3.3 Estudo de caso de co-inovação em comunidade tradicional no estuário do rio
3.3.2 Descrição geral das fases do processo de co-inovação estudado
3.3.2.2 Segundo momento: pesquisa com os pescadores
Com o intuito de sistematizar metodologicamente a proposta de inovação participativa do projeto de produção de ostras em Estrela do Mar dentro do referencial de um processo de co-inovação, foi sugerido para os atores envolvidos no mesmo a construção de um dispositivo metodológico inspirado (adaptado) na experiência do projeto Unaí por considerar, como mencionado por Claire Ruault (1996), que as experiências metodológicas com uso de dispositivos coletivos constituem indícios para a reflexão e não métodos prontos para replicação. Ou seja, o desenvolvimento de dispositivos deve ser conduzido de caso a caso, conectados a situações e a sistemas de atores específicos. Para Sabourin (2009) as experiências de produção de conhecimento, de inovação e de aprendizagem no Brasil têm contribuído para sistematizar e socializar resultados e referências em uma linguagem e em suportes pedagógicos adaptados aos agricultores e aos agentes rurais. Assim, [...] dispositivos de formação deste tipo, integrados ao meio de vida camponesa, por exemplo, constituem verdadeiros espaços de recuperação da autonomia, de raízes rurais locais e de dignidade; que corresponde a abordagem da pedagogia do oprimido, a libertação pela autonomia, focando em métodos de alfabetização dialéticos conforme Paulo Freire (1963, 1968). Assim como no caso dos fundos de pasto, dos reservatórios de águas e bancos de sementes relatados por Sabourin (2009), a exploração racional de áreas estuarinas e, mas especificamente, dos bancos de sementes de ostras nos manguezais brasileiros, com a definição coletiva de áreas protegidas
para a produção, e coleta planejada de sementes, também poderiam ser indexados a dispositivos coletivos de apoio a sistemas locais de produção, que são importantes, ou até imprescindíveis, para a função de produção e para a sobrevivência das populações locais.
Assim, adotou-se uma mudança na metodologia de intervenção, incorporando a proposta de interação com os Sistemas Locais de Conhecimentos, para a construção social da inovação, utilizando-se a configuração metodológica de explicitação de dispositivo, a ser descrito na sequência. O dispositivo foi construído levando-se em consideração um conhecimento prévio do contexto geral do local de estudo entre o período de setembro de 2011 a janeiro de 2012, e está representado na Figura 33.
Figura 33 – Proposta de dispositivo de co-inovação, inspirado do dispositivo metodológico utilizado no Projeto Unaí (XAVIER et al., 2004)
O dispositivo foi então apresentado pela coordenação do projeto aos atores envolvidos direta e indiretamente no projeto, sendo, portanto, discutido e aprovado em assembleia da
Associação dos Moradores de Estrela do Mar (executora do projeto) em fevereiro de 2013, na mesma ocasião em que foi feita a restituição do projeto. Um dos pontos positivos destacado nesta restituição foi o fato de a associação já possuir sede própria, o que segundo os mesmos, facilita a execução e encaminhamentos do projeto. A sede foi inaugurada no dia 26 de junho de 2013, e a Associação disponibilizou uma sala para a instalação da rádio Estrela do Mar 104.9 FM. Essa parceria tem rendido para associação uma capitalização mínima advinda de uma taxa de aluguel paga pela rádio, o que possibilita uma maior independência da associação para a realização de ações de inovação. Além disso, a rádio atua como um vetor de difusão das ações da associação para a comunidade e a integração entre elas (associação e comunidade). Lembrando o que declarou uma entrevistada da comunidade de A-Ver-o-Mar: ”A comunidade só reconhece o valor de sua associação quando se informa, ou é informada, dos benefícios que ele traz pra comunidade”. (M.J.A, marisqueira, 52 anos)
Agora a gente tem a rádio como parceira funcionando dentro da associação, e ai nós iremos divulgar melhor o trabalho na rádio, pra que as pessoas que tenham interesse nos procure pra se integrar ao grupo pra fortalecer nossa iniciativa com a produção de ostra. Vamos ter a reunião amanhã com a diretoria e criar as carteirinhas de sócio, pra gente começar a unir esse povo, e assim a gente começa a ter mais força. (A.L, , pescador de Estrela do Mar, 55 anos).
