argumentos sobre a forma de organização da sociedade e do trabalho que possibilitaram a existência das práticas gerenciais desenvolvidas pela Uber.
Deste modo, este primeiro capítulo tem por objetivo compreender quais relações sociais resultaram na forma de gerenciamento, organização e controle sobre o trabalho desenvolvida pela Uber. Para tanto, traçaremos um panorama histórico dos diferentes modos de controle sobre o trabalho desempenhados no capitalismo, desenvolvendo quais são os principais eixos do taylor-fordismo e do toyotismo que são atualizados pela Uber, debateremos criticamente alguns conceitos propostos para a compreensão do trabalho por aplicativo, tal como economia de compartilhamento e gig economy, além de nos debruçarmos sobre a temática do empreendedorismo, compreendendo como a noção de empresário-de-si atua de maneira imbricada com o gerenciamento algorítmico para radicalizar a subsunção real do trabalho ao capital.
Após as discussões dos pontos que julgamos serem os principais para o desenvolvimento da prática de organização do trabalho desenvolvida pela Uber, concluiremos o capítulo justificando a utilização do conceito trabalho por aplicativo para se referir ao nosso objeto de estudo, demonstrando como ele se configura como um movimento de atualização conservadora do capital, indo na contramão do que os teóricos do trabalho imaterial previram para a forma de se trabalhar nos dias atuais.
O desenvolvimento histórico das formas de controle sobre o trabalho
Marx, no “Capítulo VI inédito de O Capital” (s/d), demonstra como se constituiu o que o autor conceitua de “modo de produção tipicamente capitalista”, tendo como foco de análise o modo pelo qual a organização do processo produtivo é realizada. A subsunção formal do trabalho ao capital acontece quando o capital se apodera de processos de trabalho
29 que não estavam sob seu domínio, sem alterar a maneira pela qual eles são realizados, ou seja, sem a utilização de novas ferramentas e equipamentos que possibilitem aumentar o ritmo da produção. Neste momento, o domínio do capital se exerce sobre o produto do trabalho, se apropriando do que é produzido, e não do trabalho em si e, por isso, é característico deste período a extração da mais-valia absoluta. O termo formal é utilizado para descrever estes processos de trabalho, pois neste período histórico o trabalho é apenas formalmente subsumido ao capital, ele já é instrumento para o processo de valorização, mas ainda impera o saber-fazer dos trabalhadores na execução de suas atividades (Marx, s/d, p.
87-92).
Já a subsunção real do trabalho acontece quando o capital passa a modificar a forma pela qual o trabalho é executado, em especial pela utilização de novas tecnologias no processo de trabalho. Os avanços científicos objetificam o conhecimento dos trabalhadores em novas máquinas e ferramentas, criando uma força produtiva social, que subjuga a atividade dos indivíduos dispersos15. Assim, efetua-se uma transformação total no processo de trabalho e é dada a possibilidade para os proprietários privados dos meios de produção controlarem o ritmo e a velocidade em que o trabalho é executado, com o capital se apoderando de maneira mais completa do trabalho. A partir deste momento temos o aumento da possibilidade da extração da mais-valia relativa, pois a transformação dos meios de produção permite o aumento da produtividade sem aumentar a jornada de trabalho16.
Durante o século XX, três práticas de controle sobre o trabalho se tornaram hegemônicas, o taylorismo, o fordismo17 e o toyotismo, com a passagem de uma forma à outra tendo como objetivo diminuir a autonomia dos trabalhadores sobre as suas funções, radicalizando assim a subsunção real do trabalho ao capital. Estas formas de controle sobre
15 Rosdolsky (2001, p. 201 - 207) demonstra como em Marx (s/d) a passagem da subsunção formal do trabalho ao capital à subsunção real tem como uma de suas consequências a criação do trabalhador coletivo. Durante a subsunção formal, o capital apenas coordena o produto de diferentes trabalhos, mas não os diferentes processos de trabalho em si. Porém, com a cooperação simples e a manufatura, os processos de trabalhos já passam a ser organizados de maneira coletiva pelos capitalistas. Com a implementação das máquinas durante o processo de produção, os conhecimentos que eram posse dos trabalhadores individuais passam a ser objetivados e dominados pelo trabalhador coletivo, com a máquina não sendo mais como um meio de trabalho individual.
Assim, com essas transformações, o capital se apodera de uma força produtiva superior à soma das forças de trabalho individuais por ele contratadas.
16 Para uma melhor compreensão sobre a temática da subsunção formal e real do trabalho ao capital, ver:
Napoleoni (1981, p. 96 - 103) e Rosdolsky (2001, p. 201 - 207)
17 O taylorismo e o fordismo foram implementados de maneira combinada e, por isso, utilizamos o termo taylor- fordismo para nos referirmos a esta forma de organização dos processos de trabalho.
