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Capítulo 6 Caracterizando o Acompanhamento Pedagógico

6.2 A Escola Nucleada

6.2.1 Características do Acompanhamento Pedagógico

As escolas que fazem parte do sistema de nucleação têm uma equipe responsável pelo desenvolvimento de suas atividades, sendo assim, os profissionais envolvidos não se limitam a atender apenas uma escola. No núcleo investigado a supervisora local e a gestora são responsáveis por seis escolas, e a supervisora regional que atende esse núcleo também atente outro núcleo composto por mais seis escolas.

O tratamento de questões pedagógicas é feito diretamente pela supervisora local, muito embora ela estabeleça uma relação de cumplicidade com a gestora para desenvolver as atividades de cunho pedagógico e administrativo. Ainda assim só participaram da pesquisa a supervisora local e a regional.

Durante as visitas para acompanhamento pedagógico a supervisora local costuma ler os planejamentos das professoras registrados em um caderno escolar comum. Esse planejamento costuma ser feito semanalmente e a supervisora avalia as atividades propondo, às vezes, algumas alterações.

A supervisora regional desenvolve seu trabalho em conjunto com a supervisora local. Em sua entrevista ela ressalta que, quando necessário, faz intervenções, muito embora isso só aconteça quando a supervisora local solicita. Geralmente ela acompanha o desenvolvimento das atividades da escola de maneira mais geral, preocupando-se, por exemplo, com culminâncias de projetos que a rede costuma realizar, a entrega de planejamentos semestrais ou, ainda, com a avaliação do rendimento escolar dos alunos.

[...] então nós acompanhamos o planejamento e nosso trabalho tem que ser mais diretamente com o supervisor, porque a gente observa mais a parte pedagógica e o rendimento dos alunos, e quando há necessidade nós fazendo aquela intervenção junto ao supervisor, né?

Supervisora regional Gabriela – Escola nucleada. Nesse fragmento, fica explícito que a supervisora regional é responsável pelo acompanhamento de uma forma mais abrangente. A profissional diretamente ligada às questões pedagógicas do cotidiano das escolas é a supervisora local, essa, apesar das dificuldades em acompanhar seis escolas, afirma que tenta conversar com as professoras sobre seus planejamentos e sempre sugere algumas atividades. Os momentos de orientações são, basicamente, realizados por conversas com as professoras, como mostra o trecho de sua entrevista:

[...] passa nas escolas, eu dô uma olhada no diário [referindo-se ao caderno de planejamento][...] ver como é que tá o planejamento, se precisar de alguma sugestão de atividade a gente dá. Tem alguma anotação que a gente não concorda eu vou... depois eu vou e converso com a professora “vamos fazer assim, é melhor assim”.

Supervisora local Edilza – Escola nucleada. As atividades da supervisora local são baseadas no caderno de planejamento das professoras, e o acompanhamento pedagógico é feito quando as docentes apresentam

dificuldades para desenvolver alguma atividade. Assim a supervisora Edilza costuma ajudar as professoras oferecendo tarefas que costuma pesquisar.

Aí geralmente, assim, é...é... a gente traz as coisas da secretaria, dá esse apoiozinho de...de... pedagógico, eu sempre gosto muito de pesquisar atividades que os alunos estão com mais dificuldade, e aí eu proponho uma atividade que vai desenvolver aquela habilidade nele mais rápido.

Supervisora local Edilza – Escola nucleada. Nesse contexto o papel do supervisor também é compreendido como um suporte para o professor, mais no sentido de preparar algum material para que seja aplicado com a turma, do que com o objetivo de promover a reflexão sobre as possibilidades das atividades. Para nós, esse fato impossibilita a prática reflexiva e construtiva do professor.

Os momentos de orientações são realizados através de conversas com as professoras, e como a escola investigada não tem um espaço para que a supervisora desenvolva suas atividades, ela fica dentro de uma das salas de aulas. Nas observações realizadas foi possível perceber que esse fato, por um lado contribui, porque a supervisora presencia a aula das professoras, mas por outro atrapalha, porque muitas vezes as professoras precisam parar sua aula para ter um momento com a supervisora e os alunos ficam dispersos.

