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CAPITAL INTELECTUAL E SEUS REFERENTES À SUSTENTABILIDADE

Cláudia V. Viegas Júlio Graeff Erpen

2. CAPITAL INTELECTUAL E SEUS REFERENTES À SUSTENTABILIDADE

O termo “capital intelectual” expressa a ideia de algo que possui ou gera valor intrínseco, ou de troca, e pode ser gerenciado - “capital” - e que, ao mesmo tempo, provém da capacidade transformadora, porém intangível, do pensamento ou razão - “intelectual”. Na chamada sociedade do conhecimento, “capital intelectual” passou a ser uma expressão consagrada para designar valores que são produto de saberes e habilidades, ou seja, que vão perpassam e vão além dos capitais referentes a bens materialmente produzidos. Capacidade de idealizar e executar negócios, realizar competências humanas e oferecer e utilizar estrutura organizacional são algumas das expressões do capital intelectual (GOVENDER e POTTAS, 2007). Conforme Santos (2011), competências - saber fazer - e relacionamentos - saber ser - integram o capital intelectual.

Edvinson e Malone (1997), considerados pioneiros no estudo do capital intelectual, o relacionam à posse de conhecimento, experiências aplicadas, tecnologias organizativas, relações com clientes e destreza profissional capazes de proporcionar vantagem competitiva no mercado. Para Sveiby (1997), capital intelectual é a combinação de ativos intangíveis que geram conhecimento, renovação eficiência e estabilidade na organização. Bontis (2001) expressa este conceito como a relação de casualidade entre o capital humano, relacional e organizacional. Bueno et al. (2008) consideram capital intelectual o resultado de acumulação, descobrimento, invenções, melhorias aperfeiçoamentos e esforços de todas a gerações ao longo do tempo, com potencial de gerar valor. Seria, portanto, como um continuum de memória de conhecimento que se renova, sendo expressa em descobertas e inovações radicais ou incrementais capazes de gerar mudanças em padrões de consumo e estilos de vida. Seidel (2011) afirma que capital intelectual refere-se a autonomia, motivação e expectativas.

Han e Han (2004) propõem que haja sempre uma decisão prévia sobre como conceituar capital intelectual, uma vez que não há consenso sobre uma ideia unívoca do que seja. Conforme tais autores, capital intelectual é ainda um problema quanto à sua definição e consiste principalmente em ativos de competências. Em resumo, pode-se conceituar capital intelectual como “[t]odos os recursos não monetários e não físicos que são totalmente ou parcialmente controlados pela organização e que contribuem para a criação de valor da

Capital Intelectual: Reflexão da Teoria e Prática 103 capital intelectual “inclui expertise, ideias criativas, habilidades tratadas como recursos de gestão do conhecimento que podem ser capturados, codificados e compartilhados” (ABDULLAH e SOFIAN, 2012:519). Ele pode ser classificado em humano, estrutural e relacional.

No sentido humano, o capital intelectual refere-se a conhecimentos, habilidades profissionais, experiências, expertise, nível educacional e criatividade - inerentes ao que está embutido em pessoas. Inclui motivação e liderança (HAN e HAN, 2004).

No sentido estrutural, trata-se de capital de inovação, bases de dados, softwares, redes de distribuição, planos organizacionais, cultura corporativa, estratégias e políticas - ou seja, tudo o que diz respeito ao que está associado a criação de pessoas ou grupos (HAN e HAN, 2004).

No sentido relacional, o capital intelectual é referido como canais de marketing, relações com consumidores e fornecedores, lealdade ao consumidor, redes governamentais e industriais, parceiros intermediários. Contudo, este entendimento de capital relacional pode ser visto como limitado se forem consideradas relações sociais em espectro mais amplo, envolvendo não apenas trocas de consumo, mas relações associativas entre pessoas e grupos que buscam cooperar para melhorar as condições de vida da sociedade.

Entre os capitais humano e relacional situa-se o capital social, uma espécie de estoque de recursos cujo direcionamento de uso depende do interesse dos participantes (TOWNLEY et al., 2009). O capital social, como intermediário entre o humano e o relacional, e o capital estrutural, como base de recursos físicos e dinâmicos à disposição da intenção e ações planejadas de grupos, possibilitam o planejamento e a tomada de decisão sobre o melhor curso a seguir em termos de uma sociedade determinada à sustentabilidade, mas com entendimento plural sobre o que, como, por que, para quem e por quanto tempo sustentar.

