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Capacidades Relacionais na Universidade Beta

5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

5.7 UNIVERSIDADE BETA

5.7.3 Capacidades Relacionais na Universidade Beta

As cinco dimensões das CR propostas por Alves, De-Carli e Segatto (2016), foram identificadas nos dados empíricos da Universidade Beta, sendo elas: a dimensão de conhecimento, de coordenação, cultural, de coadaptação e tecnológica.

Dimensão de conhecimento

Um dos componentes da dimensão de conhecimento evidenciado nos dados

empíricos da Universidade Beta foi a ‘obtenção de conhecimento’. A criação de

conhecimento, segundo E9, ocorre principalmente por canais de comunicação. E9 exemplifica como essa troca de conhecimento ocorre a partir da parceria com a Columbia University.

A gente troca conhecimento via encontros em videoconferências, hoje temos o Skype, nós estamos sempre em reunião, os encontros têm sido mensais, às vezes até duas vezes por mês. O que é mais interessante, por exemplo, nessa nossa área, eles fazem toda uma literatura e uma expertise, com aquela visão ali. Minha parceria tem sido principalmente com norte-americanos, então eles trazem aquela visão e a literatura bem norte americana, eu venho com a minha visão latino-americana, com as nossas aqui da América latina (E9, 2019).

A partir da fala de E9 observa-se que as diferentes visões, oriundas das realidades de cada país, contribuem também para a criação de conhecimento na parceria. Conforme E9, “eu acho que a troca de conhecimento que a gente tem é por

essa diversidade cultural, diversidade geográfica, diversidade de valores, mas dentro

de uma temática comum”.

E9 também aponta que os parceiros se utilizam de uma ferramenta, o Google docs, para auxiliar a criação de conhecimento na parceria estabelecida com a Columbia University.

É uma troca intensa. A gente cria um Google docx, onde a gente pode criar nossa biblioteca e compartilhar tudo aquilo que a gente vai descobrindo, principalmente as nossas ideias. Então a gente começou a alinhar algumas ideias mestres, escrevemos, fica tudo no Google docx, [...] estamos agora alimentando nossa biblioteca. Tem os rascunhos das ideias, a biblioteca (E9, 2019).

A partir do exposto evidenciam-se, nas parcerias desenvolvidas entre o departamento de Administração da Universidade Beta e IES parceiras, ações relacionadas ao componente ‘obtenção de conhecimento’ da dimensão de conhecimento da CR proposta por Alves, De-Carli e Segatto (2016).

Dimensão de coordenação

A parceria com outras IES, oriunda do edital da CAPES no qual a Universidade Beta teve um projeto aprovado, possuiu ações de coordenação, uma vez que as IES participantes promoveram cinco grandes encontros para discutir a EpS, sendo estes realizados no período de 2009 a 2014. Além disso, as IES tinham encontros internos frequentes, mais informais, de menor porte e tamanho.

Não só com os parceiros do referido edital existiam ações de coordenação da parceria, mas também com a Columbia University, parceira da Universidade Beta, com fins voltados para pesquisas na temática da aprendizagem transformadora. A pesquisadora da Universidade Beta e pesquisadores da Columbia University se reúnem mensalmente para discutir as pesquisas em andamento.

Dessa forma, evidencia-se tanto na parceria com as IES participantes do edital da CAPES quanto na parceria com a Columbia University, ‘ações formalizadas’

(componente da dimensão de coordenação da CR proposta por Alves, De-Carli e Segatto, 2016) voltadas para a coordenação das parcerias.

Além de ações formalizadas para a coordenação das parcerias, E9 aponta que se utiliza de métodos para controlar os projetos das parcerias desenvolvidas.

Se a gente não coloca as parcerias, a pesquisa e a publicação como prioridade, a gente perde. Eu me organizo, eu vou colocando quais são os meus objetivos. Quanto à universidade de Columbia, o projeto é esse, tem esse prazo, quando eu vou ter que mandar o e-mail, quando ´[...] eu vou ter que fazer isso. Universidade de Oklahoma, qual é o prazo [...]. Agora entrou, por exemplo, uma parceria com as Nações Unidas. Eu estou propondo para a gente fechar a proposta do livro para agosto, desenvolver as atividades no

próximo semestre, eu vou pondo essas atividades na minha agenda virtual, para eu lembrar sempre de que tenho que cumprir todas as etapas que eu me programei (E9, 2019).

