O mérito da informação reduz-se ao instante em que era nova. Com a narrativa é diferente: ela não se exaure. Conserva sua força e é capaz de desdobramento, mesmo depois de passado muito tempo.
Walter Benjamin
Chegamos ao espaço público que a Casa da Comunidade representa na Santo Expedito em função da veemência de nossa principal interlocutora, Miranda, que desde o início de nossas conversas (incluindo as telefônicas) reiterava seu desejo de
organizar um chá da tarde, no qual pudessem participar várias pessoas que estariam, segundo ela, precisando de apoio. Ela reiterava sempre a importância da fala e da conversa nos seus trabalhos como “psicóloga da comunidade”, frisando que a conversa com as pessoas com aflições que a procuram tinha efeitos terapêuticos, e se queixava da falta de conversas desse tipo dentre as pessoas da comunidade:
A gente devia fazer um tipo de um chá e convidar essas pessoas que a gente vê assim, né. Aí faz uma roda e fica conversando. Que é que a pessoa, cada um na sua casa, assim, elas não tem aquele, sabe... Eu acho que tinha que ter, assim, pelo menos um encontro, uma vez por mês. Eu acho que tinha que ter um encontro, assim, de mulher, né? Eu acho legal. Que muitas pessoas precisam, muitas, né... Que trabalham a semana toda e precisa daquilo. Só. Muitas não trabalham e aí[depois] ficam só ali na casa, é aquela coisa, né. Esse negócio de casa estressa muito, né. Então é bom, pelo menos ter um encontro, alguma coisa, né, assim uma vez por mês... Eu acho legal. (...) Aí a gente... [faz] um encontro, daí começa a conversar... É bom, pra pessoa. Começa a rir um monte, né, ri, conversa e...E a pessoa já sai bem diferente daí também, né, já é outra pessoa quando sai dali. (...) Vai ser bom para vocês também. (Miranda)
Para Miranda, um encontro para conversa ou desabafo entre amigas aparece como uma maneira potencial de auxílio nos problemas enfrentados, ou seja, a conversa aparece como
um fim terapêutico, ideia que é compartilhada por outras pessoas do bairro. A sua interpretação acerca de como resolver problemas psicológicos envolve uma dimensão religiosa e social: postulava que quando ela mesma estava mal, tinha que “dar uma volta”, ir a igreja, sair de casa, encontrar pessoas e conversar. “Muita gente tem problemas que podem ser auxiliados com a conversa”, referindo-se a problemas como desemprego, trabalho, família, marido,saúde. Miranda ocupava um lugar peculiar no grupo de mulheres: não era uma das lideranças do grupo de mulheres organizados na comunidade, e sua relação com o processo de ocupação parecia um tanto obscuro. Observamos que, ao contrário das demais mulheres, ela era a única que não possuía casa própria, e que mudanças de endereço e de telefone eram bem mais frequentes com ela do que com as demais.
Assim, deixamos de lado nossa busca de itinerários terapêuticos individuais, e passamos a marcar novos encontros, conversas ritualizadas, mediadas por comidas e bebidas preparadas por todas. Estes encontros permitiram a vivência de um tempo a parte, fora das experiências cotidianas. Nestas conversas, o passado surgia como mediador de um tempo out, por diversas vezes como o tempo da glória vivida (tempos da ocupação), da felicidade agora perdida com o distanciamento das relações de outrora, vistas como muito estreitas, próximas, permeadas pela dimensão do prazer de viver – que hoje parece distante – e marcadas por muitas esperanças. Entendemos isso
não como um desvio ao assunto proposto, mas que narrar a ocupação era também uma forma de falar de si, e que através das narrativas das experiências passadas, muito do que elas vivem hoje também estava sendo revelado. A roda de conversas passou a ter um lugar privilegiado na nossa pesquisa, por entender que se tratava da forma como estas mulheres haviam optado para falar de si, e que tínhamos, de fato, levado a sério a proposta de ouvir o que queriam dizer. Antônia sempre era chamada para estas ocasiões, parecendo depender dela e de Miranda o início das conversas, embora Anita ocupasse também um lugar fundamental e legítimo no momento de relatar os vários e complexos eventos que compuseram o processo da ocupação45.
Tanto Antônia quanto Miranda partilhavam da idéia de que os encontros seriam produtivos para todas as mulheres- sublinhando que nós estávamos incluídas nestes benefícios. Antônia lembrava que nós também teríamos que contar alguma coisa, já que queríamos ouvi-las com tanto afinco. Tratava-se, a nosso ver, de um convite para participar daquilo que Benjamin chama de comunidade de ouvintes e que parece fazer parte da terapêutica local
Assim, passamos a freqüentar a casa comunitária, local onde as mulheres se reúnem para realizar as atividades de trabalho, espaço próprio do lazer-labor, e as sessões de trabalho manual nas máquinas de costura e teares foram substituídas diversas vezes por uma roda na frente de comes e bebes.
