2. AVALIAÇÃO DE QUALIDADE DO REQUISITO RELEVÂNCIA
2.2. Características definidoras dos meios de accountability
Sem intenção de ser exaustivo ou de excluir outras possibilidades, McQuail (2012) apresenta um conjunto de características do modelo de pesquisa voltado para analisar a atuação da mídia. Ele lista cinco aspectos que vão desde a escolha dos critérios, que é anterior ao início do processo de avaliação, até a consideração de possibilidades alternativas de condução de uso.
Transitar por estas características é necessário para perceber se esta pesquisa, que se propõe a ser um exercício de accountability de mídia, está atenta aos aspectos que validam a
A MÍDIA LIVRE
tem
RESPONSABILIDADES
na forma de obrigações que podem ser
ATRIBUÍDA ou CONTRATADA ou VOLUNTÁRIA
para as quais ela é
ACCOUNTABLE
diante de indivíduos, organizações ou sociedade (legalmente, socialmente, moralmente)
quer no sentido de
RESPONSABILIDADE quer de RESPONSIVIDADE
64 avaliação, levando-a para um nível mais sério e complexo. Para tanto, além de expor os pontos destacados pelo autor, será apresentada a correspondência estabelecida ou pretendida.
O primeiro destaque das pesquisas em accountability para o qual ele chama a atenção é, como citado anteriormente, a necessidade de uma escolha justificada dos critérios a serem avaliados. "A prática da pesquisa de avaliação só pode prosseguir baseada em escolhas claras (mesmo que discutíveis) sobre se deve ser aplicada e como deve ser definida operacionalmente para determinado propósito" (MCQUAIL, 2012, p. 89).
Neste exercício de pesquisa, a relevância foi apresentada e definida como critério, ou requisito, fundamental para boas práticas jornalísticas. Procurando justificar, segundo as demandas do autor, não só sua validade, mas também sua compreensão e uso. Além da definição geral, a relevância precisou ser aproximada do jornalismo, a partir de uma definição que levou em consideração as especificidades do campo de conhecimento no qual se pretende avaliar.
Como esta não anseia ser uma avaliação de qualquer relevância, mas sim da relevância jornalística, o trabalho precisou deixar claro que relações foram estabelecidas para permitir um olhar que se desloca do geral para o particular. A partir da relevância jornalística, a operacionalização conceitual foi estabelecida, uma vez que além de definir a relevância no jornalismo é preciso apresentar, com a mesma clareza, os indicadores que buscam implementá-la, função atribuída aos valores-notícia.
A reivindicação por relevância ainda se justifica por ser essa uma preocupação clássica do jornalismo. Os produtores de informação prometem e o público espera que as informações disseminadas tenham sido escolhidas entre uma série de outros acontecimentos por serem elas as mais importantes e interessantes para o público.
A segunda necessidade exposta leva a pesquisa para fora de suas especificidades. Enquanto a primeira exigência precisa de definições e operacionalidades atentas à realidade imediata do objeto que se avalia, a segunda se coloca em diálogo com condições externas. "A adoção de um ponto de vista e de uma definição de problemas externos e independentes aos objetivos e interesses escolhidos pela mídia, porém levando em consideração suas intenções e condições necessárias de operação" (MCQUAIL, 2012, p. 30).
De fato, sem pressupostos anteriores ao jornalismo (na ordem social, filosófica e da produção do conhecimento), o trabalho não se sustenta. Não é possível defender uma mídia accountable sem uma defesa de fundo de um conjunto de valores democráticos ou sem a percepção de que existem normas que legitimam a atividade jornalística e que estas não são
65 apenas direcionamentos abstratos e utópicos, mas potencialidades alcançáveis mesmo diante das limitações da prática.
Além das questões expostas nesta seção, que justificam avaliação a partir da necessidade externas ao jornalismo e válidas para toda sociedade democrática, a própria noção de relevância e a sua possibilidade de avaliação se apresentam a partir de olhares externos. A segunda característica de MacQuail reforça o caráter dialógico dos exercícios de accountability, pois além do modus operandi da área, estes exercícios estão voltados para uma relação com a sociedade, de forma que as justificativas de análise também precisam ser pautadas em disposições externas.
O terceiro ponto destaca procedimentos científicos necessários.
A implantação de estratégias e métodos de pesquisa que são característicos das correntes predominantes das ciências sociais, principalmente: uma atitude neutra e exposição clara de valores; uma busca por aspectos de atuação gerais e comuns, em vez de exclusivos ou idiossincráticos; aplicação de métodos sistemáticos, geralmente quantitativos, para coleta e análise de dados. (MCQUAIL, 2012, p. 30)
Neste trabalho, além de firmar o compromisso de assim proceder no trato com os conteúdos e na realização da pesquisa, há o desejo de que tais obrigações também sejam entendidas como necessárias para o exercício do jornalismo. Em outras palavras, a exposição de valores, a busca de aspectos de atuação comuns e a sistematização são procedimentos que a ferramenta que será exposta a seguir tenciona estimular no processo de produção do jornalismo cotidiano.
