2. MODERNIZAÇÃO ECONÔMICA E CONFLITO SOCIAL NO ESPÍRITO SANTO
2.3 A década perdida? Crise econômica e conflito social nos anos 80
2.3.3 Capital e trabalho: a luta pelos salários e pelo poder
Com outra estratégia de intervenção na realidade, os trabalhadores do mercado formal, que sofriam também as consequências desse processo histórico, passaram a lutar contra os liberais e a exploração do trabalho por meio das greves. Os movimentos paredistas do período estudado coincidem com períodos de arrocho
346 GOVERNO negocia hoje com invasores da Flonibra. A Gazeta. Vitória. 13 ago. 1990, p. 5. 347 PROTESTO de sem-terra surpreende Secretaria. A Gazeta. Vitória. 16 ago. 1990, p. 7.
salarial. Mas a análise dos dados aponta que esses movimentos também comportam motivações políticas do Partido dos Trabalhadores, interessado em promover seus candidatos, nas bases formadas a partir da inserção do partido nas lutas políticas dos trabalhadores, daqueles que permaneceram no “mercado de trabalho”, ou seja, estavam empregados e sindicalizados.
GRÁFICO 3 - Evolução do salário mínimo
Salário mínimo no Brasil em US$, a partir da Revista Suma econômica apud SIQUEIRA, 2006, p.30.
Em 1982, apesar de o salário mínimo ter se mantido estável em relação ao ano anterior, o número de greves subiu de 150, em 1981, para 1444 em 1982, ano das primeiras eleições gerais para governador depois da ditadura militar. No ano seguinte, 1983 as greves foram quantificadas em 393, sendo que o salário mínimo despencou de US$ 103,91 em 1982 para US$ 73,19 em 1983. Nota-se que o salário mínimo em 1989 foi superior ao valor estabelecido no ano de 1990.
No entanto, no ano de 1988, quando o valor do salário mínimo era de US$ 55, 74, houve 2.137 greves no Brasil, e já no ano de 1989, ano eleitoral em que aconteceu a primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar, aconteceram 3.943 greves, apesar de o salário mínimo ter seguido padrão inverso, aumentando para US$ 74,07. Em 1990, ano eleitoral também, mas com importância menor que a do
0 20 40 60 80 100 120 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995
ano anterior, o valor do salário mínimo diminuiu junto com a quantidade de greves, o salário foi para US$ 70,40 e aconteceram 2.357 greves.348
Sobre as greves do período, Marcelo Badaró Matos diz o seguinte:
A reivindicação de reajuste salarial, a princípio puramente econômica, adquiria, no entanto, uma dimensão política inegável no contexto do fim da ditadura. Afinal, o modelo de desenvolvimento econômico dos governos militares baseava-se no arrocho salarial. E o crescimento econômico acelerado era o argumento mais usado no discurso dos dirigentes para justificar a ditadura. As greves e reivindicações dos trabalhadores traziam, assim, a público, de forma contundente, a perversidade do modelo concentrador de renda que começava a falir.349
O programa reformista, antes de 1964, estava aglutinado em torno de um único partido, o Partido Trabalhista Brasileiro que aglutinava as esquerdas da época. Durante a Ditadura Militar os militantes políticos identificados com ideologias de esquerda também tinham que se organizar em torno de um único partido o Movimento Democrático Brasileiro. O MDB ganhou corpo na oposição ao regime somente na década de 1970 quando passou a perceber vitórias eleitorais sobre a ARENA.
O MDB agregou diversas tendências da esquerda no Brasil e a tradição trabalhista era vista como um segmento moderado desta. Somente na legislatura de 1978 houve um destaque para a tendência popular ou socialista no MDB, e a presença de comunistas no MDB trouxe “alguma respeitabilidade entre setores mais politizados e intelectualizados da sociedade”.350
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva contestou a tese dos militares de que a oposição (MDB) e segmentos da sociedade civil (ABI, OAB, CNBB, Universidade, estudantes, etc.) não desempenharam papel relevante. As vitórias eleitorais do MDB representaram, para ele, um esgotamento do respaldo que inicialmente os militares tiveram na sociedade para a intervenção junto ao governo em 1964 e um demonstrativo de que os militares perderam a iniciativa das reformas. Com o crescimento do movimento popular ocupando as ruas e exigindo a anistia, o retorno dos exilados e a campanha das Diretas-Já os partidos passaram então,
348 MATOS, 2009, P.120. 349 MATOS, 2009, p.122. 350 MOTTA, 2007, p. 293.
segundo ele, a assumir a direção da abertura, que já não se encontrava mais nas mãos dos militares.351
Porém, a nova República iniciou-se sob o controle das elites políticas. O PMDB ganhou votos do PDS para Tancredo realizando uma transição pactuada, ou seja, garantindo o domínio das elites e impunidade àqueles que violaram os direitos humanos, que praticaram torturas e homicídios. Abrigando apoiadores do regime militar existiam dois partidos de direita: o PDS e o PFL que surgiu de uma facção de pedessistas que se opuseram a Paulo Maluf.