Assim, pode-se afirmar que o capital social, como parte do capital intelectual, é uma espécie de função central coletiva para a mobilização de recursos rumo à decisão sobre o tipo de desenvolvimento que se almeja. Gao

et al. (2011), ao revisarem a literatura sobre capital social, concluem que ele

expressa o valor de rede sociais, o engajamento cívico, bem como o conjunto de recursos adquiridos pela posse de uma rede durável de relacionamentos ou sentimento de pertença a um grupo. Pode ter direcionamento mais ou menos voltado aos interesses sociais, dependendo dos arranjos de poder que o sustentarem. Dhoulá et al. (2013), afirmam que o capital social está associado ao desejo de investir em relações sociais, fluxos de informação, estabelecimento de novas estruturas de negociação.

Lehtonen (2004) observa que a noção de capital social tem raízes muito antigas - já estava presente em obras de Aristóteles, Marx, Durkheim e, mais recentemente, de autores como Coleman (1988), Putnam (2000) e Bourdieu (2001). Capital social é geralmente definido como “as redes de relações sociais caracterizadas por normas de confiança e reciprocidade que podem aumentar a eficiência da sociedade pela facilitação de ações coordenadas” (LEHTONEN,

2004: 204). Pode também ser entendido como redes e normas que afetam a produtividade de uma determinada sociedade a partir de relações nas quais valores, crenças e atitudes são elementos catalisadores de ações. O capital social realiza-se por meio de estruturas relacionais e, se direcionado à participação, cidadania e bem-estar, implica diferenciais de integração e distribuição de poder. É difícil prover uma aplicação prática para capital social e capacidades, mas a combinação de ambos leva à aprendizagem. Mauerhofer (2013:7) entende capital social como “um conjunto de valores capazes de gerar futuros benefícios para, pelo menos, alguns indivíduos”. Esta ideia de associar o uso do capital social à distribuição de poder implica trazer à tona a abordagem das capacidades sociais. Ou seja, não basta haver um potencial, ou capital social: é necessário um nível de maturidade significativo, em termos políticos, para que este capital se torne uma capacidade efetiva de benefício social.

Por ser baseado em atributos individuais e coletivos, como saúde, bem- estar, poder, reputação encaixada em redes sociais (MAUERHOFER, 2013), o capital social apresenta-se geralmente de forma volátil, e seus resultados se configuram como capacidades sociais, que são “o crescimento ou o desenvolvimento de cada nível hierárquico humano ou integração social dentro de uma certa faixa espacial delineada por processos multilaterais reflexivos e/ou independentes dentro e entre indivíduos ou grupos, em um certo período” (MAUERHOFER, 2013: 17). É na capacidade social que podem ser identificados elementos para a elaboração de indicadores de sustentabilidade. Mavridis e Vatalis (2012) destacam o caráter modulatório e demodulatório do capital social, o que significa a possibilidade de adaptá-lo a situações e escalas conforme as necessidades de grupos e indivíduos que traçam metas de sustentabilidade para suas regiões ou vizinhanças. McPhail (2009) desataca a relevância de inserção da ética na construção coletiva do conhecimento nesse contexto, resultando em capacidades que obedeçam critérios distributivos ou justos. E Nogueira (2009) alerta quanto à relevância da qualidade das relações horizontais (reciprocidade) e verticais (poder) para associar o capital e a capacidade social à qualidade de vida.

Características inerentes ao capital social - valores, crenças, atitudes, confiança, reciprocidade - podem ser tomadas como referentes para a elaboração de indicadores de sustentabilidade em qualquer uma de suas dimensões - ecológica, econômica, social. Embora a elaboração desses indicadores seja baseada em informações objetivas, é na subjetividade do capital e nas capacidades sociais que residem as negociações sobre quais dimensões (e aspectos dentro dessas dimensões) são mais importantes e definidores de decisões sobre o tipo de valor a ser sustentado.