4 DIREITO E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NAS RELAÇÕES DE
4.2 DIREITO DO CONSUMIDOR: ORIGEM, CONCEITOS E PRINCÍPIOS
Assim como o Direito do Trabalho, o Direito do Consumidor originou-se numa conjuntura de insatisfação, de revolta e de crise da sociedade Pós-Revolução Burguesa e Industrial frente aos altos índices de desigualdade, miséria, exploração e degradação humana provocados pela atuação irresponsável e desmedida da iniciativa privada. Surgiu como um reajuste necessário do capitalismo para preservação do próprio sistema, fazendo ceder um pouco o liberalismo econômico, dando permissão para a passagem de um Estado liberal abstencionista para um Estado intervencionista, que passou a regular o mercado, as relações de trabalho e de consumo para proteger o cidadão, impondo limites, condições e regras, pondo “freios” na livre iniciativa para tutelar a dignidade humana. Dessa forma, os respectivos ramos do Direito foram concebidos com a chegada do denominado Estado do Bem-estar ou Estado Social, já comentados na seção anterior, num clima de sensibilização e preocupação em proteger o cidadão contra os abusos e excessos da iniciativa privada, em “desmercadorizar” a condição humana na sociedade capitalista.
Nesse passo, na década de 60, nos Estados Unidos, um fato histórico marcou o surgimento do movimento consumerista no mundo: no dia 15 de março de 1963, o então presidente Kennedy enviou uma mensagem ao Parlamento “consagrando determinados direitos fundamentais do consumidor, quais sejam, o direito à segurança, à informação, à escolha e ser ouvido, seguindo-se a partir daí um amplo movimento mundial em favor da defesa do consumidor” (GIANCOLI; ARAUJO JUNIOR, 2009, p.18). Na Europa, esse movimento obteve eco inicialmente na França, Alemanha, e Inglaterra, difundindo-se depois para outros países.
No Brasil, somente no início da década de 70 e ainda de forma muito tímida o movimento consumerista surgiu. Assim, em 1974, no Rio de Janeiro foi criado o Conselho de Defesa do Consumidor, e, posteriormente, em outras capitais, como Curitiba, Porto Alegre, São Paulo, órgãos também foram criados para fins de proteção ao consumidor. Mas o Direito do Consumidor se consolidou de fato no país com e após a promulgação da Constituição Federal de 1988. A respectiva Carta, em harmonia com a valorização do ser humano trazida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pelo sopro do Estado Social, trouxe a Dignidade da Pessoa Humana como um dos fundamentos do Brasil, e, em seu art.5º, inciso XXXII, estabeleceu: “o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor”. Assim como, em seu art.170, definiu:
Ar.170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
V - defesa do consumidor.
Sendo assim, cumprindo a determinação da Constituição Federal, o Código de Defesa do Consumidor, em 1990, foi instituído e colocado em vigência, normatizando e disciplinando as relações de consumo, trazendo direitos, princípios norteadores, padrões de conduta para as relações consumeristas.
Da mesma forma como no Direito do Trabalho, o Direito do Consumidor parte do pressuposto de que há uma relação de desnível ou de hipossuficiência entre os dois polos, no caso específico, entre fornecedor e consumidor. “Em linhas gerais, o consumidor pode ser entendido como a pessoa submetida ao controle dos titulares de bens de produção, isto, dos empresários” (GIANCOLI; ARAUJO JUNIOR, 2009, p.24). É a parte frágil e vulnerável da relação, que deve ser tutelada pelo Estado a partir do Direito, numa concepção intervencionista.
Segundo Braga Netto (2009, p.33), o Código de Defesa do Consumidor – CDC é um “microssistema legislativo”, por contemplar normas e princípios de variados ramos do Direito, sendo, portanto, um diploma legal de “cores variadas”. O autor chama a atenção para o art.1º do CDC: “o presente código estabelece normas de proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social [...]”, uma vez que, por se colocar como normas de “ordem pública e de interesse social”, traz uma prerrogativa que é também própria do Direito do Trabalho: são normas cogentes, que trazem garantias que não podem ser renunciadas. São direitos indisponíveis.