30 o trabalho e sobre os trabalhadores não devem ser consideradas como meras técnicas organizativas, mas como produto da luta de classes da burguesia contra o proletariado, visando a desvalorização da força de trabalho e, consequentemente, a manutenção da reprodução das classes sociais.
Magaline (1997, p. 71-78) demonstra como as transformações nos processos de trabalho, fruto do desenvolvimento das forças produtivas, tem como fim determinante a criação da mais-valia relativa, desvalorizando a mercadoria força de trabalho.
Como o valor da força de trabalho é determinado pelo valor do conjunto dos meios de subsistência necessários à reprodução dessa força de trabalho, em condições historicamente determinadas, a desvalorização da força de trabalho implica a desvalorização dos meios de subsistência do trabalhador. Esta supõe necessariamente um aumento da produtividade do trabalho nas indústrias que fornecem ou as mercadorias necessárias à manutenção do operário, ou os meios de produção dessas mercadorias (MAGALINE, 1997, p. 76).
Desta forma, o capital tem uma busca constante em aumentar a força produtiva do trabalho visando baixar o valor das mercadorias, entre elas, a força de trabalho. Tal resultado é decorrente de um processo social e não individual, não resultando do aumento de produtividade em apenas uma indústria. Para ser efetuado, é necessário que a totalidade dos meios de subsistência dos trabalhadores sejam produzidos ancorados no modo de produção capitalista e que os ganhos em produtividade se generalizem para os diferentes ramos produtivos envolvidos na produção das mercadorias consumidas na reprodução dos trabalhadores e de suas famílias. É desta maneira, com o aumento da extração da mais-valia relativa, que as reestruturações produtivas no interior do capitalismo atuam para desvalorizar a força de trabalho.
Em 1911, Frederick Taylor publicou a sua obra “Princípios da Administração Científica” (1990), principal livro onde as ideias do taylorismo — ou da administração científica, como denominado pelo autor — são apresentadas. Para o autor, os trabalhadores teriam uma tendência generalizada a executarem suas tarefas em um ritmo devagar e, por isso, seria necessário a separação entre a gerência e a produção, com o desenvolvimento pela gerência, a partir de uma análise científica, de tarefas diárias e individuais estipuladas para cada trabalhador, além do modo como tais tarefas deveriam ser realizadas. Neste sentido, seria função da gerência “reunir todos os conhecimentos tradicionais que no passado possuíram os trabalhadores e então classificá-los, tabulá-los, reduzi-los a normas, leis ou
31 fórmulas, grandemente úteis ao operário para a execução do seu trabalho diário” (Taylor, 1990, p. 40), ou seja, buscar controlar, de maneira científica, como cada tarefa deveria ser realizada, retirando este conhecimento dos trabalhadores.
Alguns anos depois, em 1914, Henry Ford cunhou o termo fordismo para descrever o seu modo de organizar os processos produtivos, baseado na produção e no consumo em massa, sendo a sua principal inovação a automação das linhas de montagens (Gounet, 2002, p. 18). No fordismo, o ritmo produtivo é determinado pelo sistema de máquinas, com uma esteira rolante levando até o trabalhador o seu objeto de trabalho e determinando o tempo no qual ele deveria executar a sua atividade, uma maneira de diminuição dos poros de tempos mortos e, consequentemente, promovendo uma maior racionalização da produção.
O binômio taylor-fordista se concretizou como prática hegemônica de controle sobre o trabalho nos países centrais do capitalismo durante o período compreendido entre o pós- Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, quando passamos a vivenciar uma forte crise de crescimento da taxa de lucro (Harvey, 1993, p. 153-240), resultando na hegemonia de um novo método de organização da produção e de gestão da força de trabalho.
A inspiração para esta nova forma de organização da produção e da força de trabalho veio da indústria japonesa Toyota, sendo por isso chamada de toyotismo. A principal inovação da gestão toyotista foi a adoção do fluxo tensionado (Antunes, 2009, p. 56; Coriat, 1994, p. 57; Durand, 2003, p. 143; Gounet, 2002, p. 26), criando uma indústria mais flexível e baseada na lean production, isto é, uma organização da produção mais racional e com menores desperdícios, evitando a constituição de estoques dentro do processo produtivo e perdas de tempos e de custos na produção.
As transformações em nome da flexibilidade afetaram a forma pela qual os indivíduos trabalham nas empresas, obrigando os trabalhadores a operarem mais de uma máquina ao mesmo tempo e a atuarem em equipes de trabalho as quais exercem, também, funções na direção de garantir o aperfeiçoamento contínuo do processo produtivo, através, por exemplo, dos Círculos de Controle de Qualidade (CCQs) (Antunes, 2009, p. 56-59).
Harvey (1993, p. 150) utiliza o termo “organização pela dispersão” para se referir às práticas de controle sobre o trabalho adotadas pelo toyotismo, onde a grande capacidade de análise de dados informacionais, possibilitadas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), permitiram uma organização mais coesa e centralizada sobre os processos de trabalho, ao mesmo tempo que causam a impressão de serem mais frouxas para