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CAPITALISMO, CONSUMO E PROCESSO DE ALIENAÇÃO

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL (páginas 175-177)

4 DIREITO E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NAS RELAÇÕES DE

4.1 CAPITALISMO, CONSUMO E PROCESSO DE ALIENAÇÃO

Nesta seção, analisaremos decisões e jurisprudências sobre responsabilidade civil, especificamente em relação à ação de indenização por danos morais, no âmbito do Direito do Consumidor. Mas, antes, se faz necessário trazer a lume algumas questões e relações entre a luta de classes, o modelo social capitalista e seu apelo excessivo ao consumo desenfreado e alienado como condição para sua sustentabilidade e expansão.

Como já tantas vezes elucidado, o materialismo histórico inverteu a lógica do raciocínio ocidental, concebendo o pensamento e o conhecimento, as concepções, os valores e as ideologias como fruto da práxis humana e, sobretudo, do modo de produção e seus mecanismos de funcionamento, as relações nele estabelecidas, o modelo social por ele construído e sustentado. Assim, no sistema capitalista, conforme também já registrado, o ser humano é forjado em sua condição ontológica, tolhido em sua capacidade teleológica, submetido a um trabalho estranhado e fragmentado em diversos sentidos, estabelecendo relações alienadas de exploração, dominação, opressão, individualismo, concorrência, antagonismos, dependências, carências e necessidades construídas ideologicamente, que o aprisionam a uma compulsão descontrolada – e alienada – por bens materiais e imateriais, sensações, pequenos e etéreis prazeres.

Nesse modelo social, a classe operária, consoante constatado, é sua maior vítima, é a parte sempre frágil da relação, a explorada e oprimida, usada na produção da riqueza e excluída desta, e excluída socialmente. Todavia, de acordo com Marx (2013, 2010a, 2010b) e Mészáros (2016), não somente a classe operária, mas o ser humano em geral, no modo de produção capitalista e na sociedade burguesa, tem sua condição alienada; controlado e manipulado pelo dinheiro com seus interesses privados sempre acima da coletividade e apartado da vida verdadeiramente comunitária, cego pela ambição, voltado para os (seus) negócios, apegado ao acúmulo de bens como condição para satisfazer necessidades sempre insaciáveis, degradando não somente o outro, mas a si mesmo, construindo relações artificiais, falsas e mesquinhas.

Nesse processo de alienação, o ser humano está à mercê dos interesses de expansão do capital, que cria dispositivos ideológicos de aprisionamento, controle e manipulação do ser humano. A criatura dominou o criador. Para Mészáros (2011), algumas das características do capitalismo são sua reprodução sociometabólica e seu imperativo expansionista, que o levam a construir mecanismos ideológicos de controle e manipulação sobre o comportamento do ser humano.

Na lógica do Capital, o “ser” está entranhado e condicionado ao “ter”. Consumir muito tornou-se um imperativo. As pessoas são valorizadas e prestigiadas pelo que possuem, pelo que compram e usam. As mercadorias e os bens consumidos – materiais ou imateriais – são concebidos e adquiridos a partir do processo de fetichização (MARX, 2013), criam-se associações com ideologias e simbologias que passam por relações de poder, superioridade, diferenciação, status, exclusividade, requinte, e pela necessidade – alimentada ideologicamente pelo capitalismo – de ser valorizado e admirado por seus pares. O apelo ao individualismo na sistemática capitalista cria a necessidade de o ser humano sentir-se em destaque, em evidência. A concorrência e a competividade, próprias da ideologia liberal, são estímulos para o consumo de nicho, marcas caras, peças únicas e exclusivas. Assim, conceitos são agregados às mercadorias, que passam a ser sinônimo de bom gosto, elegância, diferenciação e estilo.

Além de tudo disso, três outras questões são essenciais nesse processo de alienação: a) novas necessidades estão sempre sendo criadas para fomentar o consumo e produzir dependências, novas tecnologias, recursos, aparelhos, utensílios – a inovação é outro imperativo na lógica do capital para fomentar o consumo cada vez maior, inclusive do supérfluo; b) os produtos, em geral, têm cada vez menos durabilidade, pois são fabricados com o que se denomina de “obsolescência programada”, seja em razão da fragilidade e da

precariedade da matéria-prima e do processo de produção – de maneira estratégica e proposital para que quebre facilmente – “descartalização”, seja porque se tornam rapidamente ultrapassados, pois novas tecnologias são sempre inseridas no mercado, com recursos mais avançados e outros atrativos; c) o estímulo ao consumismo a partir da publicidade torna-se cada vez maior e mais eficaz, com o uso de mensagens subliminares e técnicas de persuasão cada vez mais apelativas, sempre explorando o perfil psicológico e emocional do consumidor, suas carências e necessidades de diferenciação – ideologicamente introjetadas.

Nesse sentido, as pessoas são “bombardeadas” por propagandas e publicidades com o uso de técnicas de manipulação extremamente sofisticadas e eficazes. Anúncios são espalhados pelas cidades nos mais diversos veículos de comunicação, entram na casa das pessoas pela televisão, pelo rádio, revistas e, hoje, pela internet, pelo celular. Utilizam-se da indução e da autossugestão, técnicas desenvolvidas a partir do estudo do funcionamento da mente humana, sua capacidade cognitiva, seus processos de percepção, gerando o reflexo condicionado, a repetição inconsciente, ditando padrões estéticos, tendências, modas. Vivemos a ditadura do consumismo, a era da aparência, a adoração ao “ter”.

Nessa conjuntura, e na contramão, está um índice de desigualdade social, como já dito, cada vez maior, gerando pobreza e miséria latentes. Nesse mundo capitalista de luxúria e consumismo, não há lugar para aqueles que não têm poder aquisitivo. Não há espaço para o trabalhador assalariado, para os que não têm dinheiro para consumir. Se as pessoas já são socialmente excluídas por sua condição de pobreza e privação de toda ordem, elas se tornam “invisíveis” num mundo em que os indivíduos são enxergados e valorizados pelo que possuem, e não pelo que são. Como resultado disso, sentindo-se pressionadas, invisíveis, inferiorizadas, diminuídas, excluídas, as pessoas se deixam manipular pelo apelo ao consumo, sobretudo, com as “facilidades” criadas pelo mercado, o cartão de crédito, o parcelamento. As pessoas se individam.

Em face dessa condição de vulnerabilidade diante do (livre) mercado e dos mecanismos usados para a indução ao consumo desenfreado e alienado, e diante dos abusos cometidos pela iniciativa privada, o Direito do Consumidor surgiu recentemente com a promessa de, por meio de mecanismos reguladores, conter os excessos do sistema capitalista. No item seguinte, faremos uma breve abordagem sobre esse ramo do Direito que dará luz às análises que serão realizadas nesta seção.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL (páginas 175-177)