Enquanto isso, a esquerda encontrava-se dividida em disputa com a concorrência entre o PMDB, conhecido pelo histórico de oposição à ditadura, com a reforma partidária acomodou em seus quadros organizações comunistas (PCB, PC do B, MR-8); o PT, com destaque das lideranças sindicais, da militância de religiosos e de intelectuais revolucionários marxista-leninistas, desempenhou papel fundamental no movimento das Diretas Já e na Assembleia Constituinte; e, o PDT, que recuperou a herança trabalhista no final do século XX e englobou novos temas com o chamado
socialismo moreno, de Darcy Ribeiro.
O PT apareceu como alternativa hegemônica da esquerda após enfraquecimento do movimento de restauração do trabalhismo no Brasil empreendido por Brizola e o PDT. Neste contexto o PT, de acordo com o historiador Daniel Aarão Reis, arrogava para si um elemento diferencial em relação aos outros partidos de esquerda. Por conta dessa autoconceituação e diferenciação foram, “o trabalhismo e o comunismo, acusados de serem artífices de derrotas e, principalmente de terem atrelado os trabalhadores a causas e a propósitos populistas e burgueses”.352
Neste quadro político, a divisão da esquerda no retorno ao pluripartidarismo reforça o entendimento de que essa abertura não foi uma iniciativa democrática, mas uma estratégia de enfraquecimento do MDB que vinha impondo sucessivas derrotas à Arena.353
A abertura política ensejou uma nova configuração política partidária em uma sociedade que já não se encontrava mais polarizada em relação às reformas de
351 SILVA, 2003.
352 REIS, 2007, p. 507.
base, abortadas pelos militares, mas na perspectiva de votar para presidente. Assim, o debate das Diretas-já, embora tenha permitido a “construção de instrumentos efetivos que pudessem sustentar a permanência da ordem democrática”,354 abafou o
debate sobre as reformas ainda pendentes no Estado brasileiro.
Contudo, a defesa dos direitos trabalhistas recebeu forte apoio do Partido dos Trabalhadores e do Partido Democrático Trabalhista no Congresso Nacional. Juntamente com esses partidos estavam os sindicatos dos trabalhadores fazendo frente aos interesses da classe patronal que defendia veementemente a premissa liberal. Para os capitalistas, a negociação salarial diretamente com o empregado, sem a intervenção estatal, deveria ser legalizada pelos congressistas.
Apesar do esforço realizado no sentido de suprimir a Consolidação das Leis do Trabalho, cujas bases se encontravam no Estado Novo (1937-1945), do corpo jurídico da nação brasileira, os movimentos sociais e os partidos políticos progressistas conseguiram garantir leis que defendessem o trabalhador da opressão do poder econômico. A luta dos trabalhadores se direcionava tanto para o cumprimento dos direitos, quanto pela manutenção dos mesmos, pois a investida capitalista no sentido da flexibilização das leis trabalhistas permaneceu após a Constituinte de 1988.
A inserção de uma legislação protetiva na Carta Magna brasileira tornou esse período, os anos 1980, não uma década perdida, mas uma década de lutas e conquistas na direção de uma justiça social. No Espírito Santo, no contexto de grave crise social e econômica com os salários dos trabalhadores despencando, conforme gráfico acima, o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (FINDES), Hélcio Rezende Dias, afirmou que o empresariado estaria disposto a “colaborar na busca de soluções, para a economia e para a sociedade, nem que estas soluções continuem a exigir cotas de sacrifício das classes produtoras”.355
No entanto, a classe empresarial não abre mão de que os salários dos trabalhadores sejam uma mercadoria negociada. O liberalismo é o pressuposto dessa classe conforme as palavras do presidente da entidade, eleito para o mandato 1989-1992. Sergio Rogério de Castro dizia que suas grandes metas são: “a defesa da livre
354 DELGADO, 2007, p. 421.
iniciativa, a defesa da internacionalização da economia, a defesa da livre negociação entre empregadores e empregados”.356
Ao mesmo tempo em que defendia o liberalismo nas relações de trabalho, Castro cobrava que: “o governo tem que dar mais recursos, mais meios para que o secretário [da Indústria e do Comércio] possa atuar melhor, (...)”.357 Nesse aspecto,
repetindo a mesma prática dos industriais da República Velha, a classe empresarial, na fala do presidente da FINDES, defendia a intervenção estatal no sentido de promover o desenvolvimento da indústria e, concomitantemente, a não-intervenção na relação patrão-empregado.
