• Nenhum resultado encontrado

1. INTRODUÇÃO

2.2 SISTEMAS COMPLEXOS

2.2.1 Características da complexidade

Complexidade é a qualidade do que é complexo, que por sua vez significa o que abrange muitos elementos ou várias partes. Trata-se da congregação de elementos que são membros e partícipes do todo, e, suas ações integradas e dependentes assumem outra forma de expressão e novas faces.

O que caracteriza as relações complexas é em primeiro lugar a questão da imprevisibilidade, e outro aspecto é a coexistência, no mesmo campo, de fenômenos de lógicas complementares, concorrentes e antagônicas.

Apesar da imprevisibilidade e das diferentes lógicas que o compõem, o sistema busca permanentemente o equilíbrio. Isso se estabelece no que MORIN (1977, 54) denominou de círculo tetralógico, ou relação ordem / desordem / interações / organização. E, para ele uma vez que a organização e sua ordem própria estejam estabelecidas, ela (organização) pode ser capaz de resistir a um grande número de desordens. Vale dizer, para ele, "a ordem e a organização, nascidas com a cooperação da desordem, são capazes de ganhar terreno sobre a desordem".

Conforme afirma THON (1972) se há um princípio organizador, ele nasce dos encontros aleatórios, no acoplamento da desordem e da ordem, na e pela catástrofe, vale dizer a modificação da forma. MORIN

(1977, 102) considera isso uma maravilha morfogenética, onde o surgimento da inter-relação, da organização e do sistema são as três faces de um mesmo sistema.

Jacob (1970) lembra que "no que concerne à vida, a natureza faz mais do que justaposição, ou seja, ela integra". Nesse sentido, os estudos comprovaram que a célula viva detém propriedades emergentes, ou seja, se nutrir, metabolizar, se reproduzir.

MORIN (1977, p.108/110) aponta que uma das características de um sistema complexo são as emergências que surgem e são decorrentes das inter-relações entre as partes que o compõem. E, a emergência tem como características: produzir um produto, que é decorrente da organização do sistema; estar comprometida com a globalidade; e produz uma qualidade nova. E são as emergências que explicam porque a junção das partes representa mais do que seu somatório.

MORIN (1977, p.107) evidencia que da célula ao organismo, do genoma ao conjunto genético se constituem totalidades sistêmicas dotadas de qualidades emergentes, sendo que o ‘algo a mais’ que surge da interação dos mesmos é precisamente chamada de vida. Assim, para Morin o "postulado implícito ou explícito de toda sociologia humana é que a sociedade não será considerada como a soma dos indivíduos que a compõem, mas constitui uma entidade dotada de qualidades específicas".

Para Serres (1976, p.276) é incrível que as noções aparentemente elementares, como matéria, vida, sentidos, humanidade, correspondem de fato às qualidades emergentes dos sistemas, ou seja, o seu ‘algo a mais’. Para MORIN (1977, 107) a emergência no caso do

homem, em relação à natureza, pode ser definida em função da emergência própria de um sistema cerebral hipercomplexo, de um primata evoluído.

PEDROZO (1995, p.166) considera que "a emergência como produto da organização pode eventualmente aparecer ao nível dos componentes do sistema. São qualidades inerentes às partes no interior do sistema dado como ausentes ou virtuais quando suas partes estão em estado de isolamento; elas não podem ser adquiridas e desenvolvidas para e dentro do todo".

Segundo DEMO (2002), ”não pode ser complexo o que não for campo de forças contrárias, no qual estabilidade é sempre rearranjo provisório”.

A primeira característica que pode ser atribuída a sistemas complexos é a dinâmica que pode ser caracterizada pela maneira de ser a mesma coisa sempre em processo.

A dinâmica indica um processo que detêm componentes formalizáveis e controláveis bem como, não formalizáveis e incontroláveis. Deve avançar no imprevisível, ultrapassando o horizonte do conhecido. A dinâmica implica o desconhecido, o imprevisível, ultrapassando o horizonte do conhecido.

A segunda característica da complexidade é a não linearidade que ultrapassa a noção de simples organização das partes, para atingir modos de ser. A relação entre o todo e as partes, bem como a falta de alguma delas não inviabiliza o todo. A não linearidade implica equilíbrio em desequilíbrio em um todo complexo onde convivem estruturas e dinâmicas desencontradas.Implica em mudança criativa, surpreendente e arriscada. Pressupõem que a noção simples de organização das

partes seja ultrapassada, para alcançar modos de ser, a relação própria do todo e das partes, que acontece ao mesmo tempo, com relativa autonomia e profunda dependência.