Pelo excerto da fala de E9, observa-se que a agenda virtual consiste em um

‘método’ para controlar as atividades da parceria, contribuindo assim, para o desenvolvimento da dimensão de coordenação da CR proposta por Alves, De-Carli e Segatto (2016).

Desse modo, a colocação da entrevistada sinaliza outro novo componente da dimensão cultural, não evidenciado na literatura, que complementaria o modelo teórico de Alves, De-Carli e Segatto (2016), no caso específico de parcerias para a EpS e que está representado graficamente na figura 18. Essas contribuições oriundas de cada caso estudado serão discutidas conjuntamente na análise cruzada apresentada na seção 6.

Assim, a partir do exposto, observam-se os componentes ‘ações formalizadas’

(definido à priorià coleta de dados) e ‘estruturas e métodos’ (componente emergente)

relacionados à dimensão de coordenação da CR.

Dimensão cultural

Dentre os componentes da dimensão cultural da CR proposta por Alves,

De-Carli e Segatto (2016), a ‘confiança’ foi identificada nos dados empíricos da

Universidade Beta. A confiança é estabelecida principalmente devido ao trabalho já desenvolvido pelos parceiros, conforme aponta E9.

Com os parceiros tradicionais foi a partir de um projeto, eles já conheciam o meu trabalho. A partir das minhas publicações daquilo que eu fazia, e vinha tendo muito sucesso em termos de publicação mesmo, isso gera uma confiança muito grande. Quando eu propus essa ideia para eles, eu falei: A CAPES está financiando, está abrindo um edital voltado para a educação para a sustentabilidade, eles sabiam da minha expertise nessa área, eu venho, na verdade, da educação, eu tenho um background na educação, que me permite desenvolver estudos nessa área, com fundamentação distinta de quem não tem background em educação (E9, 2019).

Também, conforme E9, “a própria chancela da Universidade Beta, meu núcleo de pesquisa no CNPQ, as minhas publicações, criou uma confiança nesses parceiros,

Além disso, E9 afirma que:

Ir para congressos, participar das atividades, ir nos encontros online, tudo isso, sua periodicidade, você mostrando seus resultados, fazendo proposta de projetos, conseguindo financiamento, publicando em conjunto, isso cria um vínculo de confiança grande (E9, 2019).

A existência de confiança entre os parceiros, desenvolvida por conta dos elementos mencionados, contribuiu para que os parceiros da pesquisadora da Universidade Beta passassem a procurá-la para fazer pesquisas em conjunto.

Hoje em dia, primeiro eu começava a procurar eles para atividades de pesquisa. Hoje eles me procuram para integrar os processos. Eu acho que é uma construção, mas que parte, primeiro, dos produtos que você mostra como resultado oficial (E9, 2019).

Não só o componente ‘confiança’ da dimensão cultural pôde ser evidenciado

nos dados empíricos coletados da Universidade Beta, mas também os componentes

‘valores’ e ‘diversidade cultural’. Quanto aos valores, E9 aponta que ela e seus

parceiros de pesquisa têm um alinhamento de interesses, uma vez que eles buscam todos discutir e entender uma mesma temática, ou seja, a educação transformadora, que acaba sendo aplicada à EpS.

Já em relação à ‘diversidade cultural’, E9 aponta que existe uma diversidade

entre os parceiros, principalmente por conta das realidades e localização geográfica em que se encontram. E9 exemplifica como ocorre essa diversidade, a partir da parceria que ela possui com a Columbia University, localizada na América do Norte.

Eu acho que tem uma diferença em termos de referência, em relação aos problemas do desenvolvimento sustentável, do ponto de vista dos países do norte, dos países do sul, do ponto de vista do que a Europa pensa e do que a gente, aqui na América, pensa sobre isso, eu acho que tem uma diferença em termos do que eu priorizo, qual é a minha ordem de prioridade em relação aos problemas e como eu acredito que é a participação da escola de administração, das organizações da sociedade civil e do próprio governo nesse processo. Eu acho que tem algumas questões que são absolutamente comuns, mas tem uma ordem de prioridades que é bastante distinta. Então, por exemplo, determinados problemas que nós temos aqui, nem de longe eles têm ali. E vice e versa. Determinadas questões, inclusive, se você pega nos Estados Unidos questões de diversidade cultural, tem uma dimensão na cidade de Nova York, muito diferente da nossa. Que recebe alunos e pessoas do mundo inteiro, trabalhadores do mundo inteiro, e tem questões de conflito bem distintas da nossa. Mudam em intensidade, mudam em dimensão. Então eu acho que tem algumas especificidades culturais que tem que ser observadas também (E9, 2019).

