Capítulo 3. As Igrejas Setecentistas de Minas Gerais
3.2 As Igrejas Selecionadas
3.2.6 Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto
A primeira manifestação em torno da Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo foi à reunião realizada na capela dedicada a Santa Quitéria, situada no alto do morro que separava os arraiais de Ouro Preto e Antônio Dias, por membros da irmandade da Ordem do Carmo do Rio de Janeiro, que naquela época residiam em Vila Rica.
Em 1751, já constituídos como irmandade autônoma, e com sede naquela localidade, cogitaram-se da construção de seu próprio templo, cujo projeto foi desenvolvido por Manuel Francisco Lisboa, também membro da Ordem. Em 1756, foram iniciadas as obras de construção, tendo sido arrematada por José Pereira dos Santos, as quais foram interrompidas por diversas vezes, diante de desentendimentos com a Irmandade de Santa Quitéria, no que diz respeito às condições de cessão do terreno.
Nos arquivos da Ordem pode ser encontrada relação detalhada e uma cronologia das etapas de construção da Igreja do Carmo, bem como a relação das técnicas e materiais empregados, conforme definido em contrato, com o arrematante João Alves Viana.
Antes do início efetivo das obras de construção, foi necessário executar importantes trabalhos de terraplanagem, os quais, em 1767, achavam-se bastante adiantados, permitindo inclusive o levantamento dos alicerces da nova Igreja. Entre 1767 e 1769, João Alves Viana executou grande parte da obra de alvenaria comum e cantaria de portas e janelas. A construção, da mesma forma que outras, foi iniciada pela capela-mor, conservando-se provisoriamente a primitiva capela de Santa Quitéria para as necessidades do culto. Em 1769 concluíram-se os serviços de alvenaria da capela-mor e em 1771 o madeiramento e demais obras de carpintaria, quando provavelmente foi demolida a primitiva capela de Santa Quitéria. A construção da nave prolongou-se até 1779, época em que foi concluído seu madeiramento. Finalmente, em 1780, toda a parte arquitetônica foi concluída com a arrematação das obras de escultura do pórtico, lavatório da Sacristia e arcos do coro por Francisco de Lima Cerqueira (IPHAN, 2004f).
Esta igreja foi edifica em pleno período da terceira modalidade do barroco, isto é, desde a sétima década do século XVIII, até meados do século seguinte, portanto, no início do período de decadência do barroco. Apesar de ser uma igreja que se destaca pela sua imponência e de construção cara, não dá a impressão da grandiosidade e luxo dos templos construídos nas primeiras décadas daquele século. Contudo é uma igreja de grande importância para a história da arte colonial, principalmente por ter considerável contribuição dos grandes mestres Aleijadinho e Manuel da Costa Athaíde.
A capela está localizada no alto de uma ladeira e é servida por grande escadaria. As duas torres são altas e colocadas nas extremidades da nave, pela parte de fora, como dois apêndices salientes, apresentando base e seção quadrada, tomando forma quase circular na parte superior e são guarnecidas por largas pilastras de pedra e encimadas por pináculos de alvenaria, arrematados por pequenas pirâmides em obelisco. O frontão é simples e com pouco movimento, sendo acabado na parte superior por uma cruz sobre um pedestal de pedra, tendo em seus lados duas estrelas também sobre pedestais.
Outra característica importante da terceira fase do barroco são as portadas esculpidas. Na parte superior da porta há um escudo com a representação do Monte Carmelo cercado de esculturas, de ornatos e de anjos, encimados por uma coroa. Dos lados ficam outros ornamentos em forma de conchas sobre suportes que terminam em forma de consolos guarnecedores do pórtico. O marco da portada é de pedra lavrada, com sulcos dispostos em paralelo. Sobre a portada, fica um óculo envidraçado, ladeados de duas sacadas, como mostra a figura 3.2.19. (MORÃO, 1986).
A planta da igreja é curva na parte da frente, detalhe não encontrado nas igrejas da primeira fase do barroco, surgindo na última fase, quando o barroco já está próximo da decadência, caracterizando-se pelo movimento e pelas linhas sinuosas, como mostra a figura 3.2.20.
Figura 3.2.20 – Planta Baixa da Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto. FONTE: Adaptado de SANTOS, 1951.
A parte interna desta igreja possui uma nave ampla, simplesmente decorada pelos retábulos, chegando quase a decepcionar por não se ver os impressionantes ornatos que se encontra, geralmente nos templos barrocos. Não há excesso, porém existe clareza, arrumação e harmonia.
O altar desta última fase do barroco é mais simples e foi projetado por Manuel da Costa Athaíde em 1813. Na parte superior deste retábulo fica uma tarja igual à da portada. Esta é reproduzida, ainda com vários ornatos, no arco cruzeiro, onde é mais simplificada, tendo a coroa, o monte e cruz cercada de duas estrelas.
No retábulo ficam também, muitos ornatos barrocos sobre o fundo em concha, apoiado na cornija que, descansa sobre quatro colunas cujos fustes são providos de caneluras, tendo a parte inferior torsa. Essas colunas apóiam-se sobre consolos, em voluta, rematados na altura do altar.
O barrete da capela-mor é divido em duas partes por um arco pleno que foram pintadas pelo Mestre Manuel da Costa Athaíde. Dos lados da capela, há tribunas guardadas por balaustradas de madeira escura.
A nave possui seis altares laterais, sendo três de cada lado, e são providos de dossel, na parte superior, sobre colunas simples e consolos. De cada lado da nave fica um púlpito ornamentado com uma porta de acesso. O coro é assentado sobre três arcos que se apóiam sobre grossas colunas em formato especial, com um fuste alargado na parte superior. O teto da nave é também simples, em arco abatido, tendo no centro uma pintura de Manuel da Costa Athaíde, representando uma cena com Nossa Senhora do Carmo, figura 3.2.21.
Figura 3.2.21 – Teto da nave da Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto.
A tabela 3.2.6 apresenta parâmetros métricos, como comprimentos, larguras, alturas e áreas relativas à Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto, para posterior análise.
Tabela 3.2.6 – Medidas da Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto. Fonte: PAIVA, 1979a.
LOCAL COMPRIMENTO (m) LARGURA (m) ALTURA (m) ÁREA (m²) Nave 19,18 11,65 15,72 217,58 Coro 5,79 11,65 9,07 69,42 Capela-mor + arco 11,05 6,45 11,75 79,68 TOTAL 366,68