A terceira característica da complexidade é a reconstrução que não é reprodução ou réplica. É processo de mudança contínuo. Torna- se irreversível, pois, vai se reconfigurando conforme o fluxo do tempo e as circunstâncias encontradas. Esta característica envolve a autonomia e a aprendizagem, pois a primeira, é produzida na incompletude porque só realidades incompletas podem ser autônomas. A dimensão reconstrutiva aponta para outras dimensões, tais como, autonomia e aprendizagem.

A autonomia da complexidade é fruto de sua dimensão sistêmica, mas também, de sua tessitura não sistêmica, pois sua criatividade provém de sistemas em constante amadurecimento e falência consigo mesmo. ”Autônomo não é o que pode separa-se, isolar-se, mas, o que carece de complemento e atualização para manter-se em horizonte próprio”.(DEMO, 2000, p.22).

A quarta característica da complexidade é o processo dialético evolutivo. Tal característica, girando em torno da inteligência artificial, envolve artefatos artificiais, próprios da criação tecnológica, porém não são complexos. Essa idéia, comum na inteligência artificial pleiteia difundir a tese que afirma que o computador um dia poderá ter consciência reflexa. No ser humano os níveis de consciência reflexa fazem parte das potencialidades da realidade complexa e criativa que é a própria vida que não foi criada e reconstrói-se. A essa característica pode-se incluir a capacidade de aprender, o que até aqui foi entendido como fenômeno crítico e consciente, do homem. Prigogine (in: DEMO,

2000) propõe que características consideradas humanas, como a criatividade, podem ser aplicadas à natureza, revolucionando os conceitos relativos ao ser humano e a evolução da natureza.

Fenômenos complexos podem aprender, o que significa dizer que podem, em seus processos, incluir criatividade autêntica em seus modos de ser e vir a ser.

A quinta característica é a irreversibilidade que se refere à inserção temporal, pois nada se repete, qualquer depois é diferente do antes.Tem no tempo a unidade típica de contrários. O tempo é produtivo, avança, vai para frente, mas não tem ponto final, acarretando inovação intrínseca fazendo com que produtos sejam sempre processos. Todo fenômeno complexo possui condição própria distintiva isto é, individualidade. O tempo é produtivo e não reprodutivo. Nada está completo, pois, todo o fenômeno complexo possui sua individualidade, sua condição distintiva.

A sexta característica trata da intensidade de fenômenos complexos que introduzem dimensões produtivas, indivisíveis e incontroláveis, fazendo com que toda previsão seja apenas aproximação de procedimentos já conhecidos e repetidos do fenômeno.

A sétima característica diz respeito à ambigüidade e à ambivalência de fenômenos complexos. A primeira refere-se à estrutura, em relação aos seus componentes, em sua unidade de contrários, isto é, algo que é relativamente unitário, forma um todo, e, naturalmente aberto, ultrapassa seus limites. Estruturas ambíguas são caóticas, predominando a abertura para novos desafios não contidos no que está dado, pois não é possível estabelecer o que pode vir a ser.

A ambivalência refere-se aos processos dos fenômenos complexos, estando vinculada aos seus modos de vir a ser, podendo ser percebida em fenômenos tais como participação, felicidade, aprendizagens que se desgastam no tempo, devendo ser reconstruídas permanentemente. Permite confronto não aceitando limites, pretendendo ir para além do que está dado na evolução e na história. Toda ambivalência na complexidade é campo de força, seja na estrutura, seja nos processos.

A complexidade exige questionamento, argumentação, é saber confrontar-se. Nesse sentido pode-se afirmar que o conhecimento, originado na matriz da complexidade, é construído de ambivalências, o que não é defeito, mas, condição para o conhecimento inovador.

O estudo dos sistemas complexos atinge várias escalas, das partículas até o universo. Dentre os sistemas complexos que conhecemos os mais familiares são os sistemas biológicos e os sistemas sociais – incluindo macromoléculas biológicas, organismos biológicos, ecossistemas e estruturas humanas sociais e econômicas.

Um sistema particularmente importante para o campo dos sistemas complexos é a civilização humana, a história das estruturas sociais e econômicas e da emergência de uma civilização globalmente interconectada. Uma das atuais aplicações dos princípios dos sistemas complexos é permitir desenvolver um entendimento do curso do passado e do futuro das civilizações.