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Características distintivas do formato de rede

3. TEORIA DE BASE

3.2 Características distintivas do formato de rede

A revisão bibliográfica sobre o conceito de redes indica a existência de um conjunto de sinais que caracterizam o formato de rede. Dentre estas características, pode-se destacar a interdependência, a complexidade de inovação, a consciência de ação coletiva, a presença de problemas comuns e objetivos coletivos e, finalmente, a governança e a cooperação.

De acordo com Rusbult e Arriaga (1997), a interdependência é o fenômeno em que cada ator tem os recursos que os outros necessitam e vice-versa, implicando a necessidade de trocas de complementariedade. Para exemplificar, no processo de atendimento na RAPS, quando um paciente dá entrada em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) por uso problemático de drogas e a equipe identifica que o paciente está com irritação na garganta por excesso de uso de crack (por exemplo), a equipe precisa acionar o atendimento especializado (otorrinolaringologista) através da UBS, e acionar a Atenção Hospitalar em caso de maior complicação do caso e outros serviços para realizar o atendimento de forma integral ao sujeito. Outra característica presente nas redes refere-se à complexidade de tarefas, no sentido da necessidade de especializações para a realização da tarefa, exigindo participações simultâneas e sequenciais de vários atores. Conforme Holland (1995), sistemas adaptativos complexos têm as características de imprevisibilidade, exigindo adaptação das tarefas.

A consciência da ação coletiva é outro sinal de que o grupo atua em rede. Segundo Whitaker (1997), uma organização em rede deve ter participação livre e consciente dos atores. Segundo o autor, caso não exista essa forma de participação, ou seja, se ela é imposta, a rede tende a não se consolidar e/ou se manter. Ainda para o autor, se a rede tiver a participação livre dos atores, e estes prontificam-se em relação à realização de seus objetivos, a capacidade de iniciativa e ação, a rede tende a se adensar e a se fortalecer.

A presença de problemas comuns e objetivos coletivos é, em muitos casos, o motivo para pessoas, ou empresas, unirem-se e atuarem no formato de redes. A busca pela solução dos

problemas, associada aos objetivos coletivos do grupo, fazem com que essa união se consolide. Popp et al. (2013) ressaltam alguns fatores que devem ser considerados para determinar o momento ideal para formação de uma rede. Dentre estes fatores, os autores destacam os objetivos coletivos. Outros autores, como Reyes Junior, Brandão e Espírito Santo (2011), também destacam a importância de os atores substituírem uma visão individualista por uma visão coletivista. Conforme esses autores, cria-se um circuito de realimentação da rede a partir dos resultados do trabalho coletivo, incrementando a participação e o comprometimento.

A governança é outra característica relacionada ao formato de redes. Grandori e Soda (1995) destacam que a governança é considerada necessária nos processos da rede, podendo ser classificada como formal e informal. Para os autores, a governança informal resulta das relações de confiança e comprometimento. Autores como Castro e Gonçalves (2014); Queiroz (2013); Oliveira e Santana (2012) tratam a governança como sendo um conjunto de regras, definições de responsabilidades e incentivos que visa orientar os processos decisórios na rede, gerando a interação entre os atores, promovendo a cooperação e reduzindo conflitos de interesse. Assim, a existência de uma governança clara, com regras transparentes e legitimadas (as pessoas aceitam e seguem), seja formal ou informal, é sinal de compromisso, controle e incentivo para ações coletivas. A ausência de regras, em geral, indica não existir um grupo organizado, isto é, mostra que há dificuldades no trabalho coletivo.

A cooperação também é uma característica das organizações que atuam em redes. Para Cullen, Johnson e Sakano (2000), a cooperação consiste em um esforço para cada ator agir além das obrigações contratuais, buscando o crescimento do grupo. Para Ariño (2003), a demonstração de cooperação por parte de alguns atores realimenta outros atores a agirem da mesma forma, criando-se uma teia de compromisso no grupo. Balestrin e Vargas (2004) afirmam que as organizações em redes mantêm interações e interdependência entre si, e destacam que uma das categorias que mais influenciam as relações de negócios é a cooperação. Segundo os autores, a cooperação possibilita uma maior troca de informação, de conhecimento e de aprendizagem entre os atores.

Havendo a presença dessas características no grupo (interdependência; complexidade de inovação; consciência de ação coletiva; presença de problemas comuns e objetivos coletivos; governança e cooperação), independentemente da natureza da tarefa; é possível afirmar que ele atua, ou funciona, no formato de rede. Caso essas características se apresentem com sinais fracos, ou ausentes, pode-se afirmar que o grupo de organizações funciona numa situação

clássica de mercado, de competição isolada, ou de hierarquia fortemente estabelecida, como é o caso de algumas redes de políticas públicas.

Essa matriz de características dos sinais de redes é resumida no Quadro 1 e será utilizada como guia para a análise da validade, isto é, de um prognóstico prévio da forma de atuação do grupo de organizações selecionado para a pesquisa. Pesquisas iniciais de fontes secundárias, basicamente constituídas por documentos do governo sobre políticas públicas em saúde, indicam tratar-se de um serviço que opera (ou deveria operar) no formato de rede (BRASIL, 2011), pois valorizam a interdependência, a complexidade das tarefas, a necessidade de cooperação e a existência de regras.

Quadro 1: Resumo dos conceitos das características do formato em rede.

Características do

formato em rede

Resumo do conceito

Interdependência Um ator depende do outro e vice-versa para execução de determinada atividade, ou porque este possui mais conhecimento, ou equipamentos que o outro não possui.

Complexidade de tarefas Atividades que requerem conhecimentos especializados, que ocorrem de forma sincrônica, ou sequencial, em situações e tempos exatos.

Consciência de ação coletiva

Desenvolvimento de atividades em prol do grupo, colocando os objetivos coletivos a frente dos individuais.

Presença de problemas

comuns e objetivos

coletivos

A existência de problemas que atingem a todos faz com que surja força de união e manutenção do grupo.

Presença de governança Conjunto de regras, definições de responsabilidades e incentivos que visa orientar os processos decisórios na rede, gerando a interação entre os atores, promovendo a cooperação e fazendo com que haja redução de conflitos de interesse.

Cooperação Esforço de cada ator para desenvolver suas atividades além das obrigações contratuais, buscando o crescimento do grupo.

Fonte: Elaborado pelo autor, 2018.

A literatura mostra que existem distintas abordagens teóricas para explicar a estrutura, a dinâmica de relacionamento, os processos e as regras das redes. Powell e Smith-Doerr (1994) apresentam duas abordagens principais para a compreensão de redes: (a) a abordagem social, que coloca as relações sociais como base de compreensão dos fenômenos das redes; (b) a abordagem racional, que explica as redes pelos motivos econômicos e estratégicos. O presente trabalho segue a abordagem social, em especial com relação a categorias sociais para compreensão da rede.