Em uma de nossas observações foi possível presenciar uma orientação para o ensino de Matemática. A supervisora, primeiro, solicitou o caderno de planejamento da professora e passou algum tempo lendo-o. Após essa leitura ela chamou a professora para que as duas pudessem conversar um pouco sobre o planejamento. A supervisora fez comentários sobre o horário das aulas de Matemática, solicitando que a professora aumentasse a carga horária, passando a ter um dia a mais de aula para que ela pudesse trabalhar os conteúdos de forma mais lúdica nesse dia, trazendo algum jogo ou brincadeira que contemplasse os conceitos trabalhados durante a semana.

Como ficou explícito, essa orientação foi apenas para o tratamento da questão metodológica e organizacional da aula, em nenhum momento conceitos foram discutidos. Elas passaram aproximadamente 15 minutos conversando enquanto alguns alunos ficavam dispersos e outros realizam a atividade que estava no livro didático.

As professoras reconhecem que o momento de orientação é importante para suas práticas, e afirmam que, na maioria das vezes ele é realizado de forma individual. A especificidade das escolas nucleadas contribui para que o acompanhamento pedagógico ocorra dessa forma, pois todas as escolas do núcleo participante têm no máximo duas salas de aula, então as orientações podem acontecer de forma mais pessoal, o que parece ser mais

favorável para as professoras. Pimenta (1999), afirma que com encontros gerais não se consegue a participação efetiva do professor, e pessoalmente as orientações têm base na prática de cada um deles.

A professora Jane compreende o acompanhamento pedagógico como um momento de conversa entre ela e a supervisora. Ela destaca que dessa forma pode perceber melhor sua prática e, consequentemente, aprimorá-la.

[...] depois ela chama a gente em particular e diz: “olha você precisou fazer isso. Isso que você fez tá certo. Isso que você fez deve melhorar.” Assim, sabe? [...] Por que eu vou ver onde foi que eu errei, que é que eu tenho que melhorar.

Professora Jane – Escola nucleada. Nesse sentido, identificamos, pelo menos nas falas, que as discussões com a supervisora contribuem para o aperfeiçoamento da prática das professoras. Geralmente, há oportunidade de pensar sobre a prática, ou mesmo durante a prática, já que a supervisora fica presente na sala de aula e pode, a qualquer momento, compartilhar com a professora suas impressões e sugestões. Isso nos remete ao que Schön (1992) classifica como reflexão sobre a ação e na ação, como aquela que ocorre durante o instante em que tal atividade está sendo realizada.

A professora Poliana diz que gostaria que a supervisora pudesse passar mais tempo na escola. Para ela as orientações oferecidas são fundamentais para sua prática, mas nem sempre elas podem ocorrer da maneira como deveriam por causa da ausência da supervisora no cotidiano da escola.

[...] seria muito bom que a gente tivesse acompanhamento aqui... dia a dia.

Professora Poliana – Escola nucleada. Também são organizadas reuniões com todas as professoras do núcleo de escolas, mas esses momentos são mais difíceis de acontecer, por motivos de disponibilidade de horários e da própria distância entre as escolas. Sendo assim a supervisora considera ser mais prático atender a cada professora de maneira individual. De modo geral, é importante para a formação continuada a existência de encontros de socialização de experiências, mas na tentativa de promover qualificação profissional a partir da prática de cada professora se faz necessário momentos individualizados.

Então a gente tem... tem reunião com eles. E quando tá assim, precisando [...] então a gente sai de escola em escola, conversando, aí eu paro um pouquinho e fica passando pra eles, e tentando planejar.

Supervisora local Edilza – Escola nucleada. Percebemos que a característica principal do acompanhamento pedagógico enquanto instrumento de formação continuada para os professores se dá por meio da leitura dos planejamentos e das orientações que são oferecidas pela supervisora. Esses momentos proporcionam reflexões sobre a prática de forma a contribuir para a melhoria da atividade profissional das professoras.

Sintetizando as principais características encontradas no contexto das escolas nucleadas, percebemos a ênfase oferecida ao caderno de planejamento, assim como na escola independente, esse instrumento costuma ser a base para as orientações aos professores. Um elemento importante na rotina do acompanhamento pedagógico são as conversas estabelecidas de maneira informal, nas duas realidades de escolas investigadas ficou explícito que as sugestões são oferecidas principalmente nesses momentos, fazendo com que o acompanhamento aconteça com cada professor de forma individual. Entretanto, ainda é possível destacar os momentos nos quais todas as professoras na nucleação podem juntas trocar experiências, embora não tenhamos presenciado esse momento.