4. QUALIJOR E MATRIZ DE RELEVÂNCIA: PESQUISA DE DESENVOLVIMENTO EXPERIMENTAL
4.2. Qualijor e Matriz de Relevância, experimento
Testar a efetividade da metodologia embarcada no Qualijor, e especificamente a Matriz de Relevância, é o segundo grande desafio metodológico desta dissertação. Através deste teste pretende-se questionar se a ferramenta descrita de fato constitui-se enquanto recurso capaz de estimular a avaliação sistemática da relevância jornalística, desejo motivador deste trabalho.
Para realizar este teste, o trabalho recorre à uma série de procedimentos metodológicos que caracterizam uma pesquisa experimental e que ajudam a concretizar os avanços obtidos nas demais fases desta pesquisa de desenvolvimento experimental, uma vez que procuram colocar todos ou alguns dos seus dispositivos à prova. A realização criteriosa de testes procura ratificar a validade dos esforços anteriores, além de que é um período decisivo para o possível reconhecimento de falhas ou de aspectos que precisam ser aperfeiçoados.
Ao introduzir alguns termos essenciais para a compreensão e a realização de uma pesquisa experimental, Kerlinger (1979) é muito feliz ao indicar que uma das maiores dificuldades em atingir um assunto novo é o desconhecimento do seu vocabulário. Assim, além de definir experimento é preciso compreender o sentido de alguns termos
108 necessariamente envolvidos na sua aplicação, entre os quais estão variáveis, amostras, unidades de observação, grupos de controle e experimental, dentre outros.
O conceito de variável precisa ser o primeiro na lista de esclarecimentos, uma vez que está mais ou menos envolvido na compreensão dos demais. Não é possível, por exemplo, explicar que a pesquisa experimental investiga determinada relação entre variáveis sem antes esclarecer o que estas variáveis são.
Partindo do senso comum é possível definir variável como um fator que varia, ou ainda um valor que sofre alteração, alcançando em momentos ou situações distintas valores diferentes. Indo além do senso comum, Kerlinger (1979) define variável como um construto ou um conceito com significado 'construído' por um pesquisador, podendo também ser visto como um nome ou um símbolo ao qual são atribuídos valores, que irão diferir indicando quantidades ou graus da variável descrita.
Há muitas formas de classificar variáveis. Quanto a abstração que requerem, por exemplo, elas podem ser classificadas como gerais, intermediárias ou empíricas/indicadoras. As gerais, mais abstratas, referem-se à realidade, mas o fazem de maneira tão ampla, que não possibilitam mensuração por elas mesmas. As intermediárias são mais concretas que as anteriores, mas ainda apresentam desafios à mensuração, ao passo que as empíricas ou indicadoras servem diretamente à mensuração e observação ocupando-se, muitas vezes, de parcelas das variáveis gerais e intermediárias (RUDIO, 1997).
No universo desta pesquisa poderíamos classificar a qualidade, a relevância e os valor- notícia como variáveis, uma vez que são construtos definidos pelo exercício da pesquisa de desenvolvimento experimental e que recebem valores que irão diferir indicando quantidades e graus. Ainda neste universo, estas variáveis divergiriam quanto à abstração que exigem sendo a qualidade uma variável ampla e geral, que deve guiar todos os esforços de produção; a relevância, uma variável intermediária, mais específica, ainda que não o bastante para ser mensurada sem uma variável empírica e; os valores-notícia, seriam, portanto, as variáveis empíricas/indicadoras, facilmente mensuráveis pelos jornalistas que podem assegurar sua presença ou ausência e ainda sua intensidade.
As variáveis também podem ser organizadas pelo campo a que pertencem, como as variáveis psicológicas, sociológicas, históricas, econômicas, entre outras. Dentro de um campo, podem ainda existir subdivisões, gerando o que Kerlinger (1979) chama de varáreis por disciplina de um campo. Dentro das variáveis psicológicas, por exemplo, existiriam
109 variáveis mais específicas e separadas por disciplinas como as variáveis de personalidade, as fisiológicas e as sócio-psicológicas.
Ainda que todas estas tipologias sejam úteis, nenhuma é tão imprescindível para a condução de uma pesquisa experimental quanto a classificação das variáveis quanto a relação de dependência que se estabelece entre elas. "Uma variável independente é uma variável que se supõe influenciar outra variável, chamada de variável dependente" (KERLINGER, 1979, p. 24). Rudio (1997). O autor acrescenta ainda que se atribui à variável independente um papel de preparador, contribuinte e causador da variável dependente, que assume o papel subordinado de efeito.