Conforme sistematização apresentada na figura 33, o dispositivo foi composto dos seguintes processos:
- Reconstituição da história do projeto – Resgate de informações elementares da percepção dos atores envolvidos sobre pontos-chave do processo já decorrido, bem como suas possíveis transformações; como caracterização produtiva, ambiental, social, socioprofissional, econômica, política/institucional (normas, direitos e deveres), e configuração organizacional. -Elaboração de um Diagnóstico Rápido Participativo – tendo a reconstituição histórica como ponto de partida para uma análise de contexto setorial sobre o projeto – Para tal, fez-se necessária à etapa precedente denominada de “restituição” – onde os dados coletados foram tratados e apresentados aos atores, como ponto de partida para a elaboração de um DRP setorial, visto que a restituição foi a base para a concepção das ações a serem implementadas em resposta ao cenário constituído pelas análises. A restituição constitui-se, portanto, como elemento-chave de integração e empoderamento dos produtores nas avaliações e tomadas de decisão em todo o processo.
- Após a primeira restituição parte-se para o planejamento participativo – Elaboração de um Plano de Ação Coletiva e de Corresponsabilidade – Seguindo a proposta desenvolvida no
projeto UNAI, foi sugerida a adoção do método de Planejamento Estratégico Participativo – PEP (TURNES, 1997 apud SABOURIN, 2009); que é dividido cronologicamente em sete etapas, que o caracterizam como estratégico e participativo:
a) Sensibilização sobre a utilidade do planejamento e da importância da participação.
b) O estabelecimento de uma missão que expressa a razão de ser da organização. c) Análise do ambiente externo, isto é, dos aspectos não controlados pela
organização que podem favorecer ou dificultar o alcance da missão.
d) Análise do ambiente interno, isto é, dos aspectos controlados pela organização que devem ser explorados ou eliminados para que a missão seja cumprida. e) Definição e priorização de questões estratégicas que são dificuldades ou
problemas que têm influência significativa na maneira como a organização funciona ou em sua habilidade de atingir o futuro desejado.
f) Formulação e priorização de propostas para resolver as questões estratégicas. Grupos de trabalho são formados para desenvolver ações específicas para as propostas priorizadas.
g) Finalmente, o processo de formulação do PEP se encerra com a criação de um mecanismo de acompanhamento, avaliação e revisão do “Plano Estratégico”. Assim, as ações estabelecidas no PEP foram a base para as ações de todos os atores envolvidos em uma possível rede socioprofissional, ou de diálogo.
- Estabelecimento de uma relação favorável com o mercado – a partir de estudos focalizados à comercialização, como suporte de uma análise financeira de controle de fluxo.
Na reunião de restituição, o grupo apresentou interesse em visitar outras comunidades que já produzem ostras, pois já tinham algumas conclusões de erros e acertos tiradas da primeira experiência e desejava discutir essas informações com outros grupos. Com isso surgiu a iniciativa de entrar em contato com a equipe do SEBRAE e da Secretaria de Pesca e Aquicultura do estado de Alagoas que acompanham um projeto de regularização e aperfeiçoamento da produção de ostras em comunidades pesqueiras no município da Barra de São Miguel. Assim os contatos foram feitos por intermédio do Extensionista local (Engenheiros de Pesca do IPA Tamandaré – Pedro Rocha), de forma que, em uma ação conjunta entre o IPA e a associação da Estrela do Mar, a visita foi agendada. Em função do relato sobre o trabalho do SEBRAE em Alagoas, o grupo passou a vislumbrar o SEBRAE como um possível parceiro para a continuação das atividades aliando o grupo com as
experiências do estado vizinho (Alagoas). Porém, a aproximação não foi realizada por falta de um agente de ativação (ou integração) de rede de diálogo local. Assim foi concluída a primeira restituição do projeto, e na sequencia foi decidido a realização do intercâmbio com a experiência do estado de Alagoas para, a partir de então, de posse de um conhecimento mais amplo, ter uma maior capacidade de reflexão para a tomada de decisão.