A entrevistada exemplifica como ocorrem as disciplinas nos Estados Unidos, de forma a evidenciar a necessidade de adequação da replicação de algumas disciplinas, por conta da diversidade cultural existente entre os parceiros brasileiros e norte-americanos.

Nas universidades americanas, a forma como as disciplinas acontecem, a forma como os alunos vivenciam aquela experiência, é muito distinta da nossa. Uma das coisas, por exemplo, que me chamou muito a atenção na Universidade de Oklahoma, é a quantidade de projeto dos alunos na comunidade. A participação dos alunos e professores na comunidade, no entorno, é muito maior do que a nossa. Se tem uma transição de líder comunitário e da universidade, na comunidade, e nós não temos aqui. Nós temos algumas experiências de voluntariado no estado, alguns alunos que se encaixam em experiências sociais, mas quanto a uma prática institucional que faz parte da cultura americana, é bem distinta da nossa. Na universidade de Oklahoma, alguns projetos de atuação dos alunos na comunidade, para resolver os problemas da comunidade, ele era institucionalmente definido. Isso faz parte das atividades centrais da universidade. Então o professor, ele tem que, na sua disciplina, de alguma forma, estabeelecer um vínculo dos alunos, com a comunidade. Coisa que não necessariamente a gente tem. Então as atividades extensionistas, elas têm uma outra dimensão. Tem aspectos internacionais que são muito específicos e que a gente tem que entender as diferenças. Em primeiro lugar, do que é a universidade, da sua estrutura, em relação com a comunidade, e depois, a segunda diferença que a gente tem que entender é da natureza dos problemas. São muito distintos. (E7, 2019).

O ‘contexto’ contribui, dessa forma, para a existência da diversidade cultural, e consequentemente, para que essa diversidade traga diferentes pontos de vista para a parceria voltada para a pesquisa, como no caso da Universidade Beta.

Desse modo, a colocação da entrevistada sinaliza um novo componente da dimensão cultural, não evidenciado na literatura, que complementaria o modelo teórico de Alves, De-Carli e Segatto (2016), no caso específico de parcerias para a EpS e que está representado graficamente na Figura 18. Essas contribuições oriundas de cada caso estudado serão discutidas conjuntamente na análise cruzada apresentada na seção 6.

Diante do exposto, evidenciam-se os componentes da dimensão cultural definidos à priori à coleta de dados ‘valores’, ‘diversidade cultural’ e ‘confiança’; e o

Dimensão de coadaptação

No tocante a ‘experiências anteriores’, componente da dimensão de coadaptação da CR proposta por Alves, De-Carli e Segatto (2016), E9 aponta que aprendeu muito com as parcerias já desenvolvidas nos últimos anos, principalmente em relação à necessidade de controlar e monitorar as parcerias.

Eu aprendi como sequenciar esses projetos muito grandes, que envolvem vários parceiros. Porque às vezes as coisas se perdem. Parcerias muito grandes que envolvem muitas instituições, elas correm o risco muito grande de se perderem. Algumas pessoas, na verdade, vão ter níveis diferentes de participação, de engajamento, de iniciativa, se você não está em uma liderança conduzindo todo o processo, incentivando a troca, incentivando que as coisas avancem e a realização dos frutos dessa parceria, depois você pode ter sérias dificuldades lá na frente, de empregar aquilo que você gostaria que fosse realizado. Eu aprendi muito nesses dez anos de atividades conjuntas e continuo aprendendo (E97, 2019).

A entrevistada E9 complementa, exemplificando quais foram os aprendizados conseguidos, a partir do desenvolvimento de parcerias, ao longo dos anos.

Até entender o que é essa missão de pesquisa, que isso está dentro do projeto CAPES de internacionalização, como a gente negocia, por exemplo, acordos entre universidades? É uma expertise que eu não tinha. Eu não sabia como fazer acordos, até descobri que tem memorandos de pesquisa, tem acordos de conhecimento, tem acordos de trocas de alunos... Eu sempre fiz minhas pesquisas, mas eu nunca me preocupei com os acordos entre as instituições. Esse foi um conhecimento que eu tive que desenvolver. E que agora, com essa proposta de internacionalização, eu acabei conseguindo formar alguns acordos com a Columbia University, agora eu estou negociando novamente com a Oklahoma, para ver se a gente já tem um acordo (E9, 2019).

A partir do exposto, verifica-se que as ‘experiências anteriores’ são utilizadas

para o processo de desenvolvimento de novas parcerias, contribuindo para que ele seja mais ágil e mais eficaz, como por exemplo, a partir do conhecimento acerca de como os acordos devem ser realizados.