O quarto ponto indica, por sua vez, que as pesquisas em accountability não devem ter como foco a estrutura ou os efeitos da mídia, mas a sua atuação em termos de conteúdo ou de produto, além da qualidade geral dos serviços fornecidos (MCQUAIL, 2012, p. 30). De fato, o foco desta pesquisa está no conteúdo e nos procedimentos das produções, observando os indicadores de relevância impressos em produtos jornalísticos e acessando, na medida do possível, as marcas do processo de produção em que foram criados.
Ainda que exista uma clara preocupação com a estrutura e com os efeitos da mídia, elas ocupam, neste trabalho, uma posição secundária. Este foco não faz com que o trabalho desconsidere as imposições que a estrutura da mídia faz aos procedimentos e conteúdos, nem que existem imposições dos conteúdos, produtos e procedimentos nos efeitos que a mídia gera. Na verdade, como foi destacado nas características anteriores, a avaliação de mídia precisa dialogar com as partes desenvolvidas, o que não altera a necessidade de ter um recorte claro sobre o qual a accountability se debruça.
66 Retomando ainda a definição de accountability como uma ação mista entre o pedido de resposta, a cobrança de prestação de contas e o enriquecimento dos fundamentos normativos a serem cobrados, é possível concordar que a sua fundamentação, coerentemente, se adequa melhor aos procedimentos, produtos e serviços, uma vez que é neles, e não na estrutura e nos efeitos, que devem estar sediados os compromissos e obrigações. Mais uma vez é interessante frisar que nem a perspectiva de accountability nem este trabalho compreendem que a busca por qualidade se limita à atuação em termos de conteúdos e produtos, apenas compreendem que há a necessidade de buscar uma coerência entre a ferramenta, suas bases e potencialidades de aplicação.
O último aspecto levantado pelo autor indica que as análises da atuação da mídia devem voltar-se para a necessidade de considerar "perspectivas alternativas de atuação, principalmente de fontes, produtores, clientes e audiência" (MCQUAIL, 2012, p. 30). A tentativa de avaliar a mídia, sob o risco de ser falha, não pode limitar-se às formas de atuação e avaliação já estabelecidas. É preciso alimentar certo exercício de desnaturalização e a partir do estranhamento gerado sobre as práticas corriqueiras melhor reconhecer particularidades, explorando-as através de novas dimensões.
Neste trabalho, a avaliação da relevância procura adotar perspectivas alternativas, tanto na sistematização dos conceitos de requisitos e indicadores (utilizados tradicionalmente de maneira tácita, não sistematizada), quanto na pretensão de construir uma escala numérica capaz de quantificar e ordenar, de alguma forma, as indicações qualitativas da avaliação tradicional de relevância. A construção de um sistema, por si só, já indica a intenção de explorar os conhecimentos e as abordagens através de um ponto de vista distinto do usual e incentivar o mesmo aos usuários.
Isto posto, para que esta pesquisa adquira um teor de accountability é necessário justificar e esclarecer os requisitos de avaliação; considerar questões externas, além da dinâmica própria da prática; adotar métodos sistemáticos de recorte, análise e interpretação; estar focado nos conteúdos, produtos e na qualidade geral do serviço e; considerar formas alternativas de atuação. De acordo com este conjunto de características, McQuail (2012) define a pesquisa em accountability de mídia.
A avaliação independente do fornecimento da mídia de massa de acordo com critérios alternativos de "interesse público", por meio de métodos de pesquisa objetivos e sistemáticos, levando em consideração outras evidências relevantes e as condições e exigências normais de operação da mídia em questão. (MCQUAIL, 2012, p. 30-31).
67 E continua:
O modelo de pesquisa que implementaria essa definição é, principalmente, projetado para atender às exigências normais do debate, da formulação e da avaliação de políticas públicas. Deve ter a maior probabilidade de comunicar evidências relevantes e confiáveis às principais partes desses debates − em geral, legisladores, políticos, governadores, "formadores de opinião", a mídia em si e o público em geral − e, portanto, a maior probabilidade de influenciar a política pública ou os objetivos auto selecionados e a condução da mídia. (MCQUAIL, 2012, p. 31).
McQuail deixa claro nestes trechos, em especial no primeiro, que por mais que as pesquisas em accountability de mídia sejam guiadas por questões mais sociais do que jornalísticas, elas não são insensíveis às exigências da prática. De forma que as pressões que atuam sobre a prática devem ser consideradas, mas não aceitas como justificativas para a não correspondência às normas que são inerentes à prática.
De fato, sem compreender a rotina em que o jornalismo é exercido, dificilmente seria possível produzir avaliações de mídia verdadeiramente úteis para ratificar ou repensar práticas jornalísticas. Ainda assim, nenhuma realidade, nem mesmo a percepção de uma rotina consolidada de produção, deve possibilitar o esvaziamento das possibilidades de questionamento e avaliação, principalmente diante de situações que envolvem o bem-estar e o desenvolvimento social.