Dos doze participantes do projeto, apenas oito participaram do intercâmbio, os demais justificaram a ausência em virtude do falecimento de uma pessoa da comunidade. A visita se iniciou com a recepção do Engenheiro de Pesca da Secretaria de Pesca e Aquicultura de Alagoas, ainda na capital Maceió. Este guiou o grupo até a comunidade da Palatéia, em Barra de São Miguel, onde encontra-se a Associação Paraíso das Ostras (Box 1). Essa associação contava, na época da visita, com cerca de 35 associados, onde cada associado possuía um modulo formado por até quinze camas. Já na comunidade, o grupo foi recebido pelo presidente da associação e alguns associados, com os quais os pescadores de Estrela do Mar tiveram a oportunidade de dialogar e assim, conhecer um pouco da historia de cada um deles e do contexto, as dificuldades enfrentadas, as estratégias de inovação adotadas, a organização e as limitações encontradas pelo grupo. Assim, mais do que uma simples visita técnica, o intercâmbio entre as duas comunidades constituiu uma ação pedagógica para a construção do conhecimento e que foi orientado pelo coordenador do projeto para a elaboração do Planejamento estratégico Participativo – PEP.
A oportunidade do intercâmbio possibilitou um aprimoramento metodológico para o dispositivo, pois nesse processo de integração com a comunidade de Palatéia, e no dialogo entre as duas experiências, o grupo pode explorar com profundidade a ferramenta de Planejamento Estratégico Participativo (PEP). Apesar de não gerar um documento ou registro com o uso das ferramentas ilustrativas de um DRP, o planejamento estratégico foi sendo construído gradativamente durante as discussões com o grupo da Palatéia, que inclusive apresentava suas sugestões quando o grupo da Estrela do Mar esclarecia sobre os problemas vivenciados em seu contexto. Nesse processo dialógico, o fator mais importante observado foi a constatação de um processo de construção participativa, ou co-construção do conhecimento na sua forma mais fidedigna, através do dialogo em feedbacks sucessivos, as convicções eram desestabilizadas e reconstruídas sucessivamente até atingir o equilíbrio, ou o consenso “temporário”.
Box 1 – Um pouco do contexto da experiência de ostreicultura na Barra de São Miguel, Alagoas
O projeto de ostreicultura Paraíso das Ostras, na comunidade da Palatéia, em Barra de São Miguel-AL, se iniciou em 2002 com apoio do SEBRAE Alagoas, hoje a associação conta outros parceiros, possui 32 associados e cerca de 300 estruturas de cultivo (mesas). Dessa forma a associação produz aproximadamente 3,5 mil dúzias de ostras por mês, o que já configura a principal fonte de renda de seus associados. Segundo participante da experiência odutor de ostras da associação, as ostras menores, de oito a dez centímetros, são vendidas por R$ 5,00 a dúzia; já as maiores, com até 12 centímetros, são vendidas a R$ 1,00 a unidade ou R$ 12,00 a dúzia. Essas mesmas ostras são comercializadas vivas em bares e restaurantes por R$ 3,00 a unidade.
O turismo ecológico também passou a ser uma boa alternativa integrada à produção de ostras, onde turistas e visitantes podem conhecer o processo produtivo, degustar e comprar o produto fresco no local. Recentemente a associação foi beneficiada com o selo de qualidade e inspeção sanitária após a implantação de uma unidade de depuração de ostras no município de Cururipe, AL, o que tem possibilitado a ampliação do mercado e a venda de ostras vivas em hotéis, restaurantes e para os estados vizinhos.