Outro componente da dimensão de coadaptação da CR presente nos dados

empíricos coletados da Universidade Beta é a ‘avaliação’ das parcerias. Conforme

aponta E9, a avaliação das parcerias para pesquisa é realizada a partir do alcance ou não dos deadlines, dentre outros aspectos.

Eu particularmente avalio a parceria, agora estou falando de mim, a partir do nível de engajamento das pessoas que são meus parceiros, quanto eles estão engajados, desde eu mando um e-mail, responde imediatamente, apresenta uma ideia, tem um retorno. Em termos de comunicação, fluidez, se a comunicação está acontecendo com rapidez, se as pessoas estão engajadas no projeto, mas principalmente, se aquilo que a gente se propôs está sendo realizado. A gente coloca um objetivo muito claro no deadline, por exemplo, o livro vai ser lançado, qual vai ser a proposta, qual vai ser a editora, como a gente vai concluir esse processo. Essa pesquisa, quem vai estar envolvido, quando a gente vai criar nossa biblioteca, as primeiras ideias, quando a gente vai colher os dados, onde vai ser publicado. A gente vai avaliando conforme os deadlines. Como a atividade de pesquisa é extremamente importante, a finalidade dela é a publicação, então o quanto a gente alcança esses deadlines, me ajuda a avaliar o avanço da parceria (E9, 2019).

A partir do exposto evidenciam-se, nas parcerias desenvolvidas entre a Universidade Beta e seus parceiros, ações relacionadas aos componentes

‘experiências anteriores’ e ‘avaliação’ da dimensão de coadaptação da CR proposta

por Alves, De-Carli e Segatto (2016).

Dimensão tecnológica

Um componente da dimensão tecnológica presente na fala de E9 é a

‘inovação colaborativa’. Conforme a entrevistada, em visita a uma universidade

internacional parceira da Universidade Beta, durante os seis meses que E9 ficou no centro de excelência em ensino e aprendizagem transformadora da referida instituição, “nós acabamos entrando em contato com todo um arcabouço de

experiências didático pedagógicas em aprendizagem transformadora” (E9, 2019). E9

complementa:

Nós trouxemos tudo isso para cá e a gente busca replicar, por exemplo, nós temos na Universidade Beta a semana pedagógica. E na semana pedagógica, uma das coisas que a gente fez foi exatamente compartilhar as experiências que a gente teve lá e disponibilizar o material que a gente teve acesso, para que essas experiências sejam replicadas, aprimoradas, adaptadas e recriadas aqui, no Brasil. Só que esse é um processo longo. Contínuo. Eu acabei de voltar agora, ano passado a gente já fez a primeira participação na semana pedagógica, nós vamos para a segunda rodada agora na semana que vem, quando a gente vai partilhar as experiências dos professores com o ensino voltado à aprendizagem transformadora, e assim a gente vai dando continuidade ao processo (E9, 2019).

As inovações colaborativas mencionadas por E9 consiste em inovações pedagógicas, resultante de experiências vistas em uma universidade parceira internacional e que puderam ser replicadas na Universidade Beta. Foram compartilhadas técnicas didático-pedagógicas que permitem o melhoramento de procedimento técnico, entre as universidades parceiras, gerando inovações metodológicas oriundas da colaboração entre essas instituições de ensino.

A partir do exposto, as dimensões da CR e os componentes presentes nos dados empíricos da Universidade Beta são ilustrados na Figura 21.

FIGURA 21 – CAPACIDADES RELACIONAIS NO DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO DA

UNIVERSIDADE BETA

FONTE: A autora (2019).

Pela Figura 21, observa-se a presença de um componente emergente da dimensão de coordenação da CR proposta por Alves, De-Carli e Segatto (2016),

‘estruturas e métodos’.

Ainda que existam outros componentes presentes nas dimensões da CR propostas por Alves, De-Carli e Segatto (2016), na dimensão de conhecimento apenas

o componente ‘obtenção de conhecimento’ se mostrou presente nos dados empíricos

da Universidade Beta; na dimensão de coordenação, mostraram-se presentes os

componentes ‘ações formalizadas’ e ‘estruturas e métodos’ (componente emergente);

os componentes ‘confiança’, ‘valores’, ‘diversidade cultural’ e ‘contexto’ (componente

‘experiências anteriores’ e ‘avaliação’ na dimensão de coadaptação; e o componente

‘inovação colaborativa’ na dimensão tecnológica.