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3 CAPITAL SOCIAL

3.5 Capital Social, Humano e Cultural

Hutchinson e Vidal (2004) afirmam que para o melhor entendimento do Capital Social é necessário compreender os conceitos de Capital Humano e Capital Cultural.

Admitindo que o Capital Social não é independente de outros tipos de capitais e que raramente é acumulado por si mesmo, não pode ser desprezada a importância dos capitais humano e cultural na sua constituição.

Lin (2001) e Burt (2005) quando definem o Capital Social em termos de estrutura e ativos da rede, baseados nos estudos de redes de Granovetter, consideram o poder ocupado pelos indivíduos dentre destas redes e, portanto, recorrem ao Capital Humano para explicar como se dá o caráter produtivo do Capital Social.

Schultz (1973a, 1973 b) explica que o conceito de Capital Humano teria surgido em meados anos de 1950 parte do pressuposto de que a instrução é um investimento em habilidades e conhecimento que tem real possibilidade de aumentar a rendas futuras, assim define o Capital Humano a partir do montante de investimento que uma nação ou indivíduo fazem na expectativa de obter retornos adicionais futuros. Na interpretação do autor, o Capital Humano é capaz de propiciar ao mesmo tempo rendimentos futuros e ascensão social aos indivíduos e em termos de nação pode explicar os diferenciais níveis de desenvolvimento que difere os países, assim, diante de tal lógica um país pode migrar da condição de subdesenvolvido para desenvolvido desde que invista em Capital Humano.

Segundo Rattner (2003), enquanto o Capital Humano resulta das ações individuais em forma de aprendizagem e maximização do conhecimento, o Capital Social é fundamentado nas relações entre os atores sociais, que através de tais relações estabelecem expectativas e obrigações mútuas que favorecem a presença da confiabilidade nestas relações sociais e agiliza o fluxo de informações tanto internas quanto externas. Desse modo, a construção do Capital Social, depende de aspectos como a coesão da família, da comunidade e da sociedade, diferentemente do Capital Humano que se expressa na atuação individual, segundo o autor.

Fukuyama (2003) também diferencia os dois tipos de capital, em sua interpretação, o Capital Humano é passado através de certas atitudes e conhecimentos específicos, já o Capital Social necessita que normas e valores sejam compartilhados e isto apenas se consegue mediante hábito, além do compartilhamento de experiências e por meio de um exemplo de liderança.

Para Frigotto (2011), o Capital Humano não passa de uma noção que, além de não explicar, ainda mascara as determinações das desigualdades existentes entre nações, indivíduos, grupos e classes sociais. Apesar disso, Shultz (1973a) salienta o valor de tal conceito argumentando que as capacidades adquiridas pelos agentes por meio do Capital Humano devem ser vistas como importante fonte de ganhos de produtividade, desse modo o autor relaciona sua importância à capacidade produtiva do indivíduo tanto no campo social quanto profissional.

Considerando que são elementos inerentes ao Capital Humano: escolaridade, treinamento, experiência de trabalho, condição de saúde e nutrição de uma pessoa, por exemplo, não podemos desatrelá-lo do conceito de Capital Social, já que ao mesmo tempo em que o Capital Social pode contribuir com a acumulação de Capital Humano, e elevar os retornos atribuídos à escolaridade, o Capital Humano pode representar uma importante fonte de acesso às redes sociais, subsumidas no conceito de Capital Social.

Já em relação à conexão existente entre o Capital Cultural e o Capital Social, esta pode ser observada na própria abordagem de Bourdieu (1980 e 1986) sobre o Capital Social, escolhida para estruturar a interpretação do conceito nesse trabalho, pois ela tem como base estrutural de sua definição a explicitação da importância do Capital Cultural, valorizando a conexão existente entre ambos os capitais.

Bourdieu (1986, 1987, 1989 e 1992) é um dos criadores da Teoria do Capital Cultural que surge como uma contraposição à teoria Neoclássica do Capital Humano. Segundo a visão da Teoria do Capital Humano, o processo de expansão da educação, decorrente da modernização da sociedade e das políticas públicas de inclusão não leva a uma situação de igualdade nas oportunidades, uma vez que indivíduos oriundos de estratos sociais superiores continuarão garantindo vantagens para seus descendentes por conta da transmissão do Capital Cultural.

Coleman (1990) define o Capital Cultural com base nos recursos (não econômicos) obtidos pela oportunidade de conviver com adultos detentores de capital cultural e relaciona o conceito ao aumento de perspectivas pessoais para os indivíduos. Bourdieu (1986) também ressalta esse caráter produtivo do Capital Cultural, já que para o autor a educação, tomada do aspecto comportamental, ou o Capital Cultural consiste num princípio de diferenciação quase tão poderoso quanto o Capital Econômico.

Para Bourdieu (1986), estudantes com maior nível de Capital Cultural, ou seja, estudantes oriundos de família com habilidades e preferências da cultura dominante são mais

capazes de descodificar as regras do jogo implícitas nas escolas e na própria sociedade, atributo que é acessado em diferentes campos da vida, como no profissional.

Admitindo que o Capital Cultural de um indivíduo é refletido em seus valores, atitudes, preferências e comportamento expressados, é possível verificar a relação existente entre Capital Cultural, transmitido na família e na escola e o mercado profissional como indicam Bourdieu (1987) e Collins (1979). Para os autores, o papel da escola em relação às empresas está baseado no preparo para a socialização para o trabalho, socialização esta que se consolida com o Capital Social.

Considerando que o Capital Humano pode servir como um instrumento para o acesso ao Capital Social, e que o Capital Cultural pode favorecer a permanência nas redes sociais promovidas pelo Capital Social, os conceitos ainda que tenham significações distintas, passam a ser apreendidos com maior valor quando deixam de ser interpretados de forma atomizada, e passam a ser valorizados como perspectivas complementares, dadas as prováveis possibilidades de interação entre eles,

3.6 O Capital Social no mundo do trabalho e sua relação com o setor