O projeto de produção de ostras da Palatéia teve uma origem muito parecida com a que hoje vivencia a experiência de Estrela do Mar. De um grupo de dez participantes, apenas um deles continuou trabalhando de forma mais efetiva. Com o passar do tempo novos aprendizados foram sendo adquiridos pela experimentação e com a ajuda do SEBRAE, e com os resultados vieram novos adeptos, novos investimentos, novos parceiros. Também foi relatada uma problemática de furtos; que levou a que a associação - que esta mais capitalizada -, a pagar pelo serviço de vigilância, que é feito por um dos associados que também teu seu lote de ostras no local. Assim, cada associado paga R$ 7,00 por semana para pagar o serviço do vigilante que fica em uma cabana adaptada sobre uma balsa ancorada próximo ao polo de cultivo.
Nesse dialogo foi atingida a primeira etapa, ou meta, do PEP para o projeto de ostras da Estrela do Mar: a sensibilização sobre a utilidade do planejamento e da importância da participação. Que convergiu para a necessidade em fortalecer a associação a aproximar os associados do projeto para traçar estratégias de ação.
Precisamos reunir os associados, discutir o diferencial que existe entre a produção da ostra em cultivo e a ostra extraída, ficando também na estratégia do ecoturismo pra levar as pessoas para conhecer as estruturas e modo de produção, e ai, além da taxa do passeio a gente poderia vender a ostra fresca por um preço diferenciado. Mas pra isso, a gente precisa estar minimamente organizado, e tendo mais gente envolvida, a gente teria uma produção razoável para que os turistas pudessem visitar e comprar as ostras. (P.P.R., Extensionista do IPA, 34 anos ).
E nesse mesmo sentido nasce a missão do grupo, que é de apresentar um diferencial, tornar-se pioneiro na produção e comercialização de um produto diferenciado, com características físicas mais apresentáveis, advindo de um processo ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável, sem transgredir, substancialmente, modos de vida tradicionais dos povos da maré.Terceiro momento: de transição
Um novo contexto no âmbito do projeto esta sendo vivenciado atualmente , representado na linha do tempo do dispositivo de análise (, figura 32). O grupo final formado por apenas quatro pescadores e um extensionistas/pesquisador, soma-se a entrada de novos atores que se apresentaram recentemente como a própria FAO e o MPA, além da possível entrada da PRIMAR Sustainable Aquaculture que pretende iniciar a produção e comercialização de sementes de ostras C. brasiliana para todo o Nordeste ainda este ano.
O grupo, agora ainda mais reduzido – apenas quatro pessoas – passou a trabalhar de forma mais proativa, ou seja, não há possibilidade de formar “grupos de trabalho” onde só existem apenas quatro integrantes. No entanto, estratégias foram traçadas e executadas; dentre elas a confecção a implantação de coletores confeccionados com conchas de ostras da própria localidade, e a construção a instalação de novas camas em local mais próximo a residência de líder do grupo e posteriormente a instalação de duas colmeias, suspensas em uma cama feita especialmente para as caixas de abelhas. O acompanhamento e revisão e avaliação do projeto continua sendo feito pelos próprios pescadores envolvidos e o extensionista o IPA.
Apesar dos problemas enfrentados, o grupo continua trabalhando no projeto que devera ser fortalecido para o terceiro ciclo de cultivo ainda em 2014, favorecido por um convênio de Assistência Técnica e Extensão Pesqueira e Aquícola (ATEPA) assinado entre o IPA e o MPA para a prestação de assistência técnica especializada e a proposta da construção da rede sóciotécnica do território Mata Sul dentro da proposta do Pro-Rural de construção do GTP da Pesca Artesanal Mata Sul.