Em sua estratégia de luta contra os movimentos dos trabalhadores Sérgio salienta nos noticiários que o sindicato da classe empresarial disponibilizava assistência aos sindicalizados nas questões trabalhistas. Segundo ele “a FINDES recomenda aos empresários dos setores ameaçados de greve que não esperem parados a eclosão dos movimentos. Recomenda que eles se articulem previamente para desarmá-los ou minimizá-los”.358 Esse desarmamento é explicado em outra fala quando chama
atenção para o momento de contratação do trabalhador, quando a ideologia política se colocaria como critério de reprovação, assim como durante a ditadura foi motivo de perseguição.
Sérgio Castro considera desta forma que a função do setor de Recursos Humanos nas empresas, é equivalente a dos órgãos de repressão no período autoritário encerrado poucos anos antes. Além disso, mandava o seguinte recado: “aos empresários que ainda resistem em reconhecer a importância do setor de Recursos Humanos, a Findes adverte que é melhor prevenir do que remediar”.359
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Espírito Santo (FAES), Vinícius Alves, também manifestava junto aos meios de comunicação a defesa da livre negociação entre patrão e empregado, ou seja, que os salários sejam definidos por meio da lei da oferta e da procura. 360 Contra esse discurso e na defesa dos salários os sindicatos promoveram inúmeras greves na década de 1980. Greves políticas e econômicas foram deflagradas no Espírito Santo.
356 EMPRESÁRIO quer internacionalização da economia. A Gazeta. Vitória. 10 set. 1989, p. 16. 357 EMPRESÁRIO quer internacionalização da economia. A Gazeta. Vitória. 10 set. 1989, p. 16. 358 EMPRESÁRIOS já se preparam para enfrentar greve. A Gazeta. Vitória. 17 set.1989, p. 24. 359 EMPRESÁRIOS já se preparam para enfrentar greve. A Gazeta. Vitória. 17 set.1989, p. 24. 360 ECONOMISTA não vÊ viabilidade para o pacto social. A Gazeta,Vitória. 19 jul.1988, p.11.
Em resposta às comunicações de caráter repressivo, feitas pelo presidente do sindicato da classe empresarial, o presidente regional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), José Otávio Baioco, atestava que os trabalhadores estavam mais organizados e conscientes e que “não será essa preparação dos empresários que irá assustar as categorias quando elas forem à luta para obter os seus direitos”.361 Os trabalhadores advertiam que quanto maior a radicalização dos
patrões maior o confronto.
Durante a ditadura militar os confrontos foram reduzidos, com um crescimento em fins dos governos militares. No Espírito Santo não há registro de greves no setor público entre 1979 e 1981. Entre 1982 e 1984, período de incertezas, não há registros de movimentos grevistas.362
Os movimentos paredistas voltaram a ser realizados com maior intensidade a partir de 1986. Em 1987, a perda de poder aquisitivo da população resultou também em um grande número de greves. Já em 1989 houve o pico da quantidade de greves no período da década de 1980. A maior quantidade de movimentos foi verificada entre os funcionários públicos federais, mas também houve significativas paralisações entre os servidores estaduais.363 Acompanhando esta tendência, o funcionalismo público estadual pressionou o governador Max Mauro por melhores salários.