De acordo com Braga Netto (2009, p.35), por muito tempo, sob a ideologia do liberalismo econômico e do Estado liberal abstencionista, o direito privado ou direito civil foi “sinônimo de autonomia da vontade”, “os particulares auto-regulavam seus próprios interesses, mediante contratos escritos ou verbais”. Todavia, nas últimas décadas, houve um “decréscimo da autonomia, buscando, justamente, proteger os mais fracos, os hipossuficientes”. Assim, o Código Civil trouxe o princípio da função social do contrato em seu art. 421: “a liberdade de contratar será exercida em razão em razão o nos limites da função social do contrato”. Isso significa que a autonomia dos particulares e, sobretudo, da iniciativa privada esbarra, dentre outros bens fundamentais tutelados pela CF, na dignidade da pessoa humana. O Direito do Consumidor segue essa lógica humanista, que, pelo menos no plano teórico, colocou os bens da personalidade, como dignidade, honra, moral, imagem etc., acima de bens materiais, na linha de “desmercadorização” do ser humano.
No que diz respeito à clássica dicotomia entre Direito Público e Direito Privado, na opinião de Nohara (2016, p.7), sendo um ramo que também “apresenta acentuada intervenção estatal na regulação de assuntos privados” – em razão de o “consumidor não estar no mesmo patamar de igualdade com o fornecedor de produtos e serviços”, assim como o Direito do Trabalho, o Direito do Consumidor possui natureza mista.
Conforme Braga Netto (2009) são muitos os princípios norteadores do Direito Consumerista, mas apenas cinco serão aqui elucidados por serem relevantes para a compreensão das análises:
a) Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor: a condição de vulnerabilidade do consumidor é a razão pela qual o Código de Defesa do Consumidor foi criado, é a premissa desse ramo do Direito. Segundo esse princípio, deve-se buscar equilibrar a relação de desigualdade entre fornecedor e consumidor por meio de medidas de nivelamento, sob a luz da noção de igualdade material já abordada na seção anterior: tratar igualmente os iguais, e desigualmente os desiguais na medida de suas desiguldades.
b) Princípio da Boa-Fé Objetiva: “é o dever, imposto a quem quer que tome parte em relação negocial, de agir com lealdade e cooperação” (BRAGA NETTO, 2009, p.57). Conforme esse princípio, ambas as partes devem agir lealmente uma com a outra. Segundo a doutrina e a jurisprudência consumeristas, sob a égide desse princípio, o fornecedor deve agir com transparência, responsabilidade, cooperação e cuidado para com o consumidor.
c) Princípio da Segurança: segundo esse princípio, “ao fornecedor cabe assegurar que os produtos ou serviços postos no mercado de consumo seja seguros, não causem danos, de qualquer espécie, aos consumidores” (BRAGA NETTO, 2009, p.59).
d) Princípio da Reparação Objetiva: princípio fundamental no equilíbrio da relação, segundo o qual a responsabilidade civil por danos causados a consumidor é objetiva. Ou seja, dispensa a demonstração da culpa do fornecedor em relação a danos causados ao consumidor, seja por defeitos de produto ou de prestação de serviço. Basta que a vítima prove o dano sofrido e o nexo causal, não necessitando provar a culpa do fornecedor.
e) Princípio da Informação: um dos pilares da relação de consumo, o direito à informação é essencial, e deve ser clara, transparente e eficaz. Segundo Braga Netto (2009, p.49), “é dever do fornecedor fazer chegar ao consumidor, de forma simples e acessível, as informações relevantes relativas ao produto ou serviço”. A informação falha ou a ausência da informação relevante geram responsabilidade por dano, se gerado; em se tratando de publicidade, a omissão de informação relevante pode caracterizar publicidade enganosa.
No que diz respeito às fontes às quais o operador deve recorrer para interpretação e aplicabilidade do Direito Consumerista, dividem-se em materiais e formais. As fontes materiais estão vinculadas ao exame da conjuntura social e econômica, das necessidades, dificuldades e vulnerabilidade do consumidor; as fontes formais estão relacionadas à legislação, sobretudo Constituição Federal, Código Civil e Código de defesa do Consumidor, assim como os costumes.
Após esta sucinta e objetiva explanação acerca do Direito do Consumidor, no item seguinte, serão realizadas as análises das jurisprudências selecionadas no âmbito da responsabilidade civil por dano moral nas relações de consumo.