A relação de dependência entre as variáveis é necessária para compreender a pesquisa experimental, pois ela se define pela intenção de verificar a relação de causalidade estabelecida entre duas ou mais variáveis. Sabendo, portanto, que a variável é um construto capaz de variar, seja entre presença e ausência seja em intensidade, podemos compreender que um experimento procura testar como a capacidade da variação de um construto pode causar modificações em outro.
A pesquisa experimental está interessada em verificar a relação de causalidade que se estabelece entre variáveis, isto é, em saber se a variável X (independente) determina a variável Y (dependente). E, para isto, cria uma situação de controle rigoroso, procurando evitar que, nela, estejam presentes influências alheias à verificação que se deseja fazer. (RUDIO, 1997, p. 56-58)
Depois de procurar o isolamento da relação entre as variáveis, o pesquisador passa a interferir diretamente na realidade que foi isolada. A interferência consiste em uma manipulação da variável independente, a fim de observar o que acontece com a variável dependente. Assim, para que uma variável independente seja causa de uma variável dependente é necessário atender a três exigências. "Nestas circunstâncias, X (variável independente) será causa de Y (variável dependente) se: a) Y não apareceu antes de X; b) se Y varia quando há também variação em X; c) se outras influências não fizeram Y aparecer ou variar" (RUDIO, 1997, p. 58).
Diferente das situações de pesquisa de áreas exatas ou biológicas, o isolamento da relação entre as variáveis nem sempre é possível de ser obtido em pesquisas de tradição humanística ou social. Pesquisas destas orientações costumam ter mais facilidade para o delineamento de quase-experimentos, do que para experimentos propriamente ditos.
Há muitos contextos sociais naturais em que o pesquisador pode introduzir algo semelhante ao delineamento experimental em sua programação de procedimentos de coleta de dados (por exemplo, quando e quem medir), ainda que lhe falte o pleno
110 controle da aplicação dos estímulos experimentais (quando e quem expor e a capacidade de causalizar exposições) que torna possível um autêntico experimento. Coletivamente, tais situações podem ser encaradas como delineamentos quase- experimentais. (CAMPBELL; STANLEY, 1979, p. 61)
Para o delineamento desta pesquisa assumiu-se o desafio de realizar não um quase- experimento, mas um experimento dotado de todas as etapas necessárias para investigar, em uma determinada relação de causalidade, o efeito gerado pela manipulação da variável dependente. Antes de delinear o modelo de experimento a ser realizado, ainda é preciso esclarecer alguns termos indicados inicialmente.
Ao analisar a relação entre variáveis, todo experimento parte da seleção de unidades de observação que compõem uma amostra. Por definição, uma amostra é uma parcela convenientemente selecionada do universo (LAKATOS; MARCONI, 2003), ao passo que a unidade de observação, como o nome já esclarece, é cada uma das unidades que forma a amostra.
Em experimentos, o grupo amostral pode ser dividido entre um grupo de controle e um grupo experimental. O grupo experimental é aquele ao qual se aplica o fator experimental, isto é o elemento que foi acrescentado para fins de avaliar a variação entre fenômenos (RUDIO, 1979), já o grupo de controle caracteriza-se pela ausência do fator experimental, fazendo com que essa parcela da amostra tenha a função de elemento comparativo, demonstrando o que aconteceria com amostra sem a interferência deste fator de experimentação.
Para garantir a equivalência inicial entre o grupo de controle e o grupo experimental, algumas pesquisas são iniciadas pela realização de um pré-teste. Diferente do pós-teste, que visa investigar a possível mudança provocada pelo fator experimental, o pré-teste busca garantir condições iniciais de validação da pesquisa. Em outras pesquisas, o pré-teste é dispensado e substituído pela percepção de que a melhor forma de garantir a igualdade entre os grupos comparados é a aleatoriedade na designação dos sujeitos (CAMPBELL; STANLEY, 1979).
A organização destes elementos de pesquisa serve, como foi dito, para tentar responder ao problema de pesquisa que motiva um experimento, assim como para testar as hipóteses relacionadas a ele. Uma hipótese é um enunciado sobre a relação entre duas ou mais variáveis, constituídas por sentenças declarativas. "Em resumo, hipóteses são enunciados conjeturais de relações e são estas conjeturas que são testadas na pesquisa" (KERLINGER, 1979, p.39).
111 Para serem úteis cientificamente, as hipóteses precisam ser testáveis ou conter implicações para teste (KERLINGER, 1979). Partindo deste conjunto de conceitos e esclarecimentos, o trabalho passará a delinear o experimento que pretende realizar, juntamente com o esclarecimento do equivalente dos termos na pesquisa, ou seja, quem são as variáveis, as unidades de observação, a amostra e as hipóteses, entre outros.