A predominância do setor público, neste Estado, já se manifesta em 1986, momento que marca efetivamente o início do surto grevista. As razões dessa marcante posição do setor público nos movimentos grevistas remetem a uma série de fatores, entre eles: a) as especificidades da economia local com destaque para o significativo setor de atividades ferro-portuárias desenvolvidas por empresas estatais; b) a presença de empresas do setor industrial voltadas para a produção de bens intermediários que só recentemente foram privatizadas; e a importância do poder público como empregador.364
A década seguinte, de 1990, já registrou um refluxo dos movimentos sociais de uma forma geral.365 A onda neoliberalizante não havia alcançado ainda grande expressão na década de 1980. Prevalecia ainda forte tendência nacional-estatista. O histórico de ligação de Max Mauro com os movimentos populares juntamente com a
361 EMPRESÁRIOS já se preparam para enfrentar greve. A Gazeta. Vitória. 17 set.1989, p. 24. 362 COLBARI, 2010, p. 251.
363 COLBARI, 2010, p. 252. 364 COLBARI, 2010 p.252.
perspectiva nacional-estatista herdada de Saturnino Rangel Mauro credenciou a ele diversos títulos e classificações como “esquerda”,366“emedebista histórico”.367
Apesar de o reformismo ter sido considerado como uma estratégia burguesa por aqueles que escolheram fazer a luta armada, suas escolhas diante do capitalismo também atuavam no intuito de impedir que setores conservadores alcançassem níveis de exploração social mais intensos. Assim, seguindo a perspectiva de Bernstein, segundo o qual a intransigência é coisa de grupos condenados à oposição,368 observamos que Max assumiu compromissos com adversários de longa data nas articulações para governador do Espírito Santo.
A estrutura de apoios, coordenação e financiamento de campanha do PMDB esteve ligada aos grupos conservados representados por empresários e proprietários rurais que determinaram as convenções partidárias e a escolha dos candidatos que deveriam representar o partido. A heterogeneidade de apoios e a inclusão do ponto de vista dos adversários implicava em restringir a participação dos movimentos populares e suas reivindicações durante o exercício do poder.
Os grupos de pressão dos conservadores capixabas reuniram empresários urbanos e rurais, grandes comerciantes e executivos das estatais CVRD, CST e ARACRUZ. As relações de força estabelecidas se direcionavam, portanto, para a abertura do chefe do Executivo estadual aos interesses dessas classes econômicas. No outro polo de atuação, os movimentos sociais e a Igreja também impactavam a opinião pública, por meio da defesa da justiça social e de formas de interação social que se pautem pela solidariedade humana. Nesse contexto, as manobras de setores políticos interessados na radicalização podem representadas como uma estratégia de grupos no interior dos sindicatos interessados em assumir o poder internamente. Assim, “nas categorias do setor público, as greves também constituem momentos privilegiados para a projeção de lideranças e, muitas vezes, são instrumentalizadas pelas tendências em disputa pelo controle da direção dos sindicatos”.369
Defendendo o caráter popular de seu governo Max Mauro alegava que suas primeiras medidas como chefe do executivo estadual foram “suspender pagamentos
366 MOREIRA, 2008.
367 MARTIN, 2008. 368 2003, p.77.
a empreiteiros e fornecedores, suspender as obras e proibir contratações e também demissões, garantindo o pagamento em dia dos 60 mil funcionários”.370 Essas
medidas de contenção geraram reação do Sindicato da Indústria da Construção Civil no estado do Espírito Santo (SINDICON) contra o governo do estado. Em abril, um mês antes dessa declaração em que pedia o retorno dos funcionários públicos da saúde e da educação em greve, Max teria se confrontado com as empreiteiras capixabas.
As restrições inicialmente determinadas pelo governo federal com congelamento dos preços levaram à resistência da classe empresarial que passou a boicotar obras públicas. O boicote foi divulgado em nota oficial intitulada “Recomendação Empreiteros de Obras Públicas”.371 Assinado Por João Luiz de Menezes Tovar e
reiterando as decisões da classe reunida em assembleia no dia 14 de janeiro de 1987, o documento do Sindicon recomendava:
1 – Que as empresas empreiteras de obras públicas não participem de nenhuma licitação cujo edital não contiver cláusula específica de correção de preços conforme dispositivo legal do DL 2.300, artigo 55.
2 – Que as empresas com contratos em andamento promovam redução drástica do ritmo das obras até o surgimento de medidas legais que possibilitem o realinhamento dos preços.
