3.3 Estudo de caso de co-inovação em comunidade tradicional no estuário do rio
3.3.3 Análise do processo de co-inovação quanto a dinâmica de interessamento
3.3.3.1 Características do processo de problematização
Na luta do povo da maré do estuário do Rio Formoso pela resiliência de seus modos de vida e da pesquisa pela conservação dos ecossistemas, bem como pela viabilização técnico- econômica da ostreicultura, apesar das assimetrias entre os dois lados, percebe-se a existência de fatores de convergência no interessamento entre os atores internos e externos do sistema de conhecimento local; de forma que a manutenção dos recursos naturais, no caso específico dos estoques pesqueiros, passa a configurar o fator fundamental, elementar tanto para a manutenção do modo de vida dos pescadores artesanais, como para a conservação dos ecossistemas costeiros; portanto, esse é o fator comum de convergência que une os atores chaves no caso da ostreicultura em estrela do Mar. Assim, esse elemento - “a manutenção dos recursos naturais”- foi o elemento central na definição das propriedades e identidade dos atores envolvidos na pesquisa, sendo, portanto a partir do interessamento desses atores na pesquisa que se estabeleceu o envolvimento, e a mobilização de aliados com a definição de porta-vozes.
No primeiro contato com a comunidade, antes do momento de restituição da historia do projeto, foi apresentada uma visão geral dos atores envolvidos sobre o contexto concreto ao qual o projeto estava inserido. No ponto de vistas dos pescadores, percebe-se que estes têm o mesmo perfil dos pescadores de A-Ver-o-Mar e Rio Formoso, com uma maior inserção de seu modo de vida, sobretudo com relação às atividades produtivas e de lazer, voltadas ao manguezal e estuário, de forma que também apresentam uma visão ecológica de padrão de uso sustentável dos recursos pesqueiros.106
Esse “planejamento de captura” é um ponto convergente entre aqueles que realmente compartilham da identidade e modo de vida de “povo da maré”: capturar o necessário e projetar empiricamente as formas de garantir a sucessão dos estoques. Assim foi estabelecido o fator de convergência para a elaboração do projeto, bem como para a definição das identidades e escolha de porta-vozes; como já mencionado, “a manutenção dos recursos naturais” é a base de definição do interessamento e envolvimento no projeto.
No geral, pode-se dizer que o ambiente natural, o rio Ariquinda no complexo estuarino do rio Formoso, apresenta condições técnicas favoráveis para a produção de ostras, assim
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Como capturar apenas o necessário e preservar os espécimes fêmeas em processo de reprodução. “Cada aratu ovado que se tira da água pode representar milhares de aratus a menos no futuro. Toda vez que eu pego um ovado, eu solto o bichinho; mas nem todo mundo faz isso” (A.L, pescador de Estrela do Mar, 52 anos) Conforme apresentado no capitulo 2.
como o atual contexto da cadeia produtiva de ostras na região também é favorável para a produção, pois a oferta de ostras vem sofrendo um decréscimo gradativo na região em função da sobre-exploração e da pesca predatória realizada pelos incomuns, aliado a uma demanda sempre favorável à comercialização. A questão a ser respondida, portanto era: Seria a ostreicultura uma alternativa compatível com o modo de vida e viável como complemento de renda para pescadores artesanais? E seria também um meio de diminuir a pressão predatória exercida pela pesca sobre os estoques naturais?
A partir da reflexão sobre esse problema, o projeto foi então considerado como uma oportunidade de incrementar a produção local, e a renda dos envolvidos, sem comprometer ainda mais os estoques naturais, almejando que, ao menos na porção do rio Ariquinda, alcançaria–se uma redução de pressão dos estoques em função a produção aquícola.
Nesse caso a problematização apontada na proposta de inovação de nosso estudo de caso do projeto de tese, no complexo estuarino do rio Formoso é: será possível estabelecer na localidade de Estrela do Mar o processo produtivo de ostras, a exemplo do que é feito em Santa Catarina, sabendo-se que se trata de outra espécie cultivada, e que a tecnologia de produção da espécie nativa Crassostrea rhizophorae (Guilding, 1828) ainda não foi de fato consolidada?
Define-se, então, o Ponto de Passagem Obrigatória que, no caso das ostras, está focado na queda dos estoques naturais em função da sobrepesca. Assim, os principais argumentos do interessamento no projeto de inovação são: As ostras precisam manter seus estoques viáveis, os técnicos e pesquisadores desejam comprovar a eficácia das técnicas e do sistema de produção para a espécie nativa, bem como a consolidação dessa cadeia produtiva, e assim como os pescadores de St. Brieuc, os pescadores da Estrela do Mar esperam salvaguardar os seus interesses econômicos em longo prazo, mas também encontrar nova alternativa de trabalho e renda para além da pesca artesanal.
