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2. OS DIREITOS DA PERSONALIDADE

2.2 OS DIREITOS DA PERSONALIDADE NO DIREITO BRASILEIRO

2.2.3 Características dos Direitos da Personalidade

A compreensão do estudo dos direitos da personalidade passa pelo entendimento de sua própria essência, de como este tema é apresentado e tratado pela ciência jurídica, de modo a permitir uma melhor dimensão nas suas repercussões e limites nas relações que evolvam os direitos ditos existenciais.

Doravante, de acordo com esta proteção conferida ao ser humano, Carlos Alberto Bitar (2006, p. 11), a partir da posição do Código Civil de 2002, sintetiza as características dos direitos da personalidade como “direitos inatos (originários), absolutos, extrapatrimoniais, intransmissíveis, imprescritíveis, impenhoráveis, vitalícios, necessários e oponíveis erga omnes, como tem assentado a melhor doutrina, como leciona, aliás, o art. 11 do novo Código”.

Neste sentido, aquém das características apresentadas pela doutrina, tanto de Carlos Alberto Bittar, acima transcrita, como de outros doutrinadores20, o Código Civil de 2002,

em seu art. 11, fez menção expressa apenas a intransmissibilidade e a irrenunciabilidade, nos seguintes termos: “Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária”.

Considerando, dentre as características que envolvem a presente discussão, vale dizer que, de acordo com Orlando Gomes, amparado na doutrina de MESSINEO: “dizem- se inalienáveis no sentido de que o titular não pode transmiti-los a outrem, privando-se de seu gôzo, por isso que nascem e extinguem ope legis com a pessoa” (GOMES, 1966, p. 42). Neste sentido, Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (2012, p. 194) defen- dem que a extrapatrimonialidade deve ser entendida como a “ausência de conteúdo patrimonial direto, aferível economicamente, ainda que sua lesão gere efeitos econômicos” e por indisponibilidade21 que significa que o direito não pode sofrer modificabilidade de titular, nem mesmo pela vontade do próprio individuo (GAGLIANO; PAMPLONA FI- LHO, 2012a). Destarte, entende-se que não há como o direito ser dissociado do seu titular e, por isso, mesmo também não se considera que possam ser passíveis de negociação.

20 Consoante informação apresentada, gize-se dizer que para Pontes de Miranda (2012) são absolutos,

intransmissíveis, irrenunciáveis, imprescritíveis, inatos e, Orlando Gomes (1966) ressalta que este direitos são absolutos, extrapatrimoniais, intransmissíveis, impenhoráveis, vitalícios e necessários.

21 Os mencionados autores justificam a utilização desta denominação: “Preferimos utilizar a expressão

genérica “indisponibilidade” dos direitos da personalidade, pelo fato de que ela abarca tanto a

intransmissibilidade (impossibilidade de modificação subjetiva, gratuita ou onerosa – inalienabilidade)

quanto a irrenunciabilidade (impossibilidade de reconhecimento jurídico da manifestação volitiva de abandono do direito)” (GAGLIANO, PAMPLONA FILHO, 2012, p. 194)

Nessa mesma linha de exclusão da patrimonialidade deste direito, ainda podem ser considerados como imprescritíveis, uma vez que não existe um prazo para o exercício do direito (VELLOSO, 2003), impenhoráveis, o que vale dizer que não serão alvo de constrição judicial e irrenunciáveis, que consiste na impossibilidade de o titular renunciar ao referido direito, Pontes de Miranda (2012, p. 61) destaca que o fundamento desta consiste no mesmo da intransmissibilidade, qual seja: “ter ligação íntima com a personalidade e ser eficácia irradiada por essa”.

Por outro lado, entre as características apresentadas pela doutrina, tem-se ainda como inatos (originários), uma vez que nascem com a pessoa, reforçando-se a ideia de que são inseparáveis da pessoa humana, desde o nascimento22 até a morte (BELTRÃO, 2014).

Pelo fato de o titular não perder estes direitos enquanto viver, extrai-se a característica de vitalício deles (GOMES, 1966). Excecionalmente, porém, admite-se que os direitos da personalidade sejam exercidos após a morte e por outra pessoa, no que Paulo Lôbo (2012) denomina de transeficácia, como na hipótese apresentada por ele de que alguém morto, que sofra lesão em sua honra ou imagem após a morte, possa ser defendido por seus familiares, conseguindo, assim, proteção post mortem.

Por necessários, depreende-se do fato de que não podem faltar, isto é, são indispen- sáveis, (GOMES, 1966), ou, no dizer de Pontes de Miranda (2012) são “necessários à rea- lização da personalidade, à sua inserção nas relações jurídicas” e absolutos, pelo fato de que são oponíveis erga omnes, sem a necessidade de uma relação jurídica direta para haver o respeito, visto que existe, indiretamente, uma obrigação negativa a toda a coletividade de respeito a estes direitos (BELTRÃO, 2014).

Sendo assim, uma vez analisadas as características dos direitos da personalidade e com ela a extensão protetiva destes na seara civil, passa-se ao estudo dos valores protegi- dos pela tutela deles, que consiste nas manifestações práticas destes bens jurídicos, o que é

22 Embora seja bastante disseminada a lição de que estes direitos sejam inatos e, com isso, dependentes do

nascimento, esta doutrina não é isenta de críticas, considerando que o nascituro é titular de direitos da personalidade, mesmo antes de ter nascido com vida. De fato, trazendo um contraponto a este pensamento advindo da teoria natalista, aceita pelo art. 4º do Código Civil de 1916, à luz da teoria concepcionista, en- contra-se o posicionamento de Silmara Juny de Abreu Chinellato e Almeida (2003/2004, p. 93), nos se- guintes termos: “[...] sustentamos em nossa tese de Doutorado e em trabalhos posteriores, que a persona- lidade – que não se confunde com capacidade – não é condicional. Apenas certos efeitos de certos direi- tos, isto é, os direitos patrimoniais materiais como a herança e a doação, dependem do nascimento com vida. A plenitude da eficácia desses direitos fica resolutiva mente condicionada ao nascimento sem vida. O nascimento com vida, enunciado positivo de condição suspensiva, deve ser entendido, ao reverso, co- mo enunciado negativo de uma condição resolutiva, isto é, o nascimento sem vida, porque a segunda par- te do artigo 4º. do Código Civil, bem como outros de seus dispositivos, reconhecem direitos (não, expec- tativas de direitos) e estados ao nascituro, não do nascimento com vida, mas desde a concepção.”

também conhecido pela doutrina especializada como o estudo das espécies de direitos da personalidade.