De acordo com uma referência já apresentada no capítulo anterior, Arendt (2007) considera vivermos em uma sociedade de operários, de detentores de empregos, na qual é requerido de cada pessoa algum funcionamento automático, em conformidade com uma determinação prévia, socialmente estabelecida, fato reafirmado por Ramos (1981). Esse tipo de sociedade é entendido por Flusser (2002, 2008) como um espaço de atuação humana no qual as ações de cada pessoa são programadas e, portanto, cada um de nós normalmente obedece a uma série de comandos, ou seja, vivemos em uma sociedade de funcionários a cumprir rotinas e repetir processos, e fazemos quase só isso.
Praticamente todo nosso trabalho é orientado pelo que Ramos (1981) chama de tempo serial, aquele que Buber (2012) caracteriza como tempo cronológico, o tempo do mercado, tempo da produção capitalista. O tempo da prevalência da palavra princípio Eu-Isso. Dessa forma, não nos sobra muito espaço para o tempo convivial (RAMOS, 1981), o tempo antropológico no qual, segundo Buber (2012), nos seria mais possível estabelecer uma primazia da palavra princípio Eu-Tu. Com isso nos adequamos às exigências do modo de produção capitalista e da sociedade de consumo e deixamos, cada vez mais, de nos permitir os prazeres oferecidos por momentos mais espontâneos de convívio.
Além disso, é importante ressaltar que “toda atividade humana está sujeita ao hábito. Qualquer ação freqüentemente repetida torna-se moldada em um padrão, que pode em seguida ser reproduzido com economia de esforço e que, ipso facto1, é apreendido pelo executante como tal padrão” (BERGER & LUCKMANN, 1994, p. 77). Observemos, então, o quanto é fácil encontrarmos padrões e repetições de ciclos em escolas. Além disso,
escravos de um sistema de comunicação de massa dirigido por grandes complexos empresariais, os indivíduos tendem a perder a capacidade de se empenhar no debate racional. Cedendo a influências projetadas, a maioria das pessoas perde a capacidade de distinguir entre o fabricado e o real e, em vez disso, aprende a reprimir padrões substantivos de racionalidade, beleza e moralidade, inerentes ao senso comum (RAMOS, 1981, p. 114).
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44 A sociedade de funcionários, pré-programada, segundo Flusser (2002), configura-se como um espaço de atuação de tecnocratas, os quais obtêm reconhecimento social como validação de suas ações/opiniões porque agem de acordo com as normas e preceitos dos aparelhos nos quais atuam. A atuação corriqueira desses indivíduos é programada. Cada um deles busca agir dentro das categorias determinadas para cada um desses aparelhos.
Por aparelho entendo todo e qualquer local de atuação elaborado por seres humanos para a execução de alguma finalidade. Compreendo isso a partir das definições de Flusser (2002, p. 77), segundo as quais: aparelho é todo “brinquedo que simula um tipo de pensamento”, enquanto brinquedo é todo “objeto para jogar”. No âmbito dessa sociedade Flusser (2002, p. 70 – grifo do autor) afirma que “tudo se passa automaticamente, e não serve a nenhum interesse humano”. Na sociedade contemporânea
aparelho é brinquedo e não instrumento no sentido tradicional. E o homem que o manipula não é trabalhador, mas jogador: não mais homo faber, mas homo ludens. E tal homem não brinca com seu brinquedo, mas contra ele. Procura esgotar-lhe o programa. Por assim dizer: penetra o aparelho a fim de descobrir- lhe as manhas. De maneira que o ‘funcionário’ não se encontra cercado de instrumentos (como o artesão pré-industrial), nem está submisso à máquina (como o proletário industrial), mas encontra-se no interior do aparelho. Trata-se de função nova, na qual o homem não é constante nem variável, mas está indelevelmente amalgamado ao aparelho. Em toda função dos aparelhos, funcionário e aparelho se confundem. (FLUSSER, 2002, p. 23-24 – grifos do autor).
Considero interessante relembrar aqui uma percepção de certo estranhamento que estudantes em geral costumam demonstrar ao encontrar algum docente fora do ambiente escolar no qual convivam. Parece haver, por parte de muitos estudantes, uma compreensão de que docentes existem como partes da escola e não como seres humanos comuns. Teriam, então, tais estudantes alguma compreensão, de forma inconsciente, do conceito de Flusser para o homo ludens que brinca no interior de seu aparelho e encontra-se amalgamado a ele?
Em conformidade com os conceitos de Flusser para funcionário, jogador e aparelho, podemos compreender as ações de pesquisadores do objeto escola em duas vertentes, por exemplo. Uma a dos funcionários que buscam desvendar suas entranhas, para dar-lhe sobrevida, na busca de alternativas que mantenham a instituição de pé. Outra a de jogadores que desejam conhecer os meandros da antiga instituição para romper-lhe os limites e buscar sua superação. Busco me enquadrar nesta segunda opção. De qualquer forma, não devemos deixar de compreender que somos, assim como todas as pessoas, elementos de um aparelho,
45 seguindo suas rotinas ou jogando contra ele, segundo suas regras, suas limitações e sua programação já historicamente estabelecida.