A comida apareceu, aqui, como também observou Soraia
Simões46 em seu trabalho, como uma mediadora importante
para a conversa, talvez apontando para uma situação de maior igualdade ou de cumplicidade, condições que nos faz mulheres, com uma provável atribuição de gênero nestas “artes do cozinhar” que se manifestam nas conversas suscitadas pelas diferentes comidas. Neste momento éramos iguais, apesar das diferenças sociais marcadas pelo papel que forçosamente ocupamos como pesquisadoras, professoras e/ou psicólogas47. Muitas vezes concorrendo com outras atividades pré- agendadas, supostamente mais importantes, os nossos chás da tarde pareciam ter certa popularidade: as mulheres nos cobravam, inclusive, porque havíamos “sumido” no período das férias. Nesse espaço-tempo à parte, nossos encontros foram focados nos relatos coletivos, havendo “narradoras” oficiais do grupo; no entanto, houve espaço também para as conversas individuais. Quando em grupo, de certa maneira, todos os assuntos podiam ser discutidos, mas não de maneira pessoal: as referências à sexualidade de Maria Dite, por exemplo, costumava aparecer com freqüência, mas sempre com tom jocoso. Quando em conversa paralela, o clima mudava: o momento de uma conversa particular se mostrava como abertura para confidências acerca dos “nervos”, de “estar mal”, “de não estar boa” ou “estar ruim” naquele momento, de estar “estressada” ou de “precisar de uma psicóloga”.
Porém, se estes relatos mais confidenciais ocupavam os bastidores, as narrativas que acabaram ocupando o lugar central destas rodas de conversa de modo algum podiam ser confundidas com “desabafos” previstos inicialmente. Eram relatos dos tempos da ocupação, os tempos em que, como anunciou Maria Dite, sob a aquiescência de todas, “elas eram
felizes e não sabiam”.
Através da fala de Antônia, que compartilha com Anita o lugar de narradora no grupo, ficamos sabendo, então, de como a comunidade se formou a partir da ocupação, no dia que antecedeu o Dia das Almas (Finados), em 1990. Ela conta como chegaram a ter a coragem necessária para entrar no movimento, encenando, com o apoio da mesa, de um copo e do silêncio absoluto de todas a sua volta, como se convenceram a participar da luta:
Se tem um copo de leite aqui, que ninguém vai beber e que vai estragar, e você está do outro lado da mesa, você não vai vir pegar? Se não tomar, ele vai estragar. A mesma coisa é da terra, é pra ser de todo mundo, não só de alguns. Tu vai dizer que isto é um roubo? Não é! (Antônia, encenando a fala de um dos principais assessores do movimento)
Antônia reporta-se à noção de justiça social que marcou boa parte dos movimentos sociais na época, e que foi decisiva na sua adesão à luta pela terra, naquele momento em que todas enfrentavam enormes dificuldades para pagar aluguel ou viver de favor e de forma inconstante com parentes.
A gente achava que tinha que ter habitação para baixa renda em Florianópolis. A primeira ocupação foi a Novo Horizonte, e felizmente a segunda foi a nossa. Nós nos conhecemos na preparação da ocupação, (...) éramos 70 famílias e ficamos em 48. Depois faltou muita gente, muitos desistiram. Mas nós fomos preparados pra ocupar bonitinho, com arquiteto medindo terreno, com cordão, com piquete, com tudo. [grifo nosso] (Anita)
Assim, contrariando parentes e patrões, escondendo seu envolvimento com o Movimento, usando nomes clandestinos e desafiando autoridades e leis, as mulheres emergem como heroínas deste tempo em parte já olvidado, que, de certa forma, nossa busca parecia revivificar. Anita reitera a importância que elas tiveram na vinda das demais famílias que iriam participar da ocupação, num complexo e silencioso processo de organização, que não podia ser visibilizado sob pena de prejudicar a luta. Também destacam a importância de manterem-se firmes na ocupação; mesmo assim, muitos haviam desistido diante do medo que a luta evocava:
Na noite da ocupação, quando eu vi, tinha oito carros da polícia... E o Moisés estava lá, na frente de mãos abertas, na frente da polícia, que veio para bater, e o pessoal falou: agora vocês vão pro terreno, agora, ou esquece a ocupação. Uns [lotes] estavam marcados, outros não, era um salve-se quem puder... Aí a gente descobriu mesmo o que era uma ocupação!(Anita)