3 – Que as empresas com obras em andamento oficiem seus contratantes informando da redução do ritmo das obras solicitando imediata revisão dos cronogramas físico-financeiros em vigor.372
O governo estadual também foi alvo das investidas dos empreiteiros da construção civil estadual. O Sindicon apresentou a Max Mauro, um pouco mais de um mês antes de sua posse, documento propondo alterações nos processos de licitação pública, entre elas reivindicava possibilidade de reajustes.373 No entanto, as ações de Max caminharam na contramão do interesse das empreiteiras. Por isso, elas paralisaram atividades e passaram a acusavam o governador de ser culpado pelas demissões em massa ao determinar medidas de contenção de despesas. Em letras grandes ocupando a página inteira e com fotos de obras em Jardim da Penha e no
370 MAX condena greves no Estado. A Gazeta. Vitória. 06 mai.1987, p.3.
371 RECOMENDAÇÃO EMPREITEROS DE OBRAS PÚBLICAS. A Gazeta. Vitória. 17 jan. 1987, p. 3. 372 RECOMENDAÇÃO EMPREITEROS DE OBRAS PÚBLICAS. A Gazeta. Vitória. 17 jan. 1987, p. 3. 373 MOREIRA vê chances de Max aceitar tese de licitação. A Gazeta. Vitória. 13 fev.1987, p.11.
Hospital Dório Silva o jornal estampava: “Medida de Max já causa demissão em empreiteras.”374
Em junho de 1987, no seu terceiro mês de governo, Max garantiu aos donos das construtoras que após regularização do salário do funcionalismo público iria baixar decreto reajustando contrato dos empreiteiros de obras públicas. Nesse momento vinte e três obras encontravam-se paralisadas.375 As exigências das empreiteiras avançaram em direção ao governo estadual. O governador era cobrado também em relação à indicação de nomes de empreiteiros e empresários influentes no governo Camata que executavam os principais projetos nessa administração e pleiteavam o mesmo espaço no mandato para o qual foi eleito Max Mauro.376
Os impasses em relação à influência econômica desses grupos ligados a Camata no governo Max estiveram, segundo o próprio governador, na raiz da crise entre esses dois políticos.377 Em reunião no Palácio Anchieta com políticos da bancada federal, entre eles, João Calmon, Vasco Alves, Nelson Aguiar, Rose de Freitas, Hélio Manhães e Nyder Barbosa de Menezes, o governador Max Mauro ratificava que
não quer ver a repetição, em seu Governo, de episódio de ‘caixinhas’. As fontes afirmam que Max observou que no passado empreiteiras executavam as obras para o Estado em troca do pagamento a membros do Governo de 10% ou 15% do montante do valor do contrato.
Nesse ponto entrou em discussão o descontentamento do governador com a nomeação de Carlos Lessa para a coordenação do Geres. Max Mauro deixou clara sua intenção de não aceitar Lessa, indicado por Camata, relacionando a indicação com a questão da influência econômica em sua administração, já que o coordenador do Geres manipulará recursos destinados ao Estado. Ficou evidente, ainda, que em torno do reatamento gira a questão do reinício das obras paralisadas no Estado: Camata passaria a apoiar a administração estadual, trabalhando recursos para o Espírito Santo, desde que as execuções das obras tivessem a participação das empreiteiras que atuavam na administração passada.378
Um dos principais projetos da administração de Max foi boicotado após a ruptura dele com o senador Gérson Camata. Nenhuma empreiteira capixaba se inscreveu para participar do projeto Transcol.379 Os embates com o capital geravam prejuízos políticos e de receita para o Governo Estadual, já que Camata passou a utilizar a
374 MEDIDA de Max já causa demissão em empreiteras. A Gazeta. Vitória. 01 abr.1987, p.5. 375 EMPREITERA de obras públicas terá reajuste no Estado. A Gazeta. Vitória. 04 jun. 1987, p. 11. 376 GOVERNADOR atribui a empreiteras crise com Camata. A Gazeta. Vitória. 15 set.1987, p. 2. 377 GOVERNADOR atribui a empreiteras crise com Camata. A Gazeta. Vitória. 15 set.1987, p. 2. 378 GOVERNADOR atribui a empreiteras crise com Camata. A Gazeta. Vitória. 15 set.1987, p. 2. 379 MAX acusa empreiteras de boicotar Transcol. A Gazeta. Vitória. 15 abr.1988, p.7.
estratégia de direcionar verbas diretamente para prefeitos aliados com vistas a excluir o governador Max Mauro das alianças políticas e com isso isolá-lo.
Ao mesmo tempo em que lidava com a pressão desses grupos econômicos, o governo estadual se defrontava com um quadro de crise no sistema público de uma forma geral. Aconteceram muitas greves na Secretaria de Educação e de Saúde nos diversos níveis da administração pública. Há que se reiterar que inclusive nas administrações dos petistas Magno Pires na Prefeitura de Vila Velha e Vitor Buaiz na Prefeitura de Vitória houve movimentos paredistas. Buaiz, e inclusive o próprio Lula em visita ao estado, chegou a criticar o que chamou de grevismo, que incluía as