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3 CAPITAL SOCIAL

3.3 Classificação do Capital Social

Várias são as classificações empregadas na literatura sobre o capital social que variam em função dos interesses propostos nos estudos de que é tema. Ele pode, por exemplo, ser classificado como um ativo intangível na medida em que não tem existência física, mas é capaz de gerar riqueza e vantagem competitiva. Por isso, assim como outros ativos intangíveis apresenta a vantagem de não ser escasso, aumentar com o uso e de ser singular, ou seja, único, como menciona Sveiby (2000).

Krishna e Uphoff (1999) também apontam duas categorias para o Capital Social: o Capital Social Estrutural e o Cognitivo, que segundo o autores seriam interdependentes. Nesta perspectiva o capital social estrutural se refere às formas de interação, procedimentos e precedentes (experiência) que são aplicados nos processos de tomadas de decisão transparentes e coletivos, e marcam os vínculos verticais e horizontais existente na organização social. O capital social cognitivo resulta de processos mentais reforçados pela cultura e ideologia de um grupo, mas especificamente, por normas sociais, valores, atitudes e crenças que contribuem para um comportamento cooperativo, nas palavras de Uphoff “deriva dos processos mentais e resulta de ideias reforçadas pela cultura e ideologia” (Uphoff, 2000, p.218). O quadro 3.3.1 mostra os principais fatores que diferenciam ambas as categorias de capital como descrito por Krishna e Uphoff.

QUADRO 3.3.1 - Capital Social: uma tipologia

CRITÉRIO CONSIDERADO CAPITAL SOCIAL ESTRUTURAL CAPITAL SOCIAL COGNITIVO

Base para a ação coletiva Transações Relações

Motivação Principal Papéis, regras ou procedimentos e sanções

Crenças, valores e ideologia

Força de motivação Comportamento

maximizador

Comportamento socialmente

apropriado

Exemplos Mercados, estruturas

reguladas

Família, religião e etnofilia

Fonte: Adaptado de Krishna e Uphoff (1999)

Outra proposta de classificação do capital social é mencionada por Grootaert et al. (2004), através da qual são considerados três tipos de capital social:

a) bonding-social capital – são agrupadas nesta tipologia as relações sociais existentes entre pessoas que são parecidas em termos de características demográficas, como membros da mesma família, vizinhos, amigos íntimos ou colegas de trabalho, incluindo a participação em associações ou clubes mais restritos, ou seja, são vínculos entre pessoas de uma mesma posição, por isso, esta tipologia faz referência aos grupos homogêneos que reforçam as identidades dos membros e oferecem apoio

mútuo intragrupo. Este tipo de capital social está relacionado diretamente aos “laços fortes” de Granovetter, com relações sociais marcadas pela lealdade e reciprocidade, atributos difundidos entre os agentes e/ou membros31. Putnam faz a seguinte observação sobre o bonding-social capital:

Bonding social capital is good for undergirding specific reciprocity and mobilizing solidarity. Dense networks in ethnic enclaves, for example, provide crucial social and psychological support for less fortunate members of the community, while furnishing startup financing, markets, and reliable labor for local entrepreneurs. (PUTNAM, 2000, p. 22)

b) brindging-social capital – se refere a grupos sociais compostos por membros

distintos, ou seja, pessoas com diferentes ocupações e características étnicas, ou de situação econômica, dentre outros fatores diferenciais. Nesta modalidade estão as relações mais distantes, ou seja, os “vínculos fracos” de Granovetter que ultrapassam as fronteiras sociais, no entanto, as virtudes cívicas são observadas apesar das diferenças existentes dentre os membros;

c) linking-social capital – refere-se ao relacionamento social com pessoas em posição de autoridade como representantes políticos ou de instituições privadas. Trata-se de uma relação social considerada vertical, como por exemplo, do chefe e subordinado em organizações formais. Essa modalidade de capital social é dita como uma conexão com grupos mais influentes possibilitando acesso às estruturas de poder, e eventualmente à ascensão social.

Como pode ser observado o critério de distinção entre os três tipos de capital social

bonding, bringding e linking se baseia na posição social dos agentes envolvidos, mais especificamente, enquanto os capitais sociais do tipo bonding e bringding estão mais relacionados às conexões horizontais, o tipo linking diz respeito às conexões verticais, na medida em que insere no contexto as diferentes posições hierárquicas formalmente constituídas, por possibilitar o acesso a estruturas de poder.

31 Olson (1982) faz críticas ao bonding-social capital, apontando dois fatores: seu caráter patológico e a

fraqueza, em termos de alcance de resultados, dos vínculos fortes. Olson mostrou em alguns de seus estudos que grupos com poucos membros, tendem a incorrer em ações redistributivas, ao invés de utilizar de práticas que aumentariam a eficiência, garantindo resultados mais genéricos. Isto segundo o autor ocorre porque enquanto a redistribuição beneficia os componentes do grupo de maneira concentrada, um ganho geral de bem estar, por exemplo, para uma sociedade, seria dissolvido entre todos os agentes econômicos.

Embora não tenha elaborado classificações ou tipologias para o Capital Social, Bueno (2002) faz sua contribuição neste campo quando distingue quatro principais abordagens para o capital social derivadas respectivamente das teorias do desenvolvimento econômico, da Responsabilidade Social e Ética, dos códigos de Governança Corporativa e do Capital Intelectual, como mostra o quadro 3.3.2 que diferencia as quatro abordagens.

QUADRO 3.3.2 - Abordagens do Capital Social, Principais idéias e Contribuições relevantes

Abordagens do

Capital Social Principais ideias Contribuições relevantes

Teorias do desenvolvimento econômico

Confiança, comportamento cívico e

associativismo fortalecem as redes sociais, contribuindo para o desenvolvimento econômico sustentável Putnam (1994); Knack e Keefer (1997); Stiglitz (1998); Chloupkova et al. (2003); Onyx e Bullen (2000). Ética e Responsabilidade Social

Capital Social expressa o grau de interação social e responsabilidade em respeito à sociedade como um todo e aos agentes e grupos. Esta abordagem é baseada em valores e atitudes como confiança, cooperação, segurança, princípios éticos, compromisso e ética. Coleman (1990); Newton (1997); Chang (1997); Kawashi et al. (1997); Bullen e Onyx (1998); Joseph (1998); Cortina (2000); Baron (2001). Governança Corporativa

Códigos de ética e Governança Corporativa têm um impacto positivo na criação de

capital social, estimulando a solidariedade e a superação das imperfeições do mercado.

Baas (1997); Sen (1997); Zingales (2000); Rajan e Zingales (2000).

Capital

Intelectual Capital social é um componente do capital intelectual. É baseado numa série de valores e indicadores como confiança, lealdade, sinceridade, compromisso, transparência, solidariedade, responsabilidade, honestidade e ética. Nahapiet e Ghoshal (1996); Koening (1998); Prusak (1998); Lesser e Prusak (1999); Lesser (2000); Cohen e Prusak (2001); Kenmore (2001); Lesser e Cothrel (2001); McElroy (2001).

Fonte: Adaptado de Bueno et al. (2004)

Embora estas abordagens descritas por Bueno não signifiquem diferentes classificações para o Capital Social como já mencionado, elas permitem verificar que o conceito pode ser tomado de diferentes perspectivas.

As classificações de Capital Social apresentadas, não retratam as várias tipologias associadas ao conceito e presentes na literatura acadêmica, mas dão uma amostra que permite

verificar a amplitude do conceito e suas possibilidades de ser relacionado a diferentes objetos e diferentes campos de estudo.