Os homens aparecem nas narrativas ora como coadjuvantes, ora como irresponsáveis: são maridos de algumas, namorados e filhos, que apoiavam a decisão das mulheres em participar e, depois, em permanecer na ocupação; outras vezes, a eles eram atribuídas falhas como a de Mário, que teria “dado bolo” já no momento da vinda dos caminhões para o local: “Marcamos um encontro e ele não veio, depois ligou de outro lugar e tivemos que ir atrás dele de novo!”. Já naquele momento, segunda estas narrativas, são as mulheres que aparecem coordenando o tráfego dos caminhões que traziam as mudanças dos ocupantes: “O meu caminhão teve que dar uma volta e ir buscar a mudança do Mário, que tinha se perdido por aí!” (Maria Dite). Relatam o caso de um incêndio que ocorreu num barraco, durante os primeiros meses de ocupação, em que um dos homens, alcoolizado, nem percebera que o local estava incendiando. Elas o teriam salvado - salvando também o seu filho, ainda bebê, de um berço quase em chamas. Os homens aparecem também como objetos de desejo, como o caso de alguns policiais que, apesar de seu papel repressivo no acampamento, teriam sido facilmente seduzidos pela conversa e pelo café quentinho oferecido pelas mulheres, ficando assim amigos da ocupação e interessados por algumas delas. “Esta aí quase que arrumou um marido”, contam entre risos e relatos detalhados, sobre Maria Dite, que não nega seu papel naqueles fatos, nem esconde sua satisfação em ter sido “simpática e atenciosa” com aqueles homens (policiais), que “coitados, passavam a noite sozinhos na ocupação”.
Os relatos detalhados do processo de ocupação destacam
a atuação das mulheres, a coragem necessária para ocupar, a persistência fundamental para permanecer na ocupação, em função das condições precárias, do esforço e do jogo de cintura que o acampamento exigia, seja para acessar a água, proteger- se de intempéries como para negociar com os vizinhos geralmente hostis às suas presenças, aprender a participar das reuniões, aprender a falar com as autoridades e com a imprensa. Sublinham também as dificuldades de conciliar estas atividades com as atividades costumeiras, como cuidar de crianças, da casa, trabalhar fora. Quando da obtenção da área da comunidade, foi necessário trabalhar nos mutirões e acompanhar a construção das casas.
“Éramos muito unidas!” foi uma expressão que escutamos várias vezes: nos tempos iniciais da ocupação, onde todos se ajudavam, onde exerciam mais o papel de “comunidade” do que de famílias: depois que mudaram, enfim, para as casas novas, as vidas se distanciaram, afirmando que tal união acabou se desfazendo com o passar dos anos. A ocupação aparece assim, não apenas como um processo político, mas também como uma época onde o coletivo foi prioritariamente vivenciado, uma época não apenas heróica, mas de vivências compartilhadas, significando não apenas a luta pelas casas enquanto materialidade, mas da construção de lares interconectados, ou seja, de redes sociais. Este parece ser o significado maior da ocupação e da criação da comunidade. Na
narrativa de Anita, destaca-se não apenas a presença das “assessorias” (desde irmãs, padres e pastores, até militantes ligados a partidos de esquerda e sindicatos), mas o desafio que as conversas com as autoridades lançavam e que implicava num aprendizado em termos de fala e de representação:
O que foi dito de besteira naquela reunião, falava todo mundo junto, foi aqui que o (sub-prefeito) disse: “nós vamos mandar colocar a polícia em cima de tudo, pois são tudo bandidos, gente que tá num ginásio é tudo de fora, bandido que tava ali, nem nome têm” (porque a gente não podia dizer o nome). Eu disse um nome de uma prima, que me veio na cabeça na hora do nervoso, não podíamos revelar nosso verdadeiro nome, e ele pediu para soletrar direitinho. Eu disse: “como o senhor viu, nos somos organizados e vamos nos reunir e depois a gente vai pra comunidade fazer uma reunião e conversar com o pessoal”. Ele disse: “então vão e voltem em dez minutos”. Pois nós fomos lá e só voltamos quatro horas mais tarde! Ele tava bufando! E disse: “eu não falei pra voltarem logo? Agora são quatro da manhã!” Eu olhei e disse: “a gente não gostaria de falar (eu tava chorando!), mas escolhemos um representante [o advogado do MST] que vai falar em nosso nome”.
Anita destaca a importância dos “assessores” neste processo e de como uma narrativa que fosse compreendida pelas autoridades se mostrava muito importante para a conquista da terra e a construção de um sujeito político, o que
reitera a idéia de que a constituição do sujeito (seja ele individual, seja ele coletivo, como aqui apresentado) passa necessariamente pelo uso da palavra e pelo plano discursivo e narrativo.