Estudar o objeto escola, nos dias atuais, nos obriga compreender que já deixamos de viver um momento no qual era exigida, de todas as pessoas, uma apropriação cultural por meio da leitura do texto escrito. Ao invés disso, segundo Flusser (2008, p. 62), “a situação cultural emergente elimina a aprendizagem e se contenta com a programação dos seus participantes”. Não se fazem necessárias altas habilidades literárias para a participação no mundo dos funcionários. A sociedade contemporânea, dominada por imagens e informada pela Internet, não encontra na leitura do texto escrito uma prerrogativa essencial. A leitura bem desenvolvida da escrita já não é mais uma condição sine qua non para inserção social. Habilidades de leitura mais aprofundadas se restringem, cada vez mais, a guetos. Desenvolvem maiores habilidades para a compreensão de textos escritos, entre outros grupos, os que se apaixonam pelo objeto medieval “livro” e os que se dedicam a atividades acadêmicas. As quais, por sua vez, não deixam de ser também algo um tanto quanto medievo, conforme apresentarei nesta argumentação. De acordo com Flusser (2002, p. 56), “no decorrer da História, o iletrado era um aleijado da cultura dominada por textos. Atualmente, o iletrado participa da cultura dominada por imagens. Lutar contra o analfabetismo vai-se revelando luta quixotesca”. Por outro lado, poderíamos nos questionar se não seria essa luta uma das possíveis formas de contestação de tudo o que se encontra programado para a humanidade. De fato, o que encontramos nos dias correntes é uma sociedade satisfeita por cumprir sua programação básica, aparentemente, sem maiores aspirações.
Essa condição me impulsiona à busca de alternativas para a formação de novas gerações. Inquieto-me, assim como Freire (1999), com a subserviência de muitos ao status quo, com a aceitação sem questionamentos do discurso dominante, com a forma passiva com a qual as pessoas se comportam nas escolas e que, com isso, impõem tal passividade a estudantes em formação. Entendo, de acordo com Flusser (2014, p. 319), que “as pessoas que se envolvem com as máquinas, os funcionários, na verdade não são seres humanos. É preciso tirá-los o mais rápido possível de sua função e torná-los humanos novamente”. Tal propósito encontra eco nos textos de Paulo Freire, uma vez que ele sempre buscou, por meio do diálogo, exatamente a humanização dos aprendizes, compreendida tal humanização como conscientização e consequente libertação. Nesse sentido, é fundamental que se possa ampliar o uso da palavra-princípio Eu-Tu em detrimento do uso já corriqueiro e excessivo do Eu-Isso.
46 Vivemos a sociedade da informação. Uma sociedade informatizada, conectada. O grupo de pessoas que parece deter o poder no mundo atual já não se preocupa tanto em possuir máquinas. Os meios de produção conhecidos de Marx já não são exatamente os elementos determinantes de poder no mundo contemporâneo. O valor das máquinas, como meios de produção, decaiu vertiginosamente nas últimas décadas.
O valor está na informação. O importante no conceito de informação é que ela não é nada material. A informação é transferível de matéria para matéria. Como todas as formas, ela é eterna, atemporal e não espacial. Se quisermos entender a sociedade informatizada, é preciso interiorizar isso perfeitamente. É preciso ter em nossas entranhas a diferença entre soft e hard. O valor do bolo está na receita (FLUSSER, 2014, p. 185).
Não é o produtor do trigo ou o dos ovos e nem mesmo o do leite quem determina o “valor do bolo” na atual sociedade. Muito menos o consumidor do bolo. Num mundo de fartura para os muitos funcionários que têm algum dinheiro e são programados para o consumo, a fome não é mais condição para a vontade de comer. O valor do bolo é definido pelo proprietário da receita, por quem faz o bolo e atribui a ele uma marca. É na informação do bolo que se encontra seu valor.
Opto por usar aqui a palavra informação a partir da sugestão de Flusser (2014), devido a seu duplo sentido. Quem coloca um bolo em uma forma, normalmente, conhece a receita para fazer o bolo e, portanto, define o bolo a partir de conhecimentos contidos na receita. Ao mesmo tempo, essa mesma pessoa, define o formato do bolo com o uso da forma escolhida para assá-lo. Dessa maneira, espero deixar clara a ideia de que a informação é um dos principais elementos a moldar pessoas na sociedade contemporânea. Não só no sentido de estabelecer formas de comportamento a partir da programação dos aparelhos e o constante uso de informações redundantes (repetição, reprodução), mas também no sentido do controle possível a quem detém a informação original e pode alterá-la ou cristalizá-la de acordo com seus interesses.
Compreender a sociedade atual, portanto, nos exige compreender o valor da informação, não apenas para a produção, mas também para o consumo. Talvez até, para esta pesquisa, a compreensão da importância da informação para o consumo nos seja ainda mais necessária. Afinal, atualmente somos todos formatados, informados e programados para a sociedade de consumo. E esta é, em geral, uma das principais amarras às quais costumamos nos apegar para justificar tudo o que cotidianamente nos colocamos a fazer. Ou seja, entendo
47 que boa parte das motivações que muitas pessoas costumam adotar em suas vidas, pessoais ou profissionais, sejam formadas a partir de necessidades de consumo. Necessidades essas às quais essas pessoas se submetem devido a programações recebidas de múltiplos e diversos aparelhos.
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