Quem fala em nome de quem? Quem representa a quem? Para que o projeto tenha êxito, essas perguntas fundamentais precisam ser respondidas, pois, assim como na descrição do interessamento,no envolvimento só participam uns poucos indivíduos especiais, sejam das vieiras, pescadores ou pesquisadores (no caso do projeto de St Brieuc). No caso de Estrela do Mar os atores são as ostras, os pescadores e os agentes de desenvolvimento (pesquisadores e extensionistas), órgãos financiadores e ambientais.
Avaliando o contexto encontrado no momento de restituição do projeto em fevereiro de 2012, sob a perspectiva do triângulo de interessamento descrito por Callon (1986), observou-se que no sistema local de conhecimento de povos tradicionais da pesca, como no
caso do complexo estuarino do Rio Formoso, por exemplo, os papéis dos atores locais dentro dos espaços internos e externos de interlocução vão sendo definidos no cotidiano, e assim, alguns atores locais vão assumindo o papel de porta-vozes no seio das comunidades e, tornando-se, portanto, figuras de referência e de conexão entre espaços, instituições e atores no território. Esses porta-vozes assumem um papel estratégico para o povo da maré, seguindo uma aproximação com o papel do pesquisador apresentado na abordagem da sociologia da tradução mencionada por Latour (1985) e Callon (1986), onde esses atores têm a importante função de traduzir fatos, ideias, sentimentos e anseios de pessoas107, que possam ter alguma limitação em se expressar ou interpretar o mundo e os atores ao seu redor.
Nesse caso poder-se-ia considerar os atores locais, pescadores, agricultores, artesãos, quilombolas, indígenas, etc., também como pesquisadores? No sistema de pesquisa tradicionalmente adotado no Brasil de P&D podemos identificar uma clara divisão hierárquica dos atores envolvidos nas pesquisas agropecuárias: o pesquisador (normalmente no topo do sistema), o extensionista, o pesquisado (objeto de pesquisa e observação) e o utilizador das invenções. Ao posicionarmos o sistema local de conhecimento no centro de um sistema de inovação, esses papéis tornam-se, de certa forma, integrados, de modo que os atores podem definir suas identidades no processo de inovação através do interessamento, por confrontamento com os demais atores, mediado por seus interesses; como apresentado por Callon (1986) no triângulo de interessamento. Assim, poderíamos dizer que em um processo de co-inovação pode-se definir papéis híbridos na pesquisa. A identidade dos pescadores experimentadores (Y) foi definida, assim, durante a problematização da pesquisa e resultou da sua associação com o extensionista inovador, que por sua vez, no triângulo de interessamento assume a identidade de pesquisador (X). Nessa relação X interessa e Y tanto quanto Y interessa a X, e é o fator comum de convergência - a manutenção dos recursos naturais - que impede que outros atores externos com interesses divergentes possam intervir para definir suas identidades de outra maneira. Os outro atores com papéis pré-estabelecidos como a Universidade, o ProRural, a CPRH, a Colônia de Pescadores, Prefeitura, APA Guadalupe, Prefeitura, Centro Pastoral da Pesca e o IBAMA/ICMBio; que tem uma visão própria sobre a identidade dos pescadores nesse processo, podem ser considerados os atores externos com interesses divergentes na definição da identidade dos pescadores durante a pesquisa; e que são importantes no funcionamento do mecanismo em que é definido o conjunto de papéis inter-
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E de coisas, considerando os não-humanos, inanimados, como atores a serem traduzidos e representados pelos porta-vozes (Callon, 1986)
relacionados em negociações multilaterais, que pode culminar no envolvimento dos atores, caracterizando assim, o sucesso do interessamento. No Quadro 5 procuramos apresentar as identidades pré-estabelecidas dos atores externos, e/ou parceiros, como também a visão que cada um desses atores têm dos pescadores envolvidos na pesquisa.
Quadro 5 – Atores envolvidos direta e indiretamente no projeto de co-inovação em ostreicultura
Ator externo envolvido (direta ou indiretamente) no processo de
co-inovação
Identidade pré- definida
Definição da identidade dos pescadores no projeto de
ostreicultura Universidade (C) Pesquisador/instrutor Pescador capacitado
ProRural (D) Financiador Beneficiário de projeto
CPRH (E) Fiscal e gestor ambiental
Pescador artesanal
Colônia Z-5 (F) Representante de classe Associado
Prefeitura (G) Gestor Eleitor
APA Guadalupe (H) Gestor ambiental Pescador artesanal
IBAMA (I) Fiscal ambiental Pescador artesanal
Centro Pastoral da Pesca (J) Orientador Pescador artesanal desviado
Ao longo da linha do tempo do projeto foram verificadas mudanças de contexto em função das controvérsias, além de eventos pontuais, que acarretaram a entrada e saída de atores pros e contra o projeto. Tomando-se por base o contexto atual, a saída de atores pros é bem mais representativa do que a entrada de novos atores. De forma geral, o grupo de pescadores envolvido no projeto estava disperso, sendo mantido interesse no projeto por meio do presidente da Associação de Estrela do Mar, que se posiciona também com um agente local de integração de uma rede de diálogo “sóciotécnica”.
3.3.3.2 Dinâmica de colaboração entre atores internos e